| Elaine Pauvolid |
| Qua, 12 de Agosto de 2009 02:22 |
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A convidada da semana, ELAINE PAUVOLID, poeta e ensaísta, escreve sobre um dos mais importantes lançamentos do ano, "John Fante trabalha no Esquimó", de Mariel Reis. Conjunção particularmente feliz de fatores, um belo comentário de uma escritora sensível sobre uma obra desconcertante e renovadora. Publicado originalmente na revista literária ALIÁS, e reproduzida especialmente para este Desconcertos. VAleu, Elaine! ![]() LIVRO COMO UTENSÍLIO DOMÉSTICO Carta-resenha sobre o livro John Fante trabalha no Esquimó, de Mariel Reis, editora Calibán Por Elaine Pauvolid Mariel, acabei de ler o seu livro John Fante trabalha no Esquimó. Desde que conheci seu modo de escrever numa oficina de contos de que participamos na Tijuca, sempre soube que era um escritor. Que possuía, além de uma erudição que lhe facilitava as coisas, um estilo todo próprio de escrever. E mais: que sua escritura não havia surgido de uma situação que a favorecesse, muito ao contrário. Até onde eu sei, seu processo de aproximação da escrita foi algo que nasceu da sua paixão pelos textos que lhe chegaram e do desejo de entender e participar deste universo. Por isso meu entusiasmo quando vi seu livro lançado! Por isso saí atrás de você para convidá-lo urgentemente a participar da revista que estou montando agora mais seriamente. Isso sem ler o livro, porque já conhecia seu trabalho da oficina e acompanho a sua trajetória através doss uplementos literários com grande alegria. Acabei de ler seu livro hoje e nada do que falei ou pensei deve ser retirado. Tudo se confirmou, e, ainda mais, trouxeram novas facetas, as de um Mariel dos Reis completo, revisado, editado. O fruto de um trabalho recheado de genialidade e talento. Estou muito feliz por esta confirmação. Então, como fiz de outra vez com o poeta Luis Sérgio dos Santos com seu Manuscrito Marítimo, resolvi escrever uma resenha em forma de carta. Afinal, somos ou não somos cúmplices? ![]() O primeiro conto, Todos os homens são iguais chamou muito minha atenção pela brincadeira que faz com a realidade. Com Tiros em Columbine (Bowling for Columbine, Michael Moore, 2002),e uma espécie de citação para lá de contemporânea (no que isso temde realidade pós pós-modernismo) a O Retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde (The Picture of Dorian Gray, 1891). O ator Charlton Heston, que é desmascarado no filme de Moore, aparece inocente desconhecendo sua outra face, que o sabe bem... E nós só vamos saber porque o empresário se manteve de costas o tempo todo até o final da narrativa. Você consegue se situar num lugar diferente do queo leitor espera, e aparece num outro canto, surpreendendo-nos, tirando de nós a certeza do controle da leitura. Nada é o que parece ler-se. Parece que você nos diz isso neste conto magistral, para mim um dos pontos altos do livro. O segundo conto A visita, que foi resenhado para o Jornal do Brasil hoje, dia 14 de março, por André de Leones, como um dos melhores do livro, com o que concordo, leva-nos a uma confusão mental muito similar ao que o personagem parece estar metido. A esse poder de sugar o leitor para dentro do conto ou mesmo vestir o leitor com a prosa a ponto de misturar a realidade com a leitura, chamo de domínio da linguagem pelo artista. Assim como no conto Jonas, a Baleia, nos solidarizamos com alguém que acorda sem caber no quarto e que, em lugar de braços, possui barbatanas que o impossibilitam de abrir a porta. Impotência e enormidade, a baleia num quarto, o fora de hora e de lugar, a incompreensão dos vizinhos que pensam que o inquilino foi engolido pelo animal que não sabe falar para dizer de seu desespero. Nestas fábulas fantásticas, nestes voos imaginários, o autor fala de sentimentos para lá de corriqueiros e conhecido spor todos. Uma metáfora aos dias de hoje em que, como no já mencionado A Visita,o homem quase enlouquece na fuga do mundo real, tentando a salvação, no caso deste conto, em um passado que não consegue enfrentar nem deixar de lado, como uma página que não conseguimos virar. E é mesmo o que acontece no livro quando a angústia de alguns textos nos fazem temer virar a página e encontrar angústia ainda mais aguda. O livro é repleto de cenas que parecem emergir do caos de Hieronymus Bosch - pintor e gravador que viveu na virada do século XV para o XVI - de Pieter Brueghel - pintor do século XVI, conhecido como "O Velho" - e da opressão da literatura kafkaniana. Sem contar com a dureza do mundo cão emc ontos de presidiários, assassinos profissionais e bandidos do tráfico de drogas, a dura realidade carioca, focada com o lirismo que ela permite e que Mariel consegue captar com sua extrema sensibilidade. ![]() Outros contos trazem erotismo barra pesada, como o de uma senhora obesa que paga por sexo, mas,devido a suas características físicas e seu modo afoito, acaba fazendo o miché brochar. Ele só se excitará quando ela, no seu desespero de estimulá-lo, acerta uma das fantasias que irão despertá-lo, apontando para possibilidade de erotização do pornográfico e do grotesco mesmo em situações extremas, e humanas, demasiadamente humanas, paracitar o gênio dos grande bigodes. Também digna de nota é a série dos demônios. São microcontos reunidos no título Por mil demônios . Demônios humanos é o que vemos. Muito diferente dos demônios que costumamos ver por aí, inclusive diferente do demônio que Neil Gaiman, o rei dos quadrinhos, que estreou recentemente como contista e leu seu conto sobre um demônio na FLIP 2008. Cito assim porque não tenho certeza se ele está em Fragile Things (Hardcover, 2006), que me parece ser a estreia dele como contista, salvo engano. Mas não é o seu demônio, Mariel. Os que aparecem em John Fante trabalha no esquimó não são demônios da penitência, são demônios que sofrem como os homúnculos, seres que os perseguem. No mais, Mariel, só posso dizer que aguardo o próximo livro. Não para analisá-lo, mas simplesmente pelo prazer de ler. Seu livro me deu tanto prazer que lerei de novo para reviver o que vivi ali. Acho que é isso que todo escritor quer: que seu livros e torne um objeto de uso da casa, que não seja para ser lido e abandonado,como é o caso do que acontece no conto Orfandade. Rio de Janeiro, 14 de março de2009. Elaine Pauvolid, é poeta, ensaísta, artista plástica, autora entre outros, de Trago, 2002 (com prefácio de Gerardo Mello Mourão), "Leão lírico", 2008, e "Vertentes", coletânea de poemas e fortuna crítica (no prelo). Escreve como free para Jornal do Commercio, O Globo e Jornal do Brasil. Mantém a revista virtual de literatura ALIÁS.
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Magali, bacana! Espero mesmo que tenha curtido o Salão de Humor. Vou dar uma passada pelo seu blog. bjs
Achei muito legal, incusive estive la e fotografei. meu blogue: www.magali.fotosblogue.com
No meu blogue tem tudo do palco (helenahutz.blogspot.com) beijo e té.