Sinuca embaixo d´água, de Carol Bensimon
Escrito por Claudinei Vieira   
Sex, 04 de Setembro de 2009 01:01
 
  
É como tirar os rollers depois de andar um bocado e sentir que os pés e o chão não se entendem mais. Você quer deslizar, passar flutuando pelas coisas e pessoas, e já não pode. Então pensa Tudo bem, adiante, vamos caminhar agora, caminhem direito por favor, mas não tem jeito de conseguir sem um pouco de tempo, porque os rollers ainda estão em você de certa maneira. O cérebro diz Caminhe, os pés Deslize. E caso alguém venha pela rua, estará pensando: olha lá um garoto com um grande problema! O que faz com que eu goste cada vez menos das pessoas e cada vez mais da Antônia, que dizia que o mundo era como um monte de gente recém-saída do oculista ainda sentindo o efeito do colírio-de-dilatar-pupilas: nos enche de mais luz do que podemos suportar e por isso ficamos sem ver nada de nada. Mais luz, mais escuridão. Sei como é porque faço anualmente o teste de ver letras projetadas, no qual observo minha miopia avançar de forma simétrica, embora um olho me pareça bem pior que o outro (Antônia tapando meu olho esquerdo: Tá vendo aquele barco lá na outra ponta do lago?). Mas os meus óculos servem muito mais é para serem tirados toda hora e para que daí eu esfregue a ponta da camiseta nas lentes, já que não fumo, e por isso não sei muito o que fazer com as mãos, e é preciso fazer algo com as mãos, sempre, como puxar folhas de árvores que estejam no meio do caminho, recolher pedras no chão e jogá-las em algum lugar, arrancar rótulos plásticos de garrafas d’água, dobrar notas fiscais, extratos bancários, e esse bilhete agora na minha mão que, se eu pudesse, dobrava em mil, até ficar pequeno a ponto de desaparecer. 

Numa noite, há dois meses, Camilo arremessou uma bola de papel pela janela, e mais pelo jeito atordoado que eu andava e menos pela miopia, não vi exatamente onde ela tinha caído. Por isso demorei um tempo tateando a calçada, dessas com pedras em formas irregulares e musgo nas junções, como em todo bairro onde não passam muitos pés, e lembro de ter sentido que a pedra estava gelada de umidade, e lembro também de ter escutado um pássaro e de ter pensado que há um tipo de pássaro especialista em cantar durante a noite, e que esse tipo de pássaro me dava arrepios. Mas pensar nisso, pela primeira vez e logo naquele momento, era mesmo algo de se desconfiar. Sempre me deram arrepios? Não era uma coisa que eu podia dizer com certeza. Às vezes eles estavam cantando e eu nem percebia. Acho que fizeram isso numa porção de noites. O que um animal faz num dia, repete em todos. Cantavam uma canção de fundo para nós. 
 
trechos iniciais do romance de Carol Bensimon
 

 
 
"Sinuca embaixo d’água" é uma história construída em torno de uma ausência. Sete personagens narram um momento de luto, depois que Antônia, uma garota na casa dos vinte anos, morreu num acidente de automóvel. Boa parte dos episódios transcorre no bar do Polaco. Às margens de um lago, os fundos do bar abrigam um salão de sinuca. O local é frequentado por Camilo, irmão rebelde de Antônia, que tinha uma relação especial com a irmã: entre a adoração e o instinto protetor. Sua principal ocupação é montar e desmontar carros antigos. O tímido e doce Bernardo era colega de faculdade de Antônia, com quem ela mantinha um romance platônico. É ele quem vai esboçar uma investigação sobre o acidente: estaria ela embriagada, transtornada por uma briga passional, fugindo, sendo seguida? Bernardo e Camilo não são os únicos a se ocupar dessa ausência. Polaco, a jornalista Helena, o publicitário Gustavo, o vizinho Lucas e o forasteiro Santiago estão todos ligados, entre si e a Antônia, graças a esse acontecimento trágico, que instaura outro tempo, feito de memória, dificuldade de expressão e necessidade de um novo aprendizado." (in http://www.carolbensimon.com/)

Carol Bensimon: "Olá, sou eu. Nasci em Porto Alegre, em 1982. Publiquei alguns contos por aí (Zero Hora, revistas Ficções e Bravo!, etc). Pó de parede (Não Editora) é meu livro de estreia. Meu romance, Sinuca embaixo d'água, que ganhou a Bolsa Funarte de Estímulo à Criação Literária, acabou de ser lançado pela Companhia das Letras. Ah, recebi o título de mestre em Teoria da Literatura, e estou fazendo doutorado em Paris, na Sorbonne Nouvelle."

E não se pode deixar de citar suas deliciosas crônicas francesas, ou mais especificamente parisienses, em Paris 75004
 
 
Lançamento em São Paulo
SINUCA EMBAIXO D´ÁGUA
Terça-feira, dia 08 de setembro, 19 h
Saraiva Megastore Higienópolis
Shopping Pátio Higienópolis
Avenida Higienópolis, 830 - loja 315 
 
 
 
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