Início

Oscar de simpatia. Não mais. Nem menos.

 
É possível que daqui a alguns anos, 2010 possa ser reconhecido como um marco na história da cinematografia hollywodiana, um verdadeiro divisor de águas. Quem sabe, os rumos do cinema mundial possam estar sendo definidos agora, e sentiremos verdadeiramente seus efeitos mais pra frente. O 3D pode ser a salvação de um determinado pensamento de se fazer filmes (e seus respectivos executivos) ou pode ser somente uma bolha de exibição que logo será estourada e novamente ultrapassada pelos tantos caminhos 'alternativos' oferecidos pela expansão tecnológica e pelo 'trabalho' de hackers e piratas e usuários comuns e velhos expectadores e novíssima audiência. 
 
James Cameron poderia ter definido a história neste exato momento. Se em seu imenso afâ e dedicação de descobrir novas tecnologias visuais para se contar uma mesma história houvesse também se dedicado a construir uma narrativa melhor elaborada, seu trabalho teria sido inigualável. Não o fez. Não quis ou não pôde, ocupado que esteve com suas prerrogativas e empecilhos técnicos. O resultado foi um filme que todos reconhecem ser um desbunde sensacional, uma força visual esplendorosa, mas que provoca uma sensação difícil de ser definida, mas que tento por  'falta de alguma coisa'. Pode não ser uma definição muito objetiva. No entanto, tenho certeza absoluta que qualquer pessoa que saia do cinema depois de assistir 'Avatar' compartilha essa mesma sensação comigo, mesmo que não a tenha consciente.  'Falta alguma coisa'. Posso ser, sim, mais objetivo, e dizer que faltou uma melhor história, faltou a vontade de se ter uma melhor história, deslumbrado que estava Cameron com suas possibilidades técnico-visuais. Uma pena.
 
A situação que temos, portanto, com o Oscar 2010 é a da mediocridade geral. E, acreditem, não estou falando no mau sentido. Na verdade, estou sendo positivo. Em anos passados, houve ocasiões que foi terrível assistir à cerimônia porque a maioria dos filmes era simplesmente péssima. Desta vez, temos um leque de opções extremamente variada e, devo dizer, a maioria muito boa. Não espetacular, nada histórico. Boa. Simpática. 2010 é o reino dos filmes simpáticos.
 
Vamos dar uma passada rápida pelas indicações (bem rápida, a cerimônia está para começar) para explicar melhor essa tal 'simpatia'.
 
 

Filme

Amor Sem Escalas , Jason Reitman
Avatar , James Cameron
Bastardos Inglórios , Quentin Tarantino
Distrito 9 , Neill Bloomkamp
Educação , Lone Scherfig
Guerra ao Terror , Kathryn Bigelow
Um Homem Sério, Joel e Ethan Coen
Preciosa , Lee Daniels
Um Sonho Possível , John Lee Hancock
Up, Pete Docter e Bob Peterson
 
- Já se falou bastante do fato do Brasil ter simplesmente ignorado 'Guerra ao Terror' a ponto de nem exibi-lo no cinema e lançá-lo diretamente em dvd. Uma burrada homérica, sem dúvida, mas deve-se dizer que não foi exclusividade brasileira. Muita gente não apostava nele. Mesmo nos Estados Unidos até há pouco tempo, a maior aposta para se contrapor a 'Avatar' estava sendo 'Amor sem Escalas'. A progressão de 'Guerra ao Terror' (e a decadência de 'Amor sem escalas') foi progressiva e lenta, a conquista dos prêmios foi contínua e ascendente. Podia-se perceber perfeitamente o tom de surpresa nos artigos e comentários norte-americanos nessa sua ascensão. Neste exato momento, é o franco favorito e é muito engraçado observar como se faz essa reavaliação, e como (de repente) o fato de ter sido dirigido por uma mulher tomou importância. O 'detalhe' de Kathryn Bigelow ser a ex-mulher de Cameron ajudou a criar esse climinha de concorrência (coisa que 'Amor sem escala' não teria feito), para agitar uma cerimônia que, de outro modo, estava morna demais.
 
De qualquer forma, 'Guerra ao Terror'  é um bom filme. E só. Ouvi dizer que chegaram a chama-lo de o 'Apocalipse Now' moderno, o que é um exagero absurdo e desnecessário. A direção de Bigelow é segura e forte, a história é interessante e bem contada, de um ponto de vista diferente e inusitado, mas não oferece (nem pretende) maiores reflexões nem sobre a presença norte-americana no Iraque, nem sobre  o impacto sobre seus soldados, nem mesmo induz a uma profunda reavaliação do ser humano frente às guerras. Bons momentos de suspense, boa condução narrativa, bom desenvolvimento de personagens. Simpatia e eficiência. 
 
Saindo desses dois contendores principais, dessa lista o único filme realmente empolgante e desafiador, finamente realizado, com proposta diferenciada, o único com qualidade real para se ganhar um Oscar de Filme é 'Bastardos Inglórios'. Não vai ser dessa vez que Tarantino será reconhecido como o cineasta mais inventivo e impactante destes últimos tempos. Ainda é jovem, terá outras oportunidades, mas é pena que ainda seja visto como um enfant terrible, somente.
 
'Distrito 9' realizado com muito menos recursos, mas com muita habilidade e competência, bate fácil, fácil, como história, como narrativa, Avatar. Os efeitos especiais não são espetaculares? E daí? É muito mais emocionante, mais impactante, perdura muito mais tempo na cabeça do expectador. De 'Bastardos' e 'Distrito 9' falei com mais vagar e detalhes. 'Educação' me surpreendeu muito. Devo dizer que minha expectativa era bem baixa. No final das contas, revelou-se muito mais simpático e interessante do que eu pensava, o roteiro de Nick Hornby é bacana, mais contido do que em geral dos seus trabalhos, os diálogos afiados ao estilo britânico, a atriz Carey Mulligan é linda, muito solta e expressiva. Absurdo, no entanto, que tenha recebido esse destaque em detrimento do infinitamente melhor '500 Dias com Ela'. 
 
Por motivos completamente opostos, não consegui assistir até o final nem 'Um Sonho Possível' nem 'Preciosa'.  Um é a futilidade no mais alto grau, apesar da presença extremamente carismática de Sandra Bullock. Outro é um soco no estômago, o mundo cão de um modo que enjoa os sentidos. Assisti o suficiente para sentir a força da atuação de um elenco excepcional. Do que vi, no entanto, fiquei com a impressão de uma direção por demais exagerada, sufocante, com o fervor da intenção de chocar. Não tenho o direito de emitir minha opinião, tenho que assistir tudo, mas confesso que não consegui.
 
De 'Up - Altas Aventuras' também já falei: os quinze primeiros minutos são um curta clássico. Ele só não se sustenta como longa-metragem, se perde nos clichês e na falta de imaginação. 'Um Homem Sério' é um equívoco dos irmãos Cohen. Filme irritante, sem propósito, sem saída. Os Cohen continuam uma dupla infernal, possuem domínio da filmagem, cada novo filme é um prazer inusitado. Menos 'Um Homem Sério'!, por favor. 
 
- 'Guerra ao Terror' ou 'Avatar'? A balança tende para esses dois, na minha opinião com leve (levíssima) vantagem para 'Guerra'. Em verdade, chega a ser quase indiferente essa premiação. Esse Oscar não vai determinar, de forma alguma, o futuro do cinema hollywodiano. Filmes independentes e de pouco orçamento continuarão a serem realizados, enquanto as grandes produtoras estão correndo loucas para aproveitar a onda do 3D e só pararão se houver uma reação negativa ou amorfa do público.  
 
 

Direção

James Cameron, Avatar 
Jason Reitman, Amor Sem Escalas 
Kathryn Bigelow, Guerra ao Terror 
Lee Daniels, Preciosa 
Quentin Tarantino, Bastardos Inglórios 
 
Tarantino deveria ganhar com o melhor trabalho de sua carreira. Kathryn Bigelow vai levar.
 
 

Ator

Colin Firth, Direito de Amar
George Clooney, Amor Sem Escalas 
Jeff Bridges, Coração Louco
Jeremy Renner, Guerra ao Terror 
Morgan Freeman, Invictus 
 
Mais uma barbada, em um filme irritantemente convencional, quadrado e sem graça. Jeff Bridges está soberbo, em um papel sem grandeza, em um filme fraco. 
 
Jeremy Renner está bem, mas uma indicação para 'Melhor Ator' é um exagero tremendo. George Clooney está cada vez mais George Clooney (e isso foi um elogio) e Morgan Freeman faz um Morgan-Freeman-que-imita-Mandela (comentei aqui). Não assisti 'Direito de Amar', e também não tive muito vontade de fazê-lo.
 
 

Atriz

Carey Mulligan, Educação 
Gabourey Sidibe, Preciosa 
Helen Mirren, The Last Station
Meryl Streep, Julie & Julia 
Sandra Bullock, Um Sonho Possível 
 
Sandra Bullock, por certo. Na verdade, torço por ela. O filme pode ser uma porcaria, mas a simpatia de Sandra é contagiante
 
 

Atriz coadjuvante

Anna Kendrick, Amor Sem Escalas 
Maggie Gyllenhaal, Coração Louco
Mo'Nique, Preciosa 
Penélope Cruz, Nine 
Vera Farmiga, Amor Sem Escalas 
 
Nenhuma dúvida. Mo´Nique. Será merecido, mesmo em um páreo duríssimo, como nesse ano. Vera Farmiga e Anna Kendrick estão sensacionais, uma pena não terem nenhuma chance; Gyllenhaal é uma atriz soberba, o filme não ajuda, porém. A indicação de Penélope Cruz, apesar de deslumbrante e carismática, foi um exagero.
 
 

Ator coadjuvante

Christoph Waltz, Bastardos Inglórios 
Christopher Plummer, The Last Station
Matt Damon, Invictus 
Stanley Tucci, Um Olhar do Paraíso 
Woody Harrelson, O Mensageiro 
 
Se não fosse a presença de Christoph Waltz, poderíamos até discutir. Se ele não ganhar, nunca mais assisto o Oscar na minha vida. Ouviu, Hollywood?! Não estou brincando!
 
 

Roteiro original

                                                                    Bob Peterson, Up 
Ethan Coen, Joel Coen, Um Homem Sério
Mark Boal, Guerra ao Terror 
Oren Moverman, O Mensageiro 
Quentin Tarantino, Bastardos Inglórios 
 
Deve ser o único prêmio do 'Bastardos Inglórios'. E aqui se localiza uma outra grande injustiça: o roteiro primoroso de '500 dias com ela' não ter sido sequer indicado, sacanagem.
 
 

Roteiro adaptado

Armando Iannucci, Jesse Armstrong, Simon Blackwell, Tony Roche, In The Loop 
Geoffrey Fletcher, Preciosa 
Jason Reitman e Sheldon Turner, Amor Sem Escalas 
Neill Blomkamp e Terri Tatchell, Distrito 9 
Nick Hornby, Educação 
 
Talvez a única grande incógnita desse Oscar. 'Amor sem escalas' ganhou o Globo de Ouro'. 'Preciosa' conseguiu o prêmio dos Roteiristas, o Writers Guild of America. São todos os cinco ótimos roteiros. Não dou palpite. Precisaria ler os livros para apreciar a adaptação.
 
 

Filme em língua estrangeira

Ajami (Israel)
A Fita Branca  (Alemanha)
Um Profeta (França)
O Segredo dos Seus Olhos (Argentina)
A Teta Assustada  (Peru)
 
Ao que tudo indica, 'A Fita Branca' deve levar. Aqui repito o comentário que fiz acima em relação aos irmãos Cohen: a óbvia maestria do trabalho e o apuro das imagens de Michael Haneke dão a impressão de que o filme é melhor (e tem mais propósito e mais sentido) que realmente é. O fato de 'A fita branca' oferecer tantas possibilidades de interpretação é porque, na verdade, as pessoas projetam sua própria perspectiva sobre o filme e tiram suas próprias conclusões. Em alguns casos, em filmes clássicos, isso acontece pela riqueza e profundidade oferecidas pelo cineasta. Neste caso, 'A fita branca', só nos oferece o vazio e por isso podemos colar a ele qualquer sentido que queiramos. Qualquer coisa vale. Visualmente bonito, falsamente instigante, o filme de Haneke engana bem, mas é o seu pior da carreira.
 
'A Teta Assustada' é uma surpresa. Como um filme tão ruim pode marcar tanta presença e fazer furor até em Cannes?! 
 
 

Filme de animação

Coraline e o Mundo Secreto , Henry Selick
Fantástico Sr. Raposo , Wes Anderson
A Princesa e o Sapo , Ron Clements e John Musker
Up - Altas Aventuras , Pete Docter e Bob Peterson
The Secret of Kells, Tomm Moore
 
Os quinze minutos iniciais de Up bate todos os outros filmes.
 

Fotografia

Avatar, Mauro Fiore 
Bastardos Inglórios, Robert Richardson 
A Fita Branca , Christian Berger
Guerra ao Terror, Barry Ackroyd 
Harry Potter e o Enigma do Príncipe , Bruno Delbonnel
 
 
Categoria complicada. Gosto muito do trabalho em 'Harry Potter'; Em Bastados e em Guerra também é bem realizado, mas convencional, ao final das contas. O preto e branco em 'A Fita Branca' é primoroso, no entanto, fascinante, um dos melhores trabalhos que já vi em muitos anos, sem dúvida a melhor coisa do filme de Haneke. 'Avatar' vai levar, claro. 
 
 

Montagem

Avatar, Stephen Rivkin, John Refua e James Cameron
Distrito 9, Julian Clarke
Guerra ao Terror, Bob Murawski e Chris Innis
Bastardos Inglórios, Sally Menke
Preciosa, Joe Klotz
 
'Distrito 9' e 'Preciosa' são de longe as melhores montagens. 'Avatar' vai levar.
 
 

Direção de arte e cenários

 Avatar , Rick Carter e Robert Stromberg (direção de arte), Kim Sinclair (cenografia)

O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus , Dave Warren e Anastasia Masaro (direção de arte); Caroline Smith, (cenografia)
Nine , John Myhre(direção de arte); Gordon Sim, (cenografia)
Sherlock Holmes , Sarah Greenwood(direção de arte); Katie Spencer, (cenografia)
The Young Victoria, Patrice Vermette(direção de arte); Maggie Gray, (cenografia)
 
'Avatar'
 
 

Figurinos

Brilho de uma Paixão, Janet Patterson 
Coco Antes de Chanel , Catherine Leterrier
O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus , Monique Prudhomme
Nine , Colleen Atwood
The Young Victoria, Sandy Powell
 
'Coco'. Nenhuma qualidade do filme em si. Só porque fala da modista.
 
 

Maquiagem

Il Divo , Aldo Signoretti and Vittorio Sodano
Star Trek , Barney Burman, Mindy Hall and Joel Harlow
The Young Victoria, Jon Henry Gordon and Jenny Shircore
 
Só vi 'Star Trek'. Maquiagem convencional. 
 
 

Trilha sonora

Avatar , James Horner
O Fantástico Sr. Raposo , Alexandre Desplat
Guerra ao Terror , Marco Beltrami and Buck Sanders
Sherlock Holmes , Hans Zimmer
Up , Michael Giacchino
 
O fato de não ter nenhum musical concorrendo dá nisso: indicações bizarras: 'Avatar'?? 'Guerra ao Terror'?? 'Sherlock Holmes'?? 'A Princesa e o Sapo' tem duas indicações para Melhor Música, mas não Melhor Trilha?? Fala sério. Nem quero palpitar.
 
 

Canção

"Almost There", de A Princesa e o Sapo 
Randy Newman (música e letra)
"Down in New Orleans", de A Princesa e o Sapo 
Randy Newman (música e letra)
"Loin de Paname", de Paris 36
Reinhardt Wagner (música), Frank Thomas (letra)
"Take It All", de Nine 
Maury Yeston (música e letra)
"The Weary Kind", de Coração Louco 
Ryan Bingham e T Bone Burnett (música e letra)
 
Passo.
 
 

Edição de som, Mixagem de Som, Efeitos Visuais

'Avatar'. Sem discussão.
 

Documentário em longa-metragem e Documentário em curta-metragem

Passo
 

Curta-metragem de animação

O melhor desse ano em matéria de curta de animação é o fato de que estão todos disponíveis para assistir pelo mundo virtual, é só procurar. 
 
 
 
- ok. Vamos ver o que vai acontecer.
 
 
 

 

 

Oscar 2010 goes to... Disconcerts! Obviamente.

 

 
 
A cerimônia da entrega do Oscar é a maior festa brega do planeta. É a demonstração cabal e absoluta da boçalidade, babaquice, arrogância e breguice dos norte-americanos elevada à enésima potência e transmitida para o mundo todo. É a vangloriação e endeusamento de uma indústria de importância nacional (cinema nos Estados Unidos é uma questão de Estado) que se impõe e arrocha as demais culturas de outros paises. E eles se adoram se mostrar tão idiotas e prepotentes (através de suas roupas, através de suas falas [as eternas alusões e piadinhas que somente os norte-americanos podem entender e que são o terror dos tradutores simultâneos], através da demonstração escancarada de luxo do mais puro mau-gosto). De vez em quando, tentam adotar uma postura mais ‘séria’, no que se tornam mais ridículos ainda (como quando privilegiaram artistas negros, querendo dizer que o racismo havia terminado, pelo menos no cinema). No entanto, são somente lapsos. No ano seguinte, eles voltam ao normal.
 
E eu adoro! Sou viciado. Há muitos anos não perco um sequer. E faço todo o cerimonial: assisto todos os filmes indicados, pego as listas, faço os palpites, vou marcando à medida que os ganhadores são anunciados para saber se acertei ou não, tudo envolvido com bastante pipoca e coca-cola. Infelizmente, minha pipoca é feita com óleo normal de cozinha ou manteiga, ao invés da gordura de porco entupida de colesterol utilizada pelos norte-americanos, mas tudo bem, nem tudo é perfeito.
 
Algumas pessoas, alguns amigos, se surpreendem e indagam como eu, que tenho uma certa inteligência e um certo bom-gosto e um certo discernimento e gosto de cinema europeu, chinês, coreano, iraniano, brasileiro, e filmes-de-arte (seja lá o que isso for...) e independentes, perguntam como posso gostar de cinemão norte-americano. 
 
Bueno, eu poderia responder que minha cultura cinematográfica foi totalmente moldada e construída pelo cinema de Hollywood desde a minha mais tenra infância, através dos cinemas de bairro e pela televisão (aliás, também sou fanático pelas séries e sitcoms), e que isso não me impede de apreciar outros tipos de propostas e idéias. Poderia responder também que, na verdade, há sim muita coisa boa neste cinemão, nem que seja pelo mais absoluto desejo de simplesmente se evadir da realidade com filmes idiotas, pois isso também é uma função primordial do cinema (perdão aí para os que acham que cinema só pode ser de arte [seja lá o que isso for] e ‘cabeça’). Poderia responder inclusive que isso também não me impede de perceber toda a carga da questão político-ideológica que o cinema norte-americano carrega e que é tão bem expressa pela cerimônia.
 
Poderia acrescentar que, fora esse lado escapista e de pura diversão (afinal está-se falando de uma indústria assumida dedicada ao entretenimento), entre o muito do que é produzido algo escapa e, vez em quando, obras impressionantes acabam sendo produzidas. Em geral, esse último tipo não é representado nem reconhecido pelo mercado dos Estados Unidos e dirige-se para os seus nichos específicos, como os festivais independentes, ou temáticos. Mas, ás vezes se impõem ao stablishment hollywoodiano e se destacam. 
 
Poderia responder e acrescentar tudo isso. E em geral é o que faço. Mas agora só na próxima segunda-feira. Depois da entrega, neste domingo, dia 07 de março. Com licença, agora vou verificar se estou devidamente abastecido de milho pra pipoca.
 
*
 
Como se sabe, a entrega do Oscar este ano está com várias modificações, nesta sua eterna e quase sempre frustrada tentativa de tornar a cerimônia mais leve e divertida, menos chata e solene. A categoria de Melhor Filme está com dez indicados, como era hábito há muitos anos atrás, embora todos saibamos que somente dois estão disputando de verdade, 'Guerra ao Terror' e 'Avatar'. Os demais servem só como vitrine para melhorar os negócios (a mera indicação do filme já valoriza tremendamente a produção e serve como moeda de troca para futuras negociações) e também para dizer que Hollywood presta atenção a todos os tipos de cinema. 
 
Desta vez, não haverá mais a execução das músicas indicadas à melhor canção, o que deve dar um certo ganho de tempo para encurtar a cerimônia (e o gasto de produção), mas duvido que isso seja sentido ou sequer lembrado pela noite como um todo. A única idéia que considerei realmente interessante (falta saber se será eficaz) é a tentativa de se acabar com o momento mais terrivelmente chato, arrastado e constrangedor de todo o Oscar: os agradecimentos. Para a noite de 07 de março, os ganhadores subirão para receber o prêmio e dizer somente o quanto isso foi importante. Depois de descer do palco, falarão para uma câmera exclusiva e dedicada para os agradecimentos formais, pessoais e familiares e aí poderão falar dos pais, das mães, dos amigos, dos produtores, dos periquitos e afins, e este depoimento será disponibilizado pela internet. Ok. Sem comentários. Vamos ver o que vai acontecer.
 
A apresentação será dividida este ano entre Alec Baldwin e Steve Martin e, apesar de curtir sua presença, vou sentir falta de Hugh Jackman que no ano passado me surpreendeu e fez uma das melhores apresentações de que tenho memória. Uma pena que não esteja de volta. 
 
*
 
É isso. Daqui a pouco falarei dos filmes, farei meus palpites e firmarei minha torcida. 
 
 
 
in Cinema
 
 
 
 

O anônimo célebre

 
 
Quer se tornar famoso, ficar na mente das pessoas, ser admirado, lembrado, desejado, invejado? Quer sair da humilhante condição de anônimo, de não ser ninguém, de ser esquecido antes mesmo de ser conhecido?
 
Então estude, memorize, planeje. Saiba como usar a palavra correta, a gíria do momento, a roupa certa. Tenha os contatos verdadeiros, não perca oportunidades, não marque bobeira. Fique antenado, plugado, sintonizado. Mantenha a postura, respire direito, faça anotações, utilize exemplos, recorte as manchetes, lembre das frases, palavras, gestos dos que já conquistaram a formosa posição de célebres e estão por lá.
 
Recolha as lágrimas, não se permita uma vida pessoal, não seja brega (aliás, esqueça esta palavra). Seja humano com muito cuidado, só quando tiver absoluta certeza de que ninguém está observando. 
 
Qual a melhor forma de manter a imagem? Fazer o tipo decadente ainda está em alta? Ser toxicômano, alcoólatra, bater em jornalista intrometido, xingar as mulheres, desprezar os atos de caridade? Não importa que você não beba, nem fume! Espalhe cinzas de cigarro, molhe a camisa de brandy, vinho, fique por dentro dos piores palavrões. Eles vão adorar.
 
É melhor ser conhecido como o maior garanhão que já existiu ou fazer a estonteante confissão de que, apesar de tudo, ainda é virgem? Ou então, uma morte súbita, um acidente famoso, no auge da carreira?
 
Cuide-se! Contrate (além, é claro, de uma secretária, um agente, um advogado, um assessor de imprensa, um empresário, um cabeleireiro e um maquiador) os seguintes assessores: cultural, de terminologia, de tribos, de imagens, um personal stylist, um personal trainer, um art divisor, um personal shopper, um professor de dicção, um astrólogo, um psicólogo, um autografador de fotos, um assessor de patrocínios, de merchandising, de bonés, um respondedor de cartas. 
 
Não cometa gafes. Preste atenção:
 
"Uma pessoa famosa jamais escolhe pratos em um cardápio. Ela sempre sabe, é informada, lhe oferecem uma coisa especial que o chef acabou de criar, ou criou apenas para privilegiados. Ter o cardápio nas mãos é revelar que você não é alguém que conta. É um ser desprezível, um cliente comum". 
 
Ou, então, tenha um assessor especializado em gafes.
 
A literatura de Loyola Brandão nunca é simples; ele pega fundo. "O Anônimo Célebre" é um genial romance / manual / guia / ensaio que retoma a mesma estrutura desenvolvida em dos seus maiores livros, "Zero". Mas não é uma mera repetição. Ele moderniza, atualiza todos os conceitos que já haviam sido expressos, mas agora colocados neste mundo onde imperam a imagem, o fortuito, o passageiro, os famosos minutos de fama que todo mundo teria, conforme disse Andy Warhol, ele mesmo um arauto bem consciente dessa fugidia modernidade.
 
Aliás, é interessante observar como Brandão mantém uma linha coerente de pensamento ao longo de sua obra. Mesmo que ele reclame, em entrevista para o Cadernos de Literatura Brasileira publicado em junho de 2001, de que os críticos nunca conseguiram atentar para a intercomunibilidade que existe entre seus livros: "Há referências que passam de um texto para o outro. Há personagens de um livro que reaparecem rapidamente em outro. Há situações vistas de ângulos diferentes. Há ruas, casas, que se repetem. Quantos perceberam, quantos percebem?". Talvez poucos, mas esta não é a maior questão.
 
Antonio Hohfeldt, em um ensaio publicado nestes mesmos Cadernos sobre "Zero" e "Não Verás País Nenhum", demonstra a imensa ligação que une estas obras, a primeira publicada em 1974 (na Itália, porque foi proibida no Brasil, pela ditadura) e a segunda, uma ficção cientifica profundamente mórbida e pessimista do Brasil em 1981, configurando assim, um ciclo completo. Mostra, mais do que isso, sua absoluta atualidade. Hohfeldt diz que "surpreendemo-nos hoje quando, lendo esses romances, encontramo-los tão contemporâneos, tão oportunos e exatos como se acabassem de ter sido escritos". Certíssimo!
 
Ora, Brandão, ao captar o mais absurdamente atual, o eternamente fugaz, acaba realizando um balanço pessoal não somente da nossa realidade, mas de toda a sua obra também. Se, nestes livros anteriores, há uma visão antecipatória de um futuro incerto, mais próximo de nós em "Zero" e relativamente mais distante em "Não Verás País Nenhum", "O Anônimo Célebre" pega pelo outro lado e imobiliza o momento presente. Não há como não pensar que, afinal de contas, este é finalmente o mundo visualizado já nas décadas de 70 e 80. Estamos em um verdadeiro ponto de chegada. E o resultado não é nada otimista.
 
"O Anônimo Célebre" constitui-se, assim, em uma das mais importantes obras de sua carreira, e com certeza uma das mais divertidas. Tendo dito isto, necessito consignar a minha frustração com o final. Brandão utiliza uma solução que enfraquece o livro como um todo e interfere com as premissas que haviam sido cuidadosamente colocadas. Acredito que algumas pessoas até podem gostar da revelação-surpresa, mas não deixará de ser uma triste simplificação.
 
É mérito de Brandão, apesar disso, conseguir ainda assim manter uma posição aberta a vários caminhos e interpretações. É o sinal de que sua obra, ao mesmo tempo que cacofônica, multifacetada e complexa, é única e permanente. 
 
*
Há uma razão a mais para voltar a falar desse livro, como fiz quando de sua publicação em 2002. Com o título de “Anonymous celebrity”, Brandão está concorrendo ao  "Best Translated Book Award", dedicado às melhores obras estrangeiras publicadas nos Estados Unidos. O livro foi lançado por lá no ano passado e o prêmio considera os méritos não só da obra em si, mas da publicação como um todo, isto é, a qualidade da tradução, o projeto gráfico, etc.

 

 in Resenhas

 

 

Filho da Puta. Uma pequena lição de análise sintática.


"FILHO DA PUTA é adjunto adnominal (ou paronomástico), se for "conheci um juiz filho da puta".

Se for "o juiz é um filho da puta", daí é predicativo.

Agora, se for "esse filho da puta é um juiz", daí é sujeito.

Porém, se o cara aponta uma arma para a testa do juiz e diz: "Agora nega a liminar, filho da puta!" - daí é vocativo.

Finalmente, se for: "O ex-juiz Nicolau dos Santos Neto, aquele filho da puta, desviou o dinheiro da obra pública tal" - daí é aposto.

Que língua, a nossa, não?"

por Cristovão Feil - Diário Gauche
 
 
 
 
 
 
 
 

 

 

Denise Bottman, blogueira e tradutora, processada por denunciar plágios nas traduções da editora Landmark

 
 
Processada por denunciar
24 de fevereiro de 2010
Por Tatiana de Mello Dias, BLOG DO LINK
 
Já faz alguns anos que a historiadora e tradutora Denise Bottman pesquisa plágios em traduções brasileiras de livros internacionais. Alguns deles são publicados no blog, Não gosto de plágio.
 
Um desses casos foi revelado em janeiro do ano passado. Ela publicou em seu blog que a tradução da obra Persuasão, de Jane Austen, lançada pela editora Landmark, era a mesma de Isabel Sequeira, publicada por outra editora em 2006. Ela mostrou alguns exemplos – como vários erros da primeira tradução repetidos na segunda.
 
Denise chegou a entrar em contato com Fábio Cyrino, o dono da editora que também assina a tradução. À ela, por telefone, ele reafirmou ser o tradutor da obra. A blogueira, então, entrou com uma ação civil pública contra a editora.
 
Isso foi em junho do ano passado. Na semana passada,  ela recebeu uma notificação judicial: a editora Landmark a processou – eles pedem pagamentos de danos morais e materiais, além da suspensão do blog e “segredo de justiça”.
 
O que era um caso restrito ao universo literário ganhou outra proporção. O Link conversou com ela para saber mais sobre o processo.
 
 
Como foi que você se deu conta do plágio?
 
Existe uma comunidade dedicada à Jane Austen. Existem alguns blogs e comunidades no Orkut dedicadas à obra dela. As pessoas discutem e fazem reuniões periódicas para discutir, e foi em uma dessas reuniões que perceberam a semelhança. As coincidências foram publicadas primeiro no blog Jane Austen. Eu fui avisada e comecei a pesquisar.
 
Como é a sua pesquisa? 
 
Eu tenho uma sistemática aos poucos. Isso demanda muito tempo e um certo dinheiro para comprar as edições. Eu vi mais títulos da Landmark e vi outro plágio. Noticiei no blog logo a seguir. Só que a tradutora entrou em contato comigo e disse “eu nunca fiz essa tradução, fui contratada como revisora”. Publiquei uma retificação.
 
Você chegou a entrar em contato com a editora?
 
Sim. Liguei pro Fabio (Cyrino) por telefone, foi ele mesmo que atendeu. Eu falei do aviso, falei da tradução idêntica, perguntei como ele explicaria isso. Pedi a confirmação de que a tradução era dele, e ele confirmou. Então em março eu enviei um pedido de representação no Ministério Público apresentando as provas. O procurador instaurou um inquérito para apurar.
 
Essa foi a primeira vez que pediram a remoção do seu blog?
 
Sim. Eles pediram indenização por danos morais e materiais, retirada do blog e que corresse em segredo de justiça. Eu acabei recebendo muitas visitas com esse caso. É um problema restrito, é um nicho, mas acabou adquirindo uma visibilidade não por causa do problema do plágio, mas do pedido de uma liminar pra remoção do blog. O que eu achei interessante foi que o juiz indeferiu o pedido de remoção imediata do blog.
 
O que ele alegou? 
 
Ele indeferiu porque entrava numa seara que não estava classificada pacificada e que afetava diretamente o direito de expressão e crítica e, por isso, precisaria de uma apuração mais cuidadosa. Em momento algum eu falei em liberdade de expressão, porque isso se dá por suposto. Porque tudo que eu assino é fundamentado em provas que eu posso fundamentar em juízo.
 
Há quanto tempo você tem o blog? 
 
O blog começou com um grupo de tradutores no Yahoo. Alguns jornais publicaram em 2007 algumas notícias sobre plágio, e nós ficávamos discutindo o absurdo que era aquilo. Surgiu a idéia de criar um blog chamado Assinado: tradutores. Foi publicado um abaixo-assinado. Fiquei nesse blog até setembro de 2008 e criei o Não gosto de plágio. É um blog pessoal, onde não me coloco como tradutora, mas como historiadora em defesa da história e como cidadã. O blog é apenas a face pública de um imenso trabalho de pesquisa histórica do que eu faço.
 
O problema é muito comum? 
 
Sim. O que acontece é o seguinte: muitas editoras fecham e o catálogo fica abandonado. São livros que ninguém reedita ou que os detentores de direitos não existem mais ou não são localizáveis. É o que a lei define com obras abandonadas, utilizadas maciçamente em centenas de plágios. Com a Lei de Direitos Autorais, de 1998, tivemos uma enxurrada de plágios. Eu calculo, por baixo, 10 milhões de exemplares. A legislação é completamente restritiva em relação ao xerox, mas as universidades continuam usando obras clássicas. Não se pode copiar, então as editoras reeditam com outros nomes de tradutores. Tem tradução de Eça de Queiroz assinado por outro. O leitor nem sabe que está lendo Eça. Assim como não sabe que está lendo a tradução de Voltaire feita por Mário Quintana.
 
O que você vai fazer agora? 
 
Depois de recebida a carta, tenho um prazo de 15 dias para apresentar a minha defesa. E é isso que está acontecendo agora.
 
 
**************
 
Para acompanhar todo o processo e saber com detalhes os problemas dos plágios, conheça o Não Gosto de Plágio
 
 
 
 
 
 

 

 

Mirisola. Bortolotto. Desconcertamentos em São Paulo.

 
 
Lançamento de livro de Marcelo Mirisola não é um mero lançamento de livro. É sempre um evento, um marco. É amanhã, Anselmo 'Bac' Luis convida: 
 
"Olá Amigos
 
Amanhã dia 23/02 á partir das 18:00 Hs no Espaço Parlapatões - Praça Roosevelt, 158 -acontece a festa de lançamento do livro "Memórias da Sauna Finlandesa" de Marcelo Mirisola. Todos os amigos do Mirisola e do Bac estão convidados a subir no palco para leitura de textos do Mirisola. Não precisa ser essencialmente textos do novo livro. A idéia é darmos uma noção ao publico de toda a trajetória literária do Mirisola. Leituras em 2 partes. A 1° parte começa ás 18:30 e a segunda após o término da peça, por volta das 22:00 Hs. 
 
Aguardo todo mundo na Roosevelt"
 
 
Depois do tremendo baque que aconteceu em sua vida no final do ano passado, Mário Bortolotto está voltando com força total. Esta semana, o Itaú Cultural organizou uma mostra-homenagem ao dramaturgo, com debates, bate-papos, música, leitura de textos, cenas de peças e etc. Prestenção e confira:
 
"Durante cinco dias, o público poderá conhecer o trabalho de um dos mais efervescentes nomes da cena cultural paulistana. A Semana Mário Bortolotto foi organizada em torno das sugestões do próprio homenageado: “Será um grande painel da minha obra. Vamos conversar bastante sobre o trabalho que faço há pelo menos trinta anos, nas áreas de cinema, teatro, literatura, poesia e música”. A cada dia, um desses temas será abordado, sempre com a presença do próprio dramaturgo e de um debatedor convidado, como o escritor Marcelo Rubens Paiva e o jornalista Jotabê Medeiros. Além disso, a semana conta com diversas performances - como um pocket show de poemas -, exibição de vídeos e show da banda de Bortolotto, a Saco de Ratos.
 
Há 28 anos no Grupo Cemitério de Automóveis, Mário Bortolotto já escreveu mais de 50 peças e trabalha “exaustivamente não só como escritor, mas também como diretor, ator, sonoplasta, iluminador, ainda encontrando tempo pra cantar numa banda de rock”, como ele mesmo declara. Sempre com uma temática essencialmente urbana e decadente, Bortolotto tem diversas peças aclamadas pela crítica, como Nossa Vida Não Vale um Chevrolet e Medusa de Rayban.
 
Bortolotto ainda se recupera dos três tiros que levou em um assalto na emblemática Praça Roosevelt, em dezembro de 2009. “Sempre vi o mundo como um lugar difícil, um lugar perigoso de viver. E agora tenho mais certeza disso.” Apesar das dores, o dramaturgo está otimista quanto à semana de sua homenagem: “Vai ser divertido porque vou fazer coisas que gosto e conversar com pessoas que curto. Vai ser divertido pra mim e espero que seja para o público também.”
 
Confira a programação detalhada:
 
quarta 24 a domingo 28 de fevereiro
sempre às 20h
 
quarta 24
Teatro
 
Debate com Jefferson Del Rios
Além do debate, serão apresentados pequenos trechos de peças com os seguintes atores: Andre Cecato, Maria Manoela e Martha Nowill, , Fernanda D´Umbra e Gabriel Pinheiro. Também haverá um vídeo que exibirá a trajetória de Mário Bortolotto no teatro.
 
Jefferson Del Rios é redator, editor, correspondente no exterior e crítico teatral atuante na imprensa paulista, como nos jornais Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo e nas revistas IstoÉ e Bravo!. Foi professor convidado do Conservatório Nacional de Lisboa.
 
quinta 25
HQ e Literatura
Debate com Jotabê Medeiros, Marcelo Rubens Paiva e André Kitagawa
Debate e apresentação em vídeo de cenas do espetáculo teatral Chapa Quente– adaptação dos quadrinhos de André Kitagawa. Na mesma noite, o ator Nelson Peres lerá trechos da obra em prosa do dramaturgo e o escritor Reinaldo Moraes lerá trechos do seu livro “Tanto Faz“, tido por Bortolotto como uma de suas maiores influências. Também serão exibidos alguns vídeos com performances de artistas lendo trechos de seus trabalhos.
 
André Kitagawa é quadrinista e autor do álbum Chapa Quente, adaptado para o teatro pelo Grupo Cemitério de Automóveis. Ganhador do Salão de Piracicaba e do prêmio HQ Mix.
 
Jotabê Medeiros é repórter e crítico de música do jornal O Estado de S. Paulo. Formado em jornalismo pela Universidade Estadual de Londrina, escreveu para SomTrês e Showbiz e foi editor assistente na Folha de S.Paulo e na Veja SP, e editor executivo da Rede CNT Gazeta de Televisão.
 
Marcelo Rubens Paiva é escritor, dramaturgo, jornalista e roteirista. Por suas obras, já ganhou o Prêmio Jabuti (1983), Moinho Santista (1985) e Shell de Teatro (2000). Publicou diversos livros, entre eles o premiado romance Feliz Ano Velho (1982). Atualmente, é colunista do jornal O Estado de S. Paulo.
 
sexta 26
Cinema
 
Debate com Beto Brant
Seguido da Exibição do longa inédito Getsêmani (80 min), de Bortolotto - filme de baixo orçamento.
 
Getsêmani
Mario Bortolotto, Brasil, 2009, 80 min
Classificação indicativa: 14 anos
Um grupo extremista sequestra um editor de livros de auto-ajuda e tem como finalidade persuadi-lo a publicar literatura de primeira grandeza. Participação especial de Marcelo Mirisola.
 
Beto Brant é cineasta. Dirigiu filmes como Os Matadores (1995) e Crime Delicado (2005). Está lançando o filme O Amor Segundo B. Schianberg e em agosto iniciará as filmagens de Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios, versão cinematográfica do romance homônimo de Marçal Aquino.
 
sábado 27
Poesia
Debate com Ademir Assunção e participação da banda Saco de Ratos 
Além do debate, os poetas Marcelo Montenegro e Sergio Mello (poetas que Bortolotto admira) lerão poemas de autoria própria. Ainda haverá pocket show com leitura de poemas do próprio Mário, acompanhada da banda de rock e blues Saco de Ratos e participação especial do gaitista Flávio Vajman.
 
Ademir Assunção é poeta, letrista e jornalista. Já publicou diversos livros e alguns de seus poemas foram musicados e gravados por Itamar Assumpção, Edvaldo Santana, Madan e Ney Matogrosso. É um dos editores da revista literária Coyote.
 
Saco de Ratos é uma banda paulistana de rock e blues. Formada em 2007 atualmente conta com Bortolotto no vocal, os guitarristas Fábio Brum e Marcelo Watanabe, o baixista Fábio Pagotto e o baterista Rick Vecchione. A banda toca principalmente composições próprias, além de letras de poetas da Praça Roosevelt e de compositores como Itamar Assumpção e Cazuza.
 
domingo 28
Música
 
Debate com Paulo de Carvalho
Debate e exibição de vídeos com apresentações musicais antigas do autor. Encerramento com show da banda Saco de Ratos e com os músicos convidados Flavio Vajman, Paulo de Tharso e Diego Basanelli.
 
Paulo de Carvalho é radialista e músico. Fundador, compositor e vocalista da banda Velhas Virgens (maior banda independente do Brasil), considera-se subcelebridade da internet, blogueiro em férias e twitteiro juramentado.
 
Instituto Itaú Cultural - Sala Itaú Cultural | Avenida Paulista, 149 - Paraíso - São Paulo SP (próximo à estação Brigadeiro do metrô)
Informações 11 2168 1777 | Este endereço de e-mail está protegido contra SpamBots. Você precisa ter o JavaScript habilitado para vê-lo.
entrada franca – ingresso distribuído com meia hora de antecedência (247 lugares)"
 

Não recomendado a menores de 14 anos. 

 

 

 

 

Amy MacDonald

 
 
Oh the wind whistles down
The cold dark street tonight
And the people they were dancing... to the music vibe
And the boys chase the girls, with curls in their hair
While the shocked too many sit way over there
And the songs get louder each one better than before
 
And you singing the song thinking this is the life
And you wake up in the morning and your head feels twice the size
where you gonna go, where you gonna go, where you gonna sleep tonight?
And you singing the song thinking this is the life
And you wake up in the morning and your head feels twice the size
Where you gonna go, where you gonna go, where you gonna sleep tonight?
Where you gonna sleep tonight
 
So you're heading down the road in your taxi for four
And you're waiting outside Jimmy's front door
But nobody's in and nobody's home till four
So you're sitting there with nothing to do
Talking about Robert Ragger and his one leg crew
And where you gonna go, where you gonna sleep tonight?
 
And you singing the song thinking this is the life
And you wake up in the morning and your head feels twice the size
Oh where you gonna go, where you gonna go, where you gonna sleep tonight?
And you singing the song thinking this is the life
And you wake up in the morning and your head feels twice the size
Where you gonna go, where you gonna go, where you gonna sleep tonight?
Where you gonna sleep tonight
 
And you singing the song thinking this is the life
And you wake up in the morning and your head feels twice the size
Oh where you gonna go, where you gonna go, where you gonna sleep tonight?
 
  
 
So called Mr Rock And Roll
Is dancing on his own again
Talking on his phone again
To someone who tells him that his balance is low
Hes got no where to go
Hes on his own again
 
Rock chick of the century
Is acting like she used to be
Dancing like theres no one there
Before she never seemed to care
Now she wouldnt dance
Its so rock and roll to alone
 
And theyll meet one day
Far way
Saying " Hey I wish I was something more"
And theyll meet one day
Far away
And say " Hey I wish I knew you, I wish I knew you before"
 
Mrs Black and White
Shes never seen a shade of grey
Always something on her mind
Every single day
But now shes lost her way
And where does she go from here
 
Mr Multicultural
Sees all that one can see
Hes living through someone
Very different ot me
But ow he wants to be free
Free so he can see
 
And theyll meet one day
Far way
Saying " Hey I wish I was something more"
And theyll meet one day
Far away
And say " Hey I wish I knew you, I wish I knew you before"
 
He says "I wish I knew you, I wish I met you 
When time was still on my side"
She'll say " I wish I knew you, I wish I loved you
Before I was so bright"
 
And so they must depart
Too many more a broken heart
But I've seen that all before
In TV, books and film and more
And theres a happy ending
Every single day
 
And theyll meet one day
Far way
Saying " Hey I wish I was something more"
And theyll meet one day
Far away
And say " Hey I wish I knew you, I wish I knew you before"

 

Oh Mr James Dean, he don't belong to anything

Oh he left before they could get him

With their ways, their wicked ways

Oh Marilyn Monroe, where did you go?

I didn't hear all your stories

I didn't see all your glory

 

But the footballer's wife tells her troubles and strife

I just don't care in the end

Who is she to pretend

That she's one of them?

I don't think so

And the girl from that show

Yes the one we all know

She thinks she's some kinda star

Yes you know who you are

I don't think so, I don't think so

 

Oh Ginger Rogers, Fred Astaire

Won't you dance for me cos I just don't care

What's going on today

I think there's something more, something more

And I'm gone with the wind like they were before

But I'm believing myself I think there's something more

There must be something more

I think there's something more, something more

 

But still the footballer's wife tells her troubles and strife

I just don't care in the end

Who is she to pretend

That she's one of them?

I don't think so

And the girl from that show

Yes the one we all know

She thinks she's some kinda star

Yes you know who you are

I don't think so, I don't think so

 

Oh I don't believe in the telling of your stories

Throughout your life, there's just something unappealing

It don't catch my eye

It don't catch my eye

Oh I don't believe in the selling of your glories

Before you leave this life, there's so much more to see

I don't believe this is how the world should be

 

But still the footballer's wife tells her troubles and strife

I just don't care in the end

Who is she to pretend

That she's one of them?

I don't think so

And the girl from that show

Yes the one we all know

She thinks she's some kinda star

Yes you know who you are

I don't think so, I don't think so

The footballer's wife tells her troubles and strife

I just don't care in the end

Who is she to pretend

That she's one of them? 

 

 

 

 

Poeta, ela: Lilian Aquino

 

 

GUICHÊ 11

 

Espero

como se fosse gravidez

planos e enjôos

e me distraio

às vezes

ao mirar o painel eletrônico

porque estamos um atrás do outro

 

A fila

é uma chuva quase

gota e gota que escorre

e molha o tempo todo

e não se enxerga

enquanto espera

 

Aguardo com esmero

– guardo o sorriso

em meu bolso.

 

 

 

 

PROMESSA

 

Olho

pra cima querendo saber

se você está dormindo

e te velo pra entender

por que essa respiração

tão longa

 

Escalo suas paredes

tentando te alcançar

vou te cutucar

no meio da noite

e se você sorrir

será mais um retrato

no meu altar

 

Mas um dia

não verei seu terço

pendurado na cabeceira

– você reza em outro lugar

 

Olho

a parafina escorrendo

sete dias

 

 

 

 

ESCENA DE MESA


Se sienta en la silla

de enfrente.

Tamborilea con los dedos

sobre la mesa.

 

(Ella sorbe com pajilla

el líquido rojo

haciendo barullo.

y cruza las piernas)

 

Dice entonces

de repente

mirando fijo en los ojos de ella

 

fue sin querer

te ame al revés

prometo que la próxima vez

te visto

del lado derecho.

 

traducción: Silvia Beatriz Adoue

 

 

 

 

URBANISMO


Allá donde vivia

no había bordes

ni esquinas:

era entero.

 

Y si de noche pensaba

veía calles, bocacalles

canteros

y flotaba sobre

la ciudad abierta

trazando con tiza

(uno a uno) sus limites

 

Delineaba

zonas de silencio.

 

traducción: Silvia Beatriz Adoue

 

 

 

 

NA VITRINE

  

Partes do corpo

e desvenda os dias

 

o consumo diário de calmantes,

de refrigerantes, de TV

teu ser egótico

quer um anúncio

publicitário

 

mas é com satisfação que vê todos os

membros

e sentencia:

 

limites.

 

 

 

 

A IMINÊNCIA DO VERBO

 

É quase um frio

isso que passa por meus

pêlos eriçados

 

Esse vento fugido

das frestas de pensamentos

quase

sai

ressecando lábios

entreabertos

 

que não cantam

os poemas que

fiz. 

 

 

 

 

 

 

A bebida dos deuses, segundo Victor Sênior

 
(Victor está morto e ainda estou impressionado pela forma miserável como aconteceu. Não gosto de pensar nisso. Não gosto da dor. Ainda prefiro lembrar dos bons momentos, do orgulho que sentíamos em ser seu amigo, das boas cenas, das bebedeiras. Das discussões filosóficas em mesas de bar. Como na ocasião da 'bebida' dos deuses, da noitada, dos olhares, dos aplausos
 
Victor era um português que, depois de viajar pelo mundo inteiro, acabara se radicando no Brasil. Sua diversão era fazer amizade com estudantes universitários, aos quais pagava bebida, saídas, algumas vezes jantares em restaurantes no centro velho da cidade. Era uma forma cara de manter esse círculo de "amizades". Nunca soubemos qual era exatamente sua fonte de renda e não nos importávamos. Culto, irônico, divertia-se em espicaçar a nossa paciência com seu conhecimento. Quase não havia mulheres nesse grupo, o que dava margem a óbvias interpretações. Quanto a mim, só posso dizer que nunca fui cantado por ele. A sua vida sexual, se é que havia, era mantida em rigorosa discrição. Mestre em manter uma pose clássica de gentleman enquanto, em voz baixa, dizia as maiores barbaridades, com uma linguagem estudadamente vulgar. Os cultores do politicamente correto (eles já agiam, mesmo que a expressão não existisse na época) nos odiavam. Aos poucos, a turma em volta dele se condensou, restaram apenas cinco ou seis, tornando-nos uma verdadeira panelinha assumida. E desprezada. Éramos considerados pedantes e arrogantes. Besteira. Na verdade, realmente éramos, mas não impedíamos as pessoas de se aproximar. Acontece que nosso pique era punk e não eram muitos os que conseguiam nos acompanhar. 
 
Uma noite, estávamos no Barbacuê na Faria Lima, um point pequeno burguês cujo mezanino fica ao ar livre, formando como que uma calçada aérea. Gostávamos de sentar ali. Éramos vistos e víamos todos.
 
- Claudinei, você deveria definitivamente deixar de ser abstêmio.

Ri.
 
- Victor, dizer que você está bêbado é uma redundância, mas agora está delirando.
 
- O delírio em Víctor é sua condição natural, Claudinei - lembrou Augusto, um grande companheiro de "estudos"; naquela noite tranquila só estávamos os três - Deixe-o à vontade, portanto, e deliremos junto.
 
Ah, as frases empoladas e de efeito. Como éramos ridículos. 
 
- Eu volto ao assunto, sim. Acham, por acaso, só pelo fato de se esborracharem de vez em quando, deixam de ser abstêmios? Vocês não entendem nada! Saibam que, se conseguirem passar deste ato simplório de entornar um copo e virar outra garrafa, terão a verdadeira chave da compreensão da Humanidade. Através da bebida, podemos avaliar a força e o dinamismo de um povo, verificar sua história e se seus projetos são válidos ou não. A bebida é portanto um sinal, um brasão, um baluarte, muito mais do que esse pedaço de pano que chamam de Bandeira!
 
- "Baluarte"?! Estou começando a concordar contigo, Claudinei.
 
- Pode-se avaliar, inclusive, a inteligência alheia, ó néscio. Diz-me o que bebes e eu te direi quem sois. Diga-nos, Augusto, doce lírio do vale, qual a bebida que te faz mais alegre?
 
- Pois confesso a minha humildade ao encanto de qualquer uma. Na verdade, creio que, fora água, não possuo o menor preconceito. Basta estar o mais próximo possível.
 
- Me disseram por aí - sou eu falando - que água tem uma certa importância para a nossa sobrevivência.
 
- Também ouvi falar disso. Uma vez até tentei tomar água. Sério! - Augusto suspirou profundamente - Meu Deus, quase morri. Ainda bem que tive presença de espírito suficiente para me cuidar.
 
- Tratamento urgente? - perguntei
 
- Imediato. Já tinha deixado preparado um copo de conhaque justamente para o caso de passar mal.
 
- Silêncio, sua besta! Deixem-me falar ...
 
- Até a pouco, eu era um lírio.
 
- Ora - rebati - um lírio besta.
 
- Silêncio, já disse. E você, Claudinei? Pelo que sei, até adivinho qual é a sua preferida.
 
Ergui o copo em resposta.

- Puff! Whisky! - prosseguiu Victor - quase tão plebéia e rude quanto à vodca. Helás! Eis uma das melhores provas do que digo. A tal povo, tal temperamento, tal bebida. Vocês conseguem? imaginar uma Rússia com suas estepes, suas ravinas cobertas de neve e seus cossacos em cavalgadas, sem esta marca etílica? Taras Bulba sem vodca? Terão que concordar comigo que, por melhor que seja fabricada, ela é, por natureza, uma bebida brava, sem requinte, feita muito mais para dar um chute no estômago do que agradar ao paladar. Tal e qual o povo russo, a sua cara!
 
- Cuidado, Claudinei, para não ver aflorar de repente um sentimento marxista no nosso querido Victor. Saudades do império soviético, talvez?
 
- Tolo! De qualquer forma, uma coisa tenho que admitir: foram os russos a prestarem a maior homenagem à bebida que eu conheço de toda a história.
 
- Eu não dizia? 
 
- Deixem-me falar, por Deus. - Victor falava assim mesmo "deixem-me falar" - Aposto que vocês não sabem o que fizeram os russos logo após tomarem o poder os bolcheviques.
 
- ...
 
Não sei se realmente estávamos interessados em saber.
 
- Beberam, meus caros, oh, se afundaram na bebedeira. Imaginem um povo inteiro a derrubar o czar, o seu "papá", esta figura quase mitológica e, junto dele, todas as inibições, restrições, regulamentos. Levem em consideração de que, para eles, aquele era o primeiro dia de absoluta liberdade, sem polícia para reprimir, não havia governo para mandar, o exercito se esfacelara e a Igreja já não metia medo. Por três dias em seguida, beberam e esta foi sua única filosofia, o único sentido da vida. Esqueceram o trabalho do campo, dos sofrimentos da guerra, dos soldados que morreram ... Só beberam, até se esborracharem, até a bexiga explodir. Nestes três dias, se algum país houvesse atacado ... não teria havido governo soviético, stálin, essas merdas todas - Victor fez uma pausa e continuou a falar mais lentamente - Podem ver a cena? Soldados e camponeses caídos pelas ruas, numa entrega total. Logo depois, é claro, a ressaca foi monumental.
 
- Proponho um brinde - eu disse.
 
Victor olhou para o copo levantado - Humpf! Whisky. Bebida forte, sem dúvida, esquenta o corpo, mas não tem vida, é, é ... sem alma. Só poderia vir mesmo de um povo sem graça como o inglês.
 
- Foi a Inglaterra que inventou o uísque? - perguntei.
 
- Pelo que sei, a bebida deles é o chá - ajuntou Augusto.
 
- ... que, na verdade, foi trazido da China - completei.
 
Victor não nos ouvia mais - Porém, o que me dizem disto, hein? deste vermelho - levantou o próprio copo contra a luz - Este representa a França, sua civilização, suas luzes - tomou um gole - A cada vez, sorvemos um pouco mais de cultura e esquecemos de nossa barbárie, de nossa própria condição de bestas animais, que afinal humanos somos.Todavia, através dele passamos por cima disso e entramos em contato direto com o Divino, com o Mestre, seja lá por qual nome for chamado. No final das contas, esta bebida foi inventada por Baco, por um Deus para um povo que sabia realmente como viver, sua religião era a VIDA!, e plantavam VIDA! Não era necessário ir a templos para se oferecer aos seus deuses. Melhor, suas cerimônias eram simples pretextos, subterfúgios, desculpa para o que viria depois. Que Sócrates! Não foram as peças de teatro nem a filosofia nem aquelas estátuas peladas... Humpf... Foi a compreensão de que neste vermelho eles deixavam de ser humanos e se transformavam em deuses.

'Os romanos compreenderam isso. Queriam se fazer de inteligentes, inventaram leis, conquistaram povos, mas no fundo, foram subjugados por este vermelho. Orgias e vinho, era isso o que eles sabiam fazer depois de mil anos. Não foi por acaso, portanto, que a Igreja também adotou este suco para sua liturgia. Ela transformou este sangue do povo, do populacho, em sangue divino. Com o aval do Todo-Poderoso! Que me dizem?
 
Neste momento, Victor estava de pé, o braço estendido em um brinde oferecido a todo o restaurante sob o olhar divertido dos demais. Recebeu uma salva de palmas e agradeceu com uma pequena vênia que, devido ao seu estado alcoólico, quase o desequilibrou. Conseguiu se sentar sem incidentes.
 
Fiquei mordido de curiosidade, mas não ousei perguntar o que ele achava da cachaça.
 

 

 

in CONTOS

A sensacional ilustração original, feita com exclusividade para este conto, é de HIJAK  SKANK

 

 

 

 

 

Ilusões em três momentos

 

Bastante imaginação, um tanto de trabalho, uma sala, um pincel (ou caneta esferográfica!) e surge uma ilusão tridimensional bem na sua frente. No primeiro caso, um carro (o DeLorean, do 'De Volta para o Futuro', extremamente apropriado para a ocasião) salta aos olhos, se materializa e 'flutua' no ar. No segundo caso, um simples X, atravessa e divide uma sala. 'Sabemos' que é uma ilusão, embora não se consiga entender como foi realizada. Por isso, o segundo momento é bem interessante e até engraçado: é quando os autores mostram e revelam como o truque foi construido.

Agora, o terceiro momento é para mim o mais espetacular. É quando a câmera recua, depois de entendermos o esquema, e voltamos a ver a mesma imagem inicial. Pois aqui eu pensei que haveria um anticlimax, uma quebra de expectativa. Pois se já se sabe o 'truque', nada mais restaria a esperar; a explicação já teria sido dada. O conhecimento embotaria a magia.  

No entanto, não é o que acontece. A câmera (e o nosso olho) demora uns segundos para se reajustar, mas a imagem final nos deixa ainda mais impressionado do que no começo. A sensação se torna mais poderosa, pois por mais que 'saibamos' a ilusão domina. Na verdade, é justamente por isso, porque sabemos, que acabamos subjugados.

 

 

 

 

in Artigos

 

 

 

Poetas, Elas, Poetas

 
 
 
CUIDADO
Luana Vignon
 

Foi o que eu disse:
Cuidado,
eu sempre aposto em perdedores.
Logo eu,
que nunca imaginei a convivência pacífica
entre mim e uma garrafa de tequila.
Ficamos assim,
cara a cara
sem uma acabar com a outra
faz dias.
E têm essas escolhas absurdas,
o destino é um albino meio maluco
vestido de cowboy
gritando 22
dois patinhos na lagoa.
Bingo. Eu digo.
E saio sacudindo os cabelos,
inventando um novo jeito de andar dentro de casa.
 
 
 
*
 
 
O PEQUENO HITLER
Kátia Borges
 
 
A verdade é uma só:
todo mundo traz o menino de Branau
confinado dentro de si
em um bunker imaginário.
E todo sonho que temos,
seja entrar para a academia de artes,
ou possuir a espada de Longino,
é o marido de Eva Braun,
o arquiteto do caos,
que queima em nosso peito.
Pois também ele sonhou
na abadia de Lambach,
servir a Deus e ser bom.
E todo sonho que temos,
seja planejar uma cidade
ou comandar um exército,
é o dono do cão Blondi,
o filho de Klara e Alois,
que ruge dentro de nós.
Pois ele também sonhou
certa tarde no Museu de Hofburg
ter a lâmina da vida nas mãos.
E todo sonho que temos,
seja eternizar-se na memória
ou liderar uma nação,
é o plagiador de Blavatsky,
o falsificador de Nietzsche,
o criador de Treblinka
e de Auschwitz-Birkenau,
que grita dentro de nós.
 
 
 
*
 
 
O LOBO
Elaine Pauvolid
 
 
Quando o lobo se escondeu
por trás da fornalha,
cinzento se mostrava em neve fria.
O pêlo contornava os olhos fitos,
e em mim jorrava
uma culpa incontrolável.
 
À antecipação de ser devorada,
rápido, sem ser vista,
ansiei por estar noutra vida.
E o lobo olha-me
reto, nenhum pêlo move,
até que já não deixa de mostrar-me os
       dentes.
Caído sobre agora,
as presas estraçalham-me o rosto,
meus membros são seu osso.
E, num último hálito, inspiro
o ar quente e tranquilizante do seu
       focinho.
 
 
*
 
 
Ana Peluso
 
 
porque não há parecer que justifique a sentença da vida
 
porque as nuvens não falam, nem com pássaros, nem aviões
 
 
porque não há caminho que sobreviva aos pontos cardinais
 
nem meridianos que suportem a rigidez estúpida das horas
 
porque não há uma lágrima capaz de subverter a dor
 
 
 
porque não há nada que vislumbre o amanhã
 
antes do ontem
 
      a vida se estende
 
       vadia
 
       entre estados de graça
 
       e de des
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

 

Maria da Penha

 
 
"Maria da Penha, a mulher que sobreviveu à tentativa de assassinato pelo marido e virou nome de lei
 
Maria da Penha Maia Fernandes é uma sobrevivente. Seu marido tentou matá-la duas vezes. A primeira, com um tiro nas costas que a deixou paraplégica. A segunda, ele trocutada no chuveiro. Ela foi à forra – além de prender o criminoso, batizou a lei que protege a mulher vítima da vio lência doméstica
 
REVISTA TPM:   "Maria da Penha tem sono pesado. Capota e só acorda no dia seguinte. Na madrugada de 29 de maio de 1983, porém, teve seu repouso interrompido pelo pior pesadelo da vida. “Acordei de repente com um forte estampido dentro do quarto. Abri os olhos. Não vi ninguém. Tentei me mexer. Não consegui. Imediatamente fechei os olhos e um só pensamento me ocorreu: ‘Meu Deus, o Marco me matou com um tiro’. Um gosto estranho de metal se fez sentir forte na minha boca, enquanto um borbulhamento nas costas me deixou perplexa.” Entre desmaios e devaneios, a mulher, então com 38 anos, tinha momentos de consciência. Por mais que estivesse acostumada com os gritos, as explosões de fúria e os empurrões do marido, Penha custava a acreditar que fora alvejada por um tiro de espingarda disparado pelo homem que escolheu para ser pai de suas três filhas (na época com 6, 5 e 1 ano e 8 meses). Não concebia tamanha covardia. “Quando os vizinhos chegaram ao meu quarto, demoraram a perceber o ferimento, pois eu estava de costas, com o sangue escorrendo no colchão.” Para acobertar sua intenção diabólica de assassinar a própria mulher em pleno sono, Marco se fantasiou de vítima de um suposto assalto: rasgou o pijama, pôs uma corda no pescoço e disse para a polícia que havia sido atacado por uns bandidos. O teatro não funcionou. Mas a verdade demorou, demorou quase 20 anos a aparecer e levar o economista e professor universitário colombiano Marco Antonio Heredia Viveros para onde devia estar há tanto tempo: atrás das grades.

Os quatro meses seguintes após a tentativa de homicídio foram de cirurgias em hospitais de Fortaleza, onde Penha nasceu, e de Brasília. Maria da Penha Maia Fernandes, farmacêutica bioquímica formada pela Universidade Federal do Ceará e mestre em parasitologia pela USP, resistiu firme, mas sua vida não seria mais a mesma. “Após vários exames, chegou a hora da avaliação que diria se eu ia voltar a andar ou não. Como profissional da saúde, antevia o fatídico diagnóstico. Como paciente, ousava sonhar, pedir aos meus santos... Enfim, declararam: nunca mais andaria.” De volta para casa, na cadeira de rodas, Penha ainda teve que fazer força para escapar de outra atrocidade do marido: ele tentou eletrocutá-la embaixo do chuveiro. Marco, então, foi embora para ficar com uma amante no Rio Grande do Norte.

Ela mudou a história 

E Penha transformou sua existência na luta pelos direitos das mulheres que sofrem com a violência doméstica. Em 2001, conseguiu que a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) condenasse o Brasil por negligência e omissão pela demora na punição do marido. Daí a semente para que, em 2006, o presidente Lula sancionasse a lei 11.340, a lei Maria da Penha, que cria mecanismos para coibir a violência familiar contra a mulher e prevê que os agressores sejam presos em flagrante ou tenham prisão preventiva decretada. Além disso, aumenta a pena máxima de um para três anos de detenção e acaba com o pagamento de cestas básicas , como acontecia anteriormente com os agressores. Hoje, Penha é colaboradora de honra da Coordenadoria de Mulher da Prefeitura de Fortaleza, dá palestras em faculdades e recebe homenagens por todo o país. Ela acredita que o ex-marido viva no Rio Grande do Norte. Em um sábado de sol e calor (será que algum dia faz frio em Fortaleza?), Maria da Penha recebeu, em casa, a reportagem da Tpm para lembrar dos dias mais dramáticos e dos mais felizes de seus 63 anos.


Maria da Penha: uma entre muitas

A lei que pune e coíbe a violência contra mulheres leva o nome da brasileira que lutou por quase 20 anos para ver seu agressor atrás das grades. Páginas VermelhasTpm # 82), Maria da Penha é um caso extremo do que acontece todos os dias com milhões de mulheres no Brasil e no mundo. Mas ainda hoje a violência contra mulheres atinge números assustadores. Os números abaixo são prova disso. Vale dar uma olhada. Dormir com o inimigo não é algo tão raro assim
Por Paula Rothman

- Segundo a OMS, 70% das mulheres assassinadas no mundo são vítimas de seus próprios companheiros.

- Um em cada cinco dias de falta ao trabalho no mundo é causado pela violência sofrida pelas mulheres dentro de suas casas.

- No Brasil, o Ibope mostra que 33% da população aponta a violência contra as mulheres como o problema que mais preocupa a brasileira na atualidade – mais do que o câncer de mama e o de útero (17%) e a Aids (10%).

- No Brasil, mais de 2 milhões de mulheres são espancadas a cada ano por maridos ou namorados atuais e antigos.

- Na mesma pesquisa, 14% dos entrevistados acreditam que a mulher deve agüentar agressões em nome da estabilidade familiar.

- 19% dos homens admitem que existem situações que permitem a agressão, assim como 13% das mulheres. 68% da população brasileira conhece a lei Maria da Penha e sabe da sua eficácia (83%).

- Em 2005, nos primeiros quatro meses de funcionamento do telefone nacional da Central de Atendimento à Mulher, o Ligue 180, houve 14.417 denúncias.

- Depois da aprovação da lei Maria da Penha, em 2006, as denúncias deram um salto: de janeiro a junho de 2008, foram registrados 121.891 atendimentos, um número 107,9% maior que no mesmo período de 2007 (58.417).

- A busca por informações no Ligue 180 sobre a lei Maria da Penha no primeiro semestre de 2008 cresceu 346% – foram 49.025 este ano contra 11.020 no primeiro semestre de 2007.

- Em 61,5% das denúncias de violência registradas no Ligue 180, as usuárias do serviço declaram sofrer agressões diariamente.

- Em 63,9% dos casos, os agressores são os próprios companheiros.






 

 

Carta de apoio à Zetti

 
 
UNIVERSO HQ: "Para quem ainda não leu nos inúmeros sites que estão fazendo o seu papel a apoiando essa carta, no dia 23 de dezembro de 2009 foi afastada do seu cargo de diretora do Salão Internacional de Humor de Piracicaba, Maria Ivete Araújo, mais conhecida como Zetti.
 
Depois de chefiar a organização do evento de humor por mais de 30 anos, Zetti foi exonerada de seu cargo, sendo notificada da decisão por uma carta.
 
Em apoio a essa profissional que dedicou tanto da sua vida aos quadrinhos, caricaturas, cartuns e afins, três entidades ligadas às artes gráficas elaboraram e encaminharam uma carta aberta a prefeitura de Piracicaba.
 
Além da três entidades, ACB (Associação dos Cartunistas do Brasil), SIB (Sociedade dos Ilustradores do Brasil) e Imag (Instituto Memorial de Artes Gráficas do Brasil), mais de 138 profissionais que atuaram no salão como jurados ou com trabalhos selecionados já manifestaram o seu apoio assinando. A lista conta com nomes como Angeli, Laerte, Fernado Gonsales, Luis Fernando Veríssimo, Zuenir Ventura e Ziraldo, além de jornalistas, pesquisadores e escritores.
 
A seguir na íntegra a carta que está sendo divulgada em inúmeros sites de quadrinhos e também alcançando outras mídias como jornais e televisão, e sendo apoiada até por profissionais internacionais.
 
 
 
“Ilmo. Sr. Prefeito Barjas Negri,
Srs.Vereadores da Câmara Municipal de Piracicaba, André Gustavo Bandeira, Ary de Camargo Pedroso Jr, Bruno Prata, Capitão Gomes, Carlos Alberto Cavalcante, João Manoel dos Santos, José Antonio Fernandes Paiva, José Aparecido Longatto, José Benedito Lopes, José Luiz Ribeiro, José Pedro Leite da Silva, Laércio Trevisan Jr, Márcia Gondim C. C. Dias Pacheco, Marcos Antonio de Oliveira, Paulo Henrique Paranhos Ribeiro e Walter Ferreira da Silva

 
 
Cidadãos de Piracicaba,
 
Esta carta representa as entidades de classe abaixo assinadas, com cerca de dois mil profissionais do humor gráfico brasileiro, integrantes de veículos de comunicação da imprensa escrita, TV e Internet, editoras de livros e agências de publicidade. Os cartunistas são a alma do Salão Internacional de Humor de Piracicaba. Sem sua participação, não há conteúdo para a realização do evento. Somos, portanto, também responsáveis pela sua continuidade. Algo que o poder público municipal não pode deixar de reconhecer. Aqui externamos, em carta aberta, nosso repúdio categórico à maneira pela qual a Sra. Maria Ivete Araújo (Zetti), colaboradora e diretora do Salão Internacional de Humor de Piracicaba nos últimos 30 anos, foi exonerada de seu cargo, durante as festas de fim de ano, por meio de uma carta entregue pelo secretário substituto temporário. É inegável a competência de Maria Ivete Araújo, ao longo de várias gestões, na construção da longa história de sucesso do Salão. Razão pela qual adquiriu todo o respeito no Brasil e no estrangeiro. Tendo sido, inclusive, adotada pelos humoristas gráficos como um símbolo da continuidade e resistência, até mesmo diante da ditadura e da censura. Em vez de uma justa homenagem, pelo relevante trabalho prestado em nome do município de Piracicaba e pelos longos anos de diálogo entre a cidade e os cartunistas, Zetti foi descartada por uma decisão notadamente política. Apelamos, enfim, à sensibilidade do poder executivo e dos parlamentares. O Salão não se resume a meras decisões administrativas e burocráticas. O espírito do evento valoriza, acima de tudo, o livre pensar e a Arte. É assim que os cartunistas o compreendem. Fazemos um apelo ao bom senso do Sr. Prefeito Barjas Negri, que sempre demonstrou carinho pelo Salão. Não será em sua gestão, assim insistimos, que esse rico diálogo cultural será desprezado. Por princípio, acreditamos que o que há de mais admirável no exercício da política sempre paira acima das bandeiras e interesses partidários. É o governar pelo bem comum. Nós, cartunistas, somos justamente os maiores especialistas em traduzir, por meio de charges e cartuns, o pensamento do povo sobre tantos temas nacionais como esse. Aguardamos uma resposta, o mais breve possível, à nossa solicitação de retorno da Sra. Maria Ivete Araújo ao cargo de Diretora do Centro Nacional de Documentação, Pesquisa e Divulgação de Humor de Piracicaba (CEDHU) complementando com uma ampla discussão sobre o processo de modernização estrutural do Salão e seu fortalecimento. Pois temos toda a convicção de que tal decisão será essencial para a valorização de nossa representatividade no evento.

Atenciosamente,
 
ASSOCIAÇÃO DOS CARTUNISTAS DO BRASIL (ACB), POR JOSÉ ALBERTO LOVETRO
INSTITUTO MEMORIAL DE ARTES GRÁFICAS DO BRASIL (IMAG), POR GUALBERTO COSTA
SOCIEDADE DOS ILUSTRADORES DO BRASIL (SIB), POR ORLANDO PEDROSO (PELO CONSELHO DIRETOR)
 
COM APOIO DE:

ADÃO, AIRON, ALAN SOUTO MAIOR, ALBERT PIAUÍ, ALCY, ALMEIDA, AMORIM, ANDRÉ BROWN, ANDRÉ DINIZ, ANDRÉ VALENTE, ANGELI, ATTILIO, AUDÁLIO DANTAS, BAPTISTÃO, BENETT, BIRA, BIRATAN, BRUNO LIBERATI, CAIO YO, CARCAMO, CARLUS, CARRIERO, CASSO, CAU GOMEZ, CESAR FREITAS, CIVAL EINSTEIN, CLAUDIO MARTINI,CLÉRISTON, CUSTÓDIO, DACOSTA, DANIEL ESTEVES, DANIELA BAPTISTA, DÊNIS MENDES, DIL MARCIO, DINO ALVES, DIOGO SALLES, DOUGLAS QUINTA REIS, DUKE, Dra BETÂNIA LIBANIO, Dra SONIA LUYTEN, EDGAR VASQUES, EDRA, EDU MENDES, ELOAR GUAZZELLI, EMILIO DAMIANI, EMMAN, ÉRICO ASSIS, FABIO SALES AGNATI, FAUSTO BERGOCCE, FERNANDES, FERNANDO COELHO DOS SANTOS, FERNANDO GONSALES, FLAVIO LUIZ, FLOREAL, FRED, GUALBERTO COSTA, HUMBERTO PESSOA, HUMBERTO YASHIMA, IEIO, IVAN CONSENSA, JAL, JBOSCO, JEAN, JÔ OLIVEIRA, JOÃO LIN, JORGE BARRETO, JORGE INACIO, JOTAA, JOZZ, JUNIÃO, JUNIOR LOPES, KLEVISSON, LAERTE, LAUDO, LEANDRO BIERHALS, LEANDRO ROBLES, LELIS, LUIS FERNANDO VERÍSSIMO, LUIZ CARNEIRO, LUTE, MACHADO, MANGA, MARCELO ALENCAR, MARCELO RAMPAZO, MARCIO BARALDI, MÁRCIO LEITE, MARCOS GARUTI, MARCOS VENCESLAU, MARINGONI, MASTROTTI, MAURICIO RETT, MAXX, MICHELLE RAMOS BARBOSA, MINO, MIRAN, MORETTINI, NEI LIMA, OMAR VIÑOLE, ORLANDELI, ORLANDO, PAFFARO, PAULO BRANCO, PAULO SETUBAL, PAULO URSO, PELICANO, QUINHO, RAPHAEL FERNANDES, RAY COSTA, RENATO LEBEAU, RENATO STEGUN, RICARDO SOARES, RICKY GOODWIN, RICO, ROBERTO RIBEIRO, RODRIGO ROSA, RÔMULO, RONALDO CUNHA DIAS, RUCKE, SANTIAGO, SERGIO GOMES, SERGIO MÁS, SIDNEY GUSMAN, SOLDA, SPACCA, SPETT, TONI DAGOSTINHO, TURCIUS, VERDE, VERONEZI, WILSON FIGUEREDO, WILL, WILLIAM MEDEIROS, ZÉ ROBERTO, ZÉLIO, ZIRALDO e ZUENIR VENTURA 

 

 

in HQ

 

 

 

Poética em São Paulo

 

Poetas, prosadores, fotógrafos, artistas plásticos, perfomancers, músicos. Os artistas estão convidados a participar desse evento que promete ser um megaecontro das artes a ser realizado em junho na cidade de São Paulo. Para quem quiser participar, mostrar seu trabalho e sua arte, as inscrições vão até o dia 26 de março. 

 Poetas e escritores:

Os poetas e escritores poderão enviar no máximo 03 (três) textos, sendo poesia, soneto, crônica, conto ou prosa. Os trabalhos deverão ser enviados em formato PDF – fonte Arial 12, contendo as seguintes informações: nome completo/pseudônimo/e-mail e telefone para contato e os textos candidatos ao espaço no evento. O tema é livre.


Artistas Plásticos:

Deverão enviar proposta em formato PDF – fonte Arial 12, contendo as seguintes informações: nome completo/pseudônimo/e-mail e telefone para contato. O evento abre espaço para as seguintes artes visuais: fotografia, com os temas: Paulicéia (fotos sobre São Paulo) e Feminino Ser (fotos sobre mulheres). Desenho, Telas e Instalações. A proposta deverá ser encaminhada com 05 (cinco) imagens acerca do trabalho a ser desenvolvido.


Música:

Artistas individuais, grupos (bandas), música instrumental. A proposta de apresentação deverá ser encaminhada juntamente com o repertório proposto.


Teatro:

Será aberto espaço para performances teatrais que terão apresentações diárias, sempre a noite – sendo que as mesmas deverão respeitar os critérios do evento e ter cunho poético. As propostas de performances ou peças deverão ser encaminhas em doc.. Word, junto com o nome de todo o elenco, incluído autor e diretor. Em anexo também deverá ser encaminhado o roteiro/texto da mesma.


Oficinas, workshops e palestras:

As propostas devem ser encaminhadas em doc. Word, sendo que a duração máxima das atividades deverá ser de 04 horas de duração no máximo. Serão aceitas propostas cujo envolvimento esteja diretamente relacionado a prática da arte escrita.

 

Lançamento de livros:

O autor interessado em lançar seu livro durante o evento, deverá encaminhar um release sobre seu livro, foto de capa e contra capa, informações pessoais e proposta de formato de lançamento.




in Eventos

 

 

 

Queridos Trolls, os comentários agora serão moderados


Sempre soube que, mais cedo ou mais tarde, eu me sentiria, infelizmente, obrigado a moderar os comentários deste espaço desconcerto. Aos amigos e leitores vários que passam por aqui e, de vez em quando, deixam aqui uma nota ou um cumprimento ou um breve comentário, precisarão só ter um pouquinho de paciência, para que seu texto, pensamento, pergunta, ou discordância possa ser liberado.

Tive alguns encontros com trolls desde quando comecei a escrever e colocar idéias pela internet. Creio mesmo que são inevitáveis (se você tem algum tipo de espaço na internet, sinto dizer que vai acabar trombando com um, com certeza). Posso dizer que comigo foram poucas vezes (muito menos do que vejo acontecer em outros sites e blogs consideráveis); poucas vezes, mas sempre são chatos.

'Trolls', para quem não está ligado, são aquelas pessoas que se metem em sites e blogs alheios unicamente para encher o saco. Não querem discutir. Não querem trocar idéias. Não se interessam em propor ou discordar com algum discernimento. O seu prazer é somente de bagunçar, deixar uma 'marca', e continuar atazanando enquanto seu chiado continuar a ser lido. Algumas vezes (raridades) são articulados, sabem escrever, realmente são inteligentes e conseguem enganar por algum tempo. Entrei em uma roubada dessas, em um outro site que participava. Seus argumentos até que eram interessantes, bem montados, e pareciam convidar para uma verdadeira discussão. Suas idéias eram estranhas, mas a princípio pensei que era resultado somente de nossas opiniões serem opostas. À medida que trocávamos comentários, no entanto, um clima muito estranho foi se instalando no grupo, de discórdia e irritação constantes e sem sentido, de argumentos sendo repetidos e simplesmente ignorados, ou então ele pegava uma frase desconectada do texto geral e torcia seu significado, voltava para nós como estivéssemos tentando minimizá-lo e inferioriza-lo. Foi difícil e demorou um tempo para perceber o quanto ele estava se divertindo com a nossa ingenuidade.

Trolls assim tão bem articulados são muito raros, como disse. A maioria é simplesmente imbecil e nem consegue escrever direito uma frase com sentido. Não estou falando do costume 'internético' de se abreviar as palavras ao máximo; me refiro a analfabetismo mesmo. Metade das palavras utilizadas é de xingamento, outro tanto é de palavras vazias ou diretamente ofensivas e ou preconceituosas. Sua especialidade é pegar um ponto de discordância, jogar os xingamentos por cima e sair correndo. Provavelmente, enquanto escrevem devem ficar se coçando e dando risadinhas consigo mesmo, de puro gozo com a brincadeira besta. 

A última coisa que se pode fazer com um troll é alimentá-lo, isto é, responder. Dar algum tipo de atenção só faz com que seu ego se infla, que a zoeira dê certo. 

Desde que este espaço voltou à ativa, em setembro passado, houve dois ou três trolls que fizeram comentários e foram prontamente deletados. Mas me incomoda (e muito) que fiquem à mostra seja por que tempo for. São sujos. Impregnam de maledicência e imundície. As pessoas que passam por aqui não merecem isso.

Há dois detalhes que pretendo deixar bem especificados: 1 - Os comentários são um espaço aberto para qualquer tipo de manifestação. Às vezes, tenho a impressão de que pensam que é somente para elogios ou para quando haja somente total concordância com o que escrevo e penso. Não é verdade. Elogios sempre serão muito bem vindos, com certeza, mas as críticas e as discordâncias também e no mesmo nível. É bom ter discordância. Faz fluir as idéias. O debate fica rico. Eu só espero ter deixado claro acima o quanto uma simples discordância é muito diferente de uma 'trollagem' pura. Por exemplo, ofensas pessoais e ou morais são inadmissíveis. Caramba, isso é o mínimo, não?

2 - Um 'argumento' que recebi certa vez em outras discussões do mesmo tema, é que a moderação de comentários não é uma atitude 'democrática' do site e que isso contradiria minha suposta pregação da liberdade de expressão. 

Isso é muito verdadeiro. Este site não é democrático. Este é um espaço meu, Claudinei Vieira. Aqui entra o que eu quero, do modo que eu quiser. A única outra pessoa com igual poder dentro deste site é o Hijak Skank que, em muitos aspectos é o verdadeiro responsável  para que o Desconcertos exista. Acho que a palavra fundamental aqui é Respeito. Compartilhamos várias opiniões e uma certa visão de mundo; em vários outros pontos discordamos e isso nunca impediu de realizarmos trabalhos em conjunto, pois sabemos como acomodar nossas discordâncias, respeitamos nossas diferenças. 

Esse é um ponto que prezo demais. Se o que digo, escrevo e expresso nesse site (e em qualquer outro lugar ou circunstância) merece ser ouvido, lido ou discutido, só posso ficar contente e acreditar que estou fazendo alguma coisa que vale a pena. Se no meio disso, ataco fortemente a crença ou a disposição de qualquer pessoa, bueno, estou aberto a qualquer conversa, podemos discutir qualquer limite. Se realmente ofendo profundamente o âmago de qualquer ser, então me sinto livre para perguntar: pô, o que está fazendo por aqui? Não escondo minhas idéias. Ao contrário, estão todas escancaradas e abertas à visitação. Se realmente não há nenhum ponto mínimo de convivência ou de troca, qual o sentido de parar e perder tempo? Muito mais fácil é encontrar lugar que lhe seja mais aprazível. A blogosfera é estupidamente grande e alternativas não faltam. Agora, se mesmo estando tão desconfortável ainda assim tiver disposição para uma conversa franca, maravilha!, desconcertaremos juntos.

O que não posso (em momento algum!) é aceitar leviandade e ofensa gratuita. Os meus amigos não merecem. Os leitores que eventualmente passam por aqui não merecem. Portanto, não vou permitir que trolls inconsequentes faltem com o respeito comigo, com este site e com os leitores.


in Artigos


 

 

Tchekhov

 
 
Os textos de Tchekhov sempre dão a impressão de uma simplicidade absurda.
 
Os enredos são mínimos, a histórias curtas, não existem enormes reviravoltas, não há  grandes painéis da vida russa, nem dos centros urbanos nem das aldeias do interior. Sua linguagem é clara, direta, singela. Seus personagens são pessoas comuns,  do povo, funcionários públicos, camponeses, pequenos intelectuais. Seu olhar focaliza o mínimo, o detalhe, o momento.
 
E com sua tão aparente e falsa simplicidade,  acaba captando, na verdade o essencial, a matéria-prima, o real. 
 
Em"A Estepe", o pequeno Iegóruchka, de nove anos e órfão de pai, está sendo levado pelo seu tio, o comerciante Ivan Ivanovitch Kuzmitchov e o padre Cristofor  Siriiski, para morar em outra cidade e matricular-se na escola. Ele não entende o que está acontecendo, sente medo, desconforto. Com breves e rápidas pinceladas,  ficamos sabendo que o tio e o padre vão negociar lã com o poderoso Varlámov e aproveitam a viagem para fazer o favor para a mãe do menino. Em poucos  parágrafos, linhas, Tchekhov vai delineando as suas personalidades, seus pensamentos e anseios. Simplicidade não quer dizer simplismo. A apresentação é sempre  rápida, mas percebemos o quanto são complexos, amplos, inteiros. Vivos.  
 
Este fio de história é um pretexto em realidade para o desfile e a descrição dos tipos e pessoas pelos quais cruzam. Os donos judeus da pousada onde param  para perguntar do paradeiro de Varlámov, os camponeses, a camponesa com seu filho. A natureza em Tchekhov também adquire presença, personalidade, força,  vontade. Pode começar com uma brisa suave que embala a sonolência e alivia um pouco o calor. Ou então cai e bate com poderoso temporal, criando momentos de  pura poesia em prosa.
 
"Do outro lado das colinas um trovão ribombou surdamente e soprou uma aragem fresca. Denishka assobiou alegremente e fustigou os cavalos. O padre Cristofor e  Kuzmitchov seguravam os seus chapéus e dirigiram o olhar para as colinas... Tomara que caia a chuva!
 
Mais um pequenino esforço, um só, e a estepe se teria libertado. Mas uma força invisível, opressora, pouco a pouco prendeu o vento e o ar, assentou a poeira, e o  silêncio instalou-se novamente como se nada tivesse acontecido. A nuvem escondeu-se, as colinas queimadas ficaram sombrias, o ar paralisou-se submissamente, e  só as aves-frias choravam em algum lugar, lamentando sua sorte.
 
Logo depois, chegou a noite."
 
Extraordinário é o momento quando aparece a Condessa Dranitiski. São só alguns parágrafos, nem dá para acreditar nisso! No entanto, ela agita a todos com sua  beleza, com a frescura de sua mocidade e juventude, acende a imaginação do pequeno Iegóruchka. E a nossa, leitores, que também temos que nos contentar com  sua breve, tão breve, aparição. Dýmov, por outro lado, é o camponês bruto, forte e maldoso, com o qual nos antipatizamos logo de cara. Mas, de repente,  Tchekhov mostra toda sua maestria: com apenas algumas frases, vislumbramos todo um abismo de dor e revolta no meio daquela violência irracional, toda uma vida  sufocada e exasperada. Junto com Iegóruchka também ficamos confusos, quase paralisados com a complexidade do problema: nada é tão simples, não se pode fiar  na aparência do imediato. Aprendemos a visualizar tons e matizes mais aprofundados nos seres humanos.
 
Assim, não nos deixemos enganar por esta sua delicadeza, este gentileza, esta tal de Simplicidade. Tchekhov toca fundo e fácil pois era um mestre tal como fazia  igualmente com bisturi que também manejava, pois era médico além de ser escritor e dramaturgo. 
 
"A Estepe" é uma de suas obras mais louvadas. Diz-se que tem traços autobiográficos, que estaria retratando um pedaço de sua própria infância. É provável que  seja, mas não sei se isso influencia o prazer que tiramos de sua leitura. O subtítulo, "História de uma viagem" é fácil de ser interpretado como mais do que  a simples transição de um lugar para o outro; é uma transição pessoal, um rito de passagem para Iegóruchka / Tchekhov. E a nossa.
 
-
  
Nas obras de Tchekhov não há grandes dramas ou enormes painéis da vida russa. Ele não se preocupa em contar epopéias, nem se joga em angustiadas tramas  psicologizantes como o fizeram, por exemplo, Tolstoi em “Guerra e Paz” ou Dostoievski, em “Crime e Castigo”.
 
Tchekhov é o autor que presta atenção nos detalhes, no mínimo, na concisão. Ao invés de monumentalidade, o simples, o direto, o objetivo. Em lugar de textos  longos e verborrágicos, histórias curtas e contundentes. Tchekhov conseguia, assim, com o mínimo de palavras, alcançar uma pureza de expressão, uma verdadeira  poesia. Historias do cotidiano, sempre, de pessoas vulgares e comuns, do soldado à adolescente pequeno-burguesa, da viúva ao estudante apaixonado, da  farmacêutica ao magistrado. Uma cena, alguns gestos, algumas frases. E, dessa forma, o desnudamento do mais intimo do ser humano. 
 
Em uma carta para o seu irmão Aleksandr, Tchekhov resumia, o seu credo literário: “1. Ausência de uma verbosidade extensiva de natureza  político-social-econômico; 2. total objetividade; 3. descrições honestas de pessoas e objetos; 4. extrema brevidade; 5. audácia e originalidade; fuga dos estereótipo;  6. compaixão."
 
Tchekhov é o criador do conto moderno do qual toda a literatura contemporânea é depositária.
 
O teatro também foi revolucionado pela sua influência. Já era um autor consagrado, e já havia inclusive escrito algumas peças (como “Ivanov”), quando estreou em  1896 A Gaivota”. Ninguém entendeu nada: não havia uma história!, as personagens falavam e falavam, não havia uma trama central, não ocorriam conflitos, nem  cenas dramáticas; a ação, inclusive, ia se diluindo!, ao invés de acelerar, atingir um pico e se resolver no ultimo ato. Como em qualquer peça que se 'preze'. A  temporada foi interrompida após cinco apresentações. A sensibilidade de Tchekhov ficou tão abalada que ele jurou que nunca mais voltaria a escrever para o teatro. 
 
Dois anos depois, no entanto, ele consentiu que a peça fosse remontada. Desta vez, a montagem ficou a cargo do recém-criado Teatro de Arte de Moscou, dirigido  por Stanislavski, que quebra o estilo pesado das anteriores apresentações (o teatro russo era muito mais declamado do que propriamente representado) e imprime  um ritmo e uma apresentação naturalistas. A temporada é um sucesso e consagra Tchekhov como escritor e dramaturgo.
 
A formação acadêmica de Tchekhov foi de medicina. Nascido em 1860, batalhou arduamente para poder passar por cima dos problemas financeiros da família e  custear seus estudos. Começou a escrever pequenas crônicas e contos divertidos do cotidiano russo para revistas e jornais enquanto trabalhava como médico. Sua  produção era impressionante e escrevia muito rápido: dizia-se que conseguia escrever um pequeno conto enquanto esperava para ser atendido em alguma repartição  pública. À medida, no entanto, que sua escrita foi ficando mais séria, deixando de lado seu trabalho mais cômico (feito muito mais para poder ganhar dinheiro), sua  velocidade de produção foi diminuindo. E, mesmo assim, quando morreu em 1904 de tuberculose, deixou escritas várias centenas de contos.
 
Tchekhov ganhou o prêmio Puchkin em 1888 por conta da coletânea dos seus contos publicada no ano anterior; em 1889 foi eleito como membro da Sociedade  dos Amantes da Literatura Russa e em 1900 se tornou membro da Academia de Ciências de Petersburgo (mas, renuncia dois anos depois quando Gorki foi  impedido de se tornar membro). Em 1892 abandona a medicina e passa a viver somente da literatura.
 
As Três Irmãs” é considerada sua obra-prima na dramaturgia. Olga, Macha e Irina tentam, cada uma a sua maneira, sobreviver à imbecilizante monotonia do  dia-a-dia. Não possuem mais perspectivas, não tem mais sonhos. Sua única esperança é de, algum dia, poder modificar suas vidas e ir para Moscou. No entanto, de  que vale a pena se esforçar, se tudo é em vão? Em determinado momento de desespero, Irina diz: “Um dia virá em que todos saberão o porquê de tudo isso... por  que esses sofrimentos... Não haverá mais mistérios... Enquanto esperamos, é preciso viver... É preciso trabalhar. Somente trabalhar. Amanhã partirei sozinha.  Ensinarei na escola e darei toda a minha vida aqueles que talvez precisem de mim. É outono... o inverno virá logo, a neve cobrirá tudo, e eu trabalharei, trabalharei...”
 
Enquanto o inconsciente e despreocupado Tchebutykin cantarola sua frase preferida: “Que importa tudo isso?”.
-
 
Creio que chamar os trabalhos de Anton Tchekhov de miniaturas é de uma expressão particularmente feliz, embora meio óbvia.
 
Ao invés dos enormes painéis e da  arquitetura intrincada dos romances sócio-políticos-históricos de Tolstoi ou as ferventes aventuras psicológicas de Dostoievski, Tchekov se volta para o mínimo,  para o detalhe, para o prosaico cotidiano, para o momento.
 
Não á toa o gênero onde pôde se dedicar e aprofundar esta sua propensão foi o conto, os relatos  breves, onde se consegue apreender todo o conteúdo de uma narrativa ou dos pensamentos ou do caráter dos personagens através de pouquíssimas páginas,  sabemos aonde vai se conduzir suas vidas depois de terminada a palavra no final.
 
São como flashes que captam o determinado momento permitindo-nos observar  seu desenvolvimento por este átimo. Miniaturas, portanto. 
 
Sutis, sem enormes extravasamentos, os personagens e as histórias se realizando por descrições enviesadas. Em “O Beijo”, o conto que dá nome ao volume publicado pela editora 34, por  exemplo, ficamos sabendo desde o inicio que o jovem capitão Riabóvitch é tímido, fechado e, diferente dos seus colegas, nunca tivera um caso amoroso. No  entanto, em uma festa por um acaso acaba recebendo um beijo de uma mulher desconhecida (ele entrara em um recinto escuro e ela pensou que fosse outra  pessoa); logo que percebe o erro, ela corre. Agitado, volta ao salão e procura perceber que seria a tal dama. É aí que ficamos cientes de toda a sua plena solidão,  de sua incapacidade de se socializar, de sua impenitente imaturidade. 
 
Como Schnaiderman observa, o mestre Tchekhov gostaria de sair de suas miniaturas e se aventurar por narrativas mais longas. Seu esforço era tremendo, sentia  muito mais dificuldade, dizia-se ‘mimado’ por conta de sua experiência com os contos curtos. O que o levou a escrever novelas e alguns (poucos) romances  pequenos. Os resultados foram tão preciosos como os demais, forjou obras-primas tanto quanto. Nesta seleção de Boris Schnaiderman nos encontramos com  algumas das jóias mais raras da literatura russa e mundial. 
 
Kaschtanka é uma deliciosa incursão pela vida e pelos ‘pensamentos’ e sentimentos de uma cadela que, ao se perder do seu dono, o bruto e ignorante  marceneiro Luká Aleksândritch, é resgatada e passa um tempo com um tipo de amestrador de animais e lá conhece alguns ‘amigos’: um ganso cinzento, um gato e  acaba até aprendendo alguns truques. Certamente, uma visão diferenciada da vida russa. Em “Viérotchka” e em “Uma Crise” observamos de novo como  ele consegue transpor a aparente simplicidade de seus temas e, a partir de um pequeno evento, revelar-nos uma imensidão psicológica que antes estaria escondida.  Ao sair de uma aldeia onde vivera por alguns meses, um jovem recebe uma inesperada declaração de amor, o que o obriga a repensar sua vida até então e tomar  decisões desagradáveis. No outro, um estudante ingênuo faz um périplo junto com seus colegas por entre alguns bordeis da cidade e as condições de vida e de tédio  o chocam de tal maneira que acredita dever tomar alguma atitude (esta história, aliás, provocou algumas reações de escândalo na época pela sua descrição  naturalista das prostitutas e do seu modo de vida, e até mesmo pela própria ousadia do tema). Da juventude para o extremo oposto, “Uma história enfadonha” narra o cotidiano de um velho professor universitário ainda na ativa, mas que sente sua cada vez maior dificuldade de sobreviver aos dias  cansativos, à falta de seus antigos amigos, da família que não o compreende, nem sentirá plenamente sua morte. Longas digressões tornam este o maior texto deste  volume e, por mais que admire o trabalho tchekhoviano, devo admitir ser o que mais testa a paciência do leitor.
 
Enfermaria n° 6” é um dos seus textos mais famosos e o que mais chamou a atenção de sua obra, desde sua publicação. As digressões, as longas conversas  entre ‘loucos’ e médico, neste caso funcionam com uma maravilhosa e autêntica perfeição. Entre o que é razão e des-razão ou simplesmente loucura e onde elas se  localizam a ponto de levar o especialista a ‘virar de campo’, o que sobra é uma obra magnífica, de extrema simplicidade e efeito duradouro. Impossível para nós,  brasileiros, não percebermos as absolutas semelhanças entre este e o nosso também famossíssimo "O Alienista’, não só pelo tema, pela narrativa, e pelo final,  mas inclusive pelas idéias. Dá para sentir a ‘voz’ de Machado, por exemplo:
 
Tendo examinado o hospital, Andrei Iefímich chegou à conclusão de que era uma  instituição imoral e altamente nociva à saúde dos habitantes. A seu ver, o que havia de mais inteligente era soltar os doentes e fechar o hospital. Compreendeu,  porem, que, para isso, não bastava a sua vontade e que seria inútil; expulsando-se a impureza física e moral de uma parte, ela passa a outra; era preciso esperar que  se desfizesse por si. Ademais, se as pessoas fundaram um hospital e toleravam-no em seu meio, queria dizer que estes lhes era necessário; os preconceitos e todas  essas ignomínias e baixezas do cotidiano são necessários, pois, com o passar do tempo, transformam-se em algo consistente, como o esterco em húmus”.
 
De novo,  apesar do eixo deste trecho e da própria novela ser o hospital em si, pode-se perceber o quanto apreendemos da cidade que o rodeia e dos seus problemas e  vícios, em algumas rápidas pinceladas.  

-

 

Apesar do seu enorme prestigio nas terras russas, Tchekov era praticamente desconhecido fora do seu país. Somente após sua morte, e principalmente após a Primeira Guerra Mundial, seu nome e o seu trabalho começaram a circular de verdade.  E se tornou consagrado mundialmente.
 
 
 
 
in Resenhas
 
 
 

 

 

Luminária amarela

 
 
Você já estava nua quando cheguei na porta do quarto. Atravessei o quarto, entrei no banheirinho, olhei para o espelho e para minha cara larga e as olheiras e a papada e a calvície pronunciada, desviei o olhar, não precisava ficar sofrendo, cutuquei minha barriga dos lados e pela frente, um leve incômodo costumeiro no lado esquerdo logo acima da cintura, abri a boca e escancarei a língua, tentei olhar para a língua e não para o espelho, meus olhos devem ter ficado vesgos, senti ânsia de vômito, fechei a boca, suspirei, tirei a camisa, meu peito continua peludo, talvez tanto quanto na minha época de garoto quando meus amigos diziam que eu tinha um colete-à-prova-de-balas (há-há-há) (curiosamente, meus braços sempre foram quase pelados), talvez um pouco mais de pêlos brancos, sentei na privada, fiquei com vontade de fumar, esqueci os cigarros na sala, aliás creio que o maço acabou faz alguns anos, reprimi a vontade, levantei, usei o papel higiênico à toa, nem ficou sujo, descalcei os chinelos, coloquei-os no canto, apesar do uso ainda firmes, tirei lentamente a meia esquerda, senti frio, coloquei de novo, abaixei a calça de pijama, fiquei de cuecas e meias, portanto; olhei para o bidê, queria lavar meus pés, mas para isso teria que tirar as meias. Atravessei o quarto, fui para a cozinha, abri o armário, lembrei que havia um resto de bolachas, estavam moles e quase mofadas, mas embora o verdinho provavelmente dê um gostinho a mais abri a gaveta, tirei uma faca, raspei o verdinho, engoli a bolacha, quase ia saindo até me dar conta de que havia jogado displicente as raspas encima da pia, peguei um clinex, abri a torneira, dei uma molhada, passei pelo mármore, abri a tampa do lixinho, joguei as raspas; quase ia saindo, já estava apagando as luzes, lembrei da faca, voltei, abri a gaveta, guardei-a, fui saindo, aí apaguei, aí resolvi, e pensei A faca deve estar suja do verdinho, ah que merda, pensei Foda-se, voltei para o quarto e aí lembrei que não tinha fechado direito a torneira do banheirinho. Fechei a torneira. Interrompi o fluxo de água inutilizada. Suspirei. Deitei na cama, não olhei para sua cara, tirei a cueca, o pau demorou a subir, o pau demorou muito a subir, eu sei que existe um viagra em algum canto dessa casa, levantei, abri a gaveta do criado-mudo, suspirei, fui até o escritório, por que diabos haveria um comprimido de viagra na mesa do escritório?, voltei, deitei, fiquei de costas por dez minutos, quinze minutos, quase meia-hora, virei, fiquei por cima de você, fiz algum tipo de carícia no qual já estávamos até desacostumados, até ficamos meio surpresos, meu pau afinal ficou duro o mínimo suficiente para conseguir penetrar, mexi a bunda e a cintura o suficiente para tentar penetrar, você parecia nem querer perceber minha existência, não faço idéia se o que resultou foi uma gozada, mas afinal parei, dei um tempo para ver se haveria prosseguimento, saí de cima, fiquei deitado, de esguelha percebi que seu rosto estava meio molhado, levantei, fui para o criado-mudo do seu lado da cama, encontrei um lenço de papel perfumado (tinha três caixas desse lenço, aliás!), estendi um pra você, não houve reação, acabei passando eu mesmo um pelo seu rosto. Suspirei, voltei a deitar, não quis apagar a luz da luminária japonesa.
 
 
 
 
in Contos
 
 
 

 

 

Piva

 
 
Renata D´Elia (Magic on Sundays - 27/02 - 18:42): O poeta Roberto Piva foi transferido neste fim de tarde para um outro quarto no Hospital das Clínicas. O local é bastante arejado e ele está na companhia de apenas mais uma pessoa, bastante satisfeito com a nova acomodação.
 
Conforme divulgado no post anterior, Piva está recebendo bons cuidados da equipe médica do HC. Ele deve passar por um Cateterismo nos próximos dias. No momento, a prioridade é fortalecê-lo e garantir-lhe um bom funcionamento cardíaco. Posteriormente serão feitas 2 cirurgias: próstata e catarata.
 
Como qualquer grande homem de 73 anos, acostumado a devorar Leitões à Pururuca & outros banquetes, Piva reclamará da comida do hospital, "sem sal e sem gosto", em qualquer quarto do mundo. E nem precisa ser poeta pra reclamar disso: costuma ser assim conosco, com nossos amigos, nossos pais e avós. Ou alguém aqui trocaria uma pizza de mussarela por um purê de batatas sem sal?
 
Portanto, vamos continuar torcendo para que ele se recupere logo. O apoio dos amigos é sempre bem-vindo. Desde já, gostaria de agradecer aos que me ajudam a divulgar esses esclarecimentos referentes à internação do Piva. Peço que continuem a divulgar.
 
Ademir Assunção (Espelunca - 28/02 - 13:06): Depois da mudança para um quarto melhor, Roberto Piva está bem mais animado. Hoje cedo pediu para o Gustavo levar livros. Os amigos continuam se mexendo para que ele tenha um bom tratamento e se recupere o mais rápido possível. É isso o que interessa.
 
Paulo de Tharso postou um vídeo produzido pelo Grupo Interzona, com Piva lendo o poema Piedade, permeado com a voz de William Burroughs, Jim Morrison e imagens do próprio poeta. Eis o link: http://salvemofelix2.blog.uol.com.br/
 
Amigos estão se mexendo também para fazer uma leitura com o objetivo de arrecadar grana para Piva. 

 

 

 

 

Roberto Piva: URGENTE

 
 
 
RITUAL DOS 4 VENTOS & DOS 4 GAVIÕES
para Marco Antônio de Ossain
 
"Eu trago comigo os guardiões dos Circuitos celestes." 
— Livro dos Mortos do Antigo Egito —
 
 
Ali onde o gavião do Norte resplandesce
sua sombra
Ali onde a aventura conserva os cascos 
do vudú da aurora
Ali onde o arco-íris da linguagem está 
carregado de vinho subterrâneo 
Ali onde os orixás dançam na velocidade 
dos puros vegetais
Revoada das pedras do rio
Olhos no circuito da Ursa Maior 
na investida louca
Olhos de metabolismo floral
Almofadas de floresta
Focinho silencioso da sussuarana com
passos de sabotagem
Carne rica de Exú nas couraças da noite
Gavião-preto do oeste na tempestade sagrada
Incendiando seu crânio no frenesi das açucenas
Bate o tambor
no ritmo dos sonhos espantosos
no ritmo dos naufrágios
no ritmo dos adolescentes
à porta dos hospícios
no ritmo do rebanho de atabaques 
Bate o tambor
no ritmo das oferendas sepulcrais 
no ritmo da levitação alquímica 
no ritmo da paranóia de Júpiter 
Caciques orgiásticos do tambor
Com meu Skate-gavião
Tambor na virada do século ganimedes
Iemanjá com seus cabelos de espuma.
 
 
 
OS ANJOS DE SODOMA
 
Eu vi os anjos de Sodoma escalando
um monte até o céu
E suas asas destruídas pelo fogo
abanavam o ar da tarde
Eu vi os anjos de Sodoma semeando
prodígios para a criação não
perder o ritmo de harpas
Eu vi os anjos de Sodoma lambendo
as feridas dos que morreram sem
alarde, dos suplicantes, dos suicidas
e dos jovens mortos
Eu vi os anjos de Sodoma crescendo
com o fogo e de suas bocas saltavam
medusas cegas
Eu vi os anjos de Sodoma desgrenhados e
violentos aniquilando os mercadores,
roubando o sono das virgens,
criando palavras turbulentas
Eu vi os anjos de Sodoma inventando a
loucura e o arrependimento de Deus
 
(in: Paranóia, 1963)
 
 
 
PRAÇA DA REPÚBLICA DOS MEUS SONHOS
 
A estátua de Álvares de Azevedo é devorada com paciência pela paisagem
   de morfina
a praça leva pontes aplicadas no centro de seu corpo e crianças brincando
   na tarde de esterco
Praça da República dos meus sonhos
   onde tudo se faz febre e pombas crucificadas
   onde beatificados vêm agitar as massas
   onde García Lorca espera seu dentista
   onde conquistamos a imensa desolação dos dias mais doces
os meninos tiveram seus testículos espetados pela multidão
lábios coagulam sem estardalhaço
os mictórios tomam um lugar na luz
e os coqueiros se fixam onde o vento desarruma os cabelos
Delirium Tremens diante do Paraíso bundas glabras sexos de papel
   anjos deitados nos canteiros cobertos de cal água fumegante nas
   privadas cérebros sulcados de acenos
os veterinários passam lentos lento Dom Casmurro
há jovens pederastas embebidos em lilás
e putas com a noite passeando em torno de suas unhas
há uma gota de chuva na cabeleira abandonada
enquanto o sangue faz naufragar as corolas 
Oh minhas visões lembranças de Rimbaud praça da República dos meus
   Sonhos última sabedoria debruçada numa porta santa
 
 
 
LIBELO
 
Não mais trarei justificações
Aos olhos do mundo.
Serei incluído
” Pormenor Esboçado ”
Na grande bruma.
Não serei batizado,
Não serei crismado,
Não estarei doutorado,
Não serei domesticado
Pelos rebanhos
Da terra.
Morrerei inocente
Sem nunca ter
Descoberto
O que há de bem e mal
De falso ou certo
No que vi.
 
(in: Antologia dos Novíssimos, 1961)
 
 
XVI
 
abandonar tudo. conhecer praias. amores novos.
poesia em cascatas floridas com aranhas
azuladas nas samambaias.
todo trabalhador é escravo. toda autoridade
é cômica. fazer da anarquia um
método & modo de visa. estradas.
bocas perfumadas. cervejas tomadas
nos acampamentos. Sonhar Alto.
 
(in: 20 Poemas com Brócoli, 1981)
 
 
ALMA FECAL
 
Alma fecal contra a ditadura da ciência
Rua dos longos punhais
Garoto fascista belo como a grande noite esquimó
Clube do fogo do inferno: Alquimistas Xamãs
Beatniks
Je vois l’arbre à la langue rouge (Michaux)
Templo

Procissão do falo sagrado
Deuses contemplam nas trevas o sexo
do anjo do Tobogã
Felizes & famélicos garotos seminus dançam
como bibelôs ferozes
Pedras com suas bocas de seda
Partindo para uma existência invisível
Tudo que chamam de história é meu plano
de fuga da civilização de vocês
Represa de Mariporã. 95
 
(in Ciclines, 1997)
 
 
*********
 
 
de Ademir Assunção (http://zonabranca.blog.uol.com.br/):
PIVA URGENTE
 
Roberto Piva, um dos maiores poetas brasileiros, está internado na enfermaria do Hospital das Clínicas, em estado precaríssimo. Piva tem 73 anos e sofre de mal de Parkinson. Segundo o poeta Celso de Alencar, que o visitou ontem, ele está num verdadeiro inferno dantesco. 
 
Nos últimos anos, Piva teve suas obras completas reunidas pela editora Globo em três volumes: Um Estrangeiro na Legião, Mala na Mão & e Asas Pretas e Estranhos Sinais de Saturno. Sua poesia voltou a circular como um furacão, mas o poeta continuou vivendo em situação precária. É comum os amigos se cotizarem para comprar os remédios que ele precisa para manter os efeitos do mal de Parkinson num nível razoável.
 
Artistas não vivem de elogios.
 
É preciso tirá-lo da enfermaria do HC e transferí-lo para um quarto. Urgente. Isso é o mínimo nesse momento.
 
Ou as palavras do próprio poeta vão se confirmar como uma nefasta profecia?:
 
“O objetivo de toda Poesia & de toda Obra de Arte foi sempre uma mensagem de Libertação Total dos Seres Humanos escravizados pelo masoquismo moral dos Preconceitos, dos Tabus, das Leis a serviço de uma classe dominante cuja obediência leva-nos preguiçosamente a conceber a Sociedade como uma Máquina que decide quem é normal & quem é anormal.”
 
“... criminosos fardados & civis têm o poder absoluto para decidir quem é útil & quem é inútil”.
 
“Enquanto isso, os representantes da poesia oficial & os engomados homens de negócios trocam entre si, numa reciprocidade suspeita, discursos & homenagens estourando de vaidade diante do aplauso de seus concidadãos. O que eu & meus amigos pretendemos é o divórcio absoluto da nova geração dos valores destes neomedievalistas”.
 
 
************ 
 
de Ana Peluso: Pessoal, esse texto abaixo, publicado no blog do Ademir Assunção, deixa claro que Roberto Piva precisa de ajuda URGENTE.
 
Se alguém de vocês conhece alguém no HC que tenha condições de conseguir uma transferência para um quarto, já é um alento.
 
Só quem já precisou ficar em enfermaria, ou mesmo corredor, em qualquer hospital público de São Paulo, sabe o inferno que é isso.
 
Enfim, divulguem, peçam ajuda, repassem.
 
Nem um cidadão merece passar por isso, muito menos um poeta do quilate do Piva.
 
Se alguém quiser ajudar de outra forma,  entre em contato com o Ademir pelo e-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra SpamBots. Você precisa ter o JavaScript habilitado para vê-lo.
 
Vamos lá. A poesia agradece.
 
Bjs e abraços
Ana
 
aproveitando pra (me) corrigir: a poesia agradece, o escambau. o ser humano Roberto Piva agradece.
 
bjs
Ana
 
 
***************
 
Dados do Piva para eventual ajuda, divulguem. A situação é caótica
Itaú
agência 0036
cc 20592-0
cpf 565 802 828-00
 
*************
 
Uma balada com Roberto Piva: TV CRONÓPIOS
 
http://www.cronopios.com.br/tvcronopios/conteudo.asp?id=31
 
 
 
 
 
 
 
 

 

 

Nada é o que parece para Patricia Highsmith




Este é um livro desconcertante. Não por causa da versatilidade, ou da quantidade de trabalho do qual Patricia Highsmith era capaz. Para quem conhece um mínimo de sua vida, sabe bem o quanto ela escrevia, por quantos gêneros transitava, de quantas milhares de páginas deixou ao morrer. A curadora de seus documentos, Ana Von Planta, diz que seus arquivos são tão volumosos que, enfileirados, atingem quarenta e cinco metros.

Para quem não sabe, ou está chegando agora, ou sabe somente que ela foi a criadora do maior anti-herói da literatura universal, Tom Ripley, saiba então da absoluta seriedade (severidade) com que Patricia encarava sua literatura. Há uma famosa história, citada por Paul Ingendaay, de quando ela descartou um romance que escrevia, queimou os papéis, pela insatisfação do resultado. O detalhe é que já tinha escrito por volta de trezentas páginas. 

Portanto, não surpreende que estes contos agora reunidos tenham sido deixados de lado pela autora. Seja por quais critérios ela trabalhasse, dificilmente teria concordado com esta antologia. Mesmo que não tenham sido jogados fora (ou queimados), estavam no meio de sua imensa papelada, sem perspectiva de algum dia serem publicados. Alguns chegaram a ser editados em revistas, a maioria é absolutamente inédita. “Nada é o que parece” está dividido em duas partes, abrange desde seus primeiríssimos escritos, de 1938 a 1949, enquanto tentava se firmar como escritora e ser conhecida (seus primeiros contos foram publicados a partir de 1939), a 1952 a 1982, consagrada e premiada, reconhecida bem mais como romancista já que escreveu quarenta romances e publicou bem poucos contos em comparação. 

E é este o ponto que espanta, até choca. Surpreende, quase ao incompreensível, é a qualidade destes escritos. A profundidade, a variedade de registros, a experimentação de formas narrativas. Encontra-se aqui tanto uma delicada fábula moral, ao estilo de um  O. Henry, como “Um fracassado nato”, quanto um extraordinário conto policial em “Música para morrer”. Uma fantasia maluca em “O segundo cigarro”, que retoma o arquétipo literário do duplo, ou uma ‘quase’ fantasia em “Uma garota como Phyl”. Ela brinca com nossa ansiedade ao criar em poucas páginas um impressionante suspense, pela possibilidade do ataque de um pedófilo em “Um homem muito gentil”, ou nos faz deslizar pela amizade de um cão pelo seu dono, em “O melhor amigo do homem”, através da aparente vida fracassada do personagem principal. 

Estão presentes vários dos temas, personagens e ambientações que seriam desenvolvidos mais tarde nos romances. Pode-se apreciar, portanto, a gênese de muito do que escreveria e faria sua fama. Porém, desde os primórdios, desde o primeiro conto apresentado neste livro, “As manhãs mais poderosas”, já existe a mesma visão desencantada, melancólica, pessimista da vida e da humanidade. Há a mesma ambigüidade moral, a mesma dúvida, talvez fosse melhor dizer. Esta tal ambigüidade, da qual Ripley é seu ícone, e que perpassa por toda sua obra, não foi um desenvolvimento, nem descoberta tardia, mas reflexo de sua própria vida e pensamento, é movimento inerente de toda sua literatura. E todos eles incomodam, cutucam. Mesmo nos (poucos) finais felizes, a tal felicidade tem um sabor amargo, estranho.

Não há como deixar de se sentir privilegiado por poder tomar contato com estes contos. Nem como ficar tranqüilo ou não ser tomado pela ansiedade: o que mais poderá sair dos tais arquivos, quantas outras obras-primas poderão vir à tona? 

E, aliás, quando é que, afinal de contas, vão traduzir a biografia de Patricia Highsmith, morta já mais de há dez anos?! O ótimo Beautiful Shadow: A Life of Patricia Highsmith, de Andrew Wilson, foi lançado em 2003, já tá na hora. 


 
 
 
in Resenhas
 
 
 

 

 

Os prefácios de Henry James

 
 
 
Em 1907, Henry James estava exultante: recebera os dois primeiros volumes da luxuosa coleção de seus escritos, a chamada Edição de Nova York, pela qual esperava obter finalmente reconhecimento popular e retorno financeiro. O reconhecimento crítico há muito havia adquirido, suas obras eram admiradas e respeitadas e sua intensa produção até sua morte em 1916 (vinte romances, doze peças teatrais, cerca de 106 contos e novelas e mais de trezentos ensaios) impunham mesmo respeito. 
 
Mas, não pelo, como diríamos hoje, o "grande público". Nunca conseguiu fazer dinheiro com a literatura e todas suas peças foram fracassos, com apresentações e resultados ínfimos (isto é, quando conseguiam ser encenadas). Sua esperança era que, com a Edição de Nova York, tudo mudasse. 
 
Como nos conta Marcelo Pen, este tipo de publicação dos finais do século XIX, começo do século XX, era um sucesso editorial. A própria editora norte-americana de James, a Scribner's, em conjunto com a britânica Constable, já havia lançado "as obras completas de Stevenson e de Kipling. Havia coleções similares de Meredith, Thoreau, Emerson e Hawthorne. A prática era tão disseminada que algumas casas, como a A Estes and Lauriat, disfarçavam edições comuns como se fossem de bibliógrafos: engodos fastuosamente empacotados contra os quais a revista semanal The Nation chegou a mover uma campanha". 
 
Por razões comerciais, a idéia inicial de resgate das obras completas, como era o comum, foi deixada de lado. Afinal, suas últimas obras haviam sido uma nulidade em termos de vendas. A Edição tornou-se, portanto, uma antologia. Henry James dedicou-se e labutou. Reescreveu todas as obras que seriam incluídas, reformulou cenas, mudou personagens, orientou as ilustrações com fotos exclusivas para cada texto tornando o trabalho o mais "artístico" e chamativo possível, correu de um lado para o outro por conta da complexa questão legal dos direitos autorais, elaborou notas e escreveu prefácios específicos, comentando sobre a gênese dos seus escritos, sua visão sobre a confecção da literatura, os próprios princípios da literatura que norteavam suas idéias e a experiência de sua leitura renovada. 
 
O resultado? Em 1908, seu primeiro pagamento de direitos autorais foi de 211 dólares. No ano seguinte, 596,71 dólares. O choque e o desânimo foram tão grandes que, conforme Marcelo Pen, Henry James ficou arrasado e "por um bom tempo, pensou ser incapaz de continuar a escrever". 
 
Sabemos que continuou, sim, a escrever, embora sua conta bancária nunca tenha aumentado significativamente. Sua consciência artística o impelia, mesmo que incompreendido e impopular. A tal ponto que seus últimos escritos só foram reconhecidos como obras-primas depois de sua morte. 
 
Desde o primeiro momento, os Prefácios fizeram furor. De um lado, um crítico da Literary Digest discordava da natureza das revisões, pois um "autor não deveria modificar o caráter de sua obras publicadas, pois elas já pertenciam, nesse sentido, ao domínio público", constituíam "clássicos" e não deveriam ser modificados nem mesmo pelo próprio autor. Enquanto que Percy Lubbock escreveu que os Prefácios eram "um acontecimento, de fato o primeiro acontecimento" na história do romance. Além da espirituosa afirmação de Ford Madox Ford ao declarar que eles esgotavam todas as questões relativas ao método de ficção: "Nenhuma estória sequer deixou de ser anotada, analisada criticamente e (mais uma vez criticamente) consumida até o fim como qualquer laranja. Nada resta ao pobre crítico senão a mera citação". 
 
 
Em 1934, os prefácios foram reunidos em um único livro por Richard Blackmur em "The Art of the Novel: Critical Prefaces of Henry James". A discussão sobre eles continuou, ora encarados como um verdadeiro método de feitura de literatura clássica e que, portanto, podiam ser considerados como um trabalho autônomo e independente, ora como comentários pessoais e intrínsecos aos textos prefaciados os quais não poderiam, nesse caso, ser separados, ora como peças literárias em si. 
 
O fato é que, para o Brasil, essa discussão chegava sempre manca e insuficiente. Entre nós, poucos prefácios foram traduzidos ao longo desse tempo (aliás, diante do manancial de sua literatura, a quantidade de livros de James traduzidos chega a ser vergonhosa). O trabalho de Marcelo Pen (A arte do romance: Antologia de Prefácios) foi extraordinário e, como diz Ismail Xavier em sua apresentação, "vem cobrir uma lacuna embaraçosa em nossa bibliografia - e o faz com brilho". Lúcido, embasado, respeitoso, com uma primorosa tradução e considerável trabalho de campo (os Prefácios foram o tema de sua dissertação de mestrado), Pen não se limita a traduzir. Sua introdução é ótima! Elucidativa, didática, histórica e analítica. Além do que, sua escrita é simples, muito gostosa de ser lida e sem academicismos bobos. Nada menos do que Henry James, verdadeiro cultor da linguagem, merecia. 
 
Mesmo porque, traduzir James é um jogo duríssimo (não é à toa que o nível de algumas traduções brasileiras seja tão deprimente). Ele foi o mestre da sutileza, da ironia disfarçada, da crítica nas entrelinhas que nunca se revelavam a uma leitura superficial. A língua inglesa em suas mãos demonstrava uma beleza, riqueza e maleabilidade impressionantes. Sua aparente simplicidade (é muito fácil ler seus livros!) esconde uma enorme variedade de matizes e possíveis interpretações que se sobrepõem, se interpenetram, se comentam. É claro que esse rigor lingüístico e artístico está presente na escritura dos Prefácios. Comentários "técnicos", autobiografia literária e pessoal, ensaística, crítica literária formalista, narrativa artística subjetivista... 
 
Os Prefácios não estão, de forma alguma, fechados à interpretação. "Não se procurem nelas", nas reluzentes lições do mestre tão nítidas no meio desse "rico retrospecto", "resultados simples, valores típicos ou significados únicos". Faz parte do rigor de James, em sua fase mais experimental, a necessidade de abertura, a busca da polissemia e dos toque sutis. 
 
Com isso, não chego nem perto de dar uma idéia da força e do vigor demonstrados por Marcelo Pen ou da intrépida beleza da prosa jamesiana. Paciência. Na verdade, para os leitores e já admiradores do autor de "A Volta do Parafuso", "Retrato de uma Senhora", "A Fera na Selva", "A Taça de Ouro" nem é preciso falar nada. 
 
Aos que não o conhecem, seria preciso dizer tudo. É muito para uma pobre resenha. Eu só posso dizer o seguinte: aproveitem o belíssimo e competente (para "maneirar" os superlativos) empenho de Marcelo e conheçam o universo jamesiano. A empreitada vale a pena.
 
 
 
 
in Resenhas
 
 
 
 

 

 

Mulheres de Hijak Skank

 
 
 
 
 

 

 

Mulheres de Egon Schiele

 
 
 
 
 
 
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mulheres de Hubert de Lartigue

 
 
 
 
 
 
 
 in MUSAS
 
 
 
 
 
 
 

Dramaturgo renasce depois de pesadelo




É verdade que você ficou com duas balas no corpo?

Tem uma aqui, perto da coluna. Se pega, eu tava aleijado. E tem uma outra aqui atrás... sei lá. No raio X tem, tá ali, não sei onde é direito. Sei que tem duas balas-souvenir aí dentro.

E qual eles tiraram?

A que foi no coração.

No seu blog, muita gente pergunta o que você viu enquanto estava em coma, se viu Deus ou se viu o Diabo...

Rarararará! Cara, eu vi o Pereio (Paulo Cesar Pereio, ator).
 
 
Mário Bortolotto no seu habitual estilo franco, direto,  conversa com Jotabê Medeiros, no jornal O Estado de São Paulo. Texto completo aqui: Dramaturgo renasce depois de pesadelo.
 
 
 
 
 
 
 

Apresentando uma nova e revolucionária tecnologia: o Livro!

 
Toda nova e espetacular tecnologia traz os seus próprios desafios e problemas.
 
 

 

 

The Runaways - em Sundance

 
The Runaways, o filme, com Kristen Stewart e Dakota Fanning, tem data marcada para estrear nos Estados Unidos. Em março. Por esses dias, haverá algumas exibições especiais, pela programação do Sundance Film Festival deste ano (que, aliás, começa hoje). Infelizmente, vou estar um tanto ocupado, não poderei dar uma passadinha por lá e conferir como está o resultado dessa estréia que muito estou aguardando.
 
Tenho esperança de que será um bom filme, há muita coisa a favor para isso. Começa por ser uma história bacana, que bem merece se contar: da formação e do impacto do grupo 'The Runaways', uma banda de rock dos anos setenta, formada somente por mulheres, adolescentes, na verdade. Grupo que marcou época, abriu caminhos, provou que bandas femininas podiam fazer um som com tanto peso, com tanta 'atitude' e inclusive fazer sucesso, quanto os homens. Sua carreira foi meteórica, arrasadora e curtíssima, durou poucos anos, mas continua provocando reações e continuidades até hoje. Depois da dissolução da banda, em 1979, a maioria das integrantes continuou com carreiras próprias (somente uma abandonou de vez a música, entrou para faculdade e se formou advogada!), com destaque para Joan Jett e sua carreira solo. 'The Runaways', além do som que variava e fluia entre o rock and roll e o punk rock, já causava sensação só pela sua presença e existência: eram adolescentes, com cabeça própria, mentalidade independente, compunham sua própria música e tocavam realmente de verdade. 
 
Outro dado que pode ser positivo é o fato da diretora, Floria Sigismondi, ser uma iniciante como cineasta. Ela é fotógrafa e tem uma carreira como diretora de videoclips, já trabalhou com gente do quilate de  White Stripes, David Bowie, Interpol e The Cure. Isso significa que ela estará com muita gana para se provar como diretora de Cinema. Vamos ver o que vai acontecer.
E tem as atrizes, por supuesto. Pessoalmente, estou torcendo muito para que Dakota Fanning confirme o talento e a força que traz há tanto tempo como a espetacular atriz infantil que já provou ser e consiga realizar essa complicada transição para a idade adulta. Capacidade possui, esperemos que a concretize. Para mim, ainda é um choque vê-la tão crescida, a imagem que ainda carrego é de filmes como 'Chamas da Vingança' (Man on fire', com Denzel Washington). Ela acabou de participar da saga 'Crepúsculo', em 'Lua Nova, mas isso eu não vi, e não acho que esse filme sirva como parâmetro de atuação.
 
E, claro, tem Kristen Stewart. Bonitinha, insossa, que vem do sucesso dos filmes dos emo-vampiros, e que parece estar se dedicando a se provar realmente como atriz: neste mesmo festival de filmes independentes do Sundance ela está estrelando dois filmes!: 'The Runaways' e 'Welcome to the Rileys', um drama pesado onde ela faz uma jovem problemática, moradora de rua que faz bicos como stripper, que começa a participar da vida de um casal que acabou de perder sua filha adolescente. 
 
Bom, talvez o termo 'esperança' que usei acima esteja equivocado. Estou mais ansioso do que esperançoso. Porque, no final das contas, tudo pode dar errado: a diretora pode se revelar completamente equivocada para o posto, Dakota pode fracassar como atriz séria, a insossice de Kristen Stewart pode prevalecer. Mais preocupante do que tudo, na verdade, é saber como eles vão lidar com essa história e com o que ela representa. Afinal, se para a época dos efervescentes e contestadores anos 70 já foi bem complicado reconhecer e aceitar a força de um grupo de meninas adolescentes que ousavam se impor e colocar sua música pesada, o que se dirá então de nossos tempos do carola e estupidamente empobrecedor 'politicamente correto', do moralismo cada vez mais feroz e opressor, do pensamento mesquinho e reacionário?
 
Sei lá, de repente fiquei com medo. Espero que esse filme não seja uma porcaria completa...
 
 
 
 
 
in Cinema
 
 
 
 

A cara feia e azul do Avatar

 
Independente do que se pense sobre a qualidade e o impacto das imagens de 'Avatar' de James Cameron, ou da importância ou da falta da presença de uma boa história ou roteiro, o filme recebeu críticas de vários níveis e teores, algumas sérias e embasadas, a maioria esquizofrênica ou simplesmente esquisita. Essa aqui é uma das melhores, que vi no Blog de Cine:
 
"Uma das jóias da semana: A organização 'Comunistas de San Petersburg' exigiu a prisão de James Cameron, a quem acusam de ter roubados idéias da ficção científica soviética para inclui-las no seu filme Avatar."
 
Até aí, tudo bem. Pode-se pensar o que quiser. O filme  recebeu várias acusações de plágio antes de sua estréia quando somente algumas imagens e o resumo de sua história tinham sido divulgados. Embora nenhuma tenha sido levada adiante, algumas dessas argumentações que eu vi eram bem impressionantes. Mas aqui, desses 'Comunistas de San Petersburg' o melhor é a continuação:
 
"Os adolescentes se assustam ao ver essas caras azuis, fruto da imaginação doentia de Cameron, não conseguem dormir à noite, não descansam, e em consequencia deixam nervosos seus pais. A arte deveria proporcionar beleza e não um horror azul e imagens de dissecação de pessoas em mesas de operações dos OTAN-fascistas. Cameron devia estar atrás das grades e não em cerimônias de Oscar"
 
 
No Blog de Cine há várias outras jóias ditas pelo mundo do cinema e arredores
 
 
in Cinema
 
 
 
 
 

De quando Frank Miller era bom: "Martha Washington"

 

É difícil entender o que aconteceu com Frank Miller, em que ponto virou a esquina e começou a descer a ladeira.

Na década de 80 foi um dos responsáveis por virar de cabeça para baixo a história dos quadrinhos e provou que essa indústria de massa não precisava ser idiotizante e que, mesmo utilizando elementos e personagens superheróis norteamericanos, era possivel trazer inteligência, vitalidade, sangue vivo, renovação.
 
Revitalizou e, na prática recriou um personagem secundário e o alçou à primeira linha, com roteiros exatos e instigantes com o Demolidor (um dos meus personagens preferidos de todos os tempos), criou a bela e impiedosa assassina grega Elektra e escreveu uma das mais belas histórias que conheço, 'A Queda de Murdock'. Em 1986 lançou o definitivo e retumbante 'Cavaleiro das Trevas', redefinindo daí para frente tudo e qualquer coisa que fosse relacionado ao universo dos superheróis, influenciando não só o mundo dos quadrinhos mas todas as artes integradas, em principal o cinema, que desembocaria atualmente nessa atual nova levada à sério (muito à sério) (mas não vou discutir aqui o impacto e os resultados dessas adaptações).
 
(Do outro lado do oceano, na Inglaterra, outro mestre, o mago Alan Moore também desferia chutes nos bagos, com o 'Marvelman', com o 'Monstro do Pântano', 'V de Vingança', e a melhor história em quadrinhos de toda a história, 'Watchmen', publicada exatamente na mesma época de 'Cavaleiro das Trevas'). 

Aos poucos, Miller foi perdendo o fôlego. 'Hard Boiled' é genial, 'Sin City' (apesar da premissa sensacional) é extremamente irregular, '300' é ruim e chato. Embora nada pudesse prever o lixo inominável que foi a continuação de 'Cavaleiros das Trevas', projeto que recusou durante mais de vinte anos, apesar da pressão da editora, e que acabou aceitando fazer (a pressão ou o dinheiro oferecido devem ter sido demais...).
 
Do 'Cavaleiro das Trevas 2' nada mais falo além de Lixo, Lixo. Lixo nos desenhos, na história, nas idéias. Um trabalho vergonhoso e indigno para quem já tinha feito tanto. (e sua carreira conseguiu piorar ainda mais, de modo inacreditável, quando resolveu realizar o filme do 'Spirit'! Como é possível que um quadrinista, alguém que sabe tão bem o que significa escrever um trabalho memorável, tome um personagem tão fundamental e tão completo e rico e jogue na sarjeta tão estupidamente?).
 
No começo da década de 90, Miller saiu das grandes editoras, deu um tempo com superheróis e se dedicou a projetos mais pessoais e densos. Sem dúvida, sua fama e preeminência (e, com certeza, uma boa situação financeira) lhe permitia realizar outros experimentos. Daqui surgiram 'Hard Boiled' e a série Martha Washington (e, mais tarde, 'Sin City', claro). Miller estava no auge, estava animado, e isso se reflete na sua escrita. Interessado mais em escrever do que desenhar aqui, ele fez parceria com  Geof Darrow, para 'Boiled', e com Dave Gibbons (o consagrado desenhista e co-criador de 'Watchmen') para 'GIVE ME LIBERTY', a primeira minissérie da saga de Martha Washington.
 
'Give me liberty' é ambientada em um futuro próximo e mostra um mundo dominado pelas grandes corporações e um Estados Unidos controlado por um presidente popular e proto-fascista que conseguiu manipular as instituições e reformular a Constituição, o que lhe permitiu reeleições sem limite, e desembocar em um Estado totalitário. Os grandes bolsões de miséria aumentam a instabilidade política e provocam manifestações que são violentamente reprimidas. Martha Washington (que, não por acaso, é o mesmo nome da esposa de George Washington, o primeiro presidente norte-americano) nasce e cresce em um mesmo e único bairro fechado e inacessível, na verdade um dos enormes guetos destinados à população negra do país.
 
Testemunha do brutal assassinato de um professor liberal, Martha é recolhida e passa alguns anos em um instituto para doentes mentais, do qual finalmente consegue fugir para se alistar na PAX, forças militares internacionais cuja principal missão é defender a Amazônia dos interesses capitalistas não-norte-americanos. Encarando o exército unicamente como uma forma de sobrevivência e de salário, além de um modo de colocar um pouco de equilíbrio e disciplina no caos de sua vida, ela no entanto começa a perceber as entranhas da corrupção e da violência em que se movimenta. Até o momento da ruptura e, aí sim, da verdadeira liberdade.
 
Frank Miller estava empolgado, entusiasmado mesmo. Sua cabeça fervia de idéias, montava dezenas de histórias, misturava-as, empolgava-se, deixava-se levar pela animação. 'Give me Liberty' mostra a formação de Martha, a criação de sua consciência, seu fortalecimento, e sua afirmação como pessoa independente e digna. O enredo se levantava, corria, mudava, de forma meio atabalhoada, exagerada até, o que era um tanto contrabalanceado pela arte clean, séria e sizuda (até um tanto careta) de Gibbons. Ao furacão criativo faltou um pouco de equilíbrio artístico, o que faz com que o resultado final da série não constitua uma das obras-primas de Frank Miller, mas empolga, emociona, transcende. Martha Washington é um personagem sólido e magistralmente construído e um dos pontos altos de toda a carreira do quadrinista. Mesmo quando a história se enreda em uns labirintos fantásticos, sua persona, suas reações e seu crescimento são coerentes e coesos.
 
Além do fato de ser uma grande personagem feminina negra com papel principal (posto do qual não me recordo de outros exemplos; pelo menos, não com essa importância).
 
E assim continua, com as demais séries e edições especiais (as quais, a maioria não foi publicada no Brasil) até a morte de Martha Washington, com 100 anos de idade. 
 
Se comecei acima com tom amargo, lembrando das merdas que Miller tem feito ultimamente, é com entusiasmo agora que quero me referir ao ponto principal, que é afinal o verdadeiro motivo de ter escrito esse texto: 'The Life and Times of Martha Washington in the Twenty-First Century', a publicação integral das histórias em um único volume pela editora Dark Horse. Edição soberba, de luxo, com capa dura, embutida em estojo, com 600 páginas, todas as séries incluídas, do nascimento à morte de Martha, com depoimentos de Miller e Gibbons e páginas com a arte conceitual, que nos permite 'ver' a criação de Martha. 
 
O que posso dizer? Eu quero, oras.
 
Aliás, quando foi lançado ano passado estava custando 99,95 'dólars', pela Amazon. Nesse exato momento, está em promoção (também, com esse preço, as vendas devem ter sido mínimas...). Agora está custando 'somente' 62,97 'dólars'. Desconto de 37% do valor original! (sem contar o frete, não esqueçamos).
 
Opa, então quero dois. Um para ler, mexer, manusear (quem sabe, até emprestar para amigos especiais). O outro para permanecer guardado, lacrado, mantido como um tesouro, como verdadeiramente é.
 
 
 

 in HQ

 

 

 

INVICTUS. Boa forma de Clint Eastwood em filme descartável

 
 
O esporte no cinema costuma ser encarado de duas formas principais, em geral: como maldição ou como redenção.
 
Como maldição, o esporte revela os demônios e os conflitos do pior do íntimo do ser humano. Tortura dos sentidos e contradição entre as aspirações do personagem com suas próprias limitações ou com a realidade que enfrenta. Filme clássico nesse sentido é 'Touro Indomável', com Robert de Niro, com o boxe. Outro que merece ser citado é com um jovem Paul Newman, que enfrenta o submundo dos jogos de sinuca (mais tarde, bem mais velho, Newman retoma o mesmo personagem agora em contraponto com um outro jovem ascendente da sinuca, vivido por Tom Cruise).
 
Na maior parte das vezes, o esporte é  visto como redentor. Prova de superação de problemas (pessoais, sociais, raciais), o personagem supera todas as adversidades (as suas e as do mundo), surpreende todas as baixas expectativas anteriores, tem como certa a conquista contra qualquer adversário pretensamente mais forte, mais bem preparado, melhor conduzido ou treinado, ou meramente melhor nascido. O esporte-redentor é a cara do cinema hollywoodiano e da massa norte-americana que adora adorar o herói, aquele que vence no final pois sabe que pode, basta querer e ter força de vontade. Pelo menos, na ânsia e imaginação norte-americanas e Hollywood sempre soube corresponder.
 
Em 'Invictus', o esporte é o rugby. O país é a África do Sul, no imediato pós-apartheid. O herói é Matt Damon, capitão do time de rugby, vergonhosamente derrotado, com uma campanha deplorável e em decadência. O responsável e incentivador para que o time reassuma sua posição de líder e ganhe o campeonato mundial é Nelson Mandela, isto é, Morgan Freeman. O diretor é Clint Eastwood.
 
Baseado em fatos reais, ou mais especificamente no livro-reportagem 'Playing the Enemy: Nelson Mandela and the Game That Made a Nation', do  jornalista John Carlin, retrata o momento quando Mandela, recém-eleito presidente da África do Sul depois de passar 27 anos preso, está preocupado com a divisão e a violência no país, resultantes das consequências do apartheid que, se já não existe como lei institucional ainda assim está plenamente presente no ódio e no racismo do dia a dia. A jogada de Mandela é fazer com que o decadente time nacional de rugby, cujo campeonato mundial está próximo e será sediado na própria África do Sul, seja 'adotado' por todo o país e todos os torcedores, independente da cor da sua pele ou ligação com o apartheid. Mandela / Freeman convoca então Francois Pienaar / Matt Damon para uma conversa e lhe faz ver como a conquista do campeonato pode ser importante.
 
Com essa premissa, o que se pode realmente esperar de tal filme? Diálogos e conversas motivacionais, com certeza. O herói relutante e descrente de suas forças que é convencido afinal da possibilidade da conquista suprema. Frases de efeito e líderes carismáticos. Cenas mezzo-realísticas da pobreza dos grandes bolsões de miséria do país, para fazer ainda mais contraste com as cenas de multidões de torcedores delirantes. Sem saber nada de História (do país ou desse campeonato em específico), há espaço para que o público duvide de qual vai ser o esforço de Mandela / Freeman? De como vai ser o final desse filme?
 
De tudo, o que realmente fica é a interpretação digna de Morgan Freeman (cujo sonho sempre foi fazer uma cinebiografia completa do líder africano), mesmo não fazendo muito mais do que imitar a postura e manter o tom de voz usado por Mandela, e a direção discreta, competente e muito simpática de Clint Eastwood. 

Clint, aliás, continua mantendo essa impressionante regularidade em seu trabalho, mesmo alternando momentos de baixa criatividade com outros de sublime qualidade ('Menina de Ouro' é um bom filme, nada espetacular, mas bem assistível; 'Gran Torino' é um clássico, um dos melhores de sua filmografia e do cinema norte-americano dos últimos anos; 'A Troca' também tem uma história interessante e também foi filmado com a costumeira segurança de Eastwood, além de trazer Angelina Jolie, mas é de uma chatice dolorida. Para citar só os mais recentes). 'Invictus' se coloca no meio termo. História dignificante, recheada dos clichês dos filmes de esporte redentor, com uma pitada de filme histórico com preocupação social. Não mais, nada além. Também, nada menos. Bom de assistir, moderadamente emocionante, e muito fácil de esquecer.     

 

in Cinema

 

 

 
Últimos Comentários
RSS Feeds