A bebida dos deuses, segundo Victor Sênior
Escrito por Claudinei Vieira   
Ter, 09 de Fevereiro de 2010 05:14
 
(Victor está morto e ainda estou impressionado pela forma miserável como aconteceu. Não gosto de pensar nisso. Não gosto da dor. Ainda prefiro lembrar dos bons momentos, do orgulho que sentíamos em ser seu amigo, das boas cenas, das bebedeiras. Das discussões filosóficas em mesas de bar. Como na ocasião da 'bebida' dos deuses, da noitada, dos olhares, dos aplausos
 
Victor era um português que, depois de viajar pelo mundo inteiro, acabara se radicando no Brasil. Sua diversão era fazer amizade com estudantes universitários, aos quais pagava bebida, saídas, algumas vezes jantares em restaurantes no centro velho da cidade. Era uma forma cara de manter esse círculo de "amizades". Nunca soubemos qual era exatamente sua fonte de renda e não nos importávamos. Culto, irônico, divertia-se em espicaçar a nossa paciência com seu conhecimento. Quase não havia mulheres nesse grupo, o que dava margem a óbvias interpretações. Quanto a mim, só posso dizer que nunca fui cantado por ele. A sua vida sexual, se é que havia, era mantida em rigorosa discrição. Mestre em manter uma pose clássica de gentleman enquanto, em voz baixa, dizia as maiores barbaridades, com uma linguagem estudadamente vulgar. Os cultores do politicamente correto (eles já agiam, mesmo que a expressão não existisse na época) nos odiavam. Aos poucos, a turma em volta dele se condensou, restaram apenas cinco ou seis, tornando-nos uma verdadeira panelinha assumida. E desprezada. Éramos considerados pedantes e arrogantes. Besteira. Na verdade, realmente éramos, mas não impedíamos as pessoas de se aproximar. Acontece que nosso pique era punk e não eram muitos os que conseguiam nos acompanhar. 
 
Uma noite, estávamos no Barbacuê na Faria Lima, um point pequeno burguês cujo mezanino fica ao ar livre, formando como que uma calçada aérea. Gostávamos de sentar ali. Éramos vistos e víamos todos.
 
- Claudinei, você deveria definitivamente deixar de ser abstêmio.

Ri.
 
- Victor, dizer que você está bêbado é uma redundância, mas agora está delirando.
 
- O delírio em Víctor é sua condição natural, Claudinei - lembrou Augusto, um grande companheiro de "estudos"; naquela noite tranquila só estávamos os três - Deixe-o à vontade, portanto, e deliremos junto.
 
Ah, as frases empoladas e de efeito. Como éramos ridículos. 
 
- Eu volto ao assunto, sim. Acham, por acaso, só pelo fato de se esborracharem de vez em quando, deixam de ser abstêmios? Vocês não entendem nada! Saibam que, se conseguirem passar deste ato simplório de entornar um copo e virar outra garrafa, terão a verdadeira chave da compreensão da Humanidade. Através da bebida, podemos avaliar a força e o dinamismo de um povo, verificar sua história e se seus projetos são válidos ou não. A bebida é portanto um sinal, um brasão, um baluarte, muito mais do que esse pedaço de pano que chamam de Bandeira!
 
- "Baluarte"?! Estou começando a concordar contigo, Claudinei.
 
- Pode-se avaliar, inclusive, a inteligência alheia, ó néscio. Diz-me o que bebes e eu te direi quem sois. Diga-nos, Augusto, doce lírio do vale, qual a bebida que te faz mais alegre?
 
- Pois confesso a minha humildade ao encanto de qualquer uma. Na verdade, creio que, fora água, não possuo o menor preconceito. Basta estar o mais próximo possível.
 
- Me disseram por aí - sou eu falando - que água tem uma certa importância para a nossa sobrevivência.
 
- Também ouvi falar disso. Uma vez até tentei tomar água. Sério! - Augusto suspirou profundamente - Meu Deus, quase morri. Ainda bem que tive presença de espírito suficiente para me cuidar.
 
- Tratamento urgente? - perguntei
 
- Imediato. Já tinha deixado preparado um copo de conhaque justamente para o caso de passar mal.
 
- Silêncio, sua besta! Deixem-me falar ...
 
- Até a pouco, eu era um lírio.
 
- Ora - rebati - um lírio besta.
 
- Silêncio, já disse. E você, Claudinei? Pelo que sei, até adivinho qual é a sua preferida.
 
Ergui o copo em resposta.

- Puff! Whisky! - prosseguiu Victor - quase tão plebéia e rude quanto à vodca. Helás! Eis uma das melhores provas do que digo. A tal povo, tal temperamento, tal bebida. Vocês conseguem? imaginar uma Rússia com suas estepes, suas ravinas cobertas de neve e seus cossacos em cavalgadas, sem esta marca etílica? Taras Bulba sem vodca? Terão que concordar comigo que, por melhor que seja fabricada, ela é, por natureza, uma bebida brava, sem requinte, feita muito mais para dar um chute no estômago do que agradar ao paladar. Tal e qual o povo russo, a sua cara!
 
- Cuidado, Claudinei, para não ver aflorar de repente um sentimento marxista no nosso querido Victor. Saudades do império soviético, talvez?
 
- Tolo! De qualquer forma, uma coisa tenho que admitir: foram os russos a prestarem a maior homenagem à bebida que eu conheço de toda a história.
 
- Eu não dizia? 
 
- Deixem-me falar, por Deus. - Victor falava assim mesmo "deixem-me falar" - Aposto que vocês não sabem o que fizeram os russos logo após tomarem o poder os bolcheviques.
 
- ...
 
Não sei se realmente estávamos interessados em saber.
 
- Beberam, meus caros, oh, se afundaram na bebedeira. Imaginem um povo inteiro a derrubar o czar, o seu "papá", esta figura quase mitológica e, junto dele, todas as inibições, restrições, regulamentos. Levem em consideração de que, para eles, aquele era o primeiro dia de absoluta liberdade, sem polícia para reprimir, não havia governo para mandar, o exercito se esfacelara e a Igreja já não metia medo. Por três dias em seguida, beberam e esta foi sua única filosofia, o único sentido da vida. Esqueceram o trabalho do campo, dos sofrimentos da guerra, dos soldados que morreram ... Só beberam, até se esborracharem, até a bexiga explodir. Nestes três dias, se algum país houvesse atacado ... não teria havido governo soviético, stálin, essas merdas todas - Victor fez uma pausa e continuou a falar mais lentamente - Podem ver a cena? Soldados e camponeses caídos pelas ruas, numa entrega total. Logo depois, é claro, a ressaca foi monumental.
 
- Proponho um brinde - eu disse.
 
Victor olhou para o copo levantado - Humpf! Whisky. Bebida forte, sem dúvida, esquenta o corpo, mas não tem vida, é, é ... sem alma. Só poderia vir mesmo de um povo sem graça como o inglês.
 
- Foi a Inglaterra que inventou o uísque? - perguntei.
 
- Pelo que sei, a bebida deles é o chá - ajuntou Augusto.
 
- ... que, na verdade, foi trazido da China - completei.
 
Victor não nos ouvia mais - Porém, o que me dizem disto, hein? deste vermelho - levantou o próprio copo contra a luz - Este representa a França, sua civilização, suas luzes - tomou um gole - A cada vez, sorvemos um pouco mais de cultura e esquecemos de nossa barbárie, de nossa própria condição de bestas animais, que afinal humanos somos.Todavia, através dele passamos por cima disso e entramos em contato direto com o Divino, com o Mestre, seja lá por qual nome for chamado. No final das contas, esta bebida foi inventada por Baco, por um Deus para um povo que sabia realmente como viver, sua religião era a VIDA!, e plantavam VIDA! Não era necessário ir a templos para se oferecer aos seus deuses. Melhor, suas cerimônias eram simples pretextos, subterfúgios, desculpa para o que viria depois. Que Sócrates! Não foram as peças de teatro nem a filosofia nem aquelas estátuas peladas... Humpf... Foi a compreensão de que neste vermelho eles deixavam de ser humanos e se transformavam em deuses.

'Os romanos compreenderam isso. Queriam se fazer de inteligentes, inventaram leis, conquistaram povos, mas no fundo, foram subjugados por este vermelho. Orgias e vinho, era isso o que eles sabiam fazer depois de mil anos. Não foi por acaso, portanto, que a Igreja também adotou este suco para sua liturgia. Ela transformou este sangue do povo, do populacho, em sangue divino. Com o aval do Todo-Poderoso! Que me dizem?
 
Neste momento, Victor estava de pé, o braço estendido em um brinde oferecido a todo o restaurante sob o olhar divertido dos demais. Recebeu uma salva de palmas e agradeceu com uma pequena vênia que, devido ao seu estado alcoólico, quase o desequilibrou. Conseguiu se sentar sem incidentes.
 
Fiquei mordido de curiosidade, mas não ousei perguntar o que ele achava da cachaça.
 

 

 

in CONTOS

A sensacional ilustração original, feita com exclusividade para este conto, é de HIJAK  SKANK

 

 

 

 

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