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A bebida dos Deuses, segundo Victor Sênior

 
(Victor está morto e ainda estou impressionado pela forma miserável como aconteceu. Não gosto de pensar nisso. Não gosto da dor. Ainda prefiro lembrar dos bons momentos, do orgulho que sentíamos em ser seu amigo, das boas cenas, das bebedeiras. Das discussões filosóficas em mesas de bar. Como na ocasião da 'bebida' dos deuses, da noitada, dos olhares, dos aplausos
 
Victor era um português que, depois de viajar pelo mundo inteiro, acabara se radicando no Brasil. Sua diversão era fazer amizade com estudantes universitários, aos quais pagava bebida, saídas, algumas vezes jantares em restaurantes no centro velho da cidade. Era uma forma cara de manter esse círculo de "amizades". Nunca soubemos qual era exatamente sua fonte de renda e não nos importávamos. Culto, irônico, divertia-se em espicaçar a nossa paciência com seu conhecimento. Quase não havia mulheres nesse grupo, o que dava margem a óbvias interpretações. Quanto a mim, só posso dizer que nunca fui cantado por ele. A sua vida sexual, se é que havia, era mantida em rigorosa discrição. Mestre em manter uma pose clássica de gentleman enquanto, em voz baixa, dizia as maiores barbaridades, com uma linguagem estudadamente vulgar. Os cultores do politicamente correto (eles já agiam, mesmo que a expressão não existisse na época) nos odiavam. Aos poucos, a turma em volta dele se condensou, restaram apenas cinco ou seis, tornando-nos uma verdadeira panelinha assumida. E desprezada. Éramos considerados pedantes e arrogantes. Besteira. Na verdade, realmente éramos, mas não impedíamos as pessoas de se aproximar. Acontece que nosso pique era punk e não eram muitos os que conseguiam nos acompanhar. 
 
Uma noite, estávamos no Barbacuê na Faria Lima, um point pequeno burguês cujo mezanino fica ao ar livre, formando como que uma calçada aérea. Gostávamos de sentar ali. Éramos vistos e víamos todos.
 
- Claudinei, você deveria definitivamente deixar de ser abstêmio.
 
Ri.
 
- Victor, dizer que você está bêbado é uma redundância, mas agora está delirando.
 
- O delírio em Víctor é sua condição natural, Claudinei - lembrou Augusto, um grande companheiro de "estudos"; naquela noite tranquila só estávamos os três - Deixe-o à vontade, portanto, e deliremos junto.
 
Ah, as frases empoladas e de efeito. Como éramos ridículos. 
 
- Eu volto ao assunto, sim. Acham, por acaso, só pelo fato de se esborracharem de vez em quando, deixam de ser abstêmios? Vocês não entendem nada! Saibam que, se conseguirem passar deste ato simplório de entornar um copo e virar outra garrafa, terão a verdadeira chave da compreensão da Humanidade. Através da bebida, podemos avaliar a força e o dinamismo de um povo, verificar sua história e se seus projetos são válidos ou não. A bebida é portanto um sinal, um brasão, um baluarte, muito mais do que esse pedaço de pano que chamam de Bandeira!
 
- "Baluarte"?! Estou começando a concordar contigo, Claudinei.
 
- Pode-se avaliar, inclusive, a inteligência alheia, ó néscio. Diz-me o que bebes e eu te direi quem sois. Diga-nos, Augusto, doce lírio do vale, qual a bebida que te faz mais alegre?
 
- Pois confesso a minha humildade ao encanto de qualquer uma. Na verdade, creio que, fora água, não possuo o menor preconceito. Basta estar o mais próximo possível.
 
- Me disseram por aí - sou eu falando - que água tem uma certa importância para a nossa sobrevivência.
 
- Também ouvi falar disso. Uma vez até tentei tomar água. Sério! - Augusto suspirou profundamente - Meu Deus, quase morri. Ainda bem que tive presença de espírito suficiente para me cuidar.
 
- Tratamento urgente? - perguntei
 
- Imediato. Já tinha deixado preparado um copo de conhaque justamente para o caso de passar mal.
 
- Silêncio, sua besta! Deixem-me falar ...
 
- Até a pouco, eu era um lírio.
 
- Ora - rebati - um lírio besta.
 
- Silêncio, já disse. E você, Claudinei? Pelo que sei, até adivinho qual é a sua preferida.
 
Ergui o copo em resposta.
- Puff! Whisky! - prosseguiu Victor - quase tão plebéia e rude quanto à vodca. Helás! Eis uma das melhores provas do que digo. A tal povo, tal temperamento, tal bebida. Vocês conseguem? imaginar uma Rússia com suas estepes, suas ravinas cobertas de neve e seus cossacos em cavalgadas, sem esta marca etílica? Taras Bulba sem vodca? Terão que concordar comigo que, por melhor que seja fabricada, ela é, por natureza, uma bebida brava, sem requinte, feita muito mais para dar um chute no estômago do que agradar ao paladar. Tal e qual o povo russo, a sua cara!
 
- Cuidado, Claudinei, para não ver aflorar de repente um sentimento marxista no nosso querido Victor. Saudades do império soviético, talvez?
 
- Tolo! De qualquer forma, uma coisa tenho que admitir: foram os russos a prestarem a maior homenagem à bebida que eu conheço de toda a história.
 
- Eu não dizia? 
 
- Deixem-me falar, por Deus. - Victor falava assim mesmo "deixem-me falar" - Aposto que vocês não sabem o que fizeram os russos logo após tomarem o poder os bolcheviques.
 
- ...
 
Não sei se realmente estávamos interessados em saber.
 
- Beberam, meus caros, oh, se afundaram na bebedeira. Imaginem um povo inteiro derrubando o czar, o seu "papá", esta figura quase mitológica e, junto dele, todas as inibições, restrições, regulamentos. Levem em consideração de que, para eles, aquele era o primeiro dia de absoluta liberdade, sem polícia para reprimir, não havia governo para mandar, o exercito se esfacelara e a Igreja já não metia medo. Por três dias em seguida, beberam e esta foi sua única filosofia, o único sentido da vida. Esqueceram o trabalho do campo, dos sofrimentos da guerra, dos soldados que morreram ... Só beberam, até se esborracharem, até a bexiga explodir. Nestes três dias, se algum país houvesse atacado ... não teria havido governo soviético, stálin, essas merdas todas - Victor fez uma pausa e continuou a falar mais lentamente - Podem ver a cena? Soldados e camponeses caídos pelas ruas, numa entrega total. Logo depois, é claro, a ressaca foi monumental.
 
- Proponho um brinde - eu disse.
 
Victor olhou para o copo levantado - Humpf! Whisky. Bebida forte, sem dúvida, esquenta o corpo, mas não tem vida, é, é ... sem alma. Só poderia vir mesmo de um povo sem graça como o inglês.
 
- Foi a Inglaterra que inventou o uísque? - perguntei.
 
- Pelo que sei, a bebida deles é o chá - ajuntou Augusto.
 
- ... que, na verdade, foi trazido da China - completei.
 
Victor não nos ouvia mais - Porém, o que me dizem disto, hein? deste vermelho - levantou o próprio copo contra a luz - Este representa a França, sua civilização, suas luzes - tomou um gole - A cada vez, sorvemos um pouco mais de cultura e esquecemos de nossa barbárie, de nossa própria condição de bestas animais, que afinal humanos somos. Todavia, através dele passamos por cima disso e entramos em contato direto com o Divino, com o Mestre, seja lá por qual nome for chamado. No final das contas, esta bebida foi inventada por Baco, por um Deus para um povo que sabia realmente como viver, sua religião era a VIDA!, e plantavam VIDA! Não era necessário ir a templos para se oferecer aos seus deuses. Melhor, suas cerimônias eram simples pretextos, subterfúgios, desculpa para o que viria depois. Que Sócrates! Não foram as peças de teatro nem a filosofia nem aquelas estátuas peladas... Humpf... Foi a compreensão de que neste vermelho eles deixavam de ser humanos e se transformavam em deuses.

'Os romanos compreenderam isso. Queriam se fazer de inteligentes, inventaram leis, conquistaram povos, mas no fundo, foram subjugados por este vermelho. Orgias e vinho, era isso o que eles sabiam fazer depois de mil anos. Não foi por acaso, portanto, que a Igreja também adotou este suco para sua liturgia. Ela transformou este sangue do povo, do populacho, em sangue divino. Com o aval do Todo-Poderoso! Que me dizem?
 
Neste momento, Victor estava de pé, o braço estendido em um brinde oferecido a todo o restaurante sob o olhar divertido dos demais. Recebeu uma salva de palmas e agradeceu com uma pequena vênia que, devido ao seu estado alcoólico, quase o desequilibrou. Conseguiu se sentar sem incidentes.
 
Fiquei mordido de curiosidade, mas não ousei perguntar o que ele achava da cachaça.
 

 

 

in CONTOS

A sensacional ilustração original, feita exclusivamente para este conto, é de HIJAK  SKANK

 

 

 

 

 

Ilusões em três momentos

 

Bastante imaginação, um tanto de trabalho, uma sala, um pincel (ou caneta esferográfica!) e surge uma ilusão tridimensional bem na sua frente. No primeiro caso, um carro (o DeLorean, do 'De Volta para o Futuro', extremamente apropriado para a ocasião) salta aos olhos, se materializa e 'flutua' no ar. No segundo caso, um simples X, atravessa e divide uma sala. 'Sabemos' que é uma ilusão, embora não se consiga entender como foi realizada. Por isso, o segundo momento é bem interessante e até engraçado: é quando os autores mostram e revelam como o truque foi construido.

Agora, o terceiro momento é para mim o mais espetacular. É quando a câmera recua, depois de entendermos o esquema, e voltamos a ver a mesma imagem inicial. Pois aqui eu pensei que haveria um anticlimax, uma quebra de expectativa. Pois se já se sabe o 'truque', nada mais restaria a esperar; a explicação já teria sido dada. O conhecimento embotaria a magia.  

No entanto, não é o que acontece. A câmera (e o nosso olho) demora uns segundos para se reajustar, mas a imagem final nos deixa ainda mais impressionado do que no começo. A sensação se torna mais poderosa, pois por mais que 'saibamos' a ilusão domina. Na verdade, é justamente por isso, porque sabemos, que acabamos subjugados.

 

 

 

 

in Artigos

 

 

 

Poetas, Elas, Poetas

 
 
 
CUIDADO
Luana Vignon
 

Foi o que eu disse:
Cuidado,
eu sempre aposto em perdedores.
Logo eu,
que nunca imaginei a convivência pacífica
entre mim e uma garrafa de tequila.
Ficamos assim,
cara a cara
sem uma acabar com a outra
faz dias.
E têm essas escolhas absurdas,
o destino é um albino meio maluco
vestido de cowboy
gritando 22
dois patinhos na lagoa.
Bingo. Eu digo.
E saio sacudindo os cabelos,
inventando um novo jeito de andar dentro de casa.
 
 
 
*
 
 
O PEQUENO HITLER
Kátia Borges
 
 
A verdade é uma só:
todo mundo traz o menino de Branau
confinado dentro de si
em um bunker imaginário.
E todo sonho que temos,
seja entrar para a academia de artes,
ou possuir a espada de Longino,
é o marido de Eva Braun,
o arquiteto do caos,
que queima em nosso peito.
Pois também ele sonhou
na abadia de Lambach,
servir a Deus e ser bom.
E todo sonho que temos,
seja planejar uma cidade
ou comandar um exército,
é o dono do cão Blondi,
o filho de Klara e Alois,
que ruge dentro de nós.
Pois ele também sonhou
certa tarde no Museu de Hofburg
ter a lâmina da vida nas mãos.
E todo sonho que temos,
seja eternizar-se na memória
ou liderar uma nação,
é o plagiador de Blavatsky,
o falsificador de Nietzsche,
o criador de Treblinka
e de Auschwitz-Birkenau,
que grita dentro de nós.
 
 
 
*
 
 
O LOBO
Elaine Pauvolid
 
 
Quando o lobo se escondeu
por trás da fornalha,
cinzento se mostrava em neve fria.
O pêlo contornava os olhos fitos,
e em mim jorrava
uma culpa incontrolável.
 
À antecipação de ser devorada,
rápido, sem ser vista,
ansiei por estar noutra vida.
E o lobo olha-me
reto, nenhum pêlo move,
até que já não deixa de mostrar-me os
       dentes.
Caído sobre agora,
as presas estraçalham-me o rosto,
meus membros são seu osso.
E, num último hálito, inspiro
o ar quente e tranquilizante do seu
       focinho.
 
 
*
 
 
Ana Peluso
 
 
porque não há parecer que justifique a sentença da vida
 
porque as nuvens não falam, nem com pássaros, nem aviões
 
 
porque não há caminho que sobreviva aos pontos cardinais
 
nem meridianos que suportem a rigidez estúpida das horas
 
porque não há uma lágrima capaz de subverter a dor
 
 
 
porque não há nada que vislumbre o amanhã
 
antes do ontem
 
      a vida se estende
 
       vadia
 
       entre estados de graça
 
       e de des
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

 

Maria da Penha

 
 
"Maria da Penha, a mulher que sobreviveu à tentativa de assassinato pelo marido e virou nome de lei
 
Maria da Penha Maia Fernandes é uma sobrevivente. Seu marido tentou matá-la duas vezes. A primeira, com um tiro nas costas que a deixou paraplégica. A segunda, ele trocutada no chuveiro. Ela foi à forra – além de prender o criminoso, batizou a lei que protege a mulher vítima da vio lência doméstica
 
REVISTA TPM:   "Maria da Penha tem sono pesado. Capota e só acorda no dia seguinte. Na madrugada de 29 de maio de 1983, porém, teve seu repouso interrompido pelo pior pesadelo da vida. “Acordei de repente com um forte estampido dentro do quarto. Abri os olhos. Não vi ninguém. Tentei me mexer. Não consegui. Imediatamente fechei os olhos e um só pensamento me ocorreu: ‘Meu Deus, o Marco me matou com um tiro’. Um gosto estranho de metal se fez sentir forte na minha boca, enquanto um borbulhamento nas costas me deixou perplexa.” Entre desmaios e devaneios, a mulher, então com 38 anos, tinha momentos de consciência. Por mais que estivesse acostumada com os gritos, as explosões de fúria e os empurrões do marido, Penha custava a acreditar que fora alvejada por um tiro de espingarda disparado pelo homem que escolheu para ser pai de suas três filhas (na época com 6, 5 e 1 ano e 8 meses). Não concebia tamanha covardia. “Quando os vizinhos chegaram ao meu quarto, demoraram a perceber o ferimento, pois eu estava de costas, com o sangue escorrendo no colchão.” Para acobertar sua intenção diabólica de assassinar a própria mulher em pleno sono, Marco se fantasiou de vítima de um suposto assalto: rasgou o pijama, pôs uma corda no pescoço e disse para a polícia que havia sido atacado por uns bandidos. O teatro não funcionou. Mas a verdade demorou, demorou quase 20 anos a aparecer e levar o economista e professor universitário colombiano Marco Antonio Heredia Viveros para onde devia estar há tanto tempo: atrás das grades.

Os quatro meses seguintes após a tentativa de homicídio foram de cirurgias em hospitais de Fortaleza, onde Penha nasceu, e de Brasília. Maria da Penha Maia Fernandes, farmacêutica bioquímica formada pela Universidade Federal do Ceará e mestre em parasitologia pela USP, resistiu firme, mas sua vida não seria mais a mesma. “Após vários exames, chegou a hora da avaliação que diria se eu ia voltar a andar ou não. Como profissional da saúde, antevia o fatídico diagnóstico. Como paciente, ousava sonhar, pedir aos meus santos... Enfim, declararam: nunca mais andaria.” De volta para casa, na cadeira de rodas, Penha ainda teve que fazer força para escapar de outra atrocidade do marido: ele tentou eletrocutá-la embaixo do chuveiro. Marco, então, foi embora para ficar com uma amante no Rio Grande do Norte.

Ela mudou a história 

E Penha transformou sua existência na luta pelos direitos das mulheres que sofrem com a violência doméstica. Em 2001, conseguiu que a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) condenasse o Brasil por negligência e omissão pela demora na punição do marido. Daí a semente para que, em 2006, o presidente Lula sancionasse a lei 11.340, a lei Maria da Penha, que cria mecanismos para coibir a violência familiar contra a mulher e prevê que os agressores sejam presos em flagrante ou tenham prisão preventiva decretada. Além disso, aumenta a pena máxima de um para três anos de detenção e acaba com o pagamento de cestas básicas , como acontecia anteriormente com os agressores. Hoje, Penha é colaboradora de honra da Coordenadoria de Mulher da Prefeitura de Fortaleza, dá palestras em faculdades e recebe homenagens por todo o país. Ela acredita que o ex-marido viva no Rio Grande do Norte. Em um sábado de sol e calor (será que algum dia faz frio em Fortaleza?), Maria da Penha recebeu, em casa, a reportagem da Tpm para lembrar dos dias mais dramáticos e dos mais felizes de seus 63 anos.


Maria da Penha: uma entre muitas

A lei que pune e coíbe a violência contra mulheres leva o nome da brasileira que lutou por quase 20 anos para ver seu agressor atrás das grades. Páginas VermelhasTpm # 82), Maria da Penha é um caso extremo do que acontece todos os dias com milhões de mulheres no Brasil e no mundo. Mas ainda hoje a violência contra mulheres atinge números assustadores. Os números abaixo são prova disso. Vale dar uma olhada. Dormir com o inimigo não é algo tão raro assim
Por Paula Rothman

- Segundo a OMS, 70% das mulheres assassinadas no mundo são vítimas de seus próprios companheiros.

- Um em cada cinco dias de falta ao trabalho no mundo é causado pela violência sofrida pelas mulheres dentro de suas casas.

- No Brasil, o Ibope mostra que 33% da população aponta a violência contra as mulheres como o problema que mais preocupa a brasileira na atualidade – mais do que o câncer de mama e o de útero (17%) e a Aids (10%).

- No Brasil, mais de 2 milhões de mulheres são espancadas a cada ano por maridos ou namorados atuais e antigos.

- Na mesma pesquisa, 14% dos entrevistados acreditam que a mulher deve agüentar agressões em nome da estabilidade familiar.

- 19% dos homens admitem que existem situações que permitem a agressão, assim como 13% das mulheres. 68% da população brasileira conhece a lei Maria da Penha e sabe da sua eficácia (83%).

- Em 2005, nos primeiros quatro meses de funcionamento do telefone nacional da Central de Atendimento à Mulher, o Ligue 180, houve 14.417 denúncias.

- Depois da aprovação da lei Maria da Penha, em 2006, as denúncias deram um salto: de janeiro a junho de 2008, foram registrados 121.891 atendimentos, um número 107,9% maior que no mesmo período de 2007 (58.417).

- A busca por informações no Ligue 180 sobre a lei Maria da Penha no primeiro semestre de 2008 cresceu 346% – foram 49.025 este ano contra 11.020 no primeiro semestre de 2007.

- Em 61,5% das denúncias de violência registradas no Ligue 180, as usuárias do serviço declaram sofrer agressões diariamente.

- Em 63,9% dos casos, os agressores são os próprios companheiros.






 

 

Carta de apoio à Zetti

 
 
UNIVERSO HQ: "Para quem ainda não leu nos inúmeros sites que estão fazendo o seu papel a apoiando essa carta, no dia 23 de dezembro de 2009 foi afastada do seu cargo de diretora do Salão Internacional de Humor de Piracicaba, Maria Ivete Araújo, mais conhecida como Zetti.
 
Depois de chefiar a organização do evento de humor por mais de 30 anos, Zetti foi exonerada de seu cargo, sendo notificada da decisão por uma carta.
 
Em apoio a essa profissional que dedicou tanto da sua vida aos quadrinhos, caricaturas, cartuns e afins, três entidades ligadas às artes gráficas elaboraram e encaminharam uma carta aberta a prefeitura de Piracicaba.
 
Além da três entidades, ACB (Associação dos Cartunistas do Brasil), SIB (Sociedade dos Ilustradores do Brasil) e Imag (Instituto Memorial de Artes Gráficas do Brasil), mais de 138 profissionais que atuaram no salão como jurados ou com trabalhos selecionados já manifestaram o seu apoio assinando. A lista conta com nomes como Angeli, Laerte, Fernado Gonsales, Luis Fernando Veríssimo, Zuenir Ventura e Ziraldo, além de jornalistas, pesquisadores e escritores.
 
A seguir na íntegra a carta que está sendo divulgada em inúmeros sites de quadrinhos e também alcançando outras mídias como jornais e televisão, e sendo apoiada até por profissionais internacionais.
 
 
 
“Ilmo. Sr. Prefeito Barjas Negri,
Srs.Vereadores da Câmara Municipal de Piracicaba, André Gustavo Bandeira, Ary de Camargo Pedroso Jr, Bruno Prata, Capitão Gomes, Carlos Alberto Cavalcante, João Manoel dos Santos, José Antonio Fernandes Paiva, José Aparecido Longatto, José Benedito Lopes, José Luiz Ribeiro, José Pedro Leite da Silva, Laércio Trevisan Jr, Márcia Gondim C. C. Dias Pacheco, Marcos Antonio de Oliveira, Paulo Henrique Paranhos Ribeiro e Walter Ferreira da Silva

 
 
Cidadãos de Piracicaba,
 
Esta carta representa as entidades de classe abaixo assinadas, com cerca de dois mil profissionais do humor gráfico brasileiro, integrantes de veículos de comunicação da imprensa escrita, TV e Internet, editoras de livros e agências de publicidade. Os cartunistas são a alma do Salão Internacional de Humor de Piracicaba. Sem sua participação, não há conteúdo para a realização do evento. Somos, portanto, também responsáveis pela sua continuidade. Algo que o poder público municipal não pode deixar de reconhecer. Aqui externamos, em carta aberta, nosso repúdio categórico à maneira pela qual a Sra. Maria Ivete Araújo (Zetti), colaboradora e diretora do Salão Internacional de Humor de Piracicaba nos últimos 30 anos, foi exonerada de seu cargo, durante as festas de fim de ano, por meio de uma carta entregue pelo secretário substituto temporário. É inegável a competência de Maria Ivete Araújo, ao longo de várias gestões, na construção da longa história de sucesso do Salão. Razão pela qual adquiriu todo o respeito no Brasil e no estrangeiro. Tendo sido, inclusive, adotada pelos humoristas gráficos como um símbolo da continuidade e resistência, até mesmo diante da ditadura e da censura. Em vez de uma justa homenagem, pelo relevante trabalho prestado em nome do município de Piracicaba e pelos longos anos de diálogo entre a cidade e os cartunistas, Zetti foi descartada por uma decisão notadamente política. Apelamos, enfim, à sensibilidade do poder executivo e dos parlamentares. O Salão não se resume a meras decisões administrativas e burocráticas. O espírito do evento valoriza, acima de tudo, o livre pensar e a Arte. É assim que os cartunistas o compreendem. Fazemos um apelo ao bom senso do Sr. Prefeito Barjas Negri, que sempre demonstrou carinho pelo Salão. Não será em sua gestão, assim insistimos, que esse rico diálogo cultural será desprezado. Por princípio, acreditamos que o que há de mais admirável no exercício da política sempre paira acima das bandeiras e interesses partidários. É o governar pelo bem comum. Nós, cartunistas, somos justamente os maiores especialistas em traduzir, por meio de charges e cartuns, o pensamento do povo sobre tantos temas nacionais como esse. Aguardamos uma resposta, o mais breve possível, à nossa solicitação de retorno da Sra. Maria Ivete Araújo ao cargo de Diretora do Centro Nacional de Documentação, Pesquisa e Divulgação de Humor de Piracicaba (CEDHU) complementando com uma ampla discussão sobre o processo de modernização estrutural do Salão e seu fortalecimento. Pois temos toda a convicção de que tal decisão será essencial para a valorização de nossa representatividade no evento.

Atenciosamente,
 
ASSOCIAÇÃO DOS CARTUNISTAS DO BRASIL (ACB), POR JOSÉ ALBERTO LOVETRO
INSTITUTO MEMORIAL DE ARTES GRÁFICAS DO BRASIL (IMAG), POR GUALBERTO COSTA
SOCIEDADE DOS ILUSTRADORES DO BRASIL (SIB), POR ORLANDO PEDROSO (PELO CONSELHO DIRETOR)
 
COM APOIO DE:

ADÃO, AIRON, ALAN SOUTO MAIOR, ALBERT PIAUÍ, ALCY, ALMEIDA, AMORIM, ANDRÉ BROWN, ANDRÉ DINIZ, ANDRÉ VALENTE, ANGELI, ATTILIO, AUDÁLIO DANTAS, BAPTISTÃO, BENETT, BIRA, BIRATAN, BRUNO LIBERATI, CAIO YO, CARCAMO, CARLUS, CARRIERO, CASSO, CAU GOMEZ, CESAR FREITAS, CIVAL EINSTEIN, CLAUDIO MARTINI,CLÉRISTON, CUSTÓDIO, DACOSTA, DANIEL ESTEVES, DANIELA BAPTISTA, DÊNIS MENDES, DIL MARCIO, DINO ALVES, DIOGO SALLES, DOUGLAS QUINTA REIS, DUKE, Dra BETÂNIA LIBANIO, Dra SONIA LUYTEN, EDGAR VASQUES, EDRA, EDU MENDES, ELOAR GUAZZELLI, EMILIO DAMIANI, EMMAN, ÉRICO ASSIS, FABIO SALES AGNATI, FAUSTO BERGOCCE, FERNANDES, FERNANDO COELHO DOS SANTOS, FERNANDO GONSALES, FLAVIO LUIZ, FLOREAL, FRED, GUALBERTO COSTA, HUMBERTO PESSOA, HUMBERTO YASHIMA, IEIO, IVAN CONSENSA, JAL, JBOSCO, JEAN, JÔ OLIVEIRA, JOÃO LIN, JORGE BARRETO, JORGE INACIO, JOTAA, JOZZ, JUNIÃO, JUNIOR LOPES, KLEVISSON, LAERTE, LAUDO, LEANDRO BIERHALS, LEANDRO ROBLES, LELIS, LUIS FERNANDO VERÍSSIMO, LUIZ CARNEIRO, LUTE, MACHADO, MANGA, MARCELO ALENCAR, MARCELO RAMPAZO, MARCIO BARALDI, MÁRCIO LEITE, MARCOS GARUTI, MARCOS VENCESLAU, MARINGONI, MASTROTTI, MAURICIO RETT, MAXX, MICHELLE RAMOS BARBOSA, MINO, MIRAN, MORETTINI, NEI LIMA, OMAR VIÑOLE, ORLANDELI, ORLANDO, PAFFARO, PAULO BRANCO, PAULO SETUBAL, PAULO URSO, PELICANO, QUINHO, RAPHAEL FERNANDES, RAY COSTA, RENATO LEBEAU, RENATO STEGUN, RICARDO SOARES, RICKY GOODWIN, RICO, ROBERTO RIBEIRO, RODRIGO ROSA, RÔMULO, RONALDO CUNHA DIAS, RUCKE, SANTIAGO, SERGIO GOMES, SERGIO MÁS, SIDNEY GUSMAN, SOLDA, SPACCA, SPETT, TONI DAGOSTINHO, TURCIUS, VERDE, VERONEZI, WILSON FIGUEREDO, WILL, WILLIAM MEDEIROS, ZÉ ROBERTO, ZÉLIO, ZIRALDO e ZUENIR VENTURA 

 

 

in HQ

 

 

 

Poética em São Paulo

 

Poetas, prosadores, fotógrafos, artistas plásticos, perfomancers, músicos. Os artistas estão convidados a participar desse evento que promete ser um megaecontro das artes a ser realizado em junho na cidade de São Paulo. Para quem quiser participar, mostrar seu trabalho e sua arte, as inscrições vão até o dia 26 de março. 

 Poetas e escritores:

Os poetas e escritores poderão enviar no máximo 03 (três) textos, sendo poesia, soneto, crônica, conto ou prosa. Os trabalhos deverão ser enviados em formato PDF – fonte Arial 12, contendo as seguintes informações: nome completo/pseudônimo/e-mail e telefone para contato e os textos candidatos ao espaço no evento. O tema é livre.


Artistas Plásticos:

Deverão enviar proposta em formato PDF – fonte Arial 12, contendo as seguintes informações: nome completo/pseudônimo/e-mail e telefone para contato. O evento abre espaço para as seguintes artes visuais: fotografia, com os temas: Paulicéia (fotos sobre São Paulo) e Feminino Ser (fotos sobre mulheres). Desenho, Telas e Instalações. A proposta deverá ser encaminhada com 05 (cinco) imagens acerca do trabalho a ser desenvolvido.


Música:

Artistas individuais, grupos (bandas), música instrumental. A proposta de apresentação deverá ser encaminhada juntamente com o repertório proposto.


Teatro:

Será aberto espaço para performances teatrais que terão apresentações diárias, sempre a noite – sendo que as mesmas deverão respeitar os critérios do evento e ter cunho poético. As propostas de performances ou peças deverão ser encaminhas em doc.. Word, junto com o nome de todo o elenco, incluído autor e diretor. Em anexo também deverá ser encaminhado o roteiro/texto da mesma.


Oficinas, workshops e palestras:

As propostas devem ser encaminhadas em doc. Word, sendo que a duração máxima das atividades deverá ser de 04 horas de duração no máximo. Serão aceitas propostas cujo envolvimento esteja diretamente relacionado a prática da arte escrita.

 

Lançamento de livros:

O autor interessado em lançar seu livro durante o evento, deverá encaminhar um release sobre seu livro, foto de capa e contra capa, informações pessoais e proposta de formato de lançamento.




in Eventos

 

 

 

Queridos Trolls, os comentários agora serão moderados


Sempre soube que, mais cedo ou mais tarde, eu me sentiria, infelizmente, obrigado a moderar os comentários deste espaço desconcerto. Aos amigos e leitores vários que passam por aqui e, de vez em quando, deixam aqui uma nota ou um cumprimento ou um breve comentário, precisarão só ter um pouquinho de paciência, para que seu texto, pensamento, pergunta, ou discordância possa ser liberado.

Tive alguns encontros com trolls desde quando comecei a escrever e colocar idéias pela internet. Creio mesmo que são inevitáveis (se você tem algum tipo de espaço na internet, sinto dizer que vai acabar trombando com um, com certeza). Posso dizer que comigo foram poucas vezes (muito menos do que vejo acontecer em outros sites e blogs consideráveis); poucas vezes, mas sempre são chatos.

'Trolls', para quem não está ligado, são aquelas pessoas que se metem em sites e blogs alheios unicamente para encher o saco. Não querem discutir. Não querem trocar idéias. Não se interessam em propor ou discordar com algum discernimento. O seu prazer é somente de bagunçar, deixar uma 'marca', e continuar atazanando enquanto seu chiado continuar a ser lido. Algumas vezes (raridades) são articulados, sabem escrever, realmente são inteligentes e conseguem enganar por algum tempo. Entrei em uma roubada dessas, em um outro site que participava. Seus argumentos até que eram interessantes, bem montados, e pareciam convidar para uma verdadeira discussão. Suas idéias eram estranhas, mas a princípio pensei que era resultado somente de nossas opiniões serem opostas. À medida que trocávamos comentários, no entanto, um clima muito estranho foi se instalando no grupo, de discórdia e irritação constantes e sem sentido, de argumentos sendo repetidos e simplesmente ignorados, ou então ele pegava uma frase desconectada do texto geral e torcia seu significado, voltava para nós como estivéssemos tentando minimizá-lo e inferioriza-lo. Foi difícil e demorou um tempo para perceber o quanto ele estava se divertindo com a nossa ingenuidade.

Trolls assim tão bem articulados são muito raros, como disse. A maioria é simplesmente imbecil e nem consegue escrever direito uma frase com sentido. Não estou falando do costume 'internético' de se abreviar as palavras ao máximo; me refiro a analfabetismo mesmo. Metade das palavras utilizadas é de xingamento, outro tanto é de palavras vazias ou diretamente ofensivas e ou preconceituosas. Sua especialidade é pegar um ponto de discordância, jogar os xingamentos por cima e sair correndo. Provavelmente, enquanto escrevem devem ficar se coçando e dando risadinhas consigo mesmo, de puro gozo com a brincadeira besta. 

A última coisa que se pode fazer com um troll é alimentá-lo, isto é, responder. Dar algum tipo de atenção só faz com que seu ego se infla, que a zoeira dê certo. 

Desde que este espaço voltou à ativa, em setembro passado, houve dois ou três trolls que fizeram comentários e foram prontamente deletados. Mas me incomoda (e muito) que fiquem à mostra seja por que tempo for. São sujos. Impregnam de maledicência e imundície. As pessoas que passam por aqui não merecem isso.

Há dois detalhes que pretendo deixar bem especificados: 1 - Os comentários são um espaço aberto para qualquer tipo de manifestação. Às vezes, tenho a impressão de que pensam que é somente para elogios ou para quando haja somente total concordância com o que escrevo e penso. Não é verdade. Elogios sempre serão muito bem vindos, com certeza, mas as críticas e as discordâncias também e no mesmo nível. É bom ter discordância. Faz fluir as idéias. O debate fica rico. Eu só espero ter deixado claro acima o quanto uma simples discordância é muito diferente de uma 'trollagem' pura. Por exemplo, ofensas pessoais e ou morais são inadmissíveis. Caramba, isso é o mínimo, não?

2 - Um 'argumento' que recebi certa vez em outras discussões do mesmo tema, é que a moderação de comentários não é uma atitude 'democrática' do site e que isso contradiria minha suposta pregação da liberdade de expressão. 

Isso é muito verdadeiro. Este site não é democrático. Este é um espaço meu, Claudinei Vieira. Aqui entra o que eu quero, do modo que eu quiser. A única outra pessoa com igual poder dentro deste site é o Hijak Skank que, em muitos aspectos é o verdadeiro responsável  para que o Desconcertos exista. Acho que a palavra fundamental aqui é Respeito. Compartilhamos várias opiniões e uma certa visão de mundo; em vários outros pontos discordamos e isso nunca impediu de realizarmos trabalhos em conjunto, pois sabemos como acomodar nossas discordâncias, respeitamos nossas diferenças. 

Esse é um ponto que prezo demais. Se o que digo, escrevo e expresso nesse site (e em qualquer outro lugar ou circunstância) merece ser ouvido, lido ou discutido, só posso ficar contente e acreditar que estou fazendo alguma coisa que vale a pena. Se no meio disso, ataco fortemente a crença ou a disposição de qualquer pessoa, bueno, estou aberto a qualquer conversa, podemos discutir qualquer limite. Se realmente ofendo profundamente o âmago de qualquer ser, então me sinto livre para perguntar: pô, o que está fazendo por aqui? Não escondo minhas idéias. Ao contrário, estão todas escancaradas e abertas à visitação. Se realmente não há nenhum ponto mínimo de convivência ou de troca, qual o sentido de parar e perder tempo? Muito mais fácil é encontrar lugar que lhe seja mais aprazível. A blogosfera é estupidamente grande e alternativas não faltam. Agora, se mesmo estando tão desconfortável ainda assim tiver disposição para uma conversa franca, maravilha!, desconcertaremos juntos.

O que não posso (em momento algum!) é aceitar leviandade e ofensa gratuita. Os meus amigos não merecem. Os leitores que eventualmente passam por aqui não merecem. Portanto, não vou permitir que trolls inconsequentes faltem com o respeito comigo, com este site e com os leitores.


in Artigos


 

 

Tchekhov

 
 
Os textos de Tchekhov sempre dão a impressão de uma simplicidade absurda.
 
Os enredos são mínimos, a histórias curtas, não existem enormes reviravoltas, não há  grandes painéis da vida russa, nem dos centros urbanos nem das aldeias do interior. Sua linguagem é clara, direta, singela. Seus personagens são pessoas comuns,  do povo, funcionários públicos, camponeses, pequenos intelectuais. Seu olhar focaliza o mínimo, o detalhe, o momento.
 
E com sua tão aparente e falsa simplicidade,  acaba captando, na verdade o essencial, a matéria-prima, o real. 
 
Em"A Estepe", o pequeno Iegóruchka, de nove anos e órfão de pai, está sendo levado pelo seu tio, o comerciante Ivan Ivanovitch Kuzmitchov e o padre Cristofor  Siriiski, para morar em outra cidade e matricular-se na escola. Ele não entende o que está acontecendo, sente medo, desconforto. Com breves e rápidas pinceladas,  ficamos sabendo que o tio e o padre vão negociar lã com o poderoso Varlámov e aproveitam a viagem para fazer o favor para a mãe do menino. Em poucos  parágrafos, linhas, Tchekhov vai delineando as suas personalidades, seus pensamentos e anseios. Simplicidade não quer dizer simplismo. A apresentação é sempre  rápida, mas percebemos o quanto são complexos, amplos, inteiros. Vivos.  
 
Este fio de história é um pretexto em realidade para o desfile e a descrição dos tipos e pessoas pelos quais cruzam. Os donos judeus da pousada onde param  para perguntar do paradeiro de Varlámov, os camponeses, a camponesa com seu filho. A natureza em Tchekhov também adquire presença, personalidade, força,  vontade. Pode começar com uma brisa suave que embala a sonolência e alivia um pouco o calor. Ou então cai e bate com poderoso temporal, criando momentos de  pura poesia em prosa.
 
"Do outro lado das colinas um trovão ribombou surdamente e soprou uma aragem fresca. Denishka assobiou alegremente e fustigou os cavalos. O padre Cristofor e  Kuzmitchov seguravam os seus chapéus e dirigiram o olhar para as colinas... Tomara que caia a chuva!
 
Mais um pequenino esforço, um só, e a estepe se teria libertado. Mas uma força invisível, opressora, pouco a pouco prendeu o vento e o ar, assentou a poeira, e o  silêncio instalou-se novamente como se nada tivesse acontecido. A nuvem escondeu-se, as colinas queimadas ficaram sombrias, o ar paralisou-se submissamente, e  só as aves-frias choravam em algum lugar, lamentando sua sorte.
 
Logo depois, chegou a noite."
 
Extraordinário é o momento quando aparece a Condessa Dranitiski. São só alguns parágrafos, nem dá para acreditar nisso! No entanto, ela agita a todos com sua  beleza, com a frescura de sua mocidade e juventude, acende a imaginação do pequeno Iegóruchka. E a nossa, leitores, que também temos que nos contentar com  sua breve, tão breve, aparição. Dýmov, por outro lado, é o camponês bruto, forte e maldoso, com o qual nos antipatizamos logo de cara. Mas, de repente,  Tchekhov mostra toda sua maestria: com apenas algumas frases, vislumbramos todo um abismo de dor e revolta no meio daquela violência irracional, toda uma vida  sufocada e exasperada. Junto com Iegóruchka também ficamos confusos, quase paralisados com a complexidade do problema: nada é tão simples, não se pode fiar  na aparência do imediato. Aprendemos a visualizar tons e matizes mais aprofundados nos seres humanos.
 
Assim, não nos deixemos enganar por esta sua delicadeza, este gentileza, esta tal de Simplicidade. Tchekhov toca fundo e fácil pois era um mestre tal como fazia  igualmente com bisturi que também manejava, pois era médico além de ser escritor e dramaturgo. 
 
"A Estepe" é uma de suas obras mais louvadas. Diz-se que tem traços autobiográficos, que estaria retratando um pedaço de sua própria infância. É provável que  seja, mas não sei se isso influencia o prazer que tiramos de sua leitura. O subtítulo, "História de uma viagem" é fácil de ser interpretado como mais do que  a simples transição de um lugar para o outro; é uma transição pessoal, um rito de passagem para Iegóruchka / Tchekhov. E a nossa.
 
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Nas obras de Tchekhov não há grandes dramas ou enormes painéis da vida russa. Ele não se preocupa em contar epopéias, nem se joga em angustiadas tramas  psicologizantes como o fizeram, por exemplo, Tolstoi em “Guerra e Paz” ou Dostoievski, em “Crime e Castigo”.
 
Tchekhov é o autor que presta atenção nos detalhes, no mínimo, na concisão. Ao invés de monumentalidade, o simples, o direto, o objetivo. Em lugar de textos  longos e verborrágicos, histórias curtas e contundentes. Tchekhov conseguia, assim, com o mínimo de palavras, alcançar uma pureza de expressão, uma verdadeira  poesia. Historias do cotidiano, sempre, de pessoas vulgares e comuns, do soldado à adolescente pequeno-burguesa, da viúva ao estudante apaixonado, da  farmacêutica ao magistrado. Uma cena, alguns gestos, algumas frases. E, dessa forma, o desnudamento do mais intimo do ser humano. 
 
Em uma carta para o seu irmão Aleksandr, Tchekhov resumia, o seu credo literário: “1. Ausência de uma verbosidade extensiva de natureza  político-social-econômico; 2. total objetividade; 3. descrições honestas de pessoas e objetos; 4. extrema brevidade; 5. audácia e originalidade; fuga dos estereótipo;  6. compaixão."
 
Tchekhov é o criador do conto moderno do qual toda a literatura contemporânea é depositária.
 
O teatro também foi revolucionado pela sua influência. Já era um autor consagrado, e já havia inclusive escrito algumas peças (como “Ivanov”), quando estreou em  1896 A Gaivota”. Ninguém entendeu nada: não havia uma história!, as personagens falavam e falavam, não havia uma trama central, não ocorriam conflitos, nem  cenas dramáticas; a ação, inclusive, ia se diluindo!, ao invés de acelerar, atingir um pico e se resolver no ultimo ato. Como em qualquer peça que se 'preze'. A  temporada foi interrompida após cinco apresentações. A sensibilidade de Tchekhov ficou tão abalada que ele jurou que nunca mais voltaria a escrever para o teatro. 
 
Dois anos depois, no entanto, ele consentiu que a peça fosse remontada. Desta vez, a montagem ficou a cargo do recém-criado Teatro de Arte de Moscou, dirigido  por Stanislavski, que quebra o estilo pesado das anteriores apresentações (o teatro russo era muito mais declamado do que propriamente representado) e imprime  um ritmo e uma apresentação naturalistas. A temporada é um sucesso e consagra Tchekhov como escritor e dramaturgo.
 
A formação acadêmica de Tchekhov foi de medicina. Nascido em 1860, batalhou arduamente para poder passar por cima dos problemas financeiros da família e  custear seus estudos. Começou a escrever pequenas crônicas e contos divertidos do cotidiano russo para revistas e jornais enquanto trabalhava como médico. Sua  produção era impressionante e escrevia muito rápido: dizia-se que conseguia escrever um pequeno conto enquanto esperava para ser atendido em alguma repartição  pública. À medida, no entanto, que sua escrita foi ficando mais séria, deixando de lado seu trabalho mais cômico (feito muito mais para poder ganhar dinheiro), sua  velocidade de produção foi diminuindo. E, mesmo assim, quando morreu em 1904 de tuberculose, deixou escritas várias centenas de contos.
 
Tchekhov ganhou o prêmio Puchkin em 1888 por conta da coletânea dos seus contos publicada no ano anterior; em 1889 foi eleito como membro da Sociedade  dos Amantes da Literatura Russa e em 1900 se tornou membro da Academia de Ciências de Petersburgo (mas, renuncia dois anos depois quando Gorki foi  impedido de se tornar membro). Em 1892 abandona a medicina e passa a viver somente da literatura.
 
As Três Irmãs” é considerada sua obra-prima na dramaturgia. Olga, Macha e Irina tentam, cada uma a sua maneira, sobreviver à imbecilizante monotonia do  dia-a-dia. Não possuem mais perspectivas, não tem mais sonhos. Sua única esperança é de, algum dia, poder modificar suas vidas e ir para Moscou. No entanto, de  que vale a pena se esforçar, se tudo é em vão? Em determinado momento de desespero, Irina diz: “Um dia virá em que todos saberão o porquê de tudo isso... por  que esses sofrimentos... Não haverá mais mistérios... Enquanto esperamos, é preciso viver... É preciso trabalhar. Somente trabalhar. Amanhã partirei sozinha.  Ensinarei na escola e darei toda a minha vida aqueles que talvez precisem de mim. É outono... o inverno virá logo, a neve cobrirá tudo, e eu trabalharei, trabalharei...”
 
Enquanto o inconsciente e despreocupado Tchebutykin cantarola sua frase preferida: “Que importa tudo isso?”.
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Creio que chamar os trabalhos de Anton Tchekhov de miniaturas é de uma expressão particularmente feliz, embora meio óbvia.
 
Ao invés dos enormes painéis e da  arquitetura intrincada dos romances sócio-políticos-históricos de Tolstoi ou as ferventes aventuras psicológicas de Dostoievski, Tchekov se volta para o mínimo,  para o detalhe, para o prosaico cotidiano, para o momento.
 
Não á toa o gênero onde pôde se dedicar e aprofundar esta sua propensão foi o conto, os relatos  breves, onde se consegue apreender todo o conteúdo de uma narrativa ou dos pensamentos ou do caráter dos personagens através de pouquíssimas páginas,  sabemos aonde vai se conduzir suas vidas depois de terminada a palavra no final.
 
São como flashes que captam o determinado momento permitindo-nos observar  seu desenvolvimento por este átimo. Miniaturas, portanto. 
 
Sutis, sem enormes extravasamentos, os personagens e as histórias se realizando por descrições enviesadas. Em “O Beijo”, o conto que dá nome ao volume publicado pela editora 34, por  exemplo, ficamos sabendo desde o inicio que o jovem capitão Riabóvitch é tímido, fechado e, diferente dos seus colegas, nunca tivera um caso amoroso. No  entanto, em uma festa por um acaso acaba recebendo um beijo de uma mulher desconhecida (ele entrara em um recinto escuro e ela pensou que fosse outra  pessoa); logo que percebe o erro, ela corre. Agitado, volta ao salão e procura perceber que seria a tal dama. É aí que ficamos cientes de toda a sua plena solidão,  de sua incapacidade de se socializar, de sua impenitente imaturidade. 
 
Como Schnaiderman observa, o mestre Tchekhov gostaria de sair de suas miniaturas e se aventurar por narrativas mais longas. Seu esforço era tremendo, sentia  muito mais dificuldade, dizia-se ‘mimado’ por conta de sua experiência com os contos curtos. O que o levou a escrever novelas e alguns (poucos) romances  pequenos. Os resultados foram tão preciosos como os demais, forjou obras-primas tanto quanto. Nesta seleção de Boris Schnaiderman nos encontramos com  algumas das jóias mais raras da literatura russa e mundial. 
 
Kaschtanka é uma deliciosa incursão pela vida e pelos ‘pensamentos’ e sentimentos de uma cadela que, ao se perder do seu dono, o bruto e ignorante  marceneiro Luká Aleksândritch, é resgatada e passa um tempo com um tipo de amestrador de animais e lá conhece alguns ‘amigos’: um ganso cinzento, um gato e  acaba até aprendendo alguns truques. Certamente, uma visão diferenciada da vida russa. Em “Viérotchka” e em “Uma Crise” observamos de novo como  ele consegue transpor a aparente simplicidade de seus temas e, a partir de um pequeno evento, revelar-nos uma imensidão psicológica que antes estaria escondida.  Ao sair de uma aldeia onde vivera por alguns meses, um jovem recebe uma inesperada declaração de amor, o que o obriga a repensar sua vida até então e tomar  decisões desagradáveis. No outro, um estudante ingênuo faz um périplo junto com seus colegas por entre alguns bordeis da cidade e as condições de vida e de tédio  o chocam de tal maneira que acredita dever tomar alguma atitude (esta história, aliás, provocou algumas reações de escândalo na época pela sua descrição  naturalista das prostitutas e do seu modo de vida, e até mesmo pela própria ousadia do tema). Da juventude para o extremo oposto, “Uma história enfadonha” narra o cotidiano de um velho professor universitário ainda na ativa, mas que sente sua cada vez maior dificuldade de sobreviver aos dias  cansativos, à falta de seus antigos amigos, da família que não o compreende, nem sentirá plenamente sua morte. Longas digressões tornam este o maior texto deste  volume e, por mais que admire o trabalho tchekhoviano, devo admitir ser o que mais testa a paciência do leitor.
 
Enfermaria n° 6” é um dos seus textos mais famosos e o que mais chamou a atenção de sua obra, desde sua publicação. As digressões, as longas conversas  entre ‘loucos’ e médico, neste caso funcionam com uma maravilhosa e autêntica perfeição. Entre o que é razão e des-razão ou simplesmente loucura e onde elas se  localizam a ponto de levar o especialista a ‘virar de campo’, o que sobra é uma obra magnífica, de extrema simplicidade e efeito duradouro. Impossível para nós,  brasileiros, não percebermos as absolutas semelhanças entre este e o nosso também famossíssimo "O Alienista’, não só pelo tema, pela narrativa, e pelo final,  mas inclusive pelas idéias. Dá para sentir a ‘voz’ de Machado, por exemplo:
 
Tendo examinado o hospital, Andrei Iefímich chegou à conclusão de que era uma  instituição imoral e altamente nociva à saúde dos habitantes. A seu ver, o que havia de mais inteligente era soltar os doentes e fechar o hospital. Compreendeu,  porem, que, para isso, não bastava a sua vontade e que seria inútil; expulsando-se a impureza física e moral de uma parte, ela passa a outra; era preciso esperar que  se desfizesse por si. Ademais, se as pessoas fundaram um hospital e toleravam-no em seu meio, queria dizer que estes lhes era necessário; os preconceitos e todas  essas ignomínias e baixezas do cotidiano são necessários, pois, com o passar do tempo, transformam-se em algo consistente, como o esterco em húmus”.
 
De novo,  apesar do eixo deste trecho e da própria novela ser o hospital em si, pode-se perceber o quanto apreendemos da cidade que o rodeia e dos seus problemas e  vícios, em algumas rápidas pinceladas.  

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Apesar do seu enorme prestigio nas terras russas, Tchekov era praticamente desconhecido fora do seu país. Somente após sua morte, e principalmente após a Primeira Guerra Mundial, seu nome e o seu trabalho começaram a circular de verdade.  E se tornou consagrado mundialmente.
 
 
 
 
in Resenhas
 
 
 

 

 

Luminária amarela

 
 
Você já estava nua quando cheguei na porta do quarto. Atravessei o quarto, entrei no banheirinho, olhei para o espelho e para minha cara larga e as olheiras e a papada e a calvície pronunciada, desviei o olhar, não precisava ficar sofrendo, cutuquei minha barriga dos lados e pela frente, um leve incômodo costumeiro no lado esquerdo logo acima da cintura, abri a boca e escancarei a língua, tentei olhar para a língua e não para o espelho, meus olhos devem ter ficado vesgos, senti ânsia de vômito, fechei a boca, suspirei, tirei a camisa, meu peito continua peludo, talvez tanto quanto na minha época de garoto quando meus amigos diziam que eu tinha um colete-à-prova-de-balas (há-há-há) (curiosamente, meus braços sempre foram quase pelados), talvez um pouco mais de pêlos brancos, sentei na privada, fiquei com vontade de fumar, esqueci os cigarros na sala, aliás creio que o maço acabou faz alguns anos, reprimi a vontade, levantei, usei o papel higiênico à toa, nem ficou sujo, descalcei os chinelos, coloquei-os no canto, apesar do uso ainda firmes, tirei lentamente a meia esquerda, senti frio, coloquei de novo, abaixei a calça de pijama, fiquei de cuecas e meias, portanto; olhei para o bidê, queria lavar meus pés, mas para isso teria que tirar as meias. Atravessei o quarto, fui para a cozinha, abri o armário, lembrei que havia um resto de bolachas, estavam moles e quase mofadas, mas embora o verdinho provavelmente dê um gostinho a mais abri a gaveta, tirei uma faca, raspei o verdinho, engoli a bolacha, quase ia saindo até me dar conta de que havia jogado displicente as raspas encima da pia, peguei um clinex, abri a torneira, dei uma molhada, passei pelo mármore, abri a tampa do lixinho, joguei as raspas; quase ia saindo, já estava apagando as luzes, lembrei da faca, voltei, abri a gaveta, guardei-a, fui saindo, aí apaguei, aí resolvi, e pensei A faca deve estar suja do verdinho, ah que merda, pensei Foda-se, voltei para o quarto e aí lembrei que não tinha fechado direito a torneira do banheirinho. Fechei a torneira. Interrompi o fluxo de água inutilizada. Suspirei. Deitei na cama, não olhei para sua cara, tirei a cueca, o pau demorou a subir, o pau demorou muito a subir, eu sei que existe um viagra em algum canto dessa casa, levantei, abri a gaveta do criado-mudo, suspirei, fui até o escritório, por que diabos haveria um comprimido de viagra na mesa do escritório?, voltei, deitei, fiquei de costas por dez minutos, quinze minutos, quase meia-hora, virei, fiquei por cima de você, fiz algum tipo de carícia no qual já estávamos até desacostumados, até ficamos meio surpresos, meu pau afinal ficou duro o mínimo suficiente para conseguir penetrar, mexi a bunda e a cintura o suficiente para tentar penetrar, você parecia nem querer perceber minha existência, não faço idéia se o que resultou foi uma gozada, mas afinal parei, dei um tempo para ver se haveria prosseguimento, saí de cima, fiquei deitado, de esguelha percebi que seu rosto estava meio molhado, levantei, fui para o criado-mudo do seu lado da cama, encontrei um lenço de papel perfumado (tinha três caixas desse lenço, aliás!), estendi um pra você, não houve reação, acabei passando eu mesmo um pelo seu rosto. Suspirei, voltei a deitar, não quis apagar a luz da luminária japonesa.
 
 
 
 
in Contos
 
 
 

 

 

Piva

 
 
Renata D´Elia (Magic on Sundays - 27/02 - 18:42): O poeta Roberto Piva foi transferido neste fim de tarde para um outro quarto no Hospital das Clínicas. O local é bastante arejado e ele está na companhia de apenas mais uma pessoa, bastante satisfeito com a nova acomodação.
 
Conforme divulgado no post anterior, Piva está recebendo bons cuidados da equipe médica do HC. Ele deve passar por um Cateterismo nos próximos dias. No momento, a prioridade é fortalecê-lo e garantir-lhe um bom funcionamento cardíaco. Posteriormente serão feitas 2 cirurgias: próstata e catarata.
 
Como qualquer grande homem de 73 anos, acostumado a devorar Leitões à Pururuca & outros banquetes, Piva reclamará da comida do hospital, "sem sal e sem gosto", em qualquer quarto do mundo. E nem precisa ser poeta pra reclamar disso: costuma ser assim conosco, com nossos amigos, nossos pais e avós. Ou alguém aqui trocaria uma pizza de mussarela por um purê de batatas sem sal?
 
Portanto, vamos continuar torcendo para que ele se recupere logo. O apoio dos amigos é sempre bem-vindo. Desde já, gostaria de agradecer aos que me ajudam a divulgar esses esclarecimentos referentes à internação do Piva. Peço que continuem a divulgar.
 
Ademir Assunção (Espelunca - 28/02 - 13:06): Depois da mudança para um quarto melhor, Roberto Piva está bem mais animado. Hoje cedo pediu para o Gustavo levar livros. Os amigos continuam se mexendo para que ele tenha um bom tratamento e se recupere o mais rápido possível. É isso o que interessa.
 
Paulo de Tharso postou um vídeo produzido pelo Grupo Interzona, com Piva lendo o poema Piedade, permeado com a voz de William Burroughs, Jim Morrison e imagens do próprio poeta. Eis o link: http://salvemofelix2.blog.uol.com.br/
 
Amigos estão se mexendo também para fazer uma leitura com o objetivo de arrecadar grana para Piva. 

 

 

 

 

Roberto Piva: URGENTE

 
 
 
RITUAL DOS 4 VENTOS & DOS 4 GAVIÕES
para Marco Antônio de Ossain
 
"Eu trago comigo os guardiões dos Circuitos celestes." 
— Livro dos Mortos do Antigo Egito —
 
 
Ali onde o gavião do Norte resplandesce
sua sombra
Ali onde a aventura conserva os cascos 
do vudú da aurora
Ali onde o arco-íris da linguagem está 
carregado de vinho subterrâneo 
Ali onde os orixás dançam na velocidade 
dos puros vegetais
Revoada das pedras do rio
Olhos no circuito da Ursa Maior 
na investida louca
Olhos de metabolismo floral
Almofadas de floresta
Focinho silencioso da sussuarana com
passos de sabotagem
Carne rica de Exú nas couraças da noite
Gavião-preto do oeste na tempestade sagrada
Incendiando seu crânio no frenesi das açucenas
Bate o tambor
no ritmo dos sonhos espantosos
no ritmo dos naufrágios
no ritmo dos adolescentes
à porta dos hospícios
no ritmo do rebanho de atabaques 
Bate o tambor
no ritmo das oferendas sepulcrais 
no ritmo da levitação alquímica 
no ritmo da paranóia de Júpiter 
Caciques orgiásticos do tambor
Com meu Skate-gavião
Tambor na virada do século ganimedes
Iemanjá com seus cabelos de espuma.
 
 
 
OS ANJOS DE SODOMA
 
Eu vi os anjos de Sodoma escalando
um monte até o céu
E suas asas destruídas pelo fogo
abanavam o ar da tarde
Eu vi os anjos de Sodoma semeando
prodígios para a criação não
perder o ritmo de harpas
Eu vi os anjos de Sodoma lambendo
as feridas dos que morreram sem
alarde, dos suplicantes, dos suicidas
e dos jovens mortos
Eu vi os anjos de Sodoma crescendo
com o fogo e de suas bocas saltavam
medusas cegas
Eu vi os anjos de Sodoma desgrenhados e
violentos aniquilando os mercadores,
roubando o sono das virgens,
criando palavras turbulentas
Eu vi os anjos de Sodoma inventando a
loucura e o arrependimento de Deus
 
(in: Paranóia, 1963)
 
 
 
PRAÇA DA REPÚBLICA DOS MEUS SONHOS
 
A estátua de Álvares de Azevedo é devorada com paciência pela paisagem
   de morfina
a praça leva pontes aplicadas no centro de seu corpo e crianças brincando
   na tarde de esterco
Praça da República dos meus sonhos
   onde tudo se faz febre e pombas crucificadas
   onde beatificados vêm agitar as massas
   onde García Lorca espera seu dentista
   onde conquistamos a imensa desolação dos dias mais doces
os meninos tiveram seus testículos espetados pela multidão
lábios coagulam sem estardalhaço
os mictórios tomam um lugar na luz
e os coqueiros se fixam onde o vento desarruma os cabelos
Delirium Tremens diante do Paraíso bundas glabras sexos de papel
   anjos deitados nos canteiros cobertos de cal água fumegante nas
   privadas cérebros sulcados de acenos
os veterinários passam lentos lento Dom Casmurro
há jovens pederastas embebidos em lilás
e putas com a noite passeando em torno de suas unhas
há uma gota de chuva na cabeleira abandonada
enquanto o sangue faz naufragar as corolas 
Oh minhas visões lembranças de Rimbaud praça da República dos meus
   Sonhos última sabedoria debruçada numa porta santa
 
 
 
LIBELO
 
Não mais trarei justificações
Aos olhos do mundo.
Serei incluído
” Pormenor Esboçado ”
Na grande bruma.
Não serei batizado,
Não serei crismado,
Não estarei doutorado,
Não serei domesticado
Pelos rebanhos
Da terra.
Morrerei inocente
Sem nunca ter
Descoberto
O que há de bem e mal
De falso ou certo
No que vi.
 
(in: Antologia dos Novíssimos, 1961)
 
 
XVI
 
abandonar tudo. conhecer praias. amores novos.
poesia em cascatas floridas com aranhas
azuladas nas samambaias.
todo trabalhador é escravo. toda autoridade
é cômica. fazer da anarquia um
método & modo de visa. estradas.
bocas perfumadas. cervejas tomadas
nos acampamentos. Sonhar Alto.
 
(in: 20 Poemas com Brócoli, 1981)
 
 
ALMA FECAL
 
Alma fecal contra a ditadura da ciência
Rua dos longos punhais
Garoto fascista belo como a grande noite esquimó
Clube do fogo do inferno: Alquimistas Xamãs
Beatniks
Je vois l’arbre à la langue rouge (Michaux)
Templo

Procissão do falo sagrado
Deuses contemplam nas trevas o sexo
do anjo do Tobogã
Felizes & famélicos garotos seminus dançam
como bibelôs ferozes
Pedras com suas bocas de seda
Partindo para uma existência invisível
Tudo que chamam de história é meu plano
de fuga da civilização de vocês
Represa de Mariporã. 95
 
(in Ciclines, 1997)
 
 
*********
 
 
de Ademir Assunção (http://zonabranca.blog.uol.com.br/):
PIVA URGENTE
 
Roberto Piva, um dos maiores poetas brasileiros, está internado na enfermaria do Hospital das Clínicas, em estado precaríssimo. Piva tem 73 anos e sofre de mal de Parkinson. Segundo o poeta Celso de Alencar, que o visitou ontem, ele está num verdadeiro inferno dantesco. 
 
Nos últimos anos, Piva teve suas obras completas reunidas pela editora Globo em três volumes: Um Estrangeiro na Legião, Mala na Mão & e Asas Pretas e Estranhos Sinais de Saturno. Sua poesia voltou a circular como um furacão, mas o poeta continuou vivendo em situação precária. É comum os amigos se cotizarem para comprar os remédios que ele precisa para manter os efeitos do mal de Parkinson num nível razoável.
 
Artistas não vivem de elogios.
 
É preciso tirá-lo da enfermaria do HC e transferí-lo para um quarto. Urgente. Isso é o mínimo nesse momento.
 
Ou as palavras do próprio poeta vão se confirmar como uma nefasta profecia?:
 
“O objetivo de toda Poesia & de toda Obra de Arte foi sempre uma mensagem de Libertação Total dos Seres Humanos escravizados pelo masoquismo moral dos Preconceitos, dos Tabus, das Leis a serviço de uma classe dominante cuja obediência leva-nos preguiçosamente a conceber a Sociedade como uma Máquina que decide quem é normal & quem é anormal.”
 
“... criminosos fardados & civis têm o poder absoluto para decidir quem é útil & quem é inútil”.
 
“Enquanto isso, os representantes da poesia oficial & os engomados homens de negócios trocam entre si, numa reciprocidade suspeita, discursos & homenagens estourando de vaidade diante do aplauso de seus concidadãos. O que eu & meus amigos pretendemos é o divórcio absoluto da nova geração dos valores destes neomedievalistas”.
 
 
************ 
 
de Ana Peluso: Pessoal, esse texto abaixo, publicado no blog do Ademir Assunção, deixa claro que Roberto Piva precisa de ajuda URGENTE.
 
Se alguém de vocês conhece alguém no HC que tenha condições de conseguir uma transferência para um quarto, já é um alento.
 
Só quem já precisou ficar em enfermaria, ou mesmo corredor, em qualquer hospital público de São Paulo, sabe o inferno que é isso.
 
Enfim, divulguem, peçam ajuda, repassem.
 
Nem um cidadão merece passar por isso, muito menos um poeta do quilate do Piva.
 
Se alguém quiser ajudar de outra forma,  entre em contato com o Ademir pelo e-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra SpamBots. Você precisa ter o JavaScript habilitado para vê-lo.
 
Vamos lá. A poesia agradece.
 
Bjs e abraços
Ana
 
aproveitando pra (me) corrigir: a poesia agradece, o escambau. o ser humano Roberto Piva agradece.
 
bjs
Ana
 
 
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Dados do Piva para eventual ajuda, divulguem. A situação é caótica
Itaú
agência 0036
cc 20592-0
cpf 565 802 828-00
 
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Uma balada com Roberto Piva: TV CRONÓPIOS
 
http://www.cronopios.com.br/tvcronopios/conteudo.asp?id=31
 
 
 
 
 
 
 
 

 

 

Nada é o que parece para Patricia Highsmith




Este é um livro desconcertante. Não por causa da versatilidade, ou da quantidade de trabalho do qual Patricia Highsmith era capaz. Para quem conhece um mínimo de sua vida, sabe bem o quanto ela escrevia, por quantos gêneros transitava, de quantas milhares de páginas deixou ao morrer. A curadora de seus documentos, Ana Von Planta, diz que seus arquivos são tão volumosos que, enfileirados, atingem quarenta e cinco metros.

Para quem não sabe, ou está chegando agora, ou sabe somente que ela foi a criadora do maior anti-herói da literatura universal, Tom Ripley, saiba então da absoluta seriedade (severidade) com que Patricia encarava sua literatura. Há uma famosa história, citada por Paul Ingendaay, de quando ela descartou um romance que escrevia, queimou os papéis, pela insatisfação do resultado. O detalhe é que já tinha escrito por volta de trezentas páginas. 

Portanto, não surpreende que estes contos agora reunidos tenham sido deixados de lado pela autora. Seja por quais critérios ela trabalhasse, dificilmente teria concordado com esta antologia. Mesmo que não tenham sido jogados fora (ou queimados), estavam no meio de sua imensa papelada, sem perspectiva de algum dia serem publicados. Alguns chegaram a ser editados em revistas, a maioria é absolutamente inédita. “Nada é o que parece” está dividido em duas partes, abrange desde seus primeiríssimos escritos, de 1938 a 1949, enquanto tentava se firmar como escritora e ser conhecida (seus primeiros contos foram publicados a partir de 1939), a 1952 a 1982, consagrada e premiada, reconhecida bem mais como romancista já que escreveu quarenta romances e publicou bem poucos contos em comparação. 

E é este o ponto que espanta, até choca. Surpreende, quase ao incompreensível, é a qualidade destes escritos. A profundidade, a variedade de registros, a experimentação de formas narrativas. Encontra-se aqui tanto uma delicada fábula moral, ao estilo de um  O. Henry, como “Um fracassado nato”, quanto um extraordinário conto policial em “Música para morrer”. Uma fantasia maluca em “O segundo cigarro”, que retoma o arquétipo literário do duplo, ou uma ‘quase’ fantasia em “Uma garota como Phyl”. Ela brinca com nossa ansiedade ao criar em poucas páginas um impressionante suspense, pela possibilidade do ataque de um pedófilo em “Um homem muito gentil”, ou nos faz deslizar pela amizade de um cão pelo seu dono, em “O melhor amigo do homem”, através da aparente vida fracassada do personagem principal. 

Estão presentes vários dos temas, personagens e ambientações que seriam desenvolvidos mais tarde nos romances. Pode-se apreciar, portanto, a gênese de muito do que escreveria e faria sua fama. Porém, desde os primórdios, desde o primeiro conto apresentado neste livro, “As manhãs mais poderosas”, já existe a mesma visão desencantada, melancólica, pessimista da vida e da humanidade. Há a mesma ambigüidade moral, a mesma dúvida, talvez fosse melhor dizer. Esta tal ambigüidade, da qual Ripley é seu ícone, e que perpassa por toda sua obra, não foi um desenvolvimento, nem descoberta tardia, mas reflexo de sua própria vida e pensamento, é movimento inerente de toda sua literatura. E todos eles incomodam, cutucam. Mesmo nos (poucos) finais felizes, a tal felicidade tem um sabor amargo, estranho.

Não há como deixar de se sentir privilegiado por poder tomar contato com estes contos. Nem como ficar tranqüilo ou não ser tomado pela ansiedade: o que mais poderá sair dos tais arquivos, quantas outras obras-primas poderão vir à tona? 

E, aliás, quando é que, afinal de contas, vão traduzir a biografia de Patricia Highsmith, morta já mais de há dez anos?! O ótimo Beautiful Shadow: A Life of Patricia Highsmith, de Andrew Wilson, foi lançado em 2003, já tá na hora. 


 
 
 
in Resenhas
 
 
 

 

 

Os prefácios de Henry James

 
 
 
Em 1907, Henry James estava exultante: recebera os dois primeiros volumes da luxuosa coleção de seus escritos, a chamada Edição de Nova York, pela qual esperava obter finalmente reconhecimento popular e retorno financeiro. O reconhecimento crítico há muito havia adquirido, suas obras eram admiradas e respeitadas e sua intensa produção até sua morte em 1916 (vinte romances, doze peças teatrais, cerca de 106 contos e novelas e mais de trezentos ensaios) impunham mesmo respeito. 
 
Mas, não pelo, como diríamos hoje, o "grande público". Nunca conseguiu fazer dinheiro com a literatura e todas suas peças foram fracassos, com apresentações e resultados ínfimos (isto é, quando conseguiam ser encenadas). Sua esperança era que, com a Edição de Nova York, tudo mudasse. 
 
Como nos conta Marcelo Pen, este tipo de publicação dos finais do século XIX, começo do século XX, era um sucesso editorial. A própria editora norte-americana de James, a Scribner's, em conjunto com a britânica Constable, já havia lançado "as obras completas de Stevenson e de Kipling. Havia coleções similares de Meredith, Thoreau, Emerson e Hawthorne. A prática era tão disseminada que algumas casas, como a A Estes and Lauriat, disfarçavam edições comuns como se fossem de bibliógrafos: engodos fastuosamente empacotados contra os quais a revista semanal The Nation chegou a mover uma campanha". 
 
Por razões comerciais, a idéia inicial de resgate das obras completas, como era o comum, foi deixada de lado. Afinal, suas últimas obras haviam sido uma nulidade em termos de vendas. A Edição tornou-se, portanto, uma antologia. Henry James dedicou-se e labutou. Reescreveu todas as obras que seriam incluídas, reformulou cenas, mudou personagens, orientou as ilustrações com fotos exclusivas para cada texto tornando o trabalho o mais "artístico" e chamativo possível, correu de um lado para o outro por conta da complexa questão legal dos direitos autorais, elaborou notas e escreveu prefácios específicos, comentando sobre a gênese dos seus escritos, sua visão sobre a confecção da literatura, os próprios princípios da literatura que norteavam suas idéias e a experiência de sua leitura renovada. 
 
O resultado? Em 1908, seu primeiro pagamento de direitos autorais foi de 211 dólares. No ano seguinte, 596,71 dólares. O choque e o desânimo foram tão grandes que, conforme Marcelo Pen, Henry James ficou arrasado e "por um bom tempo, pensou ser incapaz de continuar a escrever". 
 
Sabemos que continuou, sim, a escrever, embora sua conta bancária nunca tenha aumentado significativamente. Sua consciência artística o impelia, mesmo que incompreendido e impopular. A tal ponto que seus últimos escritos só foram reconhecidos como obras-primas depois de sua morte. 
 
Desde o primeiro momento, os Prefácios fizeram furor. De um lado, um crítico da Literary Digest discordava da natureza das revisões, pois um "autor não deveria modificar o caráter de sua obras publicadas, pois elas já pertenciam, nesse sentido, ao domínio público", constituíam "clássicos" e não deveriam ser modificados nem mesmo pelo próprio autor. Enquanto que Percy Lubbock escreveu que os Prefácios eram "um acontecimento, de fato o primeiro acontecimento" na história do romance. Além da espirituosa afirmação de Ford Madox Ford ao declarar que eles esgotavam todas as questões relativas ao método de ficção: "Nenhuma estória sequer deixou de ser anotada, analisada criticamente e (mais uma vez criticamente) consumida até o fim como qualquer laranja. Nada resta ao pobre crítico senão a mera citação". 
 
 
Em 1934, os prefácios foram reunidos em um único livro por Richard Blackmur em "The Art of the Novel: Critical Prefaces of Henry James". A discussão sobre eles continuou, ora encarados como um verdadeiro método de feitura de literatura clássica e que, portanto, podiam ser considerados como um trabalho autônomo e independente, ora como comentários pessoais e intrínsecos aos textos prefaciados os quais não poderiam, nesse caso, ser separados, ora como peças literárias em si. 
 
O fato é que, para o Brasil, essa discussão chegava sempre manca e insuficiente. Entre nós, poucos prefácios foram traduzidos ao longo desse tempo (aliás, diante do manancial de sua literatura, a quantidade de livros de James traduzidos chega a ser vergonhosa). O trabalho de Marcelo Pen (A arte do romance: Antologia de Prefácios) foi extraordinário e, como diz Ismail Xavier em sua apresentação, "vem cobrir uma lacuna embaraçosa em nossa bibliografia - e o faz com brilho". Lúcido, embasado, respeitoso, com uma primorosa tradução e considerável trabalho de campo (os Prefácios foram o tema de sua dissertação de mestrado), Pen não se limita a traduzir. Sua introdução é ótima! Elucidativa, didática, histórica e analítica. Além do que, sua escrita é simples, muito gostosa de ser lida e sem academicismos bobos. Nada menos do que Henry James, verdadeiro cultor da linguagem, merecia. 
 
Mesmo porque, traduzir James é um jogo duríssimo (não é à toa que o nível de algumas traduções brasileiras seja tão deprimente). Ele foi o mestre da sutileza, da ironia disfarçada, da crítica nas entrelinhas que nunca se revelavam a uma leitura superficial. A língua inglesa em suas mãos demonstrava uma beleza, riqueza e maleabilidade impressionantes. Sua aparente simplicidade (é muito fácil ler seus livros!) esconde uma enorme variedade de matizes e possíveis interpretações que se sobrepõem, se interpenetram, se comentam. É claro que esse rigor lingüístico e artístico está presente na escritura dos Prefácios. Comentários "técnicos", autobiografia literária e pessoal, ensaística, crítica literária formalista, narrativa artística subjetivista... 
 
Os Prefácios não estão, de forma alguma, fechados à interpretação. "Não se procurem nelas", nas reluzentes lições do mestre tão nítidas no meio desse "rico retrospecto", "resultados simples, valores típicos ou significados únicos". Faz parte do rigor de James, em sua fase mais experimental, a necessidade de abertura, a busca da polissemia e dos toque sutis. 
 
Com isso, não chego nem perto de dar uma idéia da força e do vigor demonstrados por Marcelo Pen ou da intrépida beleza da prosa jamesiana. Paciência. Na verdade, para os leitores e já admiradores do autor de "A Volta do Parafuso", "Retrato de uma Senhora", "A Fera na Selva", "A Taça de Ouro" nem é preciso falar nada. 
 
Aos que não o conhecem, seria preciso dizer tudo. É muito para uma pobre resenha. Eu só posso dizer o seguinte: aproveitem o belíssimo e competente (para "maneirar" os superlativos) empenho de Marcelo e conheçam o universo jamesiano. A empreitada vale a pena.
 
 
 
 
in Resenhas
 
 
 
 

 

 

Mulheres de Hijak Skank

 
 
 
 
 

 

 

Mulheres de Egon Schiele

 
 
 
 
 
 
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mulheres de Hubert de Lartigue

 
 
 
 
 
 
 
 in MUSAS
 
 
 
 
 
 
 

Tulipio 10!


É simples. O 10° número da revista do mais simpático e carismático frequentador de bares e xavecador de mulheres à volta e contador de histórias de bêbado e filósofo de botequim, está à disposição. Com direito à lançamento na HQMix, na Praça Roosevelt, 142. Os outros bêbados, isto é, os autores, Paulo Stocker, ilustração, e Edu Rodrigues, texto, estarão presentes.

A revista é gratuita. Você chega, ganha uma, e se diverte. Simples. Parece mentira. Ou conversa de bar. Ou papo de garçom ('Vai mais um chope?') Mas é verdade.

Amanhã, sábado, 23 de  janeiro, a partir das 19:30. 

 

 

 

 

Dramaturgo renasce depois de pesadelo




É verdade que você ficou com duas balas no corpo?

Tem uma aqui, perto da coluna. Se pega, eu tava aleijado. E tem uma outra aqui atrás... sei lá. No raio X tem, tá ali, não sei onde é direito. Sei que tem duas balas-souvenir aí dentro.

E qual eles tiraram?

A que foi no coração.

No seu blog, muita gente pergunta o que você viu enquanto estava em coma, se viu Deus ou se viu o Diabo...

Rarararará! Cara, eu vi o Pereio (Paulo Cesar Pereio, ator).
 
 
Mário Bortolotto no seu habitual estilo franco, direto,  conversa com Jotabê Medeiros, no jornal O Estado de São Paulo. Texto completo aqui: Dramaturgo renasce depois de pesadelo.
 
 
 
 
 
 
 

Apresentando uma nova e revolucionária tecnologia: o Livro!

 
Toda nova e espetacular tecnologia traz os seus próprios desafios e problemas.
 
 

 

 

The Runaways - em Sundance

 
The Runaways, o filme, com Kristen Stewart e Dakota Fanning, tem data marcada para estrear nos Estados Unidos. Em março. Por esses dias, haverá algumas exibições especiais, pela programação do Sundance Film Festival deste ano (que, aliás, começa hoje). Infelizmente, vou estar um tanto ocupado, não poderei dar uma passadinha por lá e conferir como está o resultado dessa estréia que muito estou aguardando.
 
Tenho esperança de que será um bom filme, há muita coisa a favor para isso. Começa por ser uma história bacana, que bem merece se contar: da formação e do impacto do grupo 'The Runaways', uma banda de rock dos anos setenta, formada somente por mulheres, adolescentes, na verdade. Grupo que marcou época, abriu caminhos, provou que bandas femininas podiam fazer um som com tanto peso, com tanta 'atitude' e inclusive fazer sucesso, quanto os homens. Sua carreira foi meteórica, arrasadora e curtíssima, durou poucos anos, mas continua provocando reações e continuidades até hoje. Depois da dissolução da banda, em 1979, a maioria das integrantes continuou com carreiras próprias (somente uma abandonou de vez a música, entrou para faculdade e se formou advogada!), com destaque para Joan Jett e sua carreira solo. 'The Runaways', além do som que variava e fluia entre o rock and roll e o punk rock, já causava sensação só pela sua presença e existência: eram adolescentes, com cabeça própria, mentalidade independente, compunham sua própria música e tocavam realmente de verdade. 
 
Outro dado que pode ser positivo é o fato da diretora, Floria Sigismondi, ser uma iniciante como cineasta. Ela é fotógrafa e tem uma carreira como diretora de videoclips, já trabalhou com gente do quilate de  White Stripes, David Bowie, Interpol e The Cure. Isso significa que ela estará com muita gana para se provar como diretora de Cinema. Vamos ver o que vai acontecer.
E tem as atrizes, por supuesto. Pessoalmente, estou torcendo muito para que Dakota Fanning confirme o talento e a força que traz há tanto tempo como a espetacular atriz infantil que já provou ser e consiga realizar essa complicada transição para a idade adulta. Capacidade possui, esperemos que a concretize. Para mim, ainda é um choque vê-la tão crescida, a imagem que ainda carrego é de filmes como 'Chamas da Vingança' (Man on fire', com Denzel Washington). Ela acabou de participar da saga 'Crepúsculo', em 'Lua Nova, mas isso eu não vi, e não acho que esse filme sirva como parâmetro de atuação.
 
E, claro, tem Kristen Stewart. Bonitinha, insossa, que vem do sucesso dos filmes dos emo-vampiros, e que parece estar se dedicando a se provar realmente como atriz: neste mesmo festival de filmes independentes do Sundance ela está estrelando dois filmes!: 'The Runaways' e 'Welcome to the Rileys', um drama pesado onde ela faz uma jovem problemática, moradora de rua que faz bicos como stripper, que começa a participar da vida de um casal que acabou de perder sua filha adolescente. 
 
Bom, talvez o termo 'esperança' que usei acima esteja equivocado. Estou mais ansioso do que esperançoso. Porque, no final das contas, tudo pode dar errado: a diretora pode se revelar completamente equivocada para o posto, Dakota pode fracassar como atriz séria, a insossice de Kristen Stewart pode prevalecer. Mais preocupante do que tudo, na verdade, é saber como eles vão lidar com essa história e com o que ela representa. Afinal, se para a época dos efervescentes e contestadores anos 70 já foi bem complicado reconhecer e aceitar a força de um grupo de meninas adolescentes que ousavam se impor e colocar sua música pesada, o que se dirá então de nossos tempos do carola e estupidamente empobrecedor 'politicamente correto', do moralismo cada vez mais feroz e opressor, do pensamento mesquinho e reacionário?
 
Sei lá, de repente fiquei com medo. Espero que esse filme não seja uma porcaria completa...
 
 
 
 
 
in Cinema
 
 
 
 

Skoob - Desconcerto

 
De Salvador, opa, descobri somente agora, um pequeno e gentil comentário escrito por Sandro Sorte, publicado no final do ano passado no SKOOB, sobre o meu livro de contos, 'Desconcerto'.
VAleu, Sandro
 

Para uma obra de estreia, Claudinei Vieira demonstra muita maturidade nesse livro de contos, cujo ponto máximo é mostrar os desconcertos e descaminhos da vida de inúmeros personagens, revelando o quanto de normalidade há em muitos fatos estranhos, se observarmos mais de perto. São narrativas bem construídas que nos prende a medida que avançamos na leitura. Destaco vários contos, entre os quais, “A pipa”,com um enredo aparentemente simples, uma linguagem leve, como na maioria dos seus contos, Claudinei nos mostra os receios de um garotinho e seu desejo de empinar uma pipa. Desde já, concordo com a prefaciadora Márcia Denser quando diz que Claudinei tem ainda muito a nos proporcionar com seu estilo desconcertado de analisar os fatos, “um observador poético totalmente low-profile”.

Desconcerto, Claudinei Vieira
90 páginas - Demônio Negro 
 
 
Para ver mais coisas do Sandro, no SKOOB

 

 

 

Artigo 5°

 
Paulo de Tharso avisa: ARTIGO 5°.
 
"Saiu o novo número da revista Artigo 5º. A gente tá distribuindo devagar, porque temos uma deficiência nessa área. Nós distribuímos na base do “karrega a caixa quem pode”. Vão encontrá-la Praça Roosevelt, nos Theatros, no sebo do Bactéria, no PPP, e breve, em algumas universidades. Alguns restaurantes do centro também irão recebê-las. É gratuita, é para você cidadão. Tem entrevista com José Dirceu. Acusado de liderar o mensalão do atual governo,  o ex-ministro da Casa Civil fala do dia seguinte, do financiamento de campanhas, do uso de algemas. Critica a imprensa e a Operação Satiagraha, mas diz que a PF é republicana. Tem muita coisa legal. História: O Aniversário do Muro de Berlim. Veredicto: Homossexualismo. Os dois militares que declararam sua orientação sexual continuam sendo processados. Pindorama: Programa de índio ou coisa de índio. Uma expressão carregada de preconceitos. Anistia: Bárbara Itália Méndez, espancada, seviciada, continua presa. Cidadania: O que é DPVAT? Cultura: “Os Condutores Bizantinos” de Paulo de Tharso: “A revitalização do dramaturgo Mário Bortolotto” de Luis Guerra Fortes e o texto belíssimo de Marcelo Mirisola ao amigo. E tem também “As opiácias no fluxo energético do algoz e sua vítima” por Daniel Cavana. E pra terminar a Crônica “Eu finjo, Tu finges, Ele finge” de Armando Coelho Neto.

Quem estiver interessado nos antigos números, podemos passar a coleção. É só ligar para redação:  32 372390 / 31513326."   

 

in SALVEM O FELIX 2

 

 

 

 

A cara feia e azul do Avatar

 
Independente do que se pense sobre a qualidade e o impacto das imagens de 'Avatar' de James Cameron, ou da importância ou da falta da presença de uma boa história ou roteiro, o filme recebeu críticas de vários níveis e teores, algumas sérias e embasadas, a maioria esquizofrênica ou simplesmente esquisita. Essa aqui é uma das melhores, que vi no Blog de Cine:
 
"Uma das jóias da semana: A organização 'Comunistas de San Petersburg' exigiu a prisão de James Cameron, a quem acusam de ter roubados idéias da ficção científica soviética para inclui-las no seu filme Avatar."
 
Até aí, tudo bem. Pode-se pensar o que quiser. O filme  recebeu várias acusações de plágio antes de sua estréia quando somente algumas imagens e o resumo de sua história tinham sido divulgados. Embora nenhuma tenha sido levada adiante, algumas dessas argumentações que eu vi eram bem impressionantes. Mas aqui, desses 'Comunistas de San Petersburg' o melhor é a continuação:
 
"Os adolescentes se assustam ao ver essas caras azuis, fruto da imaginação doentia de Cameron, não conseguem dormir à noite, não descansam, e em consequencia deixam nervosos seus pais. A arte deveria proporcionar beleza e não um horror azul e imagens de dissecação de pessoas em mesas de operações dos OTAN-fascistas. Cameron devia estar atrás das grades e não em cerimônias de Oscar"
 
 
No Blog de Cine há várias outras jóias ditas pelo mundo do cinema e arredores
 
 
in Cinema
 
 
 
 
 

De quando Frank Miller era bom: "Martha Washington"

 

É difícil entender o que aconteceu com Frank Miller, em que ponto virou a esquina e começou a descer a ladeira.

Na década de 80 foi um dos responsáveis por virar de cabeça para baixo a história dos quadrinhos e provou que essa indústria de massa não precisava ser idiotizante e que, mesmo utilizando elementos e personagens superheróis norteamericanos, era possivel trazer inteligência, vitalidade, sangue vivo, renovação.
 
Revitalizou e, na prática recriou um personagem secundário e o alçou à primeira linha, com roteiros exatos e instigantes com o Demolidor (um dos meus personagens preferidos de todos os tempos), criou a bela e impiedosa assassina grega Elektra e escreveu uma das mais belas histórias que conheço, 'A Queda de Murdock'. Em 1986 lançou o definitivo e retumbante 'Cavaleiro das Trevas', redefinindo daí para frente tudo e qualquer coisa que fosse relacionado ao universo dos superheróis, influenciando não só o mundo dos quadrinhos mas todas as artes integradas, em principal o cinema, que desembocaria atualmente nessa atual nova levada à sério (muito à sério) (mas não vou discutir aqui o impacto e os resultados dessas adaptações).
 
(Do outro lado do oceano, na Inglaterra, outro mestre, o mago Alan Moore também desferia chutes nos bagos, com o 'Marvelman', com o 'Monstro do Pântano', 'V de Vingança', e a melhor história em quadrinhos de toda a história, 'Watchmen', publicada exatamente na mesma época de 'Cavaleiro das Trevas'). 

Aos poucos, Miller foi perdendo o fôlego. 'Hard Boiled' é genial, 'Sin City' (apesar da premissa sensacional) é extremamente irregular, '300' é ruim e chato. Embora nada pudesse prever o lixo inominável que foi a continuação de 'Cavaleiros das Trevas', projeto que recusou durante mais de vinte anos, apesar da pressão da editora, e que acabou aceitando fazer (a pressão ou o dinheiro oferecido devem ter sido demais...).
 
Do 'Cavaleiro das Trevas 2' nada mais falo além de Lixo, Lixo. Lixo nos desenhos, na história, nas idéias. Um trabalho vergonhoso e indigno para quem já tinha feito tanto. (e sua carreira conseguiu piorar ainda mais, de modo inacreditável, quando resolveu realizar o filme do 'Spirit'! Como é possível que um quadrinista, alguém que sabe tão bem o que significa escrever um trabalho memorável, tome um personagem tão fundamental e tão completo e rico e jogue na sarjeta tão estupidamente?).
 
No começo da década de 90, Miller saiu das grandes editoras, deu um tempo com superheróis e se dedicou a projetos mais pessoais e densos. Sem dúvida, sua fama e preeminência (e, com certeza, uma boa situação financeira) lhe permitia realizar outros experimentos. Daqui surgiram 'Hard Boiled' e a série Martha Washington (e, mais tarde, 'Sin City', claro). Miller estava no auge, estava animado, e isso se reflete na sua escrita. Interessado mais em escrever do que desenhar aqui, ele fez parceria com  Geof Darrow, para 'Boiled', e com Dave Gibbons (o consagrado desenhista e co-criador de 'Watchmen') para 'GIVE ME LIBERTY', a primeira minissérie da saga de Martha Washington.
 
'Give me liberty' é ambientada em um futuro próximo e mostra um mundo dominado pelas grandes corporações e um Estados Unidos controlado por um presidente popular e proto-fascista que conseguiu manipular as instituições e reformular a Constituição, o que lhe permitiu reeleições sem limite, e desembocar em um Estado totalitário. Os grandes bolsões de miséria aumentam a instabilidade política e provocam manifestações que são violentamente reprimidas. Martha Washington (que, não por acaso, é o mesmo nome da esposa de George Washington, o primeiro presidente norte-americano) nasce e cresce em um mesmo e único bairro fechado e inacessível, na verdade um dos enormes guetos destinados à população negra do país.
 
Testemunha do brutal assassinato de um professor liberal, Martha é recolhida e passa alguns anos em um instituto para doentes mentais, do qual finalmente consegue fugir para se alistar na PAX, forças militares internacionais cuja principal missão é defender a Amazônia dos interesses capitalistas não-norte-americanos. Encarando o exército unicamente como uma forma de sobrevivência e de salário, além de um modo de colocar um pouco de equilíbrio e disciplina no caos de sua vida, ela no entanto começa a perceber as entranhas da corrupção e da violência em que se movimenta. Até o momento da ruptura e, aí sim, da verdadeira liberdade.
 
Frank Miller estava empolgado, entusiasmado mesmo. Sua cabeça fervia de idéias, montava dezenas de histórias, misturava-as, empolgava-se, deixava-se levar pela animação. 'Give me Liberty' mostra a formação de Martha, a criação de sua consciência, seu fortalecimento, e sua afirmação como pessoa independente e digna. O enredo se levantava, corria, mudava, de forma meio atabalhoada, exagerada até, o que era um tanto contrabalanceado pela arte clean, séria e sizuda (até um tanto careta) de Gibbons. Ao furacão criativo faltou um pouco de equilíbrio artístico, o que faz com que o resultado final da série não constitua uma das obras-primas de Frank Miller, mas empolga, emociona, transcende. Martha Washington é um personagem sólido e magistralmente construído e um dos pontos altos de toda a carreira do quadrinista. Mesmo quando a história se enreda em uns labirintos fantásticos, sua persona, suas reações e seu crescimento são coerentes e coesos.
 
Além do fato de ser uma grande personagem feminina negra com papel principal (posto do qual não me recordo de outros exemplos; pelo menos, não com essa importância).
 
E assim continua, com as demais séries e edições especiais (as quais, a maioria não foi publicada no Brasil) até a morte de Martha Washington, com 100 anos de idade. 
 
Se comecei acima com tom amargo, lembrando das merdas que Miller tem feito ultimamente, é com entusiasmo agora que quero me referir ao ponto principal, que é afinal o verdadeiro motivo de ter escrito esse texto: 'The Life and Times of Martha Washington in the Twenty-First Century', a publicação integral das histórias em um único volume pela editora Dark Horse. Edição soberba, de luxo, com capa dura, embutida em estojo, com 600 páginas, todas as séries incluídas, do nascimento à morte de Martha, com depoimentos de Miller e Gibbons e páginas com a arte conceitual, que nos permite 'ver' a criação de Martha. 
 
O que posso dizer? Eu quero, oras.
 
Aliás, quando foi lançado ano passado estava custando 99,95 'dólars', pela Amazon. Nesse exato momento, está em promoção (também, com esse preço, as vendas devem ter sido mínimas...). Agora está custando 'somente' 62,97 'dólars'. Desconto de 37% do valor original! (sem contar o frete, não esqueçamos).
 
Opa, então quero dois. Um para ler, mexer, manusear (quem sabe, até emprestar para amigos especiais). O outro para permanecer guardado, lacrado, mantido como um tesouro, como verdadeiramente é.
 
 
 

 in HQ

 

 

 

INVICTUS. Boa forma de Clint Eastwood em filme descartável

 
 
O esporte no cinema costuma ser encarado de duas formas principais, em geral: como maldição ou como redenção.
 
Como maldição, o esporte revela os demônios e os conflitos do pior do íntimo do ser humano. Tortura dos sentidos e contradição entre as aspirações do personagem com suas próprias limitações ou com a realidade que enfrenta. Filme clássico nesse sentido é 'Touro Indomável', com Robert de Niro, com o boxe. Outro que merece ser citado é com um jovem Paul Newman, que enfrenta o submundo dos jogos de sinuca (mais tarde, bem mais velho, Newman retoma o mesmo personagem agora em contraponto com um outro jovem ascendente da sinuca, vivido por Tom Cruise).
 
Na maior parte das vezes, o esporte é  visto como redentor. Prova de superação de problemas (pessoais, sociais, raciais), o personagem supera todas as adversidades (as suas e as do mundo), surpreende todas as baixas expectativas anteriores, tem como certa a conquista contra qualquer adversário pretensamente mais forte, mais bem preparado, melhor conduzido ou treinado, ou meramente melhor nascido. O esporte-redentor é a cara do cinema hollywoodiano e da massa norte-americana que adora adorar o herói, aquele que vence no final pois sabe que pode, basta querer e ter força de vontade. Pelo menos, na ânsia e imaginação norte-americanas e Hollywood sempre soube corresponder.
 
Em 'Invictus', o esporte é o rugby. O país é a África do Sul, no imediato pós-apartheid. O herói é Matt Damon, capitão do time de rugby, vergonhosamente derrotado, com uma campanha deplorável e em decadência. O responsável e incentivador para que o time reassuma sua posição de líder e ganhe o campeonato mundial é Nelson Mandela, isto é, Morgan Freeman. O diretor é Clint Eastwood.
 
Baseado em fatos reais, ou mais especificamente no livro-reportagem 'Playing the Enemy: Nelson Mandela and the Game That Made a Nation', do  jornalista John Carlin, retrata o momento quando Mandela, recém-eleito presidente da África do Sul depois de passar 27 anos preso, está preocupado com a divisão e a violência no país, resultantes das consequências do apartheid que, se já não existe como lei institucional ainda assim está plenamente presente no ódio e no racismo do dia a dia. A jogada de Mandela é fazer com que o decadente time nacional de rugby, cujo campeonato mundial está próximo e será sediado na própria África do Sul, seja 'adotado' por todo o país e todos os torcedores, independente da cor da sua pele ou ligação com o apartheid. Mandela / Freeman convoca então Francois Pienaar / Matt Damon para uma conversa e lhe faz ver como a conquista do campeonato pode ser importante.
 
Com essa premissa, o que se pode realmente esperar de tal filme? Diálogos e conversas motivacionais, com certeza. O herói relutante e descrente de suas forças que é convencido afinal da possibilidade da conquista suprema. Frases de efeito e líderes carismáticos. Cenas mezzo-realísticas da pobreza dos grandes bolsões de miséria do país, para fazer ainda mais contraste com as cenas de multidões de torcedores delirantes. Sem saber nada de História (do país ou desse campeonato em específico), há espaço para que o público duvide de qual vai ser o esforço de Mandela / Freeman? De como vai ser o final desse filme?
 
De tudo, o que realmente fica é a interpretação digna de Morgan Freeman (cujo sonho sempre foi fazer uma cinebiografia completa do líder africano), mesmo não fazendo muito mais do que imitar a postura e manter o tom de voz usado por Mandela, e a direção discreta, competente e muito simpática de Clint Eastwood. 

Clint, aliás, continua mantendo essa impressionante regularidade em seu trabalho, mesmo alternando momentos de baixa criatividade com outros de sublime qualidade ('Menina de Ouro' é um bom filme, nada espetacular, mas bem assistível; 'Gran Torino' é um clássico, um dos melhores de sua filmografia e do cinema norte-americano dos últimos anos; 'A Troca' também tem uma história interessante e também foi filmado com a costumeira segurança de Eastwood, além de trazer Angelina Jolie, mas é de uma chatice dolorida. Para citar só os mais recentes). 'Invictus' se coloca no meio termo. História dignificante, recheada dos clichês dos filmes de esporte redentor, com uma pitada de filme histórico com preocupação social. Não mais, nada além. Também, nada menos. Bom de assistir, moderadamente emocionante, e muito fácil de esquecer.     

 

in Cinema

 

 

 

Satã responde a Pat Robertson

 

Pat Robertson é o teleevangelista que disse em um programa que recolhia donativos e materiais de ajuda para as vítimas do terremoto no Haiti que a tragédia tinha sido resultado de um pacto que os haitianos fizeram com o Demônio. Por conta disso, todo os problemas e sofrimento, não somente com essa recente tragédia, mas em toda a sua história desde a independência.  

Robertson conseguiu, é claro, o que queria: o burburinho e a polêmica a sua volta. Chamou a atenção inclusive do próprio Demônio! que fez questão de escrever uma resposta publicada no jornal Minneapolis Star-Tribune. Obviamente, não foi o próprio que o fez. A autora chama-se Lilly Coyle, que se colocou no lugar do Demo para imaginar como ele teria reagido às declarações do evangélico. O resultado foi visto pela Cynthia Semíramis que fez o generoso trabalho de traduzir o texto em seu blog (o CIN CITY) de onde pego emprestado.

É curtinho, mas muito certeiro!

 

 

"Querido Pat Robertson,

Eu sei que você sabe que qualquer publicidade é boa publicidade, então deixe-me dizer, antes de qualquer outra coisa, que eu apreciei o comercial. E você fez Deus parecer um babaca cruel, que chuta as pessoas quando elas já estão no chão, então achei bem legal.

Mas quando você diz que o Haiti fez um pacto comigo, aí a coisa muda de figura : fica totalmente humilhante pra mim. Eu posso ser a encarnação do Mal, mas não sou nenhum moleque. Do jeito que você colocou a coisa, ficou parecendo que um pacto comigo deixa as pessoas desesperadas e empobrecidas. Tá bom, claro que deixa, mas só no além. É bom lembrar que quando eu faço um trato com as pessoas, primeiro elas ganham alguma coisa aqui na Terra : glamour, beleza, talento, dinheiro, fama, glória, um violino de ouro. Os haitianos não têm nada, e eu quero dizer nada mesmo. E já não tinham desde antes do terremoto. Você nunca assistiu a “Crossroads” ? Ou “Malditos Yankees” ? Se eu tivesse algum negócio rolando com o Haiti, pode acreditar que eles teriam montes de bancos, arranha-céus, SUVs, boates exclusivas, botox – esse tipo de coisa. Um índice de pobreza de 80% não é meu estilo, não mesmo. Nada contra, só estou dizendo : não é assim que eu trabalho.

Você vem fazendo um excelente trabalho, Pat, e eu não quero cortar suas asinhas, mas peraí, assim você me deixa mal na foto. E não quero dizer “mal” do jeito bom. Continue culpando Deus, tudo bem. Isso funciona. Mas me deixe fora disso, por favor. Do contrário, posso ser obrigado a rever seu contrato comigo.

Boa sorte"

 

in Artigos

 

 

 

 

 

Imbecilidade à toda. E em vídeo.


A imbecilidade, a mesquinhez, a má-fé, a hipocrisia, a ganância, o preconceito e a estupidez sempre fizeram parte integrante do Poder e de suas manifestações na política, na publicidade, e na mídia em geral, com maior ou menor grau de exposição.
 
A grande, a fundamental diferença para os tempos atuais é esse pequeno detalhe: a internet.
 
Com a 'entrevista' que Lúcia Hippolito tentou dar para uma rádio, percebi que já é possível montar uma pequena amostra da imbecilidade que grassa por nós e que podemos sempre voltar e ver (e se horrorizar e se divertir e ter ânsia de vômitos), pois estão registrados. Este é o meu top 6 (no momento, claro; a imbecilidade humana sempre luta para se superar) (tanto que já acrescentei mais um). 
 
 
 
Na sua ânsia de criticar o governo, Lúcia Hippolito não devia tentar dar entrevista bêbada.
 
 
 
 
José Neumanne Pinto se espanta de que os militares
não estejam fazendo nada.
 
 
 
 
Boris Casoy no hit nojento do momento
 
 
 
 
E depois Casoy complementa com um cínico 'pedido de desculpas'. Observe-se de que, na verdade, ele não se desculpa pelas suas idéias ou por suas falas, mas pelo fato de ter vazado num momento de descuido.
 
 
 
 
Mas o que considero ainda um verdadeiro clássico da imbecilidade moderna é 'Serra e os Porquinhos'
 
 
 
 
Diante do horror e da tragédia, o pastor Pat Robertson revela: "Haiti Made A Deal With The Devil". O Haiti estaria passando todo esse sofrimento porque, no passado, para conseguir sua independência dos franceses, os haitianos teriam feito um pacto com o demônio. Sofrendo, agora, portanto, as consequências. Isso durante um programa de ajuda ao Haiti!

 

update - Estava deixando esse passar. Acrescento agora. A do cônsul do Haiti no Brasil, afirmando que a desgraça de lá é até bom, pois assim eles ficam conhecidos aqui e que o problema é esse negócio da macumba que todo africano traz...

 

 

 

in Artigos

 

 

Última atualização ( Sáb, 16 de Janeiro de 2010 10:44 )

 

Sábado de Quadrinhos e Literatura e Poesia

 
 
A crescente interrelação entre os Quadrinhos e Literatura, com várias obras literárias sendo vertidas para o meio HQ, levanta cada vez mais a validade desse tipo de 'tradução'. A discussão recém-começa e o encontro 'HQ em Pauta' é um excelente ponto de partida. Realizada na Biblioteca Viriato Correa, a partir das 11:00, reúne profissionais da área, jornalistas especializados e fãs de quadrinhos, com exibição de filmes, mesas-redondas, e lançamentos.
 
Na Casa das Rosas acontece o 'Sarau da Casa' que reúne dois poetas, com bate-papo, abertura de leituras para o público. Os convidados do dia são Cláudio Daniel e Ivan Antunes. Com lançamento do livro 'Letra Negra' de Cláudio pela Arqueria Editorial.
 
Sábado recheado e bem diversificado.
 
*
 
"HQ em Pauta – Encontro de Profissionais e Leitores de Histórias em Quadrinhos vai contar com exibição de documentário, exposição, palestra, mesa-redonda, bate-papo com autores e sessões de autógrafos
 
A proliferação de quadrinhos com conteúdo histórico e com adaptações de obras literárias levanta questões que merecem um debate mais aprofundado. Se, por um lado, o poder público reconhece a importância deste tipo de leitura como material de apoio ao ensino – por meio de incentivos oficiais como o Programa Nacional Bibliotecas da Escola, do Ministério da Educação – por outro ainda há críticas de que os quadrinhos afastam os jovens leitores das obras originais.
 
Em sua primeira edição, o HQ em Pauta – Encontro de Profissionais e Leitores de Histórias em Quadrinhos – www.hqempauta.com – terá uma série de atividades voltadas para este debate.
 
O evento, gratuito, acontece no dia 16 de janeiro na Biblioteca de Literatura Fantástica Viriato Corrêa, em São Paulo, das 11h às 19h. Exibição de documentário, palestra e uma mesa-redonda estão entre as atrações. O HQ em Pauta marca também o lançamento do segundo volume da coleção História do Brasil em Quadrinhos, da Editora Europa, e que traz como tema a Proclamação da República.
 
Os autores da obra – o roteirista Edson Rossatto e os artistas Laudo Ferreira Jr. e Omar Viñole –encerram a programação com um bate-papo com os leitores seguido de sessão de autógrafos. Outros importantes profissionais dos quadrinhos, como o desenhista Spacca, o jornalista Paulo Ramos e o editor Franco de Rosa, já estão confirmados.
 
Durante o evento, acontece o lançamento da exposição História do Brasil em Quadrinhos: Proclamação da República – Bastidores e curiosidades históricas, que ficará no espaço até 28 de fevereiro.
 
HQ EM PAUTA – Encontro de profissionais e leitores de histórias em quadrinhos
Data: 16 de janeiro de 2010
Local: Biblioteca Pública Viriato Corrêa (temática em Literatura Fantástica)
Rua Sena Madureira, 298 – Vila Mariana – São Paulo
Horário: das 11h às 19h"
 
 
*
 
SARAU DA CASA
 
O Sarau da Casa, o sarau mensal da Casa das Rosas, volta com toda a intensidade – neste sábado – e abre sua programação entrevistando os poetas Claudio Daniel e Ivan Antunes, que vão ler textos autorais e compartilhar experiências com a plateia. O sarau é aberto à participação

do público, que poderá recitar poemas próprios ou de seus poetas preferidos. As inscrições para as leituras acontecerão na recepção da Casa das Rosas, durante o próprio evento.  O objetivo é valorizar a multiplicidade e a pluralidade da poesia que está sendo produzida hoje. A música também estará presente, com a apresentação do conjunto musical Jogando Tango. 
 
Poetas apresentadores: 
Frederico Barbosa,
Rui Mascarenhas e Dirceu Rodrigues
 
Poetas convidados: 
Claudio Daniel e Ivan Antunes 
 
Grupo musical: 
Jogando Tango
 
16.01 - sábado - 20h
 
Serviço:
Poiesis – Organização Social de Cultura
 
Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura
 
Av. Paulista, 37 – Tel.: (11) 3285-6986 
Próximo à Estação Brigadeiro do Metrô
 
http://www.casadasrosas-sp.org.br/ 
http://www.pontosdepoesia.blogspot.com/
 
 Livros artesanais, confeccionados e costurados à mão.
 
ARQUERIA EDITORIAL Com belo projeto gráfico da poeta Virna Teixeira, tiragem média de 60 exemplares, a proposta da editora ARQUERIA EDITORIAL une portanto a poesia e a beleza do texto com a poesia e o cuidado da manufatura. 
 
Neste sábado, 16 de janeiro, o arqueiro será o poeta Cláudio Daniel com o lançamento de  'Letra Negra'  na Casa das Rosas (Avenida Paulista, 37) a partir das 20:00 dentro do evento 'Sarau da Casa'.
 
O cuidado da editora também se reflete no seu site, que merece ser visitado: 
http://www.arqueria.wordpress.com.
 
 
in Eventos
 
 
 
 

 

 

Orbe na Trama

orbe.jpg
Entrevista do ORBE, de Hijak Skank e Orbe Petrus,  para a TRAMA VIRTUAL. Garanto que não é preciso gostar de música eletrônica, não precisa gostar nem mesmo do grupo e do seu som, para curtir (e muito) essa entrevista. Como tudo que Hijak faz (não conheço Petrus) sua ironia afiada e cáustica, uma espécie de inteligente zoeira sarcástica profunda sem deixar de ser autêntica e verdadeira (um paradoxo que só o Hijak pode explicar) (ou não) (ou talvez nem seja um paradoxo) está completamente presente aqui.
 
 
Holofote – Orbitando em campo aberto
por Claudio Szynkier

Orbe é projeto eletrônico irreverente com boas (e um tanto campestres) sacadas musicais 

13/01/2010
Ainda no ano passado, gostamos de uma música de um projeto eletrônico do qual nunca tínhamos ouvido falar. "Cantando no Capão" tem nome absolutamente coerente com o tipo de atmosfera de fim de tarde em uma primavera campestre e friazinha qualquer. É, na verdade gostamos muito sim da esperta ironia e, mais do que os timbres, do senso pop alcançado com pianos e beats standard nessa faixa. Daí que fomos atrás de quem, ou da entidade, que fez isso, e aqui está nossa entrevista-investigação com o Orbe.

União de um pernambucano com um polonês, o duo diz gostar de Angela Maria e Daft Punk, e está procurando novas propostas exóticas para apresentação:
 
"Já rolou algum show?
 
Sim, mas não chamaria de show no sentido ortodoxo da palavra, se você acha que tocar enquanto uma performer é costurada com pérolas e linha cirúrgica pelo parceiro... então beleza." - prova de que, realmente, o campo de oportunidades na música eletrônica está até que bem aberto.

Como surgiu?
 
Trabalhamos com informática há muito tempo, somos daqueles nerds de seriado americano que passa na sessão da tarde, tipo, canetas no bolso e óculos cafona, fazer o quê.... Pra relaxar e esquecer os bits (só por alguns segundos) resolvemos montar o ORBE, eu Hijak, tocava (jazz) saxofone, clarineta e flautas diversas o Petrus sempre tocou baixo e guitarra em bandas de garagem. Cansamos de música cerebral e o ORBE veio para expurgar nossos pecados cometidos em arranjos pretensiosos e que só nossa mãe curtia. Agora é nós dois e dois notebooks cheios de VST. 

Qual foi a exata inspiração para surgir?
 
A única banda que gostamos em comum é o Daft Punk o resto é pura divergência, tirando os bregas do passado que fazem parte de nossa memória afetiva. Apesar de curtimos alguns gringos que fazem eletrônica, achamos os brasileiros bem melhores, só perdemos no quesito tecnologia, os caras tem dinheiro para comprar equipamento, nós ficamos com a imaginação... 

Quem toca no Orbe?
 
Hijak Skank e Orbe Petrus - Um polonês que veio pro Brasil com um ano e um pernambucano. 

Principais influências, de ontem e hoje
 
Odair José, Daft Punk, Blush, Evaldo Braga, Bartô Galeno, Led Zeppelin, Nusrat Fateh Ali Khan, Lady Gaga, Prince, Nação Zumbi, Angela Maria e por aí vai...e afirmamos que não somos "posers" não senhor, gostamos mesmo dos supra citados, escutamos o tempo todo e outras coisas como indie inglês e algumas coisas da África e Ásia. Juro que é complicado falar de influência, nós dois somos suscetíveis pra cacete e toda hora gostamos de algo diferente, eu tenho feito um pouco de Chip Tune e o Petrus curte muito grupos de Rap nacionais...Tudo vira música no final. 

Como define o som?
 
Sem definição e sem pretensão, produzimos, nossas mulheres dançam, nossos amigos dizem "Caraca" e tá bom demais. 

Você tem algum CD ou EP gravados? Conte
 
Temos um EP pela Brechó Discos, um baita selo que lança Punk da melhor qualidade em Salvador - BA, eu praticamente me convidei para lançarmos por lá e o Wilson Santana que é tão punk que teve coragem de lançar um grupo de música eletrônica num selo não eletrônico..topou de pronto. Segundo ele o povo baixa bem o EP. Não ligamos para números. Estamos preparando o segundo EP "Music for Kids", deve ser depois do carnaval. 

O que fazer para dar certo? E o que significa dar certo no seu caso?
 
Sem essa de dar.... Nosso release conta que nossa pretensão é não ter pretensão, fazemos por diversão e é claro que se a Globo aparecer com um contrato para lançar algum disco nosso no Faustão ou o Raul Gil convidar a gente, já era... Tudo é diversão pra gente, pra quem trabalha mais de 10 horas por dia com informática, qualquer outra coisa vira pura diversão. E sinceramente, sabemos que esse "dar certo" é ter que "dar as pregas pra alguém" e isto é a única coisa que não topamos, adoramos o som comercial que toca por aí , nada contra, só não admitimos palpite, pressão e alguém dizendo o que fazer na nossa música. Já temos bastante disto no trabalho e na vida com as "patroas". 

Qual é a "cena" de vocês? Como ela se define? Com quem vocês tocam?
 
Nossa "cena" é a que nos chamam para tocar, que vai desde bar gay a freak show, sarau literário, festa em sítio de amigo doidão, rave em minas gerais, Bar Mitzvah etc e tal. Sentimos muito prazer no que fazemos, é uma droga, praticamente.... Tem uma coisa, não gostamos de "turma" e não achamos que nos enquadramos em alguma cena em particular, somos rapazes educados e simpáticos e saberíamos passar despercebidos por qualquer uma delas, mesmo por que quem fica na frente é nossa música, nossas figuras não interessa. Achamos um saco essa ordem estabelecida: 1º Ego-música, 2º Dinheiro e 3º a coitada da música. 

Já rolou algum show?
 
Sim, mas não chamaria de show no sentido ortodoxo da palavra, se você acha que tocar enquanto uma performer é costurada com pérolas e linha cirúrgica pelo parceiro... então beleza.

Planos para o futuro

Gravar e distribuir muita música na "faixa" e tocar em tudo quanto é lugar que aceitaram a gente, desde que não seja em horário comercial... Temos contas para pagar. 

 

 

 

 

Acordo resolve polêmica sobre Programa Nacional de Direitos Humanos

 
Yara Aquino 
Repórter da Agência Brasil 
13 de Janeiro de 2010 
 
Brasília - Um decreto assinado hoje (13) pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva colocou um fim nos desentendimentos entre setores militares e a pasta dos Direitos Humanos em torno da terceira versão do Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH). No decreto que cria o grupo de trabalho para elaborar o projeto de lei que instituiu a Comissão da Verdade não consta a expressão “repressão política” na parte que trata da apuração de casos de violação de direitos no contexto do regime militar.
 
Assim, o texto do decreto sobre a Comissão da Verdade não mais especifica se poderiam ser investigadas violações de direitos humanos praticadas pelos militares ou por militantes de esquerda no período da ditadura militar. A possibilidade de as investigações recaírem apenas sobre os militares que atuaram durante a ditadura foi um dos pontos que causaram descontentamento entre os militares.
 
O texto do Programa Nacional de Direitos Humanos diz que caberá à comissão “a apuração e o esclarecimento público das violações de direitos humanos praticadas no contexto da repressão política ocorrida no Brasil no período fixado pelo Artigo 8º do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição, a fim de efetivar o direito à memória e à verdade história e promover a reconciliação nacional”.
 
Agora, o decreto que cria a comissão diz que ela será formada “com mandato e prazo definidos, para examinar as violações de direitos humanos praticadas no período fixado no Artigo 8º do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição, a fim de efetivar o direito à memória e à verdade história e promover a reconciliação nacional”.
 
O decreto da terceira versão do PNDH, assinado por Lula em dezembro, continua valendo. O decreto de hoje oficializando a criação do grupo de trabalho para tratar da Comissão da Verdade. Não houve mudança do conteúdo do texto do 3º Programa Nacional de Direitos Humanos, lançado no final do ano passado.
 

Os itens que provocaram polêmica com setores do agronegócio e da Igreja Católica, por exemplo, estão todos mantidos. Várias dessas ações propostas dependem de projetos de lei. Portanto, não há garantia de que sejam aprovadas tal como propõe o texto elaborado pelo governo. 

 

Agência Brasil

 

 

 

Wallander e o fraco sorriso de Kenneth Branagh

 
 
 
Nunca pude entender direito como os livros policiais do sueco Henning Mankell podem fazer tanto sucesso.
 
E olha que fazem. Traduzido em várias línguas, também publicado aqui no Brasil, onde me parece que provoca sensação igual.
 
Decepção pessoal inesperada, pois há alguns detalhes que  me chamam atenção.
 
Gosto, por exemplo, do fato de seus livros serem baseados na Suécia; é sempre muito interessante observarmos lados e ângulos inesperados em países que, em geral, somos acostumados a considerar muito distantes de nossa realidade e que posam como uma espécie de refúgio capitalista quase paradisíaco. O romance policial é pródigo em nos proporcionar autores que revelam uma face mais dura, mais chocante, desses recantos. Lembro de uma Marselha descrita por Jean-Claude Izzo que, tudo bem, já se apresentava como uma cidade violenta e tempestuosa, mas cujo autor conseguia descer ainda mais em suas entranhas. Outro autor clássico é Jan Willem Vand De Wetering e seus livros mostravam uma Holanda bem inusitada (uma pena, suas obras há muito estão esgotadas no Brasil e não parece haver interesse algum em retomá-las, uma injustiça).
 
A questão aqui não é exatamente mostrar lances geniais de originalidade. Se isso já é uma impossibilidade humana em qualquer arte, no romance policial é ainda mais. Os policiais transitam e lidam com os clichês, utilizam-nos. O que vale, no mais de tudo, é a forma como eles são tratados, montados, escritos, apresentados. Nos dois exemplos citados acima, o que conta é a forma seca e ao mesmo tempo um tanto poética como Izzo escreve, em um contraponto bem curioso com a facilidade e uma certa 'doçura', raiando a ingenuidade mas com narrativa primorosa de De Wetering.
 
Henning Mankell não apresenta nada disso. Se usar clichês é aceitável ou inevitável, ele no entanto os usa e abusa, sem render mais nada. Sua escrita é fraca, os personagens rasos e caricatos, os argumentos partem de um terra-chão do dia-a-dia de uma realidade sueca, e rápido perdem o desejo de simplicidade fazendo com que as histórias sejam uma colcha de retalhos entre o registro policial, espionagem internacional, beirando a fantasia e a chacota. Li dois livros de Mankell, tentei um terceiro, desisti e deixei de lado.
 
Quando soube que tinham criado uma série televisiva baseada nos romances de Mankell, minha primeira reação foi de ceticismo e desconfiança. Meu preconceito contra o autor já estava arraigado e não me preocupei em alivia-lo. Aos poucos, fui conhecendo detalhes que conseguiram atiçar minha curiosidade. Quem protagoniza o detetive principal é Kenneth Branagah, um ator que respeito tremendamente (isto é, ele é capaz de interpretações fantásticas e outras ridículas e canastronas; depende do seu estado de espírito na época que estiver filmando, imagino). As histórias respeitavam as locações originais, proporcionado pela co-produção inglesa e sueca, fazendo com que os episódios fossem filmados realmente na Suécia. Portanto, boa produção, bom ator, as críticas foram muito favoráveis, Kenneth Branagh chegou a ser indicado para vários prêmios, ok, a coisa até parecia bem encaminhada. Resolvi dar uma chance.
 
'Wallander' foi concebido para ser uma mini-série fechada, com três episódios independentes (baseados em três obras diferentes) e únicos. A ótima repercussão dos episódios fez com que se assumissem como série com continuidade e estão encaminhando uma segunda temporada, com mais quatro episódios.
 
Uma grande vantagem de não ter lido os livros é o alívio de poder assistir os episódios sem
a necessidade (compulsão) de ficar comparando o tempo todo com a obra original. Tem-se assim a ambientação, reconhece-se os personagens, com liberdade e sem (muitos) pré-julgamentos. A primeira impressão do primeiro episódio, 'Sidetrack', é o impacto da música solene, séria, tensa, que já predispõe para o clima de suspense e agitação que virá (de um modo como Mankell gostaria, ou pensa que faz, em seus livros). A segunda impressão é a perfeita caracterização de Kenneth Branagh como o detetive Kurt Wallander: barba mal-feita, movimentos desleixados e desanimados, visão cínica da vida, e um sotaque carregadíssimo (com um inglês 'suecado' digamos assim) que funciona muito bem. A premissa da história é boa: uma jovem se mata tacando fogo em si mesma enquanto uma série de assassinatos estranhos vitima personalidades importantes da cidade; um e outro fato estão interligados, o que levará à descoberta de uma rede de pedofilia e abuso infantil. O desenvolvimento dessa história, no entanto, já é outra coisa. Tenho a impressão de que devem ter seguido fielmente o livro em que foi baseado, pois os pontos ridículos da trama (o assassino arranca escalpo das vítimas, um estilo nativo-indígena-norte-americano, sem propósito ou explicação convincente) e, principalmente, o final péssimo, tudo lembra muito o estilo dos livros que li.
 
O que mais me incomodou, no entanto, foi a própria caracterização de Branagh. O problema é que ele não consegue manter o mesmo ritmo e a mesma figura no filme inteiro. Aliás, falando em clichês, o detetive Kurt Wallander é recheado. Policial de meia-idade, obsessivo com a profissão, desiludido com a vida, problemas com o pai distante e adoentado, em vias de separação da mulher, com relacionamento conflituoso com a filha única (que tentara suicídio aos quinze anos), a minha única surpresa foi ele não ser alcóolatra, para completar o personagem arquetípico.   
 
Em alguns momentos de alívio na trama, quando cabe um sorriso ou até mesmo uma risada dos personagens, Wallander acaba sorrindo. Até aí, no problem. Até os durões riem. Até Clint Eastwood ri. A questão é que o que aparece é o sorriso de Branagh. Isto é, franco, caloroso, simpático. Não é o sorriso de um policial fodido e ferrado que ri a contragosto, sem vontade. Nestes segundos, a persona de Wallander é abandonada e tudo o mais fica falso e sem-graça. 
 
Com tudo isso, a minha vontade de assistir os outros dois episódios era quase nula. Mas havia pontos positivos no primeiro. Arrisquei ver pelo menos mais um. 
 
A insistência valeu a pena. Há uma melhora progressiva e muito maior segurança em toda a produção, inclusive nos roteiros e até os atores. Eu não sei se foram filmados na mesma ordem de sua exibição, a impressão é essa.
 
'Firewall', começa com uma adolescente que confessa e assume o assassinato de um motorista de táxi para roubar uns trocados. A investigação, porém faz crer que suas motivações são bem mais profundas (mais até do que o fato de ter sido estuprada por este homem, anos antes!). Branagah, agora sim, mantém Wallander o tempo todo, o enredo no geral é muito melhor, os personagens não estão caricatos. Uma pena (uma grande pena!) que a finalização seja péssima, a solução da história ridícula e ainda por cima mal realizada. Ponto feio para um episódio que vinha tão bem.
 
Em 'One Step Behind', uma turma de adolescentes é assassinada quando realizam um piquenique. E um colega policial de Wallander parece estar muito mais envolvido do que aparenta à primeira vista.A partir daí, a investigação segue duas trilhas paralelas, por um lado os assassinatos; por outro, a descoberta de que aquele policial tinha uma vida completamente insuspeitada para aqueles que pensavam que o conheciam intimamente. De novo, fico pensando se as exibições seguiram a ordem de quando foram filmados. Pois aqui, está tudo tão bem equilibrado, os maneirismos estão contidos, os atores parecem estar muito mais à vontade consigo mesmos e com os demais, a história tá bem contada. Até mesmo o final ruim e previsível (ao que se indica, isso deve ser uma característica fixa do Mankell...) não compromete o resultado final, que é mais do que digno. 

No cômputo geral, 'Wallander' é agradável, dá para assistir numa boa, o saldo é positivo. Não me fez querer ler os livros de Mankell (na verdade, só reforçou a impressão negativa que tenho dele como escritor), mas vou aguardar os próximos episódios, se não com ansiedade, pelo menos com bastante curiosidade. 

 ps. eu acabei não fazendo nenhuma referência a uma outra série de Wallander. Ela existe há anos, é de produção totalmente sueca e me parece que ainda está sendo produzida e exibida. Não faço a menor idéia se já foi exibida fora do seu país. Se houver possibilidade gostaria muito de ver e comparar os respectivos Wallander. No momento, só estou na vontade. 

 

 

 

 

Última atualização ( Qua, 13 de Janeiro de 2010 08:18 )

 

Museu em memória das vítimas da ditadura

No Chile. O país de Pinochet.
 
Há poucos dias do segundo turno da eleição presidencial (que acontece agora neste domingo), o Chile inaugurou um museu em homenagem aos mortos e desaparecidos durante a sangrenta ditadura militar no país. 
 
Sempre é bom lembrar que é o mesmo Chile que também possui um outro museu, este em homenagem ao próprio Pinochet! e que permitiu que o assassino morresse tranquilamente, sem pagar um centésimo pelos crimes que cometeu. Por outro lado, há outras iniciativas muito importantes, como uma campanha para a recolha de amostras de sangue de parentes de pessoas desaparecidas para a formação de um banco genético para ajudar a reconhecer corpos de mortos da época ainda não identificados.
 
Em dezembro, seis pessoas integrantes da ditadura, inclusive da polícia secreta de Pinochet, foram indiciados pelo assassinato do ex-presidente Eduardo Frei Montalva. Também em dezembro, o corpo do poeta e músico Victor Jara, artista mártir e símbolo da resistência contra a ditadura, foi exumado para se investigar mais a fundo as circunstâncias de sua morte (mais detalhes,  informações aqui) Os chilenos promoveram uma nova cerimônia para um enterro mais digno, já que seu enterro em 1973 foi às escondidas e fechado. A ditadura sabia da importância do artista.
 
Enquanto isso, no Brasil
 
É.
 
 
 
 
in Artigos
 
 
 
 

Tortura não é uma questão de passado

 
Falar de tortura e torturadores no Brasil não é uma questão de semântica ou de revisionismo histórico. Pelo simples fato de continuar existindo, de ser uma 'prática' comum e corriqueira, assimilada e 'reconhecida' como um 'fato' da vida, a qual uma certa visão fatalista geral quer convencer da impossibilidade de ser mudada. Nesse sentido, não houve perda de continuidade alguma em relação ao mais pesado da repressão militar. 
 
A tortura existiu, foi um crime contra a humanidade, e fator decisivo na relação de poder da repressão. A tortura continua existindo, os torturadores continuam à solta, continua sendo um fragelo contra a humanidade e um crime hediondo. Obviamente, qualquer iniciativa de se mudar essa situação logo recebe gritaria contrária e uma nojenta desqualificação do ato, na qual a parte mais imunda é a de colocar no mesmo patamar torturadores e vítimas.
 
Algumas coisas precisam ser colocadas da forma mais inequívoca possível. Torturadores são criminosos abjetos. Durante algum tempo, iniciado em 1964 e que durou duas décadas, agiram acobertados e incentivados por um Estado igualmente criminoso. Precisam ser julgados. Precisam ser condenados. Antes disso, porém, precisam simplesmente ser identificados e reconhecidos. As famílias das vítimas merecem saber quem matou ou fez desaparecer seus familiares. 
 
*
 
abaixo reproduzo uma entrevista realizada em agosto de 2009 do cientista político e analista respeitado da ONU sobre Direitos Humanos, Paulo Sérgio Pinheiro. Além das respostas coerentes e fundamentadas de Paulo Sérgio, adorei a forma singela e nada sutil das perguntas do repórter que tentou, a todo custo, desclassificar ou minimizar essas respostas. Coisas do tipo 'qual é a vantagem de se mexer nisso agora?', 'Afinal, a anistia não foi resultado de um amplo pacto?' ou 'Por que não colocar uma pedra no assunto?', (isto é, tradução minha, por que insiste em ser inconveniente?').
 
 
Tortura ainda é praticada no Brasil, diz cientista político

Para especialista, isso ocorre porque ainda não houve ruptura com a ditadura militar
 
Roldão Arruda - O Estado de S.Paulo

sábado, 22 de agosto de 2009, 16:51
 
 
SÃO PAULO - O cientista político Paulo Sérgio Pinheiro está à frente da coordenação de um seminário internacional sobre Comissão de Verdade, que será realizado pela USP no mês de outubro, em São Paulo. Embora o objetivo do encontro, com especialistas de diversas partes do mundo, seja avaliar os erros e acertos das comissões, existe a expectativa de que ela forneça uma espécie de roteiro para o governo federal por em andamento, a partir de 2010, uma comissão de verdade para apurar crimes de tortura, sequestro, morte e desaparecimento nos anos da ditadura militar – a exemplo do que ocorreu no Chile e na Argentina. Essa comissão também discutiria a Lei de Anistia, de 1979, que, na interpretação em vigor no País, teria atingido também os agentes do Estado que violaram direitos humanos.
 
Pinheiro foi secretário de Direitos Humanos no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Hoje atua como relator da ONU e é um dos brasileiros mais conhecidos no exterior na área de direitos humanos. Já foi designado para o cargo de relator especial, em situações de graves tensões, no Burundi e em Mianmar. Também participou de comissões de verdade em Togo e no Timor Leste. Na entrevista abaixo, ele afirma categoricamente que as torturas e as execuções sumárias continuam sendo praticadas no Brasil, apesar do Estado democrático. Isso ocorre, em sua opinião, porque ainda não houve uma ruptura com a ditadura militar. Ela virá quando os crimes forem esclarecidos. “Para haver uma ruptura dessas práticas, temos que promover o acerto de contas com o passado”, afirma.
 
A seguir, os principais trechos da entrevista com o especialista:
 
O senhor é um dos coordenadores do seminário internacional sobre comissões de verdade, que vai acontecer em São Paulo em outubro. Sabe-se que um dos objetivos do seminário é refletir sobre as dificuldades do Brasil a respeito do esclarecimento de crimes de tortura, sequestro e desaparecimento de opositores do regime militar. Por que está interessado nesta questão?
 
A reconstituição da verdade histórica em relação aos crimes de lesa humanidade cometidos durante a ditadura militar, tais como a tortura, os sequestros, desaparecimentos e execuções arbitrárias, é uma questão que me preocupa há bastante tempo. O Brasil tem uma longa prática de não reconstituição da verdade. Um dos exemplos disso, já no período republicano, é o do Estado Novo. Nunca o Estado brasileiro se preocupou em investigar as responsabilidades dos torturadores naquele período, nem reconstituir a verdade dos milhares de condenados pela ditadura getulista. As poucas coisas que existem sobre as violações de direitos humanos na época são os livros Memórias do Cárcere, Subterrâneos da Liberdade e algumas outras memórias.
 
 
E qual a razão para se fazer uma comissão de verdade agora? Não seria melhor por uma pedra sobre o passado e olhar para a frente?
 
A tortura e as execuções sumárias continuam sendo praticadas no Brasil, por maus policiais civis e militares, mesmo sob o regime democrático. Não existe em todo o mundo, nos países democráticos, uma polícia que mate tanto, cometa tantas execuções sumárias quanto a do Rio de Janeiro. Estou convencido de que se não houver um acerto de contas, com a reconstituição da verdade sobre os crimes da ditadura, isso vai continuar acontecendo.
 
 
Por quê?
 
Um dos ingredientes para que a tortura continue é que não a descolamos da ditadura de 1964. No Brasil sempre houve tortura. Entre 1946 e 1964 os negros, os afrodescendentes, os réus mais pobres foram torturados à vontade. A novidade após o golpe de 1964 é que retornamos às práticas do Estado Novo, quando os brancos, pessoas da classe média e das elites, também foram presas, massacradas, torturadas. Quando acaba a ditadura de 64, nossa classe, as elites param de ser torturadas, mas os que já eram torturados antes continuaram enfrentando as salas de tortura. Para haver uma ruptura dessas práticas, temos que promover algum acerto de contas com o passado, nem que seja só a reconstituição da verdade – o que é tarefa da academia, dos intelectuais, de instituições internacionais.
 
 
As comissões de verdade costumam levar à responsabilização dos autores dos crimes cometidos. O senhor não acha que no Brasil essa questão foi encerrada com a Lei da Anistia, trinta anos atrás? Afirma-se que a lei decorreu de um pacto visando a reconciliação nacional.
 
Que pacto? Quem pactuou com quem? Ninguém pactuou nada. O projeto de anistia ampla, geral e irrestrita foi derrubado no Congresso. A lei aprovada é uma lei de autoanistia, determinada pela ditadura militar e carimbada por um congresso ilegítimo, num estado de exceção. Não houve pacto. Não me lembro de ter sido consultado.
 
 
Parece que hoje há uma facilidade maior para exigir a apuração da verdade.
 
Na verdade, a normativa internacional andou bastante nos últimos trinta anos. Existem julgados da Corte Interamericana de Direitos Humanos contra a autoanistia que são irretorquíveis. Também já existe uma boa jurisprudência sobre o assunto na Corte Europeia. Hoje está cada vez mais difícil sustentar que os crimes ‘conexos’ de que fala a Lei de Anistia de 1979 são os crimes cometidos por militares. Até onde eu entendo, essa conexão ocorre no interior dos crimes políticos. Os crimes perpetrados pelos funcionários do Estado não foram crimes políticos, mas sim crimes praticados por funcionários assalariados, agentes do Estado autoritário. O que vimos aqui, insisto, foi autoanistia.
 
 
Não teria sido uma anistia para os dois lados?
 
Essa interpretação já era patética em 1979. Hoje, diante da inserção plena do Brasil na normatividade internacional, ela também é anacrônica e escandalosa. Quais são os dois lados? Pelo que eu sei, de um lado estavam os criminosos, os agentes do Estado repressor. E do outro lado estavam os que cometiam crimes políticos, cuja compreensão está imensamente estabelecida na normativa internacional e nas leis brasileiras.
 
 
O caso está sendo analisado no Supremo Tribunal Federal. O que acha que pode acontecer?
 
Não tenho bola de cristal. Mas acho problemático o STF coonestar essa interpretação anacrônica da lei, validando a autoanistia. Se isso ocorrer, a necessidade do direito à verdade continua. O melhor seria se a suprema corte do País não validasse a autoanistia, deixando que as cortes, os tribunais civis decidissem. Na Argentina, é graças ao Judiciário civil que vários oficiais comandantes das juntas estão em cana. Mas não é só na Argentina. Em vários outros países o Judiciário tem sido mais atuante que no Brasil, levando os ditadores para a prisão. Aqui todos morreram em sua beatitude, todos intocáveis.
 
 
Toda vez que se fala na reconstituição de fatos, como o esclarecimento dos casos de opositores políticos cujos corpos nunca foram devolvidos às famílias, alega-se que não existem mais arquivos sobre o período.
 
Só quem acredita em histórias da carochinha é que pode acreditar que todos os documentos militares foram queimados. Se foram, quero ver as atas com as determinações para que fosse feita essa fogueira geral. Não é possível não ter nenhum documento entre 1964 e 1985. Os arquivos existem e seria excelente se as forças armadas fizessem um esforço para abri-los, pagando seu débito com o País.
 
 
Qual vantagem o País teria ao revirar esses arquivos?
 
Não é um problema de vantagem. O que está em primeiro lugar, a questão primordial, validada na normativa internacional, é o direito que os familiares dos mortos e desaparecidos tem à verdade. O que ocorreu com os seus familiares? Como morreram? Onde estão os corpos? Em segundo lugar, uma democracia como a brasileira não pode continuar convivendo com a não verdade, para não dizer a mentira, sobre o que ocorreu efetivamente entre 1964 e 1985, em termos de tortura, desaparecimentos, mortes, sequestros. A sociedade tem o direito à verdade. A verdade é um valor positivo em si. Pouco importa se vai trazer vantagem ou não.
 
 
O seminário que o senhor está ajudando a coordenar pode estimular a criação de uma comissão de verdade no Brasil?
 
O que nós pretendemos é que saiam dali ideias e propostas para um programa de reconstrução da verdade, com a participação acadêmica e sem os erros verificados nas dezenas de comissões de verdade que já surgiram no mundo. Não temos nenhuma pretensão de julgar pessoas. O nós queremos é que o Brasil deixe essa infantilidade de continuar convivendo com uma interpretação do passado que não corresponde, a essa altura do campeonato, com tudo que se sabe. Queremos saber o que houve com o pai do escritor Marcelo Rubens Paiva. Queremos reconstituir a história dos professores da USP que foram cassados e dos alunos assassinados pela ditadura.
 
 
O seminário pode preparar um esboço de projeto de comissão de verdade para o governo?
 

Não vamos preparar nenhum projeto. Não seria nosso papel. Podemos oferecer pistas e sugestões. 

 

in Artigos

 

 

 

Meigo Bico

 

 

 

 

 

Orelha de Claudinei Vieira - revista MUITO: Entrevista completa

 
Quando comecei a responder as perguntas enviadas por e-mail pela Kátia Abreu para serem publicadas no encarte Orelha da Revista MUITO, do jornal A Tarde, de Salvador, eu já tinha consciência de minha prolixidade, portanto sabia bem que os editores iriam suar para editarem o texto sem mutilar o sentido. A revista foi publicada e considero que o trabalho foi bem feito (e aproveito para agradecer mais uma vez à Kátia e à revista pela oportunidade).
 
Publico aqui a entrevista completa, sem edição, para quem tiver a curiosidade.
 
Queria começar falando sobre o que aconteceu com Mario Bortolloto e de como o tratamento da imprensa ao fato despertou a sua indignação, e de outros autores. Estamos sendo devorados pela ignorância?
 
Bortolotto sofreu a primeira violência quando foi baleado com quatro tiros e, se não fosse pela presteza dos amigos presentes, teria morrido. Ao que tudo indica, sua situação está bem estável, os médicos estão otimistas, e felizmente deve sobreviver. A segunda grande violência foi a moral, quando uma mídia rasteira noticia o fato e faz conexões irrelevantes sobre seu trabalho e sua vida, levando o leitor e o expectador de telejornal comuns a conclusões errôneas ou simplesmente mentirosas.
 
Funciona mais ou menos assim: a reportagem começa falando da tentativa de assalto, da reação de Bortolotto e os tiros. Aí fala da importância do dramaturgo, da quantidade de peças que escreveu e montou, e do seu estilo diferenciado, e em geral repete-se que suas influências são os quadrinhos, o rock, e o cinema. Isso não está errado, claro, mesmo sendo simplista, mas o fato dessa frase ser repetida em quase todos os jornais que eu li evidencia o detalhe simples de que esses jornalistas não conhecem do que estão falando, portanto, não podem acrescentar mais nada. Para terminar a matéria, destacam a 'curiosidade' suprema do nome do blog do Mário ('Atire no Dramaturgo') e da peça em cartaz ('Brutal'). Ainda lembro da cara de um apresentador de telejornal quando enfatizou a palavra 'Brutal' e fez uma pausa final, para que o expectador captasse toda a 'ironia' da situação. O rosto ficou impassível e sério, mas a 'mensagem' estava mais do que clara: 'com tais nomes e tal atitude (afinal, Bortolotto estava em um bar às 5 horas da manhã, não é mesmo?) não era quase inevitável que isso acontecesse, mais cedo ou mais tarde?' Esse tipo de insinuação, velada e envergonhada, é a pior pois vem travestida de elogio no início do discurso.
 
Estamos todos sempre cercados pela ignorância, pela indiferença, pela violência (física, psicológica, moral), a hipocrisia. Há os que conseguem furar esse muro tacanho e nos mostrar realidades escondidas e botar o dedo na ferida. Mário Bortolotto é desses. Existe uma tremenda coerência entre seu trabalho (as peças, a música, o blog, seus livros) e sua atitude e pensamento do dia-a-dia. E suas referências são muito mais amplas e, ao mesmo tempo, mais profundas do que meramente 'quadrinhos, rock e cinema'. O grupo de teatro que montou, 'Cemitério de Automóveis' é uma homenagem ao dramaturgo espanhol Fernando Arrabal. 'Atire no Dramaturgo' reverencia um livro clássico de romance policial, 'Atire no Pianista', de David Goodis, e que também virou um belo filme francês. 'Brutal' fala de um grupo de pessoas perdidas, sem rumo na vida, que acabam se rendendo a um líder religioso e das consequências que disso advém. 
 
Suas peças não falam de violência em si, muito menos fazem pregação de violência gratuita. Seu universo é o de pessoas deslocadas, que tentam se manter (ou são colocadas) à margem de uma sociedade fútil e vazia, e estão à procura de um estado de espírito, de alguma coisa que quase nunca sabem o que é, que até pode ser chamada 'felicidade', mesmo que essa felicidade seja muito particular, como a de poder tomar sozinho uma cerveja sossegado em um bar. 
 
O escritor Márcio Américo rebateu a ignorância da mídia com um texto magnífico no seu blog 'Meninos de Kichute', com muito melhor propriedade do que eu. 
 
 
 
Seu livro tem praticamente o mesmo nome do blog, Desconcerto, qual a relação entre os dois?
 
Um é a continuidade, o desenvolvimento e amplitude do outro. E vice-versa.
 
O livro veio primeiro. Foi escrito há muitos anos e ficou rolando entre envios para editoras (nenhuma aceitou), participações em concursos (nunca consegui nada), tentativas de auto-publicação (não concretizadas), durante bastante tempo. Hoje posso dizer com bastante tranquilidade: Ainda bem que nenhum editor ficou interessado em publicar! Isso me obrigou a revisá-lo, reescrevê-lo, remontá-lo. Refiná-lo. Se realmente ficou bom (tenho tido algum retorno, lido e ouvido algumas opiniões, que me permitem pensar isso), cabe ao leitor julgar. 
Enquanto ruminava minha não-publicação, comecei a escrever para a internet, com resenhas, crônicas, e comentários, para vários sites de literatura e cultura, em geral sobre livros, cinema, e teatro e, ao mesmo tempo, organizava encontros com escritores, entrevistas públicas, saraus, debates literários. Percebi logo que havia um espaço tremendo pela internet que poderia ser usado muito bem para divulgar meu trabalho, retomar minha escrita, conhecer pessoas, trocar impressões, organizar e inventar eventos. Enfim, fazer arte a partir do que sei fazer, escrever. Foi natural usar o nome 'Desconcertos' quando criei o meu blog. Dessa forma, ficaram bem conhecidos alguns eventos de literatura e poesia que promovi, os principais foram os 'Desconcertos na Esquina', realizados em uma livraria muito simpática aqui em São Paulo; os 'Desconcertos na Paulista' na famosa Casa das Rosas, importante centro de cultura paulistana; os 'Desconcertos de Poesia na Roosevelt', um belo encontro de artistas que transitam pela Praça Roosevelt e realizados no Sebo do Bac, no teatro Satyros II. Quando afinal publiquei o livro de contos mantive, claro, o nome; só fiz questão de deixar o título no singular para expressar o fato de ser uma obra em específico, enquanto que o blog fica no plural para reforçar sua variedade de temas e interessantes. 
 
E acho que já deu. No meu próximo livro, vou erradicar a palavra 'desconcerto', seja no plural ou no singular!
 
 
 
Li um artigo seu, interessante,  na Cronópios,"O futuro da narrativa no ciberespaço".  O que você, como leitor, acompanha de literatura nesse não-lugar? O que o impressiona positivamente?
 
É preciso, antes de mais nada, diferenciar duas coisas: a literatura produzida e visualizada na internet, e a literatura e as artes produzidas e criadas pela internet. 
 
Por um lado, a migração da literatura e da cultura para os meios virtuais é facilmente reconhecida. A multiplicação de sites, blogs, revistas virtuais, e mais recentemente, os sites de relacionamento virtuais imediatos como facebooks e twitters, é a face mais óbvia e escancarada de que a comunicação e a troca de informações atingiram um nível inimaginável (ou só concebivel em ficção científica) até poucos anos atrás. Tudo o que já foi produzido, escrito, e criado em qualquer tipo de arte até hoje está sendo transposto, acumulado, realocado para os meios do ciberespaço. Nesse sentido, o que ocorre é uma mera mudança de suporte de leitura. Pode-se tomar toda a obra de Shakespeare, Cecília Meirelles, Guimarães Rosa, sei lá, todo e qualquer autor, tudo o que já foi realizado em todos os tempos, e transportá-lo para um cenário onde o computador pode oferecer uma gama vasta para o enriquecimento da percepção e compreensão da obra. O objeto literário em si permanece intocado, mas acompanhado agora por uma velocidade e facilidade de resposta, de pesquisa e o acréscimo de outros sentidos, como o visual e o auditivo. Portanto, o que vale aqui é a praticidade, a possibilidade de interação (ou com o autor ou com demais leitores) e a plasticidade. 
 
Alguns sites com um projeto gráfico simples muito importantes que não podem deixar de citados são a Verbo 21 (um ponto de encontro cultural virtual que já está no ar há vários anos!), a Grumo, que faz um cruzamento entre artes brasileira e argentina, o Germina, com sua apresentação impecável, o Escritoras Suicidas (que está para lançar um livro de antologia com textos das autoras, e homens-com-pseudônimo, que participam do site), a venezuela muito bem produzida Plátano Verde, a mexicana Blanco Móvil (cuja revista impressa estará completando 25 anos em 2010 e está disponibilizando o seu acervo pelo site). Com sofisticado e belíssimo projeto gráfico, o Cronópios marca história na literatura nacional em web, assim como a antologia online 'Enter' que reúne escritores, poetas, artistas plásticos, quadrinhos, em um ambiente que potencializa o poder da escrita e da imagem, misturando textos, sons, e filmes. Qualquer tipo de listagem é injusta e incompleta, sei que estou deixando de lado sites importantes (sem falar nos blogs), não há como, sigamos em frente.
 
Esse é um lado.
 
O outro lado é mais complicado de se reconhecer, por ser mais sutil, está ainda em gestação e os caminhos que podem ser tomados ainda são uma incógnita: o texto, a literatura, a cultura, que surgem por conta de nossa relação com a internet e dos aparatos técnicos proporcionados pela informática. No artigo que escrevi para o Cronópios, um comentário do livro 'Hamlet no Holodeck', de Jane Murray, cito umas experiências realizadas ainda pouco antes da explosão mundial de blogs, como 'The Spot', uma narrativa voltada para o erotismo de alguns jovens que passam férias em uma casa de campo. Pelo site podia-se acompanhar o 'diário' de cada dos participantes, inclusive com a possibilidade de intervir, deixando recados, dando conselhos ou avisos, coisas do tipo. Em outra experiência, literariamente muito mais relevante, chamada 'Afternoom', a narrativa começava com um bloco que dizia "Eu quero dizer que posso ter visto meu filho morrer hoje" e prosseguia por vários outros blocos desconexos que podia levar a várias interpretações conforme a ordem que o leitor lesse.
 
De qualquer modo, o que importa dizer é que já estamos em um mundo que mudou nossa percepção da realidade e quer queiramos ou não está modificando nossa forma de conviver, de criar e fomentar cultura em geral, e literatura em particular. Como disse, o que vem por aí é uma incógnita, mas a simples expectativa já é muito excitante.
 
 
 
Alternativas editoriais, como a Demônio Negro, indicam novo horizonte na cena literária nacional?
 
Antes de mais nada, a 'Demônio Negro' e sua proposta de publicação por demanda, com edições limitadas e impressão de novos exemplares somente com a existência de procura, é uma resposta, corrresponde a uma necessidade e realidade do presente. Principalmente em um país como o Brasil, com escassa formação e hábito de leitura, com tiragens irrisórias, e péssimo tratamento reservado aos escritores. O escritor é um ser estranho na cultura nacional. Vender três mil exemplares é um sucesso absoluto; se houver outra edição é praticamente um 'bestseller'. O que a 'Demônio Negro' representa é a percepção de que não adianta imprimir milhares de exemplares, se 90% disso acaba encalhando, tomando tempo e custo. A publicação por demanda é uma garantia viável de que exista o objeto, o livro, sem exageros ou sacrifícios nem por parte do autor quanto do editor.
 
O surgimento e a proliferação de centenas de pequenas e micro-editoras, a facilidade de abertura de blogs e sites, a publicação de livros online (como fez a escritora mineira Milena de Almeida, por exemplo, no recente e simplesmente belíssimo 'Da gastrite e da ira' http://www.dagastriteedaira.com/), tudo faz parte do mesmo processo. 
 
 
 
O roteirista, o cara de cinema, se impõe em sua vida? Como a literatura compõe seu perfil?
 
Sou, acima de tudo, um escritor. Demorei para assumir isso (até para mim mesmo) porque, inocente e besta, considerava que o que fazia pela internet não era 'literatura'. Seria, no máximo, divulgação. Percebo agora a bobagem. Sei que não dependo de uma publicação em papel para me realizar como artista. 
 
Agora, o que compõe minha cabeça, meu pensamento e minha escrita vai bem além do papel e da tela do computador. As artes se complementam, se misturam, não tenho medo de experimentar, e tenho a paixão como fermento. A paixão pelo cinema, absoluta e plena, não só pela escrita de roteiro, mas igualmente pela filmagem, montagem e edição (tenho alguns curtas montados, de ficção e documentário); a poesia, artes plásticas, o estudo da História (fui estudante da USP), a política, cerveja e noitadas com amigos, bate-papo, quadrinhos, literatura clássica, novidades tecnológicas, tudo faz parte do mesmo pacote. 
 
O que costumo dizer (e está no 'manifesto' com que costumo abrir o meu blog) é que, no principal, Literatura, Cinema e História são os três eixos da minha vida funcional e acredito que estes três elementos possam ser trabalhados com absoluta consanguinidade. Ao escrever contos ou ao academizar a literatura e o Fazer cinematografia ou ao ler resenhas ou ao produzir as minhas ou ao pensar historicamente o Fato literário ou o impacto cinematográfico ou o momento filosófico ou o ente histórico ou ao escrevinhar história com qualidade, gozo e êxtase literário. Não há becos sem saída, fora os produzidos por nós mesmos. Não existem gaiolas mentais fora as que nós mesmos construímos. Não há compartimentos estanques, somente os nossos próprios medos. É por estes três elementos que estou batalhando. Provavelmente, será por causa deles que morrerei de fome já que dinheiro, fama e prosperidade são artigos um pouco mais complicados.

 

 

 

 

Anistia dos torturadores da ditadura militar

 
Carta do cineasta Silvio Tendler ao Ministro da  Defesa Nelson Jobim
 
 
Ao Ministro da Defesa Exmo. Dr. Nelson Jobim
 
Invado sua caixa de mensagem pedindo atenção  para um tema que trata do futuro, não do passado.  O Sr. me conhece pessoalmente e lembra-se de  que quando fui Secretário de Cultura de Brasília,  no ano de 1996, o Sr. era Ministro da Justiça e  instituiu e deu no Festival de Cinema Brasília um  prêmio para o filme que melhor abordasse a  questão dos Direitos Humanos. Era uma  preocupação comum a nossa. 
 
Por que me dirijo agora ao senhor? Um punhado  de cidadãos - hoje somos mais de dez mil -  assinamos um manifesto afirmando que os  envolvidos em crimes de tortura em nome do  Estado Brasileiro devem ser julgados e punidos  por seus atos, contrários aos mais elementares  sentimentos da nacionalidade. Agimos em nome  da intransigente defesa dos direitos humanos. O  Sr., Ministro da Defesa, homem comprometido  com a ordem democrática, eminente advogado  constitucionalista, um dos redatores e subscritores  da Constituição de 1988, hoje em ação  concertada com os comandantes das forças  armadas, condena a iniciativa de punir  torturadores pelos crimes que cometeram. 
 
Este gesto, na prática, resulta em dar proteção a  bandidos que desonraram a farda que vestiam ao  torturar, estuprar, roubar, enriquecer ilicitamente  sempre agindo em nome das instituições que  juraram defender. É incompreensível que o nosso  futuro democrático seja posto em risco para  acobertar crimes praticados por bandidos o que  reforça a sensação de impunidade. Ao contrário  do que afirmam os defensores da impunidade dos  torturadores. O que está em juízo não é o  julgamento das forças armadas, como afirmam os  que as querem arrastar para o lodo moral que  mergulharam. Agora pretendem proteger sua  impunidade, camuflados corporativamente em  nome da honra da instituição.
 
Um pouco de história não faz mal a ninguém. Não  está em questão que para consumar o golpe de  64, os chefes militares de então tiveram que  expurgar das forças armadas milhares de homens  entre oficiais, sub-oficiais e praças cujo único  crime foi defender o regime constitucional do país.  Afastaram da vida política brasileira expressivas  lideranças, cassando direitos políticos e mandatos  parlamentares ou sindicais. Empurraram milhares  de cidadãos, na imensa maioria jovens, para a  ação clandestina que desembocou na luta armada. 
 
De qualquer maneira os golpistas de 64 protegidos  pela lei de anistia não serão anistiados pela  história. Fecharam e cercaram o Congresso  Nacional. Inventaram a excrescência chamada de  Senador Biônico para não perder, pelo voto, o  controle do Senado em plena ditadura militar. Os  chefes militares podem ficar tranqüilos que seus  antecessores não irão para a cadeia pelos crimes  que cometeram contra um país, contra uma  geração inteira, a minha, que desaprendeu a falar e  pensar em liberdade. Nada disso está em juízo.  Vinte e cinco anos depois de iniciada a transição  democrática, o que está em juízo não é o processo  de anistia política. 
 
Tranqüilize seus colegas militares, ministro. O  regime militar não está sendo julgado pela quebra  do sistema público de saúde ou pela quebra do  sistema educacional. Estamos pedindo a punição  contra criminosos comuns por crimes de lesa  humanidade. Queremos o julgamento e  condenação da prática de crimes hediondos. Só  isso. Assusta a quem? Em nome do quê o Brasil  será eternamente refém de bandidos? O que  justifica acobertar crimes condenados por todos  os códigos, normas e tribunais internacionais em  matéria de direitos humanos? O Sr. deve estar se  perguntando o porquê do meu empenho nesta  causa. Vou lhe contar.
 
Despontei pra a vida adulta baixo a ditadura  militar. Em 1964, tinha 14 anos e cresci sob o  signo do medo. Sou de uma família de judeus  liberais, meu pai advogado e minha mãe médica.  Invoco as raízes judaicas porque meus pais eram  muito marcados pelo holocausto, pelos crimes  nazistas cometidos contra a humanidade.  Tínhamos muito medo das soluções autoritárias.  Eu queria viver num país livre e tinha sentimentos  de profunda repugnância a ditaduras. Meus  amigos também eram assim. Participei de  passeatas, diretórios estudantis e cineclubes.  Queria derrubar a ditadura fazendo filmes.  Acreditava que era possível. Em 1969, um  companheiro de Cineclubismo seqüestrou um  avião para Cuba. Não tive nada a ver com isso.  Desconhecia as intenções e a organização do  seqüestro. Meu crime foi ser amigo – sim, meu  crime foi o de ser amigo de um seqüestrador.  Quase fui preso e morreria na tortura sem falar,  não por ato de bravura, mas por absoluto  desconhecimento de causa. Não pertencia a  nenhuma organização revolucionária. Não sabia  nada sobre o seqüestro. 
 
Escapei dessa situação pela coragem pessoal de  minha mãe que driblou os imbecis fardados que  foram me prender e consegui fugir de casa nas  barbas da turma do Ministério da Aeronáutica  que, naquele momento, ao invés de dedicar-se a  cumprir sua missão constitucional de proteger  nossas fronteiras, prendiam, torturavam e matavam  estudantes. Tive também a ajuda do Coronel  Aviador Afrânio Aguiar que empenhou-se até a  medula para que não fosse preso e massacrado na  Aeronáutica. A ele dedico meu filme mais recente  "Utopia e Barbárie". Sem ele, dificilmente estaria  contando essa história hoje aqui. Outras pessoas  também me ajudaram a sair vivo dessa história  mas como não tenho autorização para citá-los e  estão vivos, guardo nomes e lembranças no  coração.
 
Em 1970 fui viver no Chile por livre e espontânea  vontade. Saí do Brasil legalmente com passaporte,  ainda que tenha ido ao DOPS explicar por que  saía do Brasil. Eles sabiam as razões pelas quais  saía (como é cantado na música, "Não queria  morrer de susto, bala ou vício"). Em Janeiro de  1971,do Chile, mandei uma carta para minha mãe,  trazida por uma portadora, senhora de boa cepa,  que fora visitar o filho no exílio em um gesto  humanitário se ofereceu, ingenuamente, para trazer  correspondência para os familiares dos exilados.  O gesto lhe custou prisão e "maus tratos" nas  dependências da aeronáutica. Na carta pedia a  minha mãe que me enviasse livros e minha máquina  de escrever. A carta foi entregue em Copacabana  por militares do Doi-Codi que arrombaram minha  casa, arrombaram móveis a procura de  metralhadora (Assim entenderam "máquina de  escrever"). Minha mãe foi levada para o quartel da  PE na Barão de Mesquita, onde foi humilhada e  um dos "patriotas"que a conduziu assumiu de  forma permanente a guarda do relógio que entrou  com ela na PE e não voltou para casa. Amigos  ocultos numa rede de gente decente ajudaram a  tirar minha mãe daquela filial verde oliva do  inferno. 
 
Sim ministro, havia muita gente decente nas forças  armadas ou que gravitavam em torno dela e que  faziam o que podiam para ajudar pessoas. A  maioria, prefere, até hoje, não revelar seus gestos  por medo dos que praticando atos dignos dos  piores momentos da máfia intimidam e atemorizam  pessoas de bem. Pior do que o relógio foi o  destino do ex-deputado Rubens Paiva que foi  preso no mesmo dia e nunca mais encontrado. Os  senhores fazem muita questão mesmo de proteger  os canalhas que seqüestraram e assassinaram o  ex-deputado pelo crime de ter recebido  correspondência pessoal de exilados no Chile? A  quem interessa essa “Omertá"? Ministro, para  esses crimes não há justificativa e menos O que  leva a chefes militares e o Ministro da Defesa a se  pronunciarem contra a apuração de crimes?  Tortura, estupro, morte, muitas vezes seguido de  roubo, são atos políticos passíveis de anistia?
 
Desculpe a franqueza, mas não consigo entender.  Em nome do futuro democrático do Brasil , espero  que a banda podre, montada no Dragão da  Maldade, não saia vitoriosa. 
 
Os chefes militares pronunciam-se a favor do  pagamento de reparações às vitimas do arbítrio  como um ato indenizatório. Pagamento este feito  com recursos públicos desviado de finalidades  mais nobres para ressarcir prejuízos causados por  canalhas que deveriam ter seus bens confiscados e  pagarem com recursos próprios os crimes que  cometeram. Muitas empresas que se locupletaram  durante a ditadura e inclusive financiaram o  aparato repressivo poderiam participar dessas  indenizações. No meu caso, ministro, posso lhe  dizer que não há dinheiro que feche essa conta.  Não pedi anistia nem indenização porque acho  que não sou merecedor (nunca fui exilado, nunca  me apresentei assim). E vivo bem com meu  trabalho de cineasta há quarenta anos e professor  universitário há 31. Se fosse pago com recursos  dos bandidos, aceitaria de bom grado. Recursos  públicos não. Cada centavo que aceitasse, me  sentiria roubando de uma criança ou de um  homem ou uma mulher humildes que precisam  mais desse dinheiro numa escola pública, num  posto médico, do que eu. Não recrimino quem,  por necessidade ou sentimento de justiça, o faça. 
 
A reparação que peço é a punição exemplar dos  torturadores da minha mãe. O senhor há de  concordar que não estou pedindo muito nem nada  despropositado. E quando digo que penso no  futuro e não no passado é porque a punição  exemplar de criminosos desestimulará semelhantes  práticas no futuro e terá uma função pedagógica  para os que caiam em tentação de uso indevido  dos poderes do Estado, que entendam que não  vivemos no país da impunidade.Justiça, peço  apenas justiça.
 
Bom 2010 para o sr.
 
Atenciosamente,
Silvio Tendler
 
P.S. Falamos de tanta coisa mas esquecemos de  comentar dois crimes cometidos depois de 1979  que já não estariam cobertos pela lei de anistia: O  assassinato de D. Lyda Monteiro da Silva,  secretaria do Presidente da OAB, a mutilação do  jornalista José Ribamar em 1980 e, em 1981, a  bomba que explodiu no Riocentro que causou a  morte de um sargento e graves ferimento no  Capitão. Imagino que enquanto advogado, o  quanto lhe repugna o assassinato da secretária do  Presidente da OAB e a mutilação de um jornalista.  Tantos anos decorridos, talvez ainda seja possível  descobrir "os comunistas" responsáveis pela  bomba do Riocentro, como concluiu o  vexaminoso IPM instaurado na ocasião. 
 
Por falar em comunistas, movimento que  condenava a luta armada, o que dizer do  assassinato do jornalista Wladimir Herzog, do  operário Manoel Fiel Filho e do desaparecimento  do dirigente Davi Capistrano? Seus assassinos  terão imagem, nome e sobrenome ou continuarão  protegidos por este exército das sombras?
 
Silvio Tendler
 
 
DIGA NÃO À ANISTIA PARA OS  TORTURADORES, SEQUESTRADORES E  ASSASSINOS DOS OPOSITORES À  DITADURA MILITAR.
 
Se você concorda conosco, complete o  formulário assinando a petição que é enviada para  os ministros do Supremo Tribunal Federal e para  o Procurador Geral da República.
 
 
http://www.ajd.org.br/contraanistia_port.php
 
 
 
in Artigos
 
 
 
 
 
 
 

Skiff Reader. O livro digital agora é real.

 
 
 
 
A guerra dos aparelhos de leitura digital, os livros digitais, e-readers, acaba de ganhar um adversário feroz.
 
 
  
 
 
 
 
 
 
 
 
O Skiff Reader apresenta como armas uma alta resolução de imagem, tecnologia 3G, facilidade de manuseio, e acima de tudo, tela flexível! (algo que as pessoas não muito ligadas em tecnologia achavam que seria ficção científica ou que demoraria muitos anos para chegar; hum, tolinhas...).
Para Claudinei Vieira, sonho de consumo absurdo, total, absoluto!
 
 
 
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MORTE – A FESTA

 
Para quem conhece o universo Sandman, o episódio é arquiconhecido. O Senhor dos Sonhos entra no Inferno disposto a lutar com Lúcifer, o Príncipe da Luz, para recuperar a alma de sua antiga amada. No entanto, ao chegar nas terras tenebrosas, encontra tudo vazio, abandonado. Lúcifer desistiu de ser dono do Inferno! Está cansado. Fechou a conta. Esvaziou seus domínios, expulsou as almas e todos os demônios que ali habitavam e está acabando de fechar os últimos portões quando Sonho se aproxima. Aproveita para lhe pedir que corte suas asas celestiais: agora, ele vai curtir uma vida de ermitão de meia-idade no litoral (que tem toda a cara de ser a Califórnia) e nunca mais voltará. Antes de partir, seu último gesto soberano: entrega a chave do reino para Sandman. Ele que faça o que quiser com ela. 
 
Sandman é o novo rei de um reino triste e esvaziado. E ainda ouve de Lúcifer, quando este vai embora: “A chave é sua agora, Senhor dos Sonhos. Talvez isto vá te destruir. Talvez, não. Mas, duvido que sua vida se torne mais fácil!”
 
O que fará Sonho com tal poder? Ninguém sabe. Nem o próprio. Enquanto tenta decidir, começam a chegar diversas delegações reivindicando a chave para si, com toda série de propostas, presentes ou ameaças: de Odin e seu filho Thor, acompanhado de Loki Skywalker, Filho dos Gigantes; Anúbis, Senhora dos Mortos do Delta do Nilo; Azazel, formalmente um príncipe do Inferno, além de outros. E também os anjos Remiel e Duma que vieram... observar.
 
Pois bem. Como disse, essa história é antiga e os velhos leitores da saga de Morpheus, o Senhor dos Sonhos, sabem muito bem como isso termina. Acontece que um certo detalhe no meio dessa bagunça nunca havia sido revelado anteriormente: afinal de contas, para onde foram todas aquelas almas subitamente libertas da eterna prisão infernal? Ora, elas foram realizar seus desígnios últimos, foram para onde havia Luz, dirigiram-se para a ultima coisa conhecida que viram antes de irem pagar suas penas. Em outras palavras, para a casa da querida irmã de Sandman, a Morte!
 
Subitamente, Death vê sua cuidada e bonita casinha invadida por milhares de almas perdidas procurando por um caminho e que a cada segundo vão aumentando cada vez mais. Com uma pequena ajuda de suas irmãs Despair (Desespero) e Delirium (Delírio), precisa dar um jeito de distrair as almas enquanto sai para trabalhar. Cuidando para que os “convidados” sejam “alimentados” e ninguém faça muita sujeira no carpete, nem destrua a mobília! E torcendo para que seu irmão decida logo o que vai fazer da vida. E da morte.
 
“A FESTA” é uma hilária e muito bem sacada adaptação do universo dos Perpétuos realizada por Jill Thompson, ganhadora do prestigiadíssimo Prêmio Will Eisner de HQ e fã ardorosa do trabalho do genial Neil Gaiman.
 
Thompson traçou perfeitamente os personagens, trazendo humor e agitação sem perder em nada suas características originais: Death está tão sensual, lúcida, carismática e inteligente como sempre; Delírio está perfeita como uma criança maluca e não a costumeira adolescente, como geralmente é apresentada; e vemos um inesperado affair de Desespero com ninguém menos que Edgar Allan Poe!
 
E os desenhos ainda trazem um inusitado sabor a mais: estão no formato de mangá. É uma perspectiva bem diferente e, para dizer a verdade é bem esquisito. Não sei se me acostumei, não; creio que continuo preferindo os traços e desenhos e arte originais. Mas, de qualquer modo, isso não atrapalha o prazer da leitura. 

Além do que, Death, nossa querida Morte, está aqui, com todo seu charme. Em plena ação.  E isso valeu tudo.

 

in HQ

 

 

 

 

Abertura dos arquivos da ditadura

 
Decreto publicado ontem (dia 06 de janeiro) no Boletim Oficial determina 'a abertura dos arquivos da ditadura militar no país com a retirada da classificação de 'segurança' de toda a documentação e informação relacionadas às Forças Armadas no período entre 1976 e 1983'. 
 
Isso na Argentina, governo Cristina Kirchner.
 
Aliás, vejo nesse momento que a Argentina acabou de aplicar uma multa de 27 milhões de dólares à filial da empresa Telefónica. A Telefónica de lá não comunicou às autoridades (passando por cima das leis antitrustes do país) sobre algumas mudanças no controle acionário da empresa, o que poderia simplesmente afetar todo o mercado de telecomunicações. 
 
Enquanto isso
 
- No Brasil a simples menção da possibilidade de se abrir a discussão sobre a anistia e de se pesquisar sobre o abuso e as torturas praticadas durante nossa Ditadura provoca arrepios e atitudes indignadas de pessoas que não tem o mínimo interesse em que isso seja apurado e sempre levanta a nojenta argumentação de que se trataria de um 'revanchismo';
 
Enquanto isso
 
- o truculento Erasmo Dias morre por câncer aos 85 anos de idade sem nunca ter sido questionado por sua atuação criminosa nessa mesma Ditadura e seu corpo foi velado (portanto, com honras) na Assembléia Legislativa de São Paulo;
 
Enquanto isso
 
- os camponeses que participaram da Guerrilha do Araguaia e que já tiveram reconhecidos seus direitos de indenização por conta da repressão militar  durante a Ditadura, tiveram as indenizações bloqueadas por uma decisão da Justiça Federal do Rio de Janeiro e correm o risco de não receberem;
 
Enquanto isso
 
- a 'nossa' Telefónica faz o que faz por aqui, é campeã nacional de reclamações no Procon, e é 'vigiada' por um órgão chamado Anatel que supostamente deveria fiscalizá-la. 
 
 
 
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