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Orelha de Claudinei Vieira - revista MUITO: Entrevista completa

 
Quando comecei a responder as perguntas enviadas por e-mail pela Kátia Abreu para serem publicadas no encarte Orelha da Revista MUITO, do jornal A Tarde, de Salvador, eu já tinha consciência de minha prolixidade, portanto sabia bem que os editores iriam suar para editarem o texto sem mutilar o sentido. A revista foi publicada e considero que o trabalho foi bem feito (e aproveito para agradecer mais uma vez à Kátia e à revista pela oportunidade).
 
Publico aqui a entrevista completa, sem edição, para quem tiver a curiosidade.
 
Queria começar falando sobre o que aconteceu com Mario Bortolloto e de como o tratamento da imprensa ao fato despertou a sua indignação, e de outros autores. Estamos sendo devorados pela ignorância?
 
Bortolotto sofreu a primeira violência quando foi baleado com quatro tiros e, se não fosse pela presteza dos amigos presentes, teria morrido. Ao que tudo indica, sua situação está bem estável, os médicos estão otimistas, e felizmente deve sobreviver. A segunda grande violência foi a moral, quando uma mídia rasteira noticia o fato e faz conexões irrelevantes sobre seu trabalho e sua vida, levando o leitor e o expectador de telejornal comuns a conclusões errôneas ou simplesmente mentirosas.
 
Funciona mais ou menos assim: a reportagem começa falando da tentativa de assalto, da reação de Bortolotto e os tiros. Aí fala da importância do dramaturgo, da quantidade de peças que escreveu e montou, e do seu estilo diferenciado, e em geral repete-se que suas influências são os quadrinhos, o rock, e o cinema. Isso não está errado, claro, mesmo sendo simplista, mas o fato dessa frase ser repetida em quase todos os jornais que eu li evidencia o detalhe simples de que esses jornalistas não conhecem do que estão falando, portanto, não podem acrescentar mais nada. Para terminar a matéria, destacam a 'curiosidade' suprema do nome do blog do Mário ('Atire no Dramaturgo') e da peça em cartaz ('Brutal'). Ainda lembro da cara de um apresentador de telejornal quando enfatizou a palavra 'Brutal' e fez uma pausa final, para que o expectador captasse toda a 'ironia' da situação. O rosto ficou impassível e sério, mas a 'mensagem' estava mais do que clara: 'com tais nomes e tal atitude (afinal, Bortolotto estava em um bar às 5 horas da manhã, não é mesmo?) não era quase inevitável que isso acontecesse, mais cedo ou mais tarde?' Esse tipo de insinuação, velada e envergonhada, é a pior pois vem travestida de elogio no início do discurso.
 
Estamos todos sempre cercados pela ignorância, pela indiferença, pela violência (física, psicológica, moral), a hipocrisia. Há os que conseguem furar esse muro tacanho e nos mostrar realidades escondidas e botar o dedo na ferida. Mário Bortolotto é desses. Existe uma tremenda coerência entre seu trabalho (as peças, a música, o blog, seus livros) e sua atitude e pensamento do dia-a-dia. E suas referências são muito mais amplas e, ao mesmo tempo, mais profundas do que meramente 'quadrinhos, rock e cinema'. O grupo de teatro que montou, 'Cemitério de Automóveis' é uma homenagem ao dramaturgo espanhol Fernando Arrabal. 'Atire no Dramaturgo' reverencia um livro clássico de romance policial, 'Atire no Pianista', de David Goodis, e que também virou um belo filme francês. 'Brutal' fala de um grupo de pessoas perdidas, sem rumo na vida, que acabam se rendendo a um líder religioso e das consequências que disso advém. 
 
Suas peças não falam de violência em si, muito menos fazem pregação de violência gratuita. Seu universo é o de pessoas deslocadas, que tentam se manter (ou são colocadas) à margem de uma sociedade fútil e vazia, e estão à procura de um estado de espírito, de alguma coisa que quase nunca sabem o que é, que até pode ser chamada 'felicidade', mesmo que essa felicidade seja muito particular, como a de poder tomar sozinho uma cerveja sossegado em um bar. 
 
O escritor Márcio Américo rebateu a ignorância da mídia com um texto magnífico no seu blog 'Meninos de Kichute', com muito melhor propriedade do que eu. 
 
 
 
Seu livro tem praticamente o mesmo nome do blog, Desconcerto, qual a relação entre os dois?
 
Um é a continuidade, o desenvolvimento e amplitude do outro. E vice-versa.
 
O livro veio primeiro. Foi escrito há muitos anos e ficou rolando entre envios para editoras (nenhuma aceitou), participações em concursos (nunca consegui nada), tentativas de auto-publicação (não concretizadas), durante bastante tempo. Hoje posso dizer com bastante tranquilidade: Ainda bem que nenhum editor ficou interessado em publicar! Isso me obrigou a revisá-lo, reescrevê-lo, remontá-lo. Refiná-lo. Se realmente ficou bom (tenho tido algum retorno, lido e ouvido algumas opiniões, que me permitem pensar isso), cabe ao leitor julgar. 
Enquanto ruminava minha não-publicação, comecei a escrever para a internet, com resenhas, crônicas, e comentários, para vários sites de literatura e cultura, em geral sobre livros, cinema, e teatro e, ao mesmo tempo, organizava encontros com escritores, entrevistas públicas, saraus, debates literários. Percebi logo que havia um espaço tremendo pela internet que poderia ser usado muito bem para divulgar meu trabalho, retomar minha escrita, conhecer pessoas, trocar impressões, organizar e inventar eventos. Enfim, fazer arte a partir do que sei fazer, escrever. Foi natural usar o nome 'Desconcertos' quando criei o meu blog. Dessa forma, ficaram bem conhecidos alguns eventos de literatura e poesia que promovi, os principais foram os 'Desconcertos na Esquina', realizados em uma livraria muito simpática aqui em São Paulo; os 'Desconcertos na Paulista' na famosa Casa das Rosas, importante centro de cultura paulistana; os 'Desconcertos de Poesia na Roosevelt', um belo encontro de artistas que transitam pela Praça Roosevelt e realizados no Sebo do Bac, no teatro Satyros II. Quando afinal publiquei o livro de contos mantive, claro, o nome; só fiz questão de deixar o título no singular para expressar o fato de ser uma obra em específico, enquanto que o blog fica no plural para reforçar sua variedade de temas e interessantes. 
 
E acho que já deu. No meu próximo livro, vou erradicar a palavra 'desconcerto', seja no plural ou no singular!
 
 
 
Li um artigo seu, interessante,  na Cronópios,"O futuro da narrativa no ciberespaço".  O que você, como leitor, acompanha de literatura nesse não-lugar? O que o impressiona positivamente?
 
É preciso, antes de mais nada, diferenciar duas coisas: a literatura produzida e visualizada na internet, e a literatura e as artes produzidas e criadas pela internet. 
 
Por um lado, a migração da literatura e da cultura para os meios virtuais é facilmente reconhecida. A multiplicação de sites, blogs, revistas virtuais, e mais recentemente, os sites de relacionamento virtuais imediatos como facebooks e twitters, é a face mais óbvia e escancarada de que a comunicação e a troca de informações atingiram um nível inimaginável (ou só concebivel em ficção científica) até poucos anos atrás. Tudo o que já foi produzido, escrito, e criado em qualquer tipo de arte até hoje está sendo transposto, acumulado, realocado para os meios do ciberespaço. Nesse sentido, o que ocorre é uma mera mudança de suporte de leitura. Pode-se tomar toda a obra de Shakespeare, Cecília Meirelles, Guimarães Rosa, sei lá, todo e qualquer autor, tudo o que já foi realizado em todos os tempos, e transportá-lo para um cenário onde o computador pode oferecer uma gama vasta para o enriquecimento da percepção e compreensão da obra. O objeto literário em si permanece intocado, mas acompanhado agora por uma velocidade e facilidade de resposta, de pesquisa e o acréscimo de outros sentidos, como o visual e o auditivo. Portanto, o que vale aqui é a praticidade, a possibilidade de interação (ou com o autor ou com demais leitores) e a plasticidade. 
 
Alguns sites com um projeto gráfico simples muito importantes que não podem deixar de citados são a Verbo 21 (um ponto de encontro cultural virtual que já está no ar há vários anos!), a Grumo, que faz um cruzamento entre artes brasileira e argentina, o Germina, com sua apresentação impecável, o Escritoras Suicidas (que está para lançar um livro de antologia com textos das autoras, e homens-com-pseudônimo, que participam do site), a venezuela muito bem produzida Plátano Verde, a mexicana Blanco Móvil (cuja revista impressa estará completando 25 anos em 2010 e está disponibilizando o seu acervo pelo site). Com sofisticado e belíssimo projeto gráfico, o Cronópios marca história na literatura nacional em web, assim como a antologia online 'Enter' que reúne escritores, poetas, artistas plásticos, quadrinhos, em um ambiente que potencializa o poder da escrita e da imagem, misturando textos, sons, e filmes. Qualquer tipo de listagem é injusta e incompleta, sei que estou deixando de lado sites importantes (sem falar nos blogs), não há como, sigamos em frente.
 
Esse é um lado.
 
O outro lado é mais complicado de se reconhecer, por ser mais sutil, está ainda em gestação e os caminhos que podem ser tomados ainda são uma incógnita: o texto, a literatura, a cultura, que surgem por conta de nossa relação com a internet e dos aparatos técnicos proporcionados pela informática. No artigo que escrevi para o Cronópios, um comentário do livro 'Hamlet no Holodeck', de Jane Murray, cito umas experiências realizadas ainda pouco antes da explosão mundial de blogs, como 'The Spot', uma narrativa voltada para o erotismo de alguns jovens que passam férias em uma casa de campo. Pelo site podia-se acompanhar o 'diário' de cada dos participantes, inclusive com a possibilidade de intervir, deixando recados, dando conselhos ou avisos, coisas do tipo. Em outra experiência, literariamente muito mais relevante, chamada 'Afternoom', a narrativa começava com um bloco que dizia "Eu quero dizer que posso ter visto meu filho morrer hoje" e prosseguia por vários outros blocos desconexos que podia levar a várias interpretações conforme a ordem que o leitor lesse.
 
De qualquer modo, o que importa dizer é que já estamos em um mundo que mudou nossa percepção da realidade e quer queiramos ou não está modificando nossa forma de conviver, de criar e fomentar cultura em geral, e literatura em particular. Como disse, o que vem por aí é uma incógnita, mas a simples expectativa já é muito excitante.
 
 
 
Alternativas editoriais, como a Demônio Negro, indicam novo horizonte na cena literária nacional?
 
Antes de mais nada, a 'Demônio Negro' e sua proposta de publicação por demanda, com edições limitadas e impressão de novos exemplares somente com a existência de procura, é uma resposta, corrresponde a uma necessidade e realidade do presente. Principalmente em um país como o Brasil, com escassa formação e hábito de leitura, com tiragens irrisórias, e péssimo tratamento reservado aos escritores. O escritor é um ser estranho na cultura nacional. Vender três mil exemplares é um sucesso absoluto; se houver outra edição é praticamente um 'bestseller'. O que a 'Demônio Negro' representa é a percepção de que não adianta imprimir milhares de exemplares, se 90% disso acaba encalhando, tomando tempo e custo. A publicação por demanda é uma garantia viável de que exista o objeto, o livro, sem exageros ou sacrifícios nem por parte do autor quanto do editor.
 
O surgimento e a proliferação de centenas de pequenas e micro-editoras, a facilidade de abertura de blogs e sites, a publicação de livros online (como fez a escritora mineira Milena de Almeida, por exemplo, no recente e simplesmente belíssimo 'Da gastrite e da ira' http://www.dagastriteedaira.com/), tudo faz parte do mesmo processo. 
 
 
 
O roteirista, o cara de cinema, se impõe em sua vida? Como a literatura compõe seu perfil?
 
Sou, acima de tudo, um escritor. Demorei para assumir isso (até para mim mesmo) porque, inocente e besta, considerava que o que fazia pela internet não era 'literatura'. Seria, no máximo, divulgação. Percebo agora a bobagem. Sei que não dependo de uma publicação em papel para me realizar como artista. 
 
Agora, o que compõe minha cabeça, meu pensamento e minha escrita vai bem além do papel e da tela do computador. As artes se complementam, se misturam, não tenho medo de experimentar, e tenho a paixão como fermento. A paixão pelo cinema, absoluta e plena, não só pela escrita de roteiro, mas igualmente pela filmagem, montagem e edição (tenho alguns curtas montados, de ficção e documentário); a poesia, artes plásticas, o estudo da História (fui estudante da USP), a política, cerveja e noitadas com amigos, bate-papo, quadrinhos, literatura clássica, novidades tecnológicas, tudo faz parte do mesmo pacote. 
 
O que costumo dizer (e está no 'manifesto' com que costumo abrir o meu blog) é que, no principal, Literatura, Cinema e História são os três eixos da minha vida funcional e acredito que estes três elementos possam ser trabalhados com absoluta consanguinidade. Ao escrever contos ou ao academizar a literatura e o Fazer cinematografia ou ao ler resenhas ou ao produzir as minhas ou ao pensar historicamente o Fato literário ou o impacto cinematográfico ou o momento filosófico ou o ente histórico ou ao escrevinhar história com qualidade, gozo e êxtase literário. Não há becos sem saída, fora os produzidos por nós mesmos. Não existem gaiolas mentais fora as que nós mesmos construímos. Não há compartimentos estanques, somente os nossos próprios medos. É por estes três elementos que estou batalhando. Provavelmente, será por causa deles que morrerei de fome já que dinheiro, fama e prosperidade são artigos um pouco mais complicados.

 

 

 

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