| SUPERMAN ensinou o que é Cinema |
| Escrito por Claudinei Vieira |
| Seg, 07 de Setembro de 2009 02:14 |
![]() Foi com SUPERMAN, com Christopher Reeve, que descobri o que realmente significava Cinema. Pelos dados que tenho aqui , o filme foi lançado em 1978, nos Estados Unidos. Pelo que recordo, acho que não chegou a demorar muito para estrear no Brasil (em geral eram enormes os atrasos em relação a suas estréias originais, muito mais do que hoje, mesmo os blockbusters). Eu teria, portanto, por volta de doze anos, desde os oito frequentava salas de cinema (após um breve período levado e guiado pelo meu tio e meus irmãos até o centro da cidade, logo fiz questão de ir sozinho e fazer as minhas próprias escolhas; desta forma conheci a Cidade e São Paulo, conheci seus becos e seus habitantes; a sujeira e a magnificência e nunca parava de olhar para o alto dos prédios; uma segunda fase foi o conhecimento dos cinemas pornôs que promoviam shows de striptease; uma terceira e definitiva fase foi quando comecei a beber. Muito tempo depois. Uma outra história). A chamada do filme ficou famosa (como se pretendia): “You’ll believe a man can fly“. “Você acreditará que o Homem realmente pode voar!”. Algo pelo estilo. Eu, um pobre incauto desavisado, fui conferir. Marlon Brando (velho, sem graça e com uma pança ridícula, fora os ralos cabelos brancos) (mas era O Marlon Brando, que estava recebendo um milhão de dólares, uma fortuna inimaginável por quinze minutos de 'atuação') prevê que seu planeta Krypton está para ser destruído, pois seu sol vermelho está implodindo (e / ou em rota de colisão), e prepara uma mini-nave para salvar, pelo menos, seu filho recém-nascido. Manda-o para Terra, pois prevê também (era um cara extremamente previdente!) que o nosso sol amarelo lhe proporcionará características pessoais extraordinárias, verdadeiros superpoderes. O bebê viaja durante anos e sua nave vai cair nas portas de um casal sem filhos no interior dos Estados Unidos (claro) que imediatamente o adotam. Desde cedo percebem o quanto ele é especial. O adolescente Clark passa sua adolescência mais ou menos como todo mundo (Smallville ainda não tinha virado série), até o momento que seus pais adotivos não podem mais esconder sua verdadeira identidade e os poderes que ele já revelava desde quando era criança. Aparece então o cristal verde que lhe aponta suas verdadeiras origens e uma casa no Pólo Norte onde toma contato pela primeira vez, em imagem multi-dimensional com seu verdadeiro pai. Superpoderes conferem superesponsabilidades (como diria o Tio Ben) e quando ele acaba de falar com o cristal verde, já sai voando, mas o que vemos é somente um vislumbre de sua capa. Pulo temporal. Clark Kent, agora bem crescido, sai de sua pequena SmallVille e vai para a metrópole Metrópolis, onde arranja emprego como repórter e conhece a espevitada ('espevitada' é A palavra para descrevê-la) Lois Lane. Estou sendo minucioso. São mais de quarenta minutos de filme e o Superman ainda não apareceu voando. Mas a trama tá bem contada, tá gostoso de assistir, percebemos facilmente a manipulação da criação do suspense para o verdadeiro momento, mas não nos importamos, tá bem feito tudo. Até que o 'verdadeiro momento' acontece, afinal. Uma série de acontecimentos infelizes coloca uma assustada desprotegida pronta-para-morrer Lois Lane presa dentro de um helicóptero prestes a cair de um edifício. Clark Kent está lá embaixo, seus olhos-de-raios-x (e / ou de longa distância) percebem o que está acontecendo lá em cima. Está na hora. A preparação acabou. Ele procura um lugar para trocar de roupa, pára em frente a um orelhão inútil (uma ótima brincadeira com os Supermans anteriores de gibis que sempre encontravam uma cabine de telefone para se trocarem; não há mais cabines, mas orelhões inúteis). Ele consegue dar um jeito, O Superman aparece de corpo inteiro e salta. E o cinema cai abaixo. O que aconteceu aqui eu nunca havia presenciado antes. Foi quase uma hora de curiosa antecipação. Sabíamos o que aconteceria, aguardávamos o instante, já tínhamos visto toda a propaganda anterior. Quando ocorre o primeiro vôo, o cinema cai abaixo. Ele voa. Sobe o prédio, pega Lois Lane em pleno ar com um braço, e com o outro pega o helicóptero. “Não se preocupe, agora estou segurando”. “Mas quem está segurando você?!” Quase não dá para ouvir o que Lois fala, pois o cinema está caindo abaixo. Todo o cinema está gritando neste instante, batendo os pés, batendo palmas, uivando de puro prazer. E eu gritei, pulei e bati palmas conjuntamente. E é claro, os gritos aumentavam, se alimentavam uns dos outros. Nos acalmamos, o filme prosseguiu e terminou. Contudo, não consegui sair do lugar. Eu precisava saber se aquilo não fora um lapso, uma circunstancialidade, um acontecimento fortuito. Fiquei na mesma poltrona e assisti mais duas sessões em seguida. E as reações foram idênticas na mesma cena, tanto nessa quanto em outras sessões que assisti em outros dias. Vários anos depois, em uma oficina de cinema que ministrei, não consegui explicar para os meus alunos o conceito de que Filme Não é Cinema. Cinema é uma experiência coletiva, um momento de compartilhamento, uma emoção que se alimenta de / com nossos participantes em um autêntico ritual tribal. 'Filme' é outra coisa: pode ser apreciado (e muito bem apreciado) sem ninguém ao lado, pela televisão, ou em um home theather com todas as maquinarias e avanços caseiros de sons e imagens modernas possíveis, sentado no sofá de sua casa, e isso não tira ou diminui em nada a sua qualidade ou o gosto de assisti-lo ou o modo de como ocorre a recepção. Filmes podem ser bons ou ruins, péssimos ou sensacionais, clássicos ou descartáveis, dependendo unicamente de sua capacidade de interferir e impressionar o âmago do espectador. Além do gosto de cada um. No entanto, não é Cinema. Que só se realiza, só existe!, como fenômeno social. E que não precisa, de forma alguma, ser barulhento como este. Outros momentos tão puros e estonteantes me aconteceram com “Gritos e Sussurros”, do Bergman (a cena quando a irmã morta puxa os cabelos da outra!...); as gêmeas fantasmagóricas e arrepiantes de “O Iluminado”, do Kubrick; “O Poderoso Chefão I”, do Coppola (quando Michael decide matar o policial que o socou); o ventilador-computador-vilão de “Alphaville”, do Godard; o ataque de “Os Pássaros”, do Hitchcock; a batalha das naves, de tirar o fôlego, no “Retorno de Jedi”, a voz da Elis Regina rasgante na cena da tourada em "Fale com Ela", do Almodóvar, a batalha final de 'Kagemusha', do Kurosawa, a cena da escadaria em 'Os Intocáveis', do Brian de Palma, e muitos muitos outros etcs. Muitos etcéteras sim. Vários momentos fundamentais da minha existência. No entanto, o primeiro, aquele que me fez perceber que isso era possível foi o SUPERMAN, de 1978.
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Obrigada pela agilidade na resposta. Eu tenho o Garbo, do Barry Paris (comprei novo, pela bagatela de 10,00) e é excelente. Por... - 21-06-2010___ claudi...
Kichutes, Juliano! tens toda razão, tb tive vários. O kichute fez parte de nossa formação pessoal, intelectual e existencial. Q... - 21-06-2010___ Claudi...
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ai, claudinei, me deu vontade de ler novamente... puxa, até me lembro do gosto do que comia no momento em que abri o mrs dallow... - 19-05-2010___ Samant...
Podería nos informar os telefones de contato da Editora que imprime a Revista Artigo 5o ??? Aguardo retorno !!! Abraços e ob... - 18-05-2010___ Claudi...
Magali, bacana! Espero mesmo que tenha curtido o Salão de Humor. Vou dar uma passada pelo seu blog. bjs - 18-05-2010___ magali
Achei muito legal, incusive estive la e fotografei. meu blogue: www.magali.fotosblogue.com - 12-05-2010___ Helena
No meu blogue tem tudo do palco (helenahutz.blogspot.com) beijo e té.

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2009 - 2010 by
Tinha muitos gibís desse herói, com trajes estranhos, disfarçado somente com um par de óculos sem ninguém levantar suspeitas. Mas tudo OK, as histórias eram empolgantes.
Bom comentário, Claudinei. Lembrei-me da infância.(outros heróis com roupas estranhas: Batman, Fantasma e Homem-Aranha)
Abraço
Akio