A velha
Escrito por Claudinei Vieira   

O caminho mais curto para a escola onde estudei o primário era uma picada no meio do mato, uma trilha que precisava ser desbastada volta e meia, pois o mato era persistente e teimoso. Chegou o momento, é claro, que a picada virou rua livre e os problemas foram outros. A casa da velha ficava no exato ponto onde terminava o mato e começava a ‘rua’. Era branca, um portãozinho pequeno, uma cerca baixa de madeirinhas entrecruzadas, uma escada de poucos degraus e uma varanda. Ela sentava-se na varanda e observava os passantes. Sei que, em duas ou três ocasiões, um senhor gordo de bigode apareceu, com toda pinta de filho ou neto; nunca mais vi outra pessoa ao seu lado. Para mim, para minha cabeça de criança que não se tocava na época em nenhum desses detalhes, a casa (vazia) e a velha (sozinha) eram uma única unidade, e minha indiferença infantil só mudou depois daquele dia.

Voltava da escola e, pela primeiríssima vez, a vi se mexer e falar. Me chamava; acenava com a mão. Parei, indeciso. A curiosidade foi maior. Claro. Abri o portãozinho, passei pela cerca, subi os cinco degraus. Ela perguntou se eu estudava. Respondi que sim. Foi a única frase inteligível que fez e que eu realmente entendi. Continuou falando, um resmungado, palavras soltas. Sua boca não se abria muito, mas evidenciava a falta dos dentes. Apalpava meu ombro e o braço; meu corpo rígido, desconfortado, não relaxou. Após agüentar mais uns minutos da algaravia, meu estômago beirava à ânsia, dei um tchau ríspido e temeroso e saí quase correndo.

Durante meses, preferi ir para escola pelo outro caminho mais longo, sem mato e sem casinhas e velhas brancas. E, mesmo quando voltei a utilizar a trilha, passava rapidamente, sem olhar para os lados. Em verdade, no entanto, não lembro de tê-la visto nunca mais na minha vida (O que parece ser um tanto difícil; a não ser que ela tenha morrido logo depois dessa cena, devemos termos nos cruzados em alguma ocasião. Mas, se tal aconteceu, minha memória apagou).

Minha mente retorna àquela casinha, às vezes. Ao crescer (e ao sentir em mim os mesmos efeitos), entendo e reconheço agora os gestos, os modos e a fala da velha: ela estava bêbada.

Sou um rapaz urbano, criado em bairro de periferia distante meia hora do centro da cidade. A palavraNaturezaera sinônimo de Mato Que Precisa Ser Cortado Para Nos Dar Caminho. “Casinha Brancanunca me trouxe sensações agradáveis ou idílicas. E por muito, muito tempo, a imagem que representou e simbolizou a “Velhice” para mim foi essa: uma mulher cansada, banguela e bêbada, exalando solidão.

 

 

 

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