Denise Bottman, blogueira e tradutora, processada por denunciar plágios nas traduções da editora Landmark
Escrito por Claudinei Vieira   
Qua, 24 de Fevereiro de 2010 21:23
 
 
Processada por denunciar
24 de fevereiro de 2010
Por Tatiana de Mello Dias, BLOG DO LINK
 
Já faz alguns anos que a historiadora e tradutora Denise Bottman pesquisa plágios em traduções brasileiras de livros internacionais. Alguns deles são publicados no blog, Não gosto de plágio.
 
Um desses casos foi revelado em janeiro do ano passado. Ela publicou em seu blog que a tradução da obra Persuasão, de Jane Austen, lançada pela editora Landmark, era a mesma de Isabel Sequeira, publicada por outra editora em 2006. Ela mostrou alguns exemplos – como vários erros da primeira tradução repetidos na segunda.
 
Denise chegou a entrar em contato com Fábio Cyrino, o dono da editora que também assina a tradução. À ela, por telefone, ele reafirmou ser o tradutor da obra. A blogueira, então, entrou com uma ação civil pública contra a editora.
 
Isso foi em junho do ano passado. Na semana passada,  ela recebeu uma notificação judicial: a editora Landmark a processou – eles pedem pagamentos de danos morais e materiais, além da suspensão do blog e “segredo de justiça”.
 
O que era um caso restrito ao universo literário ganhou outra proporção. O Link conversou com ela para saber mais sobre o processo.
 
 
Como foi que você se deu conta do plágio?
 
Existe uma comunidade dedicada à Jane Austen. Existem alguns blogs e comunidades no Orkut dedicadas à obra dela. As pessoas discutem e fazem reuniões periódicas para discutir, e foi em uma dessas reuniões que perceberam a semelhança. As coincidências foram publicadas primeiro no blog Jane Austen. Eu fui avisada e comecei a pesquisar.
 
Como é a sua pesquisa? 
 
Eu tenho uma sistemática aos poucos. Isso demanda muito tempo e um certo dinheiro para comprar as edições. Eu vi mais títulos da Landmark e vi outro plágio. Noticiei no blog logo a seguir. Só que a tradutora entrou em contato comigo e disse “eu nunca fiz essa tradução, fui contratada como revisora”. Publiquei uma retificação.
 
Você chegou a entrar em contato com a editora?
 
Sim. Liguei pro Fabio (Cyrino) por telefone, foi ele mesmo que atendeu. Eu falei do aviso, falei da tradução idêntica, perguntei como ele explicaria isso. Pedi a confirmação de que a tradução era dele, e ele confirmou. Então em março eu enviei um pedido de representação no Ministério Público apresentando as provas. O procurador instaurou um inquérito para apurar.
 
Essa foi a primeira vez que pediram a remoção do seu blog?
 
Sim. Eles pediram indenização por danos morais e materiais, retirada do blog e que corresse em segredo de justiça. Eu acabei recebendo muitas visitas com esse caso. É um problema restrito, é um nicho, mas acabou adquirindo uma visibilidade não por causa do problema do plágio, mas do pedido de uma liminar pra remoção do blog. O que eu achei interessante foi que o juiz indeferiu o pedido de remoção imediata do blog.
 
O que ele alegou? 
 
Ele indeferiu porque entrava numa seara que não estava classificada pacificada e que afetava diretamente o direito de expressão e crítica e, por isso, precisaria de uma apuração mais cuidadosa. Em momento algum eu falei em liberdade de expressão, porque isso se dá por suposto. Porque tudo que eu assino é fundamentado em provas que eu posso fundamentar em juízo.
 
Há quanto tempo você tem o blog? 
 
O blog começou com um grupo de tradutores no Yahoo. Alguns jornais publicaram em 2007 algumas notícias sobre plágio, e nós ficávamos discutindo o absurdo que era aquilo. Surgiu a idéia de criar um blog chamado Assinado: tradutores. Foi publicado um abaixo-assinado. Fiquei nesse blog até setembro de 2008 e criei o Não gosto de plágio. É um blog pessoal, onde não me coloco como tradutora, mas como historiadora em defesa da história e como cidadã. O blog é apenas a face pública de um imenso trabalho de pesquisa histórica do que eu faço.
 
O problema é muito comum? 
 
Sim. O que acontece é o seguinte: muitas editoras fecham e o catálogo fica abandonado. São livros que ninguém reedita ou que os detentores de direitos não existem mais ou não são localizáveis. É o que a lei define com obras abandonadas, utilizadas maciçamente em centenas de plágios. Com a Lei de Direitos Autorais, de 1998, tivemos uma enxurrada de plágios. Eu calculo, por baixo, 10 milhões de exemplares. A legislação é completamente restritiva em relação ao xerox, mas as universidades continuam usando obras clássicas. Não se pode copiar, então as editoras reeditam com outros nomes de tradutores. Tem tradução de Eça de Queiroz assinado por outro. O leitor nem sabe que está lendo Eça. Assim como não sabe que está lendo a tradução de Voltaire feita por Mário Quintana.
 
O que você vai fazer agora? 
 
Depois de recebida a carta, tenho um prazo de 15 dias para apresentar a minha defesa. E é isso que está acontecendo agora.
 
 
**************
 
Para acompanhar todo o processo e saber com detalhes os problemas dos plágios, conheça o Não Gosto de Plágio
 
 
 
 
 
 

 

Comentários (12)
  • hijak skank  - X9
    Poh Clauds,

    Plágio só deveria ser crime quando o for um auto plágio.rs......demais é literatura...é muita pretensão querer fazer algo novo...essa senhora é uma X9 isso sim...asoiudhaosaidusadhas
  • Claudinei Vieira  - tradução
    Hijak, entendo o que você quer dizer, mas a questão aqui não é de âmbito literário, nem sequer artistíco. É roubo. A editora copiou (roubou) o trabalho de uma outra pessoa, sem dar créditos (em alguns casos, inclusive, inventou um nome para um tradutor fictício!) para não precisar pagar o serviço. Neste caso específico desse livro da Jane Austen, a coisa é até ridícula, pois a tradução que pegaram é muito ruim, tem vários erros de tradução, até de português, e na edição que eles publicaram, está tudo repetido! Sacanagem pura. E incompetência até no roubo.
  • Hijak  - sei disssso baby...
    conhece editores pilantras assim e que seriam capaz de coisas piores...mas plagiando o JL Borges, fiquemos com a literatura....a publicação é outra coisa....
  • Claudinei Vieira  - opa
    Concordo plenamente, claro! Aliás, plagiando o velho deitado chinês (ou é mineiro?): uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa
    A grande diferença nesses últimos tempos são as pessoas como a Denise Bottman que estão se dedicando a escancarar e trazer todas essas tramóias à tona.
  • Hijak  - oiausdhasoiuda
    Normalmente quando algum jornalista escancara é por que quer ganhar algo em troca.... Mas tudo bem , pelo menos a mulher tem peito(sic). E isto é admirável.
  • abc da literatura  - cadê o autor?
    se o tradutor verdadeiro tá pouco se lixando ou revirando na tumba... fazer o quê? achado não é roubado
  • Claudinei Vieira  - lixo
    Achei muito engraçado o comentário desse aí que se assinou como 'abc da literatura'. Em primeiro lugar, como respeitar a opinião de alguém que não tem coragem de colocar seu nome? Eu não consigo, e esta é a última vez que vou responder para quem não se identificar. E ainda por cima 'abc da literatura'? Nada modesto, hein?
    Impressionante como um comentário tão curto é tão repleto de bobagens. 'se o tradutor verdadeiro tá pouco se lixando'. Como você sabe se ele sequer está sabendo do que estão fazendo com seu trabalho? E não se engane, é um trabalho do cacete, muito chato, nunca bem remunerado, quase nunca reconhecido, quase sempre desprezado. 'se revirando na tumba'. Claro!!, se o tradutor está morto para que então reconhecer seu trabalho ou pagar os direitos a quem for de direito, pra quê?, pra quê?
    'Achado não é roubado'! Isso achei o máximo. Gargalhei muito. Então, certo dia, um editor qualquer está andando distraído pela rua, quando de repente, oh, se depara com uma tradução perdida, jogada no chão, esquecida de todo mundo. Por que não aproveitar, não é mesmo? Por que não inventar um nome qualquer, dizer que é Fulano, para não ter que pagar Sicrano?
    'Achado não é roubado'! HÁ! que babaquice!
  • Hijak  - Gerson
    Clauds,

    É óbvio que o dito cujo é discípulo da lei de Gerson ou mais óbvio ainda....é algum editor!
    Conheço vários editores pilantras, mas calma devem ser só 90% deles. Temos aquele nosso amigo alagoano que é cabra dos bons e por isso não ganha grana. Agora, a falta de ética é geral, virou modinha é cool ser anti ético. Bom, eu continuo assistindo Dirty Harry e ouvindo o tio Cash...
  • Claudinei  - nem todos
    Hijak, espero não ter dado a impressão de achar que todos os editores sejam pilantras. Não são. Como você bem lembrou, até conhecemos pessoas éticas que, exatamente por isso, acabam não ganhando nada por sua disposição e honestidade.
    O problema, claro!, são os maus editores e as pessoas com síndrome de Gerson, sem dúvida. E os incompetentes. Soube da história do cara que colocou um tradutor para o português das obras de Machado de Assis??
  • denise bottmann
    prezado desconcertos, saiu uma outra entrevista em que me expresso de maneira um pouco mais articulada do que nesta. se te interessar, está em:
    http://portalliteral.terra.com.br/blogs/de-plagios-e-processos

    obrigada por divulgar
    denise
  • nilva
    Denise, boa sorte nesta luta inglória. Infelizmente há pessoas sem caráter que se apropriam da obra alheia sem nenhum pudor.
    abs. Nilva
  • claudinei vieira  - portal
    Denise, excelente a entrevista para o Portal Literal! Faço questão de colocar em destaque.
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