Márcio Américo: a obra de Mário Bortolotto nunca teve a violência como foco
Escrito por Claudinei Vieira   
Ter, 08 de Dezembro de 2009 04:18

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Eu estava irritado e indignado com a forma rasa, ignorante e tosca como a mídia insiste em relacionar o trabalho de Mário Bortolotto, suas peças e sua vida, com associações ridículas e infantis, e a violência que sofreu.

É como se o nome do seu blog 'Atire no Dramaturgo', a peça em cartaz, 'Brutal', ou o fato de estar de madrugada na Praça Roosevelt, 'explicasse', 'definisse' ou até mesmo justificasse os quatro tiros que levou sábado, nos Parlapatões. 

O que os tais 'jornalistas' dizem no fundo (nunca é explicitado, nunca é assumido, é sempre nas entrelinhas, ou na forma como a 'reportagem' é montada) é que 'é verdade, não há segurança na Praça Roosevelt, mas também com um blog com esse nome...'. Ao final, é como se o próprio Bortolotto fosse realmente o responsável!

Até pensei em revidar isso, escrever sobre minha indignação, e tentar colocar as coisas em seus devidos lugares. Mas aí vem o Márcio Américo no seu blog 'Meninos de Kichute' e diz tudo! Se os tais 'jornalistas' lessem isso (se, pelo menos soubessem ler), poderiam ficar um pouquinho envergonhados. Não aprenderiam nada, eu sei, continuariam a fazer o que sempre fazem ('reportagens' toscas, rasas, mal escritas, e preconceituosas), mas pelo menos encarariam um texto de verdade.

 

MÁRCIO AMÉRICO: "Algumas pessoas tem tentado associar a violência cometida contra o Mário Bortolotto a arte produzida por ele. Isso é no mínimo leviano e só revela ignorância, tira o foco dos reais motivos que desaguaram nesta quase tragédia. Conheço TODA obra do Mário Bortolotto, conheço o próprio Mário e não é de hoje, e posso afirmar com toda certeza que a obra dele não tem como foco a violência, nunca teve. Há alguns personagens violentos, como tem em Nelson Rodrigues e até em Maria Clara Machado, mas a mensagem da obra do Bortolotto é para aqueles que optaram em manter-se fora deste esquema maluco que nossa sociedade montou com uma promessa absurda de felicidade. Os personagens do Mário não estão em busca de alegria, prosperidade, todos eles buscam uma só coisa: PAZ. Seus personagens são loosers, sentados, lendo, olhando o infinito, ostentando um olhar melancólico pra disfarçar talvez sua inabilidade em entender o que não faz sentido. Mário é da paz, não esta paz de pombinha branca, esta paz de passeatas com camisetas, mas a paz individual, a paz que te dá a possibilidade de sentar-se na mesa do bar, mesmo sozinho, e ficar olhando o nada, ouvindo uma boa musica, sabendo que pelo menos até aquele momento ta tudo bem.

 
Teve ainda pessoas que tentaram o associar o nome de seu blog, ATIRE NO DRAMATURGO, á violência. Mais uma vez prova de ignorância de quem falou uma merda dessa. Atire no dramaturgo só nos revela o sofisticado background do Mário, o título é uma referência a um famoso romance policial do David Goodis “Atire no Pianista” que por sua vez remete aos clássicos do western onde, nos salloons, havia uma placa sobre o pianista que dizia: proibido atirar no pianista. Uma ironia, alias, outra marca registrada na obra do Mário. Atirar no dramaturgo é falar com o dramaturgo, criticar o dramaturgo, discordar ou concordar com ele, ou simplesmente agradecer por uma noite legal, por um show fraterno e pacifico. Quem fala que Mário atrai violência é porque nunca foi ao show de sua banda Saco de Ratos, onde sempre rola uma espécie de culto silencioso à fraternidade, onde pessoas sobem no palco e cantam, dançam, lêem poemas e são sempre recebidos pelo Mário com aquele seu típico abraço padrão Zé Colméia.
 
Chega deste tipo de mentira, vamos falar a real, o que causou a tragédia foi o abandono da praça Roosevelt, foi a atitude mesquinha, medieval e despótica de um governante que atrelado ao ministério publico, manda capangas fechar o Parlapatoes porque as pessoas estavam na calçada CONVERSANDO, então, em razão destas leis de exclusão, destes apartheides sociais, as pessoas precisam abandonar as calçadas e ficarem confinadas dentro do bar, embaladas para presente, uma prato cheio pra qualquer maluco entrar e tentar um assalto suicida.
 
Vamos pensar um pouco, vamos lembrar dos últimos fatos ocorridos ali, um dos quais eu presenciei, e logo logo saberemos de quem era o segundo dedo no gatilho.
 
Espero, de tudo isso, apenas uma coisa, que o Mário se restabeleça o quanto antes, que possamos ver ainda muitos shows seus, muitas peças, ler outros tantos poemas, livros, que possamos discutir acaloradamente na mesa do bar e num segundo depois fazermos as mesmas piadas, sobre os mesmos amigos, como sempre fizemos, e aí, ao final da noite, irmos pra casa, e, mesmo cansados, podermos tirar os cadarços e dormir em paz.
 
A última informação que tenho é que, segundo a Christine, mãe da Isabella Bortolotto, o estado do Mário é estável, grave, mas estável. Ontem a noite o governado José Serra esteve lá, conversou com ambas e ficou claro que tudo, TUDO que está sendo feito para que o Mário saía desta.
 
PS.: Aquele viado do iluminador, ator, ilustrador e músico Henrique Figueiroa, vulgarmente conhecido como Carlos Carcarah, ta de boa e, mesmo no quarto, junto com sua namorada a Manuela, está unido a todos nós neste desejo de que o Mário fique bem."
 
http://meninosdekichute.zip.net/arch2009-12-06_2009-12-12.html#2009_12-07_17_03_08-10154454-0
 
 
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