Figuras de gelo
Escrito por Claudinei Vieira   
Qui, 24 de Junho de 2010 07:19

 

 

Elas aparecem em momentos e lugares estratégicos. São urbanas. Contrastam com o ambiente veloz, afobado, e caótico ao redor e obrigam o observador (em geral, tão célere e inatento) a parar e olhar. A respirar. Sua aparência frágil e sua existência volátil, ínfima, diminuta, tal qual sua estatura, escondem uma força impressionante, pois não desgrudam mais de sua mente. Sua presença é firme, permanente. 

E quando de tudo o que sobra são poças de água (que logo também evaporarão), a lembrança faz com que o ex-mero expectador se sinta perguntando sobre sua própria e volátil fugacidade. 

A idéia é espantosamente simples (embora imagine que sua execução e instalação não sejam tão simples assim...), mas de uma sacada e beleza indescritíveis que somente uma artista espantosa, em um instante privilegiado poderia conceber. Em mim causam uma sensação de emoção absurda e não canso de contemplar essas imagens, desde que conheci esse trabalho em um post do blog da poeta Ana Rüsche.

Néle Azevedo é a artista. Tem espalhado suas figuras em capitais do mundo todo e causado impacto em todos os lugares por onde esteve, nas escadarias do Teatro Municipal e na Praça da Sé, em São Paulo, no Rio de Janeiro, no Japão, Itália, Alemanha. 

Em minha busca por imagens pela net, me deparei com a notícia de que a instalação ('instalação' ou 'exposição'? não sei como a artista chama estes momentos breves de aparecimento ao público de suas figuras) na Alemanha teve contornos de protesto contra o aquecimento global.

Fiquei triste e decepcionado com essa visão. Atrelar a existência dessas estranhas e enigmáticas figuras a um pensamento e atitudes tão restritos me parece de um simplismo e reducionismo bobos, contrários inclusive à própria concepção interna desse trabalho. Ao invés de alargar e instigar, de movimentar a inteligência e a emoção, só diminui, conduz, apequena. Uma pena.

Logo depois, imediatemente depois (ainda bem), encontrei uma reportagem me esclarecendo que essa visão veio de grupos ecológicos alemães que traduziram assim, ao seu modo, sua própria explicação para as figuras de gelo. Nele até concorda que essa relação possa ser feita e fica contente que seu trabalho proporcione essa oportunidade de melhorar o planeta. Mas, o mais importante (pelo menos, para mim) é que não foi ela quem estabeleceu essa relação entre as figuras e o aquecimento global. Meu alívio foi tremendo. Nesse caso, tudo bem: cada um é livre para interpretar  e encontrar suas próprias conclusões, mesmo que não compartilhe de suas opiniões ou até mesmo considere que sejam infantis, precárias e diminuitivas. 

Gostei muito de um texto da Néle Azevedo (em um arquivo pdf facilmente encontrado na net) onde ela conta da concepção das figuras e de sua inerente vocação de provocar uma direta intervenção no espaço urbano assumida , através de um objeto comum e corriqueiro em qualquer cidade (uma escultura) com tais características completamente diferenciadas (são esculturas sem pedestais, de baixíssima estatura e tempo de exposição brevíssima, fulgurante). Mas, além das observações mais óbvias das figuras em si, quando Néle discorre sobre as instalações foi quando percebi uma dimensão que eu não havia me tocado:

As primeiras aparições das figuras foram anônimas, solitárias e isoladas. Uma figura, uma pessoa de gelo, pouco maior que a palma da mão, colocada em um ponto estratégico, no meio do dia, no meio da cidade. A feitura do trabalho, seu transporte, sua instalação, e a observação da reação do público, pego de forma inesperada. 

À medida que as aparições aumentam e aumenta também o número de figuras de cada vez, surge a necessidade de auxílio de outras pessoas, o que ocasiona um efeito de trabalho de grupo. Com cem, duzentas, trezentas figuras, esse grupo, porém, já não é mais suficiente. Com isso, o próprio público assume uma posição completamente diferente, diretamente ativa, quando todos participam e tornam a instalação possível. 

Em Berlim (no tal evento ecológico) nas escadarias do Gendarmenmarkt foram mil figuras que, ao derreterem e desaparecerem em trinta minutos, se tornam eternas.

 

 

 

 

 

 

 

Comentários (3)
  • Néle Azevedo  - agradecimentos
    Oi Claudinei gostei muito de sua apreciação do meu trabalho. A Ana Rusche me enviou o link e na verdade fiquei emocionada com sua leitura.
    Voce sabe, como poeta e escritor, o quanto uma leitura do outro aumenta a nossa percepção e nos alegra o coração.
    É muito bom ter olhos de empréstimos para ampliar os nossos.

    Venha conhecer meu atelie junto com a Ana, ok?

    bjhs
  • claudinei vieira  - ateliê
    Néle, amei seu convite, pode deixar que qualquer hora eu combino com a Ana uma visita, VAleu
    bjs
  • Renato Pedreira | Itaú Cultura  - Itaú Cultural abre inscrições para o edital RUMOS
    Olá Hector, boa tarde.

    Gostaria de enviar um convite/informativo do edital Rumos Literatura do Itaú Cultural.

    Trata-se de um programa de incentivo a produção e crítica literária para brasileiros e estrangeiros, inteiramente gratuito, que está com o período de inscrições em aberto.

    Para tanto, peço que me passe um e-mail de contato através do renato@comunicacaodirigida.com.br.

    Obrigado.

    Renato Pedreira
    Itaú Cultural - Comunicação Dirigida
    E-mail: renato@comunicacaodirigida.com.br
    Tel: 11 3881-1710
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