A ÚLTIMA PEDRA DO CINEMA MUDO

Consideremos a seguinte idéia: o som aniquila a inventividade, a alegria, a inteligência de um filme. A partir do momento em que são colocadas palavras na boca de um ator, quando ouve-se o que ele fala, fica perdida, então, a necessidade de pensar. Toda a significação dos gestos, das expressões, sua força, seu mistério obrigavam as pessoas a praticar um exercício mental (pois era necessário que o telespectador raciocinasse enquanto participava, ao mesmo tempo, de uma atividade lúdica), tudo isso, enfim, desaparece em nome... de quê? De um barulho, um ruído que nada acrescenta à dramaticidade de uma cena ou à capacidade de um ator de fazer rir, chorar, emocionar. As palavras nunca foram indispensáveis para o Cinema, ao contrário, atrapalham, simplificam, infantilizam. Com o advento do som, termina a época do Cinema como Arte.

Quando Tempos Modernos foi lançado, o cinema mudo havia literalmente acabado. Chaplin foi o último representante de uma leva de cineastas e intelectuais que haviam se levantado indignados contra o que consideravam ser uma mercantilização mesquinha de uma arte séria. Batalha feroz, com discussões ácidas e agressivas (considere o exemplo do primeiro parágrafo como um argumento “educado”), mas era uma guerra, podemos ver agora, ingênua e perdida desde o início (desde, na verdade, a própria criação da arte cinematográfica, um “detalhe” que eles não reconheciam nem aceitavam). Rapidamente o Cinema Falado, se fixou, fez sucesso, tornou-se onipotente. Quem não se adaptasse à nova época (aos “tempos modernos”?) teria de ser descartado. E foram. Muitos não conseguiram sobreviver e foram tragados pela avalanche. Chaplin, inconformado, teimoso, continuou tocando seus filmes, do seu jeito, até quando pôde resistir.

(É difícil hoje em dia fazer uma avaliação justa dessa discussão, em um mundo tão acostumado à sofisticação tecnológica crescente do som e da imagem. Podemos ter uma idéia aproximada ao lembrarmos da polêmica levantada alguns anos atrás referente à colorização eletrônica dos filmes antigos. Houve um movimento semelhante de repúdio, tendo Woody Allen à frente dessa vez e, guardadas as devidas proporções, os argumentos eram os mesmos. A diferença mais importante, reside na profundidade das conseqüências.)

Tempos Modernos é o canto fúnebre do cinema mudo, o reconhecimento da derrota de Chaplin para a banalização do som. Chaplin, no entanto, faz isso do seu jeito, como sempre. É como se ele tivesse falado consigo mesmo: “Ah, eles querem ouvir o Carlitos? Então ouvirão!”. E Carlitos fala, ou melhor, canta, faz gracinhas e todos, todos, riem. Mas não se pode traduzir sua fala. Ela não existe, é somente um amontoado de sons desconexos e sem sentido. Mais claro, impossível. Um tapa artístico histórico e genial.

Essa é a única vez que Carlitos fala. Sintomaticamente, também é seu último filme. Não havia mais lugar para seu humor cativante e silencioso. Para Chaplin, o mito tinha que continuar assim: imaculado.

Puro.

 

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