| MAFALDA |
| Escrito por Claudinei Vieira |
| Seg, 20 de Julho de 2009 15:44 |
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****** Mafalda é uma menina argentina com idade entre oito e dez anos que há muito tempo está dando nos nervos. Ela critica tudo! Fala mal do capitalismo, do socialismo, da exploração do homem pelo homem, dos problemas da educação, das guerras, da política, dos políticos, da ganância humana, zomba da classe média. Em uma época em que nem existia a palavra ecologia, já alertava sobre a devastação da natureza. E, sobretudo, odeia tomar sopa. Nada escapa da sua língua, nem dos seus comentários. Nem o papa. Aliás, o papa teve mesmo de agüentar muitas das suas palavras! Com tudo isso, ainda lhe sobra tempo para brincar com seus amiguinhos, seja jogando xadrez, correndo pela rua ou fingindo de bomba atômica. O pior é que este verdadeiro tanque de comentários ácidos sobre a realidade é feito com uma graça inimaginável. O humor é realizado de uma forma tão perfeita que é impossível não dar risada primeiro, um sorrisinho amarelo depois, e então perceber como a reflexão foi profunda. A faca desce fundo na carne, mas ao mesmo tempo se entende que essa crítica toda vem de uma profunda ternura de Mafalda pela humanidade. A crueldade do mundo a horroriza e o que mais a perturba é a indiferença das pessoas ao seu redor. Até a dos seus pais (coitados!). Mafalda é uma criação do genial cartunista argentino Quino. No começo da década de 60, Quino já era um desenhista reconhecido com trabalhos publicados em revistas e jornais quando foi contratado para fazer uma campanha publicitária para uma nova marca de geladeira. A idéia era criar um personagem, um garoto simpático de uma simpática família de classe média que servisse para aprovar as novas mercadorias. O nome desse personagem tinha que começar com M por causa da empresa, Mansfield. Podemos ver, portanto, que a ironia começa antes mesmo de sua criação: Mafalda nasceu menino e para vender eletrodomésticos! A campanha acabou não deslanchando e Quino guardou as tiras na gaveta. Em 1964, uma revista chamada "Leoplan" pediu um trabalho para o seu suplemento de humor e Quino lembrou das tiras guardadas, fez umas modificações e as ofereceu. Somente três tiras foram publicadas e Mafalda se transferiu para outra revista, o semanário "Primera Plana". Daí por diante, Mafalda literalmente invadiu o mundo. O primeiro livro que juntou as tiras dos jornais saiu em 1966 e a cada ano foi publicado mais um, regularmente. Mafalda começou a ser traduzida na Itália e em Portugal. Na Espanha, a ditadura franquista só permitiu a publicação com uma tarja onde estava escrito "Para Adultos". Depois foi publicada na Alemanha, México, Finlândia, Grécia, França e etc, etc, No Brasil, Mafalda fez um sucesso absoluto em meados dos anos 70, em livrinhos de formato tablóide que corriam livremente apesar da repressão. Talvez as autoridades considerassem que, por ser uma história em quadrinhos, Mafalda fosse um desenho para crianças! Um detalhe delicioso era que a tradução brasileira era feita pelo nosso Henfil que, mais do que ninguém, soube mesclar e respeitar as particularidades do pensamento e linguagem platinas com todo um "jeitão" brasileiro e mineiro. Quino, nesta época, continuava a produzir humor, mas começava a se sentir um pouco sufocado pela presença da menina que não lhe deixava espaço para outras produções. Seu desconforto crescia cada vez mais, o trabalho com Mafalda já não lhe rendia mais o antigo prazer e, em 1973, ele resolveu parar de escrever e desenhar a Mafalda. Houve indignação mundial por esta decisão, mas seu criador a mantém até hoje. Esporadicamente, e muito a contragosto, ele aceita participar de alguma atividade que lhe prenda mais a atenção, como foi o caso do convite para ilustrar a Declaração Universal dos Direitos da Criança em 1977 ou a campanha pela higiene bucal iniciada pelo odontólogos argentinos em 1983. Mas, da mesma forma como ele sempre se recusou a usar a imagem da Mafalda em campanhas publicitárias ou em merchandising, como camisetas, adesivos, botons, etc, ele se mantém firme e também não faz mais tiras com a turminha da Mafalda. Mafalda continua a ser editada e reeditada (está agora na China, por exemplo) e os seus comentários ácidos, contundentes e engraçadíssimos continuam sendo completamente atuais. O que, de certa forma, permite uma constatação um tanto quanto triste: será que o mundo não mudou nada nestas últimas décadas?
Pelo visto, Mafalda continua mais atual do que nunca.
Comentários (4)
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Últimos Comentários
- 06-09-2010___ alice ...
Seus incrédulos! Vocês darão conta dessa incredulidade a Deus... você aí do artigo, que zomba da Palavra de Deus, saiba que ven... - 19-08-2010___ Flávio...
Que boas vindas é essa!!! Assim o desconcertos, será sempre uma sinfonia de belas musas que acompanham de perto as fumaças de t... - 02-08-2010___ mária
Adorei a forma como descreveu o livro. Também fiz uma resenha sobre ele no meu blog. Abraços e parabéns pelo espaço. Mária ... - 28-07-2010___ Aninha
Dez mulheres estão sendo mortas e torturadas por dia. Não será melhor cuidar logo dessa escória e depois dos militares? Temos u... - 27-07-2010___ Marcio...
foi um grande geneo das artes marciais .sou um grande adimirador dose seu estilo de luta .que com certeza muitos adimiram no mu... - 22-07-2010___ Diogo
Achei que só eu n tinha achado essa coisa toda do filme, pow o procurado li muito antes do filme tb e a HQ acho muito foda na i... - 21-07-2010___ Mauro ...
...sim, só as reticências poderiam iniciar estas poucas linhas. Poucas até porque em site de escritor, toda letra assume um val... - 21-07-2010___ wellin...
e aee cara blz nos encontramos ontem vc mostrou seu livro achei interessante queria saber mais sobre entra em contato - 06-07-2010___ Renato...
Olá Hector, boa tarde. Gostaria de enviar um convite/informativo do edital Rumos Literatura do Itaú Cultural. Trata-se de um... - 05-07-2010___ silas ...
Samparaguai, Regurgitando o Escárnio E para que ser poeta em tempos de penúria? Roberto Piva .......................... - 04-07-2010___ NATANA...
LIBERDADE A QUALQUER CUSTO Uma obra que é para mim a melhor de Frank Miller. Se se reparar bem, vemos aí a semente de um futu... - 30-06-2010___ claudi...
Néle, amei seu convite, pode deixar que qualquer hora eu combino com a Ana uma visita, VAleu bjs - 29-06-2010___ Néle A...
Oi Claudinei gostei muito de sua apreciação do meu trabalho. A Ana Rusche me enviou o link e na verdade fiquei emocionada com s... - 28-06-2010___ Claudi...
Anderson, essa é a maravilha das opiniões diferentes, cada um pode ter a sua, sem problemas, e por isso nem precisa se desculpa... - 28-06-2010___ Claudi...
cara Thania, discordo veementemente de ti. 'Mafalda' não é uma 'historinha' bacaninha. É sensacional e estupenda, engraçada e p... - 27-06-2010___ thania...
mafalda é uma historinha muito interessante. Pra contar ás crianças... que gostam de ouvir por isso é muito importante sempr... - 27-06-2010___ anders...
cara me desculpe, depois de assistir alguns filmes, gosto de procurar coisas na net e achei este site. tenho de vir a discordar... - 21-06-2010___ Julian...
Obrigada pela agilidade na resposta. Eu tenho o Garbo, do Barry Paris (comprei novo, pela bagatela de 10,00) e é excelente. Por... - 21-06-2010___ claudi...
Kichutes, Juliano! tens toda razão, tb tive vários. O kichute fez parte de nossa formação pessoal, intelectual e existencial. Q... - 21-06-2010___ Claudi...
Juliana, em relação à Louise Brooks, você só fez atiçar a minha própria vontade! Não conheço nada dela em português, tudo o que...
Escrever sobre a MAFALDA, este misto explosivo de inteligência, irreverência, humor e ácida crítica social, sublime criação do genial Quino, foi extremamente importante para mim. Além de ter sido fundamental em minha formação literária, mental e política (pois a conheci muito jovem, bem no processo de minha alfabetização), esta foi a primeira resenha que escrevi. Foi o meu primeiro texto para a internet, foi por meio dele que descobri e adentrei pelo mundo virtual. Vários

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