| Ferida |
| Escrito por Claudinei Vieira |
| Qua, 09 de Dezembro de 2009 07:34 |
|
Quer falar? Então falemos. Lembro que eu chegava da rua, entrava no prédio, cumprimentava o porteiro (durante muitos anos, o negro Aguiar), tomava o elevador, esperava subir os tantos andares, uma ou outra vez, mas foram ocasiões raríssimas, tinha de subir as escadas por conta de reparos, atravessava o corredor, de quando em quando ouvia ruídos do outro apartamento, nunca conhecemos nossos vizinhos, nunca nos falamos, não precisávamos e São Paulo é assim mesmo, girava a maçaneta, entrava em casa e te encontrava invariavelmente sentada em frente à televisão, com seu ar de infinito enfado que sabe fazer tão bem, ouvia suas reclamações diárias com o devido relatório de com quem falara ao telefone ou no msn, uma ou outra coisa eu ouvia e até respondia, conseguia disfarçar inclusive com um sorriso ou uma risada mole, tomava meu banho, jantava ou não dependendo de como fora meu dia na loja. Aí esperava. Se Eu dissesse que estava com vontade, você invariavelmente estaria com dor de cabeça; deveria aguardar o momento que Você quisesse. Era tão invariável, cheguei a montar uma brincadeira particular: mesmo sem desejo, avançava e me insinuava: era impressionante como a reação era imediata e precisa como um relógio. Era nestas horas que você atingia o máximo do seu ridículo.
Consegue entender o absurdo clichê babaca que vivíamos, não é mesmo? Não estávamos casados, habitávamos era a casinha da barbie, comigo no papel de um ken balofo e desanimado.
Percebe onde estou querendo chegar? Não? Estou falando do momento da virada. A ferida ainda dói? A cicatriz ainda existe? Lembra do cheiro do sangue? Nunca tocou no assunto, preferia que eu parasse de pensar nisso. Continuo.
Pois teve o dia em que a conversa mudou. Nem consegui tomar banho direito. Falou de filhos. Me forcei a comer a janta, fiquei calado e não respondi, não por desprezo, mas por desconforto e, confesso, com uma enorme surpresa. Vindo de quem vinha, era quase estranho. Hum. Fiquei ruminando a idéia. Por semanas. No final das contas, deixamos levar e aconteceu de modo natural, ficou grávida.
Se choro, não é por sentimentalismo. É por raiva, idiota que fui até o último segundo.
A rotina mudou mesmo. Girava a chave e encontrava alguma modificação, uma cortina diferente, menos conversas ao telefone, a não ser com uma categoria indefinida dos “fornecedores” (que ‘forneciam’ as tais cortinas, mosquiteiros, fraldas descartáveis com super-ultra aderência e elásticos super-ultra-confortáveis) (e era engraçado perceber pelo seu rosto que não entendia nada do que falavam, mas concentrava-se com afinco), a chegada do indefectível berço que dominou o meio da sala até conseguirmos arrumar a saleta de retalhos transformada, portanto, em Quarto do Bebê, a voz pronunciando as maiúsculas escandidas (e por um momento angustiante cogitou de colocar uma plaquinha ‘Baby Room’ de madeira na porta; felizmente, pensou em outra coisa e esqueceu da plaquinha). Aliás, antes de girar a chave, antes de entrar no elevador, o porteiro passou a me cumprimentar com um sorriso de leve, estilo ‘de-pai-pra-pai’, e tenho certeza de que se eu deixasse ele desabaria a contar de seus próprios filhos e netos e o resto, tinha que fechar o rosto e passar rápido. De algum modo, na loja também souberam (não por mim, deve ter sido iniciativa sua, bem imagino) e brincaram as mesmas estúpidas brincadeiras com o ‘papai-grávido’. Era desconfortável, infantil, debiloide, demorei para entrar no clima, embora no final estivesse me acostumando.
Seus enjôos foram fortes, porem normais; e certa noite, quando conseguiu dormir apesar da barriga crescente, vislumbrei algo na sua respiração que não sabia definir. ‘Serenidade’ foi a palavra que me ocorreu. Não ousei pensar em ‘Felicidade’.
Sim, você lembra: girei a chave e te encontrei caída no chão, a poça de sangue, a cara exangue, parecia morta. Avisei o porteiro do ‘acidente’, ele chamou uma ambulância, parece, sentei enquanto chegavam.
Nunca uma palavra. Nunca sequer um pio, uma explicação, um suspiro. Eu poderia compreender. Quando voltou, o berço tinha sido jogado fora.
Sabe, nunca duvidei do aborto induzido. ISSO não há como negar. Fui eu que encontrei o cabide de arame retorcido com vestígios de sangue jogado no piso do banheiro. Você não teve tempo ou força ou sequer a vontade de esconde-lo. Queria talvez que eu soubesse? E se o médico que te atendeu não fosse o nosso amigo Carlos H, quem sabe não teria sofrido algum tipo de processo? Notou que Carlos nunca mais conversou conosco, inclusive?
Do aborto não há dúvida. A questão não é O Quê, é O Quanto. Não acredito que tenha tido um ataque de loucura ou de depressão profunda ou de esquizofrenia histérica, tenha catado e desmontado o cabide de arame e enfiado em sua vagina no meio de um ato repentino de desespero. Não. Foi planejado. Construído. Já sabia o que ia fazer no instante em que me fez sentar no sofá antes mesmo de tomar o banho e disse que tinha uma coisa muito séria para conversar comigo e que, apesar da irregularidade dos seus dias férteis, era possível organizarmo-nos para fazer sexo nos períodos mais prováveis e fiquei ali estúpido e parvo matutando sobre o assunto e nem comi direito a janta.
Quer falar? Então falemos. A ferida ainda dói?
in Contos
Comentários (1)
Powered by !JoomlaComment 4.0 beta1
!joomlacomment 4.0 Copyright (C) 2009 Compojoom.com . All rights reserved." |
Últimos Comentários
- 30-06-2010___ claudi...
Néle, amei seu convite, pode deixar que qualquer hora eu combino com a Ana uma visita, VAleu bjs - 29-06-2010___ Néle A...
Oi Claudinei gostei muito de sua apreciação do meu trabalho. A Ana Rusche me enviou o link e na verdade fiquei emocionada com s... - 28-06-2010___ Claudi...
Anderson, essa é a maravilha das opiniões diferentes, cada um pode ter a sua, sem problemas, e por isso nem precisa se desculpa... - 28-06-2010___ Claudi...
cara Thania, discordo veementemente de ti. 'Mafalda' não é uma 'historinha' bacaninha. É sensacional e estupenda, engraçada e p... - 27-06-2010___ thania...
mafalda é uma historinha muito interessante. Pra contar ás crianças... que gostam de ouvir por isso é muito importante sempr... - 27-06-2010___ anders...
cara me desculpe, depois de assistir alguns filmes, gosto de procurar coisas na net e achei este site. tenho de vir a discordar... - 21-06-2010___ Julian...
Obrigada pela agilidade na resposta. Eu tenho o Garbo, do Barry Paris (comprei novo, pela bagatela de 10,00) e é excelente. Por... - 21-06-2010___ claudi...
Kichutes, Juliano! tens toda razão, tb tive vários. O kichute fez parte de nossa formação pessoal, intelectual e existencial. Q... - 21-06-2010___ Claudi...
Juliana, em relação à Louise Brooks, você só fez atiçar a minha própria vontade! Não conheço nada dela em português, tudo o que... - 21-06-2010___ Julian...
Eu tive um, um não, alguns, acabava pedia outro, um colega meu, o Ivan, de tanto usar ficava andando na ponta dos pés, era muit... - 21-06-2010___ JULIAN...
Boa tarde. Estou procurando p/ comprar uma biografia de LB. Gostaria da do Barry Paris, porém ñ encontro em português. Poderia ... - 17-06-2010___ pamela...
por que aconteceu com os alie nigenas nesse lugar de hoje - 07-06-2010___ Anônim...
oi, claudinei, é até engraçado achar que essas mulheres são bobas e que poderiam "virar a mesa" se quisessem... [e a... - 30-05-2010___ Natali...
Gosteii pois mostra Que as Pessoas são todas iguais!Eu era muiito racista hoje vejo que sou igual a todos e que Racismo é para... - 25-05-2010___ lian
O Brasil é um dos poucos países no mundo que não puniu seus torturadores e muito menos aos que traíram a constituição.Esse pode... - 21-05-2010___ ana rü...
ai, claudinei, me deu vontade de ler novamente... puxa, até me lembro do gosto do que comia no momento em que abri o mrs dallow... - 19-05-2010___ Samant...
Podería nos informar os telefones de contato da Editora que imprime a Revista Artigo 5o ??? Aguardo retorno !!! Abraços e ob... - 18-05-2010___ Claudi...
Magali, bacana! Espero mesmo que tenha curtido o Salão de Humor. Vou dar uma passada pelo seu blog. bjs - 18-05-2010___ magali
Achei muito legal, incusive estive la e fotografei. meu blogue: www.magali.fotosblogue.com - 12-05-2010___ Helena
No meu blogue tem tudo do palco (helenahutz.blogspot.com) beijo e té.
©
2009 - 2010 by
Final muito bom! "A ferida doi?"
E fez me pensar: Qual a ferida? Da alma ou do corpo? Talvez para o casal, a ferida seja uma mera circunstância, mas com certeza, há muita coisa para se analisar nesse conto.
Abraço
akio