A bíblia ilustrada de Crumb
Escrito por Claudinei Vieira   
Qui, 05 de Novembro de 2009 03:11

 

E eis que fez-se a luz e chegou finalmente o ambicioso trabalho de Robert Crumb. 

Talvez a ansiedade e a expectativa tenham cobrado um preço alto. Há muito, Crumb já tinha deixado bem claro que não mexeria no texto em si. Na verdade, ele irradiava orgulho por ter demorado bastante (foram quatro anos!), pois havia se debruçado em uma pesquisa profunda, consultado muitas obras, inclusive várias versões da bíblia, trabalhado nos traços para que fossem os mais fiéis possíveis, tanto nos cenários, quanto nas caracterizações, vestuários, etc, a tal ponto que  Crumb diz que agora conhece melhor o Gênesis do que muito religioso. 

No entanto, estamos falando de Robert Crumb, o desenhista que praticamente definiu a arte do underground, e que com seu desenho conseguiu realizar as mais ácidas críticas e zombarias ao status quo, ao 'bom comportamento' e 'bons costumes', à cultura pré-estabelecida do medíocre ser humano do século 20 e 21, e que misturou jazz, sexo, drogas, rock, blues, crítica social, política, religiosa, tudo aliado a um traço 'sujo', escancaradamente pessoal, expressivo e único. Era esse camarada que pegaria essa obra icônica e montaria sua própria versão.  Ok.

Portanto, estamos aqui, quatro anos depois, e tudo o que se disse acima é verdade. O texto está mantido, sem alterações. E o traço de Crumb igualmente, forte, expressivo e marcante. E o resultado é nulo.

A interpretação de Crumb é literal, rasa e segue todos os caminhos tradicionais e completamente corriqueiros. Sua visão é austera, contida, até respeitosa, acrítica. Suas mulheres continuam rechonchudas e enormes, sua Eva tem as coxas e os peitos tipicamente crumbianos, e volta e meia uma cena mais ousada nos lembra que a Bíblia não nos deve nada em relação à sexo e violência, mas são cenas pontuais, e rápidas e não implica em nenhuma discussão ou tentativa de avaliação daquilo que está sendo contado. A caracterização da Serpente do Éden é engraçada e sai fora dos padrões usuais, até parece um malandro traficando trocas para a ingênua Eva, mas seu Deus é o velhote de longas barbas brancas e isso diz tudo em relação às pretensões e aos limites da pesquisa de Crumb. 

Tirando portanto uma ou outra caracterização mais explícita que deve assustar por uns cinco minutos os crentes mais fervorosos, nada há que choque de verdade os religiosos. Nem entusiasme os amantes de quadrinhos. Uma simples bíblia ilustrada.

 

in HQ

 

 

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