O cinema brasileiro tem esperança
Escrito por Claudinei Vieira   
Seg, 21 de Setembro de 2009 04:43

besouro cartaz
As bilheterias dos filmes brasileiros até que estão crescendo, com vagar e suor, na maioria dos casos. Em outros casos, com expressivo aumento. Mas, com que? 'Filhos de Francisco'. 'Seu eu fosse você'. 1 e 2. 'Os Normais'. 1 e 2. 'Mulher Invisível'. 1, por enquanto.
 
Quero deixar claro que não me importo que esses filmes façam sucesso, assim como os blockbusters norte-americanos, e que levem multidões. Em geral, são multidões que, normalmente, não assistiriam mesmo filmes mais densos e / ou propostas mais sérias. Verdade, não me importa. O problema é começar a pensar que que somente esses tipos de produções podem ter retorno de público, de crítica, e de bilheteria. Ainda estamos na fase de nos subestimarmos, de considerar que precisamos primeiro ser reconhecidos lá fora para acreditar que podemos fazer o mesmo. 
 
Participar do Oscar, querer ganhar o troféu mais insípido do cinema mundial, faz parte dessa lerdeza nacional. O interessante aqui é o modo como, através do filme escolhido para tentar uma vaguinha em Hollywood, nos vemos, como vemos o cinema que realizamos, e o que achamos que podemos oferecer como 'concorrência'. Este ano eu até que estava relativamente entusiasmado com a possibilidade de uma tentativa diferente do habitual. Escolheram 'Salve Geral', de Sérgio Rezende, uma forma muito eficiente de acabar com qualquer entusiasmo.
 
Sérgio Rezende. É o cara que consegue pegar temas e objetos candentes e com potencial explosivo (potencialidade como abertura para discussão, e como potencial artístico) e os transforma, no máximo, em filmes meia-bocas. No máximo. 'Lamarca' foi um que me deixou grandemente incomodado, pois poderia ser um grande filme e, no final, deixa somente um gosto de insatisfação, mesmo que não de repúdio total. 'Guerra de Canudos' é um fracasso excepcional, me fez passar algumas das horas mais aflitivas que já tive em uma sala de cinema, um verdadeiro desrespeito ao público. Depois disso, passei a ter medo de assistir qualquer coisa que viesse dele, e mesmo assim, não sei exatamente porque, fui ver 'Zuzu Angel'. Creio que, de novo, reconheci que o tema em si poderia resultar em algo muito bom, se bem realizado. Não gosto de lembrar o que pensei quando sai de 'Zuzu Angel'.
 
Mas voltemos a falar de cinema de verdade. A questão é se existe a possibilidade de se produzir um cinema que possa atrair público sem ser idiota (ou tratar o público como idiota) e ainda trate de temas relevantes. Por que teríamos sempre de balançar entre as chanchadas descerebradas e os melodramas novelísticos?  
 
Há sinais de que alguma coisa pode estar acontecendo. Claro, pode ser farofa jogada ao vento. O que foi mostrado até agora, no entanto, permite ter pelo menos alguma expectativa. No mínimo, a seriedade com o que estão encarando os preparativos de filmagens e as campanhas de marketing, a apresentação gradual ao público, com criação do 'suspense' da antecipação... isso está bacana. Espero que corresponda ao produto final.
 
O grande chamariz para 'Besouro' é, sem dúvida, o fato de terem contratado Hiuen Chiu Ku, o responsável pelas coreografias de lutas de filmes como 'O Tigre e o Dragão' e 'Matrix', por exemplo. E concordo! Só por isso já está merecendo toda a minha atenção. Quando soube desse detalhe, me permiti uma pontinha de entusiasmo, mas me refreei, com receio de alguma decepção, e fiquei esperando mais notícias. O personagem é real, Besouro Mangangá, e a história se passa na década de 20, na Bahia. Ambiente histórico, opressão negra, um mestre capoeirista que recebe ensinamentos dos próprios exus. O tema em si não teria me chamado exatamente a atenção, mas foi o suficiente para ver o trailer. Com o trailer, consegui relaxar um pouco e achar que pode, sim, ser um filme bem interessante. Como disse, pode ser que tudo naufrague na exibição final e que toda essa expectativa seja completamente desperdiçada. De repente, no entanto... quem sabe? Vamos ver, vamos ver...
 
lutas - o filme
Outra grande e inesperada novidade: 'Lutas - O filme'. O título é uma sem-gracice tremenda, espero que tenham a consciência de mudar. Produzido pela Buriti Filmes (os mesmos responsáveis por 'Bicho de Sete Cabeças', por exemplo), com direção e roteiro de Luiz Bolognesi e supervisão de Laís Bodanzky. A história: um homem, brasileiro, com 600 anos de idade que vivencia momentos importantes da história nacional. Até que encontra uma mulher que é a reencarnação de sua antiga amada. Certo. Pode-se muito bem perguntar: E DAÍ? Por que isso é bom?! 
 
Bueno, por três motivos: Um, é desenho animado, um longa de animação. Dois, Não é desenho infantil! Três, o tom adotado e a linha que o roteiro parece seguir (através do trailer) sugere um posicionamento completamente novo dos produtores brasileiros para com um trabalho de animação. Espero fervorosamente que esteja certo e que possa surgir daí um filão de tremendas potencialidades. Esse vai ser para 2010. Assista o trailer e veja se concorda comigo. De que existe uma possibilidade.
 
 
 
 
 
 
Comentários (2)
  • André Machado  - Filmes "populares"
    Acho que nessa última fornada do cinema nacional, já saíram alguns filmes que aliam o refinamento e o apelo popular. O "Linha de Passe" é, na minha opinião, o melhor filme do Walter Salles e poderia ter um grande alcance popular. Infelizmente, foi rotulado como um "filme cabeça" assim como outros da sua linha como "A casa de Alice". Não sei se é necessário copiar a fórmula americana de filme popular: porrada, herói imortal etc. De todo jeito, é bastante legal ver surgir animação no Brasil. Sucesso aos dois filmes.
  • claudinei vieira  - filmes populares
    André, 'Linha de Passe' é uma boa lembrança e posso concordar contigo sobre ser o melhor filme do Walter Salles (embora isso não diga muito, dependendo do que se ache dos demais filmes dele...), com o grande mérito da montagem, excelente trabalho que reafirma um respeito pela inteligência do público. Muito bem realizado, atores ótimos, ambientação realista e direta. A sensação,no entanto, é de deja vu. Já assistimos a esse filme antes, em outras épocas, algumas vezes. com o mesmo tema, a mesma ambientação, o mesmo tipo de interpretação, os mesmos personagens. é um bom filme, no entanto, não entusiasma, não traz nada de realmente novo. Claro que o cinema brasileiro não necessita de efeitos especiais ou porradaria indiscriminada para se afirmar ou se firmar, mas permita-me perguntar Por que não? Desde que não se traga junto o vício de se pensar que o efeito especial em si valha o filme por inteiro. Desde que se o adapte para nossa realidade e seja bem realizado, por que não? A diferença de mentalidade aqui pode ser sutil, mas acredito que exista. Ou pelo menos é o que espero, é o que parece que está acontecendo. E é claro que caso se concretize o que estou pensando, não terá surgido de um vácuo. Pois já terá acontecido o Linha de Passe, o Tropa de Elite, o Onibus 174 (o documentário!), e dezenas de outras experimentações sérias e de boa vontade (mesmo que de resultados pífios). Agora, se o desenho animado da Buriti corresponder ao que estou esperando acredito sinceramente que estaremos vendo uma nova era no cinema brasileiro. é um autêntico desbravamento de caminhos. Vamos ver o que acontecerá. Cara, grande abraço!
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