MAFALDA
Escrito por Claudinei Vieira   
Seg, 20 de Julho de 2009 15:44

Escrever sobre a MAFALDA, este misto explosivo de inteligência, irreverência, humor e ácida crítica social, sublime criação do genial Quino, foi extremamente importante para mim. Além de ter sido fundamental em minha formação literária, mental e política (pois a conheci muito jovem, bem no processo de minha alfabetização), esta foi a primeira resenha que escrevi. Foi o meu primeiro texto para a internet, foi por meio dele que descobri e adentrei pelo mundo virtual. Vários anos depois, já tendo escrito centenas de resenhas, entrevistado e conversado com tantos escritores, promovido encontros e debates literários, e participado ou ainda participando de vários sites de literatura, além de ter conseguido espalhar meus próprios textos de ficções pelo universo internético, até ter montado este meu próprio site, percebo então como sou devedor desta menina. Hoje em dia percebo claro como aquele momento foi um autêntico divisor de águas na minha vida.

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Mafalda é uma menina argentina com idade entre oito e dez anos que há muito tempo está dando nos nervos.

Ela critica tudo! Fala mal do capitalismo, do socialismo, da exploração do homem pelo homem, dos problemas da educação, das guerras, da política, dos políticos, da ganância humana, zomba da classe média. Em uma época em que nem existia a palavra ecologia, já alertava sobre a devastação da natureza. E, sobretudo, odeia tomar sopa. Nada escapa da sua língua, nem dos seus comentários. Nem o papa. Aliás, o papa teve mesmo de agüentar muitas das suas palavras! Com tudo isso, ainda lhe sobra tempo para brincar com seus amiguinhos, seja jogando xadrez, correndo pela rua ou fingindo de bomba atômica.

O pior é que este verdadeiro tanque de comentários ácidos sobre a realidade é feito com uma graça inimaginável. O humor é realizado de uma forma tão perfeita que é impossível não dar risada primeiro, um sorrisinho amarelo depois, e então perceber como a reflexão foi profunda.

A faca desce fundo na carne, mas ao mesmo tempo se entende que essa crítica toda vem de uma profunda ternura de Mafalda pela humanidade. A crueldade do mundo a horroriza e o que mais a perturba é a indiferença das pessoas ao seu redor. Até a dos seus pais (coitados!).

Mafalda é uma criação do genial cartunista argentino Quino. No começo da década de 60, Quino já era um desenhista reconhecido com trabalhos publicados em revistas e jornais quando foi contratado para fazer uma campanha publicitária para uma nova marca de geladeira. A idéia era criar um personagem, um garoto simpático de uma simpática família de classe média que servisse para aprovar as novas mercadorias. O nome desse personagem tinha que começar com M por causa da empresa, Mansfield. Podemos ver, portanto, que a ironia começa antes mesmo de sua criação: Mafalda nasceu menino e para vender eletrodomésticos! A campanha acabou não deslanchando e Quino guardou as tiras na gaveta.

Em 1964, uma revista chamada "Leoplan" pediu um trabalho para o seu suplemento de humor e Quino lembrou das tiras guardadas, fez umas modificações e as ofereceu. Somente três tiras foram publicadas e Mafalda se transferiu para outra revista, o semanário "Primera Plana". Daí por diante, Mafalda literalmente invadiu o mundo.

O primeiro livro que juntou as tiras dos jornais saiu em 1966 e a cada ano foi publicado mais um, regularmente. Mafalda começou a ser traduzida na Itália e em Portugal. Na Espanha, a ditadura franquista só permitiu a publicação com uma tarja onde estava escrito "Para Adultos". Depois foi publicada na Alemanha, México, Finlândia, Grécia, França e etc, etc,

No Brasil, Mafalda fez um sucesso absoluto em meados dos anos 70, em livrinhos de formato tablóide que corriam livremente apesar da repressão. Talvez as autoridades considerassem que, por ser uma história em quadrinhos, Mafalda fosse um desenho para crianças! Um detalhe delicioso era que a tradução brasileira era feita pelo nosso Henfil que, mais do que ninguém, soube mesclar e respeitar as particularidades do pensamento e linguagem platinas com todo um "jeitão" brasileiro e mineiro.

Quino, nesta época, continuava a produzir humor, mas começava a se sentir um pouco sufocado pela presença da menina que não lhe deixava espaço para outras produções. Seu desconforto crescia cada vez mais, o trabalho com Mafalda já não lhe rendia mais o antigo prazer e, em 1973, ele resolveu parar de escrever e desenhar a Mafalda. Houve indignação mundial por esta decisão, mas seu criador a mantém até hoje.

Esporadicamente, e muito a contragosto, ele aceita participar de alguma atividade que lhe prenda mais a atenção, como foi o caso do convite para ilustrar a Declaração Universal dos Direitos da Criança em 1977 ou a campanha pela higiene bucal iniciada pelo odontólogos argentinos em 1983. Mas, da mesma forma como ele sempre se recusou a usar a imagem da Mafalda em campanhas publicitárias ou em merchandising, como camisetas, adesivos, botons, etc, ele se mantém firme e também não faz mais tiras com a turminha da Mafalda.

Mafalda continua a ser editada e reeditada (está agora na China, por exemplo) e os seus comentários ácidos, contundentes e engraçadíssimos continuam sendo completamente atuais. O que, de certa forma, permite uma constatação um tanto quanto triste: será que o mundo não mudou nada nestas últimas décadas?

 

 

Pelo visto, Mafalda continua mais atual do que nunca.

Comentários (4)
  • LILIANA  - Artigo sobre Mafalda
    Estou fazendo meu artigo de finalização de licenciatura em Letras e preciso de material. vc poderia me indicar alguma literatura interessante? agradecerei sua ajuda. Sou argentina e moro na Bahia.Adorei seus comentários
  • Claudinei Vieira  - trabalhos mafalda
    Liliana, puxa, eu acho que você deve ter mais material do que eu, além do fato de, por ser argentina, ter tido muito mais contato com a Mafalda do que eu jamais teria. Sua pergunta me fez ver que não conheço trabalhos mais densos dedicados à Mafalda e / ou Quino. Mas isso só pode ser ignorância minha, com certeza deve ter coisa boa por ai. Vou fazer umas perguntas e ver o que acho.
    Sábado que vem vou lançar meu livro de contos em Salvador! Se você estiver pela área dá uma passada na livraria LDM na Piedade, podemos trocar idéias sobre a menina.
    VAleu
    bjs
  • thania malheiros santos  - mafalda
    mafalda é uma historinha muito interessante.
    Pra contar ás crianças... que gostam de ouvir
    por isso é muito importante sempre conta as nossas histórias para ñ perder o hábito.
  • Claudinei Vieira  - mafalda
    cara Thania, discordo veementemente de ti. 'Mafalda' não é uma 'historinha' bacaninha. É sensacional e estupenda, engraçada e profundamente séria. Não é 'interessante', é fundamental. E, com certeza, não é para se contar para crianças, na hora de dormir, para que sonhem com as divisões entre capitalismo e comunismo, a miséria, as diferenças sociais, etc.
    O meu volume de TODA A MAFALDA crianças são proibidas de se aproximarem, com risco de terem suas mãos cortadas.
    Até acho que elas devem conhecer a Mafalda e podem até se divertirem, mesmo que não captem as sutilezas mais difíceis das situações. Mas vão conhecer nos volumes de outras pessoas,não o meu.
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