'Che' e o cinema do vazio
Escrito por Claudinei Vieira   
Sex, 14 de Agosto de 2009 03:09


Curiosidade tremenda de assistir ao filme de Steven Soderbergh sobre este ícone do (... do quê? Da revolução socialista gloriosa? Da revolução mundial fracassada? Do martírio pelos seus ideais? Da cultura pop?Da contracultura pop?). A expectativa era alimentada pela possibilidade de polêmica e discussões acirradas. Independente de como o diretor o retratasse (como o ditador-guerrilheiro-sanguinário comunista, ou o belo garanhão defensor das minorias oprimidas ou ainda o ingênuo lutador vencedor no primeiro momento da revolução, e depois vencido por situações extremas), sempre haveria uma opinião contrária e ofendida. E isso seria ótimo. Quando, antes de assisti-lo, soube que as reações tinham sido mornas (não houve nenhuma gritaria de nenhum lado, nem louvores de 'obra-prima' nem desgostos de 'filme menor', nem tentativas sérias de boicote) percebi que havia alguma coisa errada.
 
De tudo o que Soderbegh poderia fazer, acabou tomando o caminho insensato e aborrecido da 'neutralidade'. 
 
A grosso modo, o filme se divide entre duas partes com a primeira mostrando a luta da guerrilha até a tomada do poder, com alternância de cenas de Che Guevara se apresentando e discursando na plenária da ONU, entremeadas por uma entrevista. No segundo, basicamente vemos Che em sua tentativa de erguer a revolução na Bolívia, e sua perseguição pelo exército até sua morte por execução pelos militares. Há muitas
cenas na mata, tiroteios, corte para a ONU, mais mato, algumas conversas, algumas perguntas e respostas da entrevista, mais mato, uma ou outra cena com os guerrilheiros, mais mato, corte para quando Che e Fidel se conhecem, corte para o mato.
 
É somente isso e poderia ser tudo. Poderia ser a saga apaixonada de um guerreiro, sua ascensão, e a queda de um gigante. Poderia ser o contrário: a história da loucura e a arrogância de um homem mesquinho sedento de poder. Poderia outra loucura, a do cavaleiro errante, e sua tentativa demente de mudar o mundo, e seu fracasso subsequente. Em termos de narrativa, poderia ser um épico colossal de guerra, ou um drama intimista, que questionasse as motivações primeiras do guerrilheiro. Ou então, que  se escrachasse tudo, fizesse um musical ou um drama romântico ou um filme experimental, para que, de algum modo, mexesse com o público, que provocasse alguma reação. Nada. A única reação que eu tive foi de sono.
 
O que se tem, no final das contas, é uma representação paradidática de alguns momentos da revolução cubana e da tentativa de revolução boliviana. Sodebergh realizou o que eu imaginava quase impossível: um retrato frio e distante, não comprometido com nenhum pensamento, de um momento histórico e de uma personalidade marcantes (para o bem ou para o mal) que se transformaram em símbolos que até hoje estão presentes em nosso imaginário e em nossa realidade. No entanto, por esse filme, não é possível entender como e por que isso aconteceu. Talvez o termo 'neutralidade' que usei acima esteja errado. Ao que me consta (li em algum lugar pouco depois de assistir as duas partes) que nem Sodebergh nem Benício Del Toro sabiam muita coisa sobre a revolução cubana nem sobre o personagem, fora o que se existe na cultura pop atual. Eles teriam estudado e se debruçado sobre livros e documentários para tentar pegar o fio da meada. Então foi isso. Não é neutralidade. É ignorância. 
 
Portanto, a produção é boa, houve preocupação em reproduzir detalhes históricos (e muito mato), Benício está idêntico ao Che, não há erros grosseiros de cronologia nem de dados históricos, pelo que lembro, e quase todas as falas foram reais, estão registradas. Mas em nenhum momento há algum tipo de empatia, de aproximação, reconhecimento ou rejeição plena ao que se está se passando. Vemos os problemas de Che com a asma, presenciamos a cena da execução de um guerrilheiro patife, acompanhamos a perseguição final, vemos e ouvimos seus pensamento e idéias revolucionárias. E ficamos indiferentes. Este Che está longe demais. Não o amamos nem o odiamos. Na prática, sequer nos importamos. Indiferentes. 
 
Houve outros filmes sobre Che, claro, e nem estou me referindo aos "Diários da Motocicleta", do Salles (que é um filme quadradinho, sem-gracinha, e previsível, mas dentro de suas limitações, até que funciona).
 
Lembro muito de um filme que assisti em uma madrugada na televisão, rodado originalmente em 1969, com Omar Shariff como Che e Jack Palance como Fidel Castro. Lembre-se: era 1969, pode-se bem imaginar o que sairia disso.  As representações eram farsescas, chegando quase ao nível da comédia, embora se levasse a sério (o que piorava a situação, obviamente). Lembro que Omar Shariff se esforçava para fazer as poses e caretas, sempre com um fálico charuto o mais próximo possível da câmera, advertindo Fidel para não aceitar a ajuda da União Soviética; em outra cena, Fidel / Palance está rodeado por funcionários russos sussurrando no seu ouvido as delícias que aconteceriam se Cuba se tornasse comunista. O melhor mesmo é o final: capturado, Che ainda insiste em discutir a validade de sua guerrilha quando o comandante deixa entrar na sala um camponês boliviano. Não vou recordar das palavras, mas o camponês começa a fazer um sermão, algo no estilo 'Por que você veio para cá, nós não o queríamos, só queríamos a nossa vida em paz, você não sabe nada de nós' (algo assim). Quando ele acaba, Che se levanta, está todo arrependido com tudo o que fizera, e se encaminha resignado para fora, cabisbaixo, sabendo que merecia ser executado... 
 
Eu, um adolescente prestes a ingressar na minha própria militância política, pensava no quanto deveria estar indignado com essa apresentação. Mas o negócio era tão grosseiro e exagerado que acabava sendo muito engraçado. No final, nem a indignação conseguiu superar minha gargalhada. Isto é, foi divertido, pelo menos.
 
Podemos ir para outro arco. Em 1960, um ano após a tomada do poder, Tomaz Gutierrez Aléa filmou 'Historias de la revolución', com três histórias distintas, na prática três curtas. Na primeira parte, soldados tentam capturar em Havana um revolucionário escondido. Em outra parte, Aléa reconstitui em estilo documental a conquista de uma cidade crucial para o avanço dos guerrilheiros. Na terceira parte, dentro do matagal da Sierra Maestra, um grupo de guerrilheiros é atacado por uma unidade do exército e tem que decidir o que fazer com um companheiro que está gravemente ferido. Como esta história se passa o tempo todo no mato, me lembra bastante o filme de Sodebergh. No entanto, diferente daquele, esta história tem tudo: caracterizações coerentes, emoção, diálogos realistas, um conflito pendente, muito mato, e tiroteio. E apesar de Gutierrez Aléa ser obviamente favorável à revolução, em nenhum momento há discursos ideológicos, nem pregação de nenhuma espécie. Estes trinta minutos acabam com as mais de quatro horas do 'Che' de Soderbegh, e mostra tudo que poderia ser feito, se houvesse vontade. Ou capacidade.
 
Eu assisti as quatro horas. Não levantei, não fui embora. Isso é o que chamo de puro desperdício de tempo.
 
 
 
 
Comentários (5)
  • Tati
    Não vou falar sobre o Che, é que não achei como comentar oa nota abaixo... Interessantíssimo esse filme, Claudinei... Como vc não me sugeriu antes? Beijo, chéri. Vou ver, depois te conto...
  • akio  - 4 horas?
    Claudinei, nesses tempos de internet, 4 horas de Che é muito, não acha?
    Gostei da referência sobre o Che de Omar Sharif quando ele se faz de arrependido de tudo que fizera depois do diálogo com um camponês boliviano que o rejeita. Quem sabe se ele não facilitou a sua morte?
    Abraço
    Akio
  • Claudinei Vieira
    sendo o filme bom, não me importo se for longo, assim como não tenho medo de livros enormes se a leitura for apaixonante. O Che são dois filmes, em Cannes passou como fosse um só, mas Sodebergerh sempre quis que fossem considerados separados. Aqui no Brasil, o primeiro já passou há tempos e o segundo ainda está por estrear, com meses de diferença!
    o pior no caso do filme do Shariff (deve ter gente que nem sabe de quem estamos falando, né?) é a lição de moral que ela encerra: a revolução não teria sentido nenhum, ele era um equivocado e finalmente teria se tocado da verdade pela voz de um campones e, portanto, ele merecia ser executado no meio da mata...
    VAleu, Akio. grande abraço!
  • André Machado  - Velha Pandora
    Muito bom o seu comentário sobre o Che. Estava sentindo falta desse estilo da "velha pandora".
  • Claudinei Vieira  - do Pandora
    Valeu, André. 'Tamos tentando voltar à velha forma, vamos ver. Bom te ver por aqui. mas uma dúvida: é da Pandora ou do Pandora? heheh Abraços
Escrever um comentário
Your Contact Details:
Comentário:
Security
Por favor coloque o código anti-spam que você lê na imagem.

!joomlacomment 4.0 Copyright (C) 2009 Compojoom.com . All rights reserved."

 

Últimos Comentários

RSS Feeds