Marcelo Barbão. De Buenos Aires para Desconcertos.
Escrito por Claudinei Vieira   
Ter, 22 de Setembro de 2009 02:30
 
 
A VOLTA COM PRAZO DE VALIDADE
Marcelo Barbão, escritor convidado da semana, texto produzido especialmente para Desconcertos

marcelo barbão
 
Escrevo esse texto pouco antes de embarcar em um avião para São Paulo. Já faz um ano que saí do Brasil, e agora minha preocupação é outra. Se antes era, como viver fora do país? Agora era: conseguirei voltar?
 
Será que poderei me acostumar com o Brasil de novo? Voltar ao trânsito maluco e excludente de São Paulo? Acostumar-me com a falta de bons eventos literários toda semana? Terei de voltar a comprar livros caros? 
 
A uma falta de política ou vontade ou interesse em investir na literatura nacional? A uma falta de massa crítica já que há tantos tapinhas nas costas, mas tão pouca discussão de verdade sobre os caminhos da literatura brasileira?
 
Recentemente, disseram que eu estava falando com sotaque. Desde que vim para Buenos Aires, mergulhei na literatura daqui, conhecendo novos escritores (literariamente e pessoalmente), mas também pesquisando clássicos. Di Benedetto, Saer, Fernández. Fora os do outro lado do rio, já que o Uruguai é minha nova paixão.
 
Será fácil abrir mão disso, dos cafés onde fico horas lendo e escrevendo sem que ninguém me obrigue a consumir ou fica me olhando com raiva por que estou “ocupando o lugar”? As caminhadas por horas em ruas planas e bastante seguras que já me ajudaram a perder alguns bons quilos (apesar de ainda poucos)?
 
Ou os restaurantes com qualidade internacional e preço de lanchonete? Ah, e o vinho vendido em supermercados por trocados? A vida mais calma e ao mesmo tempo cosmopolita dessa cidade?
 
Mas também penso em tudo que senti falta quando estava fora. A necessidade de me contatar com meus amigos, sem dúvida. Sem contar que escrevo em português, que minha literatura é a brasileira, independente de onde more. É preciso ler os livros que ganharam os prêmios São Paulo, os que ganharam as bolsas da prefeitura e os que os amigos recomendam.
 
Ir na Mercearia uma noite, na Roosevelt na outra, quem sabe algum lançamento na Cultura ou na Martins Fontes. Comprar vários livros, mesmo que tenha de pagar no cartão de crédito em parcelas. Aí, arrumar tudo na mala, pagar o excesso de bagagem e voltar para minha Buenos Aires. É verdade que sou um escritor brasileiro, que escrevo em português, que acompanho e sou influenciado pela literatura de meu país, mas prefiro escrever tudo ao som de um bom tango portenho.
 
E quem quiser sugerir livros que podem ser interessantes, é só fazer um comentário aqui. Mas o tempo é curto, meu “visto de entrada” no Brasil só permite duas semanas de estadia. Já tá mais do que bom.
 
 
 
"Marcelo Barbon nasceu em português, mas hoje vive em espanhol. É escritor, tradutor, editor e jornalista (além de fotógrafo e músico frustrado). Um dos fundadores do projeto Amauta Editorial http://amautaeditorial.wordpress.com, que trouxe ao Brasil escritores inéditos da vanguarda ibero-americana. Em 2007 publicou seu primeiro romance, Acaricia meu sonho, e em 2009 está na coletânea Geração 90/00 com outros 20 escritores brasileiros e que será publicada no Peru em agosto. Tem outros livros esperando por editoras. Mantém o blog pessoal Caderno de Escritura , o blog Letras Portenhas sobre o mercado editorial argentino e o blog sobre turismo Direto de Buenos Aires, além de escrever uma coluna mensal sobre literatura latino-americana para o Cronópios."  (in LABIRINTOS NO SOTÃO)
 
 
 
Comentários (2)
  • giovani iemini  - ba
    eu tb adorei buenos aires. mas, por mim, moraria numa ilha quase deserta habitada apenas por uma tribo de amazonas. hehehe.
  • claudinei vieira  - amazonas
    Giovani, pelo que lembro, as amazonas transavam uma única vez, para engravidar, e logo em seguida cortavam a cabeça do homem. Isto é, podia até ser divertido, mas digamos que era uma diversão meio curta, não acha? Abraços
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