Tatiana Carlotti

por Tatiana Carlotti 

Esta poltrona desconcerta. Aconhegar o corpo, ajeitar as almofadas, acostumar com as paredes ainda brancas dessa sala intacta. Peço licença para acender um cigarro e cruzar as pernas. A orientação não poderia ser mais típica deste amigo de cachimbo eterno: "escreva um texto qualquer". Salto kamikaze ao pé da letra.

Elemento do acaso, o qualquer guarda mistérios. Afinal, há nele, mais do que no exato, a possibilidade do desconcerto. E neste mundo de tantos ensaios e "a priori", o espontâneo vale ouro. Então, pra começar, um modesto elogio ao berro, ao impulso, ao improviso, ao esbarro, ao que for, mas que seja capaz de revelar um pouco do mais e mais humano.

Porque é fato, são muitos os corpos tragados nessa engrenagem a que todos estamos submetidos, a chamada rodaviva. O dono desta casa e eu, somos viciados no estalo dos motores quando a grande máquina pifa. Há onze anos, colecionamos expressões de espanto e a nudez dos que saem correndo envoltos em grossa fumaça pela urbe.

Talvez seja uma obsessão erótica (alguns já me disseram neurótica) pela fissura metálica de onde escapa a pele. A rodaviva estanca e exausta de correr, a carne pára e se apóia no muro, arfando.

"Pára tudo, eu quero descer"!

Amamos o que desconcerta. E desconcerto é perceber que a engrenagem a qual nos encaixamos é puro engôdo. Duvidar das pernas, dos braços, da voz que fala e, sobretudo, a partir de onde falamos. Em cada estalo, um pedido de socorro. Mas nesse SOS, sobre o qual nos apoiamos, nem sempre dá pé. Porque escrever também desconcerta.

Evidente, dá prazer juntar as frases, enchê-las de síbalas, enxertar o tempo, construir imagens. Por mais trabalho que isso signifique, há a ilusão de avançar ou conter o ritmo, sem falar da delícia (voyeur e atrevida) de colecionar estalos alheios e praticar o latrocínio das imagens que saltam às nossas vistas.

Mas ao longo desses anos, aprendemos às duras penas, que não dá para entrar em salas como esta, sem nos desconcertar primeiro. Tampouco caminhar pelo corredor que a antecede, sem refletir no velho espelho. Aquele que deforma, desvenda, desmancha, desconstroi e nos bota mais incertos, já que múltiplos.

Não é algo agradável. Nem sempre ser desconcertado faz sorrir. Aos que ousam, o único jeito é abraçar essa almofada e entregar-se à evidência de que não temos controle, mas é nossa principal forma de agir. Tentar estancar (mesmo que seja por alguns minutos) a rodaviva. Recompor seus estalos, letra após letra, num ritmo preciso. Observá-la, suspensas as certezas. E nessa suspensão, quem sabe, tocar o corpo deliciosamente utópico da liberdade de criação. Já sabendo de antemão que o tombo é certo e tem horário marcado: a revisão final de cada parágrafo.

Eis o ônus do vício.

Mas a cada desconcerto, o seu momento. Diga-se de passagem "o" momento. Quando surge a contradição, o estranhamento. Ouso dizer, quando nos perdemos e perguntamos "mas será que é isso mesmo?". Ou quando fechamos o livro, putos da vida com o autor. Porque sem isso, nada feito. É apenas mais um texto.

Não à toa buscamos o desconcerto. Nele bebe a arte e essa é a sua razão de ser. O incômodo que a faz vir à tona, matreiro e prestes a nos pregar peça. No caso da escrita, uma história sempre nos fala sobre um quando, a partir do qual as coisas se transformam. Qualquer leitor atento espera isso.

Queremos o que morre e nos perder naquele estado caótico das coisas que precede o enterro. Uma boa provocação e o chacoalhar necessário desses "mesmos" acumulados diariamente. E digam o que quiserem, a morte (seja do que for) é desconcerto por excelência. Uma boa história sempre esbarrará na sua mandíbula afiada. Sem essa mordida, desconheço personagem e leitor regurgitados.

Talvez seja essa a química que tanto vicia. Talvez a única capaz de nos livrar da paralisia dessa rodaviva: a impossibilidade de nos desconcertarmos frente aos absurdos que vemos todos os dias. Por isso, vida longa à este site e à qualquer tentativa, bem ou mal sucedida, de chacoalhar nossa percepção.

A sala já está aquecida.

(Tatiana escreve regularmente, e com beleza invulgar, nos seus Atalhos Urbanos. Este texto foi escrito especialmente para a inauguração desta nova fase do Desconcertos! VAleu, Tati! um grande beijo.)  

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