Cumplicidade
Escrito por Claudinei Vieira   
Sáb, 28 de Novembro de 2009 09:15

 

Percebe-se, então, como funciona a perfídia, a inversão, o deslocamento. Talvez sempre tenha estado aqui, tenha sempre feito parte de nossas vidas, eu tenha sempre tapado o sol, os olhos e o nariz, com peneiras, fingindo a alegria, suportando as ranherices, sofrendo uma ininterrupta (e, pelo visto, inevitável) degenerescência. Percebo então que estive me fazendo a pergunta errada. A questão era outra, cruzei temas e vejo que enveredei por caminhos equivocados. 

Pois, minha querida, meu amor, a minha angústia era tentar entender quando havia sido o momento da quebra. Em que instante a coisa degringolou. Em que dia estúpido passamos a disfarçar o tédio, sufocar o bocejo, trepar com a luz apagada para esconder a falta de suor. Quando deixou de ser engraçado soltar um peido baixinho durante o almoço na casa de sua mãe durante aqueles absurdamente-insuportáveis-encontros-de-familia-de-final-de-semana-na-casa-dos-pais enquanto fazíamos careta para impedir a explosão que nos deixava com a barriga doendo de tanto segurar? Exagerávamos, fazíamos barulho, guinchávamos, sacudíamos a cama, deixávamos cair coisas no chão, nas transas no quarto do meu pai para que ele e minha irmã entrevada no cômodo ao lado soubessem o quanto os desprezávamos, para que eles ouvissem e remoessem os Me Come Me Come, Seu Filho da Puta; Espera, Deixa Encaixar Direito; Agora, Por Trás, Põe Tudo. Exagerávamos, contávamos histórias escabrosas, pérfidas e pornográficas para a sua mais-que-perfeita-melhor-amiga, a que me cantou logo depois, imediatamente depois, que nos casamos, a que eu deveria ter aproveitado e comido antes que virasse esse bujo barril de amontillado, MAS que não comi porque NÓS estávamos casados e felizes para todo o sempre.

Éramos cúmplices naturais, éramos assim, pensávamos o mesmo. Éramos cúmplices. De repente, no meio de um pum em qualquer café da manhã deixamos a cumplicidade soçobrar, desmilinguir, desaparecer?

Não. A água para o café chia e ferve pela quinta vez hoje enquanto você continua fingindo que não me ouve e penso que nos enganamos. Estávamos tão ansiosos para nos iludirmos, tão desolados com nossas experiências anteriores e fodidos com nossos parceiros na época que precisávamos montar esta farsa. 

Entende? Você sabia disso, não é mesmo? 

Nós não tínhamos cumplicidade. Era desespero. Enfiamos a cara na privada cheia de merda e demos risada para não ter que enfrentar o fato de que o nosso cheiro, o verdadeiro, o nterior, era pior. 

É. É isso. Agora estou começando a entender. Finalmente.  

 

 

in Contos

 

 

Comentários (2)
  • akio  - Conto
    Um conto real, forte, de acordo com o que acontece dentro das quatro paredes com muita gente. O texto é rico, gostei do trecho: "Em que dia estúpido passamos a disfarçar o tédio, sufocar o bocejo, trepar com luz apagada para esconder a falta de suor". A cumplicidade é fundamental, mas há duas faces afiadas.
    Abraço
    Akio
  • Claudinei Vieira  - valeu
    VAleu, Akio! Eu tou preparando outros textos no estilo, vamos ver o que vai acontecer.
    Grande abraço
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