Exorcista e Alien: mais de trinta anos de fascínio e terror
Escrito por Claudinei Vieira   
Qua, 23 de Setembro de 2009 05:00

alieno exorcista
 
'O Exorcista' é uma decepção. Está fazendo 36 anos desde sua primeira aparição e, de todo o impacto que provocou na época, as técnicas de terror explícito (na verdade, nojeira explícita), as dúvidas e o pseudo questionamento sobre a fé religiosa, e o esforço de se criar um clima sombrio e escuro, digno das velhas produções de terror da Hammer inglesa, o que restou de ainda válido é muito pouco. Depois de tantos anos, o que sobra é um filme lento, com poucas cenas de real suspense, personagens sem carisma (apesar dos ótimos atores), e soluções fílmicas que, quando apresentadas em 1973, podiam dar a impressão de serem novas (não eram) e proporcionar alguns sustos, mas que hoje em dia soam grotescas, sem graça, ou simplesmente ridículas, não suportaram a avalanche de imitações, sequências, filmes ainda mais explícitos e nojentos, que vieram nas décadas posteriores.
 
O mais provável é que eu tenha assistido o filme em época errada. Talvez se o tivesse visto mais jovem (não foi por falta de vontade, só não aconteceu), a minha recepção poderia ter sido outra. É possível. Cresci sob essa 'aura' de filme mais aterrorizador de todos os tempos, li todos os comentários sobre cabeças viradas ao contrário e vômitos jorrantes, vi algumas cenas em programas de televisão, li o livro original no qual o filme se baseou e que achei estranhamente mal escrito. Por certo, quando finalmente o assisti (inclusive com as cenas cortadas que seriam chocantes demais para o começo dos anos 70), o resultado só poderia ser menor do que as minhas expectativas prometiam. Não acredito tanto nisso, porém. Pois, por que em tantos outros filmes, que passaram por todo esse processo, continuam mantendo sua força inicial e, mesmo que imitados e copiados à exaustão, podem ser vistos com o mesmo prazer e satisfação?   
 
padre max von sydow
Alguns detalhes funcionam. Como disse acima, os atores são excepcionais. Max Von Sydow, ator extraordinário que atuou em muitos filmes clássicos (e em muitas porcarias inomináveis) faz o tal exorcista, o padre chamado para realizar o controvertido trabalho de expulsar o demônio encarnado em uma menina, o mesmo demônio que já havia combatido anos antes e quase o matou na ocasião. Ellen Burstyn é a mãe, atéia e materialista que, contra todas suas convicções e vontade, é obrigada a reconhecer que sua filha está realmente sendo possuída pelo diabo. Linda Blair também faz uma performance extraordinária. O que ela deve ter passado para dar conta das cenas mais pesadas! Ela é a verdadeira responsável (e não os efeitos visuais) para que o 'demônio' tenha credibilidade. A metamorfose da menina bonitinha, ingênua e inocente para o diabo sarcástico, mordaz, e mortal, é muito bem realizada. Uma das cenas mais fortes, e que ainda impressiona, cortada na exibição original e resgatada quando fizeram uma cópia restaurada lançada com toda pompa em 2000, é a da auto-mutilação e estupro com uma cruz. 
 
Blair deveria ter uns treze anos quando foi selecionada para fazer a menina possuída. Vinha de elogiados trabalhos em anúncios de publicidade e produções de televisão. Participar do 'Exorcista' foi uma tremenda promoção em sua carreira (chegou a ser indicada ao Oscar como atriz coadjuvante), e foi uma maldição: nunca mais conseguiu se desgarrar da imagem da 'possuída', teve sua vida pessoal revirada (ela conta que não podia andar na rua pois as pessoas tinha medo dela!) e até recebeu ameaças de morte de fanáticos religiosos. Apesar disso, participou de outros bons filmes e parecia ter alinhado sua carreira, mas em algum ponto se perdeu. Afundou-se nas drogas e na bebida e, antes dos dezoito anos, já era alcoólatra e viciada em cocaína. (depois de muitos anos e bastante esforço, ela conseguiu se reabilitar, se livrou dos vícios, e retomou sua vida e carreira)  
 
Não ia falar mais sobre 'O Exorcista', mas há uma série de curiosidades que envolvem a produção que considero muito interessantes. No site Adoro Cinema encontrei umas preciosidades que reproduzo abaixo, em alguns casos acrescentei um comentário meu em parênteses:
 
- O Exorcista foi o primeiro e único filme de terror a ser indicado ao Oscar de melhor filme.
 
- O diretor John Boorman chegou a se oferecer para dirigir O Exorcista, mas posteriormente desistiu do projeto, por considerar a história cruel demais. Ele, entretanto, aceitou dirigir O Exorcista II – O Herege, lançado 4 anos depois (que foi um fracasso estrondoso e ajudou a arrebentar a carreira da Linda Blair) (sobre a 'crueldade da história', Boorman se referia mais especificamente a que o filme era cruel demais com a infância... De qualquer modo, isso é até engraçado, vindo de um dos maiores responsáveis para que a violência tivesse requintes de crueldade e tratamento de arte no cinema)
 
- A atriz Ellen Burstyn aceitou atuar em O Exorcista estabelecendo uma única condição: que sua personagem não dissesse a frase “I believe in the devil!” (“Eu acredito no demônio!”), contida no roteiro original. Os produtores atenderam o pedido e esta frase foi omitida da história.
aranha possuida
 
- As atrizes Jane Fonda e Shirley MacLaine chegaram a ser sondadas sobre a possibilidade de interpretarem a personagem Chris MacNeil em O Exorcista.
 
- Eventualmente, o diretor William Friedkin consultava o Reverendo Thomas Birmingham sobre a possibilidade de exorcizar o set de filmagens. Em todas as vezes, o reverendo recusou o pedido, dizendo que isto causaria ainda mais ansiedade no elenco. Mas por diversas vezes ele visitou os sets para benzê-los e tranquilizar o elenco. (ora vamos, isso é realmente engraçado! ri muito quando soube)
 
- O quarto onde grande parte do filme foi rodada teve que ser constantemente refrigerado, para que se pudesse capturar com exatidão a respiração gélida dos atores. Para tanto, foram usados 4 aparelhos de ar condicionado, todos ligados simultanemente.
 
- Na sequência em que a personagem de Ellen Burstyn arremessada para longe, por sua filha com possessão demoníaca, Burstyn bateu violentamente com o coccix contra a cama e gritou de dor no mesmo instante. Esta cena foi filmada e está em O Exorcista.
 
- Inicialmente, a voz do demônio seria da própria Linda Blair. Entretanto, após 150 horas de trabalho em cima do som do filme, o diretor William Friedkin resolveu substituí-la pela voz de Mercedes McCambridge que, para fazer a voz do demônio, comeu ovos crus, tomou muito álcool e fumou diversos cigarros.
 
- A atriz Mercedes McCambridge chegou a processar a Warner Bros., para que seu nome como a dona da voz do demônio entrasse nos créditos de O Exorcista.
 
- O endereço do apartamento mostrado em O Exorcista foi anteriormente habitado pelo autor do livro em que o filme foi baseado, William Peter Blatty, quando este era apenas um estudade da Georgetown University.
 
- Durante as filmagens, 8 pessoas da produção morreram de forma não-explicada. (esse é o tipo de detalhe que se repete constantemente nos filmes de terror; foi assim nos antigos filmes de Múmia, onde se dizia que pessoas da produção acabavam tendo mortes misteriosas; se segue até os dias de hoje: muito se fala sobre o que aconteceu com os atores do 'Poltergeist', do Spielberg... Embora faz um tempo que não ouço falar disso. Ao que parece o terror não está 'matando' mais como fazia antigamente.)
 
- Foi relançado nos cinemas americanos em 2000, com uma nova cópia, som digital e 11 minutos de cenas extras inseridas ao longo do filme (incluindo a cena do estupro com a cruz, a Linda Blair descendo uma escadaria como uma aranha gigante, e mais alguns litros de vômito verde).

 
ripley e alien
 
"In space no one can hear you scream." 
 
"No espaço ninguém pode ouvir você gritar."
 
'Aliens - o 8° Passageiro' é, sob muitos aspectos, muito diferente do 'Exorcista'. O mais importante: mesmo acabando de fazer trinta anos desde o seu lançamento, e apesar de todas as imitações e sequências progressivamente piores (até culminarem nos absurdos e anêmicos embates com um ridículo Predador), 'Alien' mantém seu poderoso clima de terror claustrofóbico e suspense alucinante. Reassisti-o pela vigésima segunda vez, creio, há pouco tempo e o fascínio continua intacto.
 
Há três fatores principais para que isso aconteça e não deixe 'Alien' simplesmente como um marco distante e ultrapassado: a direção segura e firme de Ridley Scott, o apuro visual da cenografia gótica e da criatura nascida dos pesadelos do alucinado artista suiço H.R. Giger. E a falta de dinheiro. 
 
o 'bebê' alien
Entre as propostas inicias para o filme e sua realização final houve muitas mudanças. A princípio era para ter sido dirigido por Walter Hill, que acabou saindo, deixando espaço para um jovem realizador inglês que começava a despontar, Ridley Scott. Scott faria mais tarde outro clássico de ficção científica, Blade Runner, e uma série de filmes bons (e alguns lixos absurdos); aqui estava no auge do entusiasmo e das idéias criativas. A criatividade foi um requisito premente e indispensável, pois o financiamento para as filmagens era extremamente curto, com a produtora muito preocupada em cortar custos. O que deixava o artista plástico H. R. Giger maluco, pois precisava ficar baixando e simplificando suas loucuras visuais para modelos e soluções mais baratas e simples. Paradoxalmente, isso influiu de modo muito positivo para o filme: como não podiam exagerar nos efeitos especiais, o monstro Alien aparece de forma bem esporádica, o que acaba incrementando o suspense e a imaginação do público. Quando este afinal aparece, a narrativa foi tão bem conduzida, o clímax foi tão bem montado, que a respiração fica suspensa, a expectativa explode.
 
Ripley estava previsto para ser inicialmente uma personagem masculina. Quando decidiu-se que seria uma mulher, a proposta era que fosse encenada pela Veronica Cartwright. Veronica manteve-se no filme, mas 
alien e H.R. Giger
com outra personagem, e Ripley ficou com Sigourney Weaver.
 
ao lado, criatura e criador. só para especificar: H. R. Giger é o baixinho à direita. 
 
Sigourney é um caso interessante. Nascida de família rica, estudou nos mais caros colégios dos Estados Unidos, quando resolveu ser atriz adotou o nome de um personagem de um livro de F. Scott Fitzgerald! Culta, determinada, inteligente, e rica, uma pessoa, digamos assim, inusitada para estar em Hollywood. Atuou em algumas peças de teatro, participou em algumas produções na televisão, ela não sabia muita coisa sobre ficção científica, nem imaginava que estaria fazendo um. 'Alien' foi a explosão que sabemos, e tudo mudou. No entanto, Sigourney conseguiu manter uma coerência rara. Mesmo que 'Ripley' esteja marcada para sempre em sua vida, ela conseguiu sair dos limites estreitos de uma glória efêmera, transita por vários gêneros cinematográficos, como a comédia e o drama, mesmo que volta e meia acabe retornando ao personagem que lhe deu fama e (muito mais) dinheiro.

30 anos de Alien. Essa é realmente para se comemorar.  
 
ripley
 
 
 
 
 
 
 

Comentários (9)
  • akio  - 8.º passageiro
    O Alien foi um dos melhores filmes de suspense.
    Até hoje estou esperando outro. A atriz Sigourney é magrinha, mas é sensual.
    Abraço
    Akio
  • claudinei vieira  - magra
    Akio, além de magra ela é alta e isso foi, inclusive, um dos motivos por ela ter mudado de nome, pois achava que seu nome verdadeiro (susan) era muito 'pequeno' para sua pessoa, e gostou de 'sigourney' por ser mais 'volumoso'. O hijak a considera como uma das musas do cinema. Eu não chego a tanto, mas tenho minha simpatia. Grande abraço.
  • Hijak Skank  - MUSA?
    Essa mulher é uma deusa...aushduadhaisdhasid. Clauds o que eu não daria pra ser o Alien...se é que você me entende....Gosto dela atuando sim e acho que a moça tem um charme todo especial apesar da falta de bunda.
  • claudinei vieira  - atriz
    Sigourney tem uma presença muito forte, sem dúvida. Ela não exatamente 'charmosa' ou muito bonita, nem é mesmo uma grande atriz (a não ser pela altura, talvez...), mas nunca fez feio, e consegue personificar uma durona quanto uma lady. Mas, Hijak, querer ser o Alien é meio contraditório. Afinal, ele tentou bastante mas nunca conseguiu comer a Ripley...
  • Hijak  - Contraditório uma ova!
    E quem disse que eu quero comer a moça? Queria é babar encima dela como o monstrengo ou ficar dando susto....enfim jouer le jeu!!!!
  • Andriely  -  Exorcista
    foi um dos melhores filmees baseado em fatos reais
    *-* se isso realmeente aconteeceu num podeemos maais duvidaar da existencia de deus e tbm do diabo !
  • Claudinei Vieira  - exor
    Andriely, volta e meia Hollywood vem com isso de determinado filme de terror ser 'baseado em fato real'. Se você acredita em algum pedacinho de possibilidade desse filme, então vai acreditar em qualquer coisa!
    Como disse, o Exorcista pra mim não me impressiona, pois já tinha visto antes muitas outras versões e imitações, então quando cheguei no original não me provocou reação nenhuma.
    Agora, um filme que ainda me impressiona é, sem dúvida, 'O Iluminado', do Kubrick. Esse é para dar muito medo!
    VAleu
    bjs
  • José Francisco  - O Exorcista
    Discordo plenamente do 1º comentario desta nmatéria em que a pessoa se refer ao Exorcista como um filme aquem da expectativa. Quando o mesmo foi produzido não existia tantos recursos como hoje da computação grafica, e todos os efeitos foram realizados de forma artezanal mesmo, como o barulho do pescoço da menina virando que era o som de dobras de uma carteira velha, assim como a cena da aranha, da flutuação e muitas outras. Opinião é coisa pessoal e como gosto não se discute não questiono aqui a maneira de ver o filme de qualquer outra pessoa. Para mim o Exorcista foi o melhor filme do Genero Terror que eu ja vi até hoje.
  • Claudinei Vieira  - exorcista
    José, é verdade que os efeitos de 'O Exorcista' para a época fizeram muita sensação. Tanto que foram reproduzidos muitas vezes depois, na verdade até à exaustão. Eu soube e conheci a cena da famosa girada de pescoço da Linda Blair muitíssimo antes de assistir o filme. Com certeza, ter tantas referências anteriores atrapalhou as minhas expectativas. Continuo achando, no entanto, que fora esses esforços e estas cenas famosas, o resto do filme é lento e, para mim, muito chato.
    Claro que é uma questão de opinião. Para mim, o que Kubrick fez, sem usar trucagem alguma, colocando duas meninas gêmeas no final de um corredor no hotel de 'O Iluminado' consegue me impressionar e me meter medo de um modo como o 'O Exorcista' não foi capaz.
    É isso. Vamos nos falando, José, grande abraço!
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