| Estigmas de Mattotti e Piersanti |
| Escrito por Claudinei Vieira |
| Qui, 24 de Setembro de 2009 07:16 |
![]() Ele é um bêbado, gordo e balofo, ignorante e contrabandista pequeno. Trabalha como garçom em um restaurante meia-boca, transa com uma garota tão feia, perdida e bêbada quanto ele. Não toma banho, é insociável, não conhece quase ninguém, mora em um cortiço miserável e imundo. Não tem expectativas, sonhos ou ilusões. No entanto, sem desejar nem compreender, ele recebe uma estranha "benção": em suas mãos aparecem feridas que nunca cicatrizam, que jorram sangue sem nunca parar. Os estigmas são os sinais dos santos, não é mesmo? Mas ... nele?! Que benção idiota é esta? Sua vida muda por causa destas feridas... para pior. Começa a ser assediado pelos outros moradores do prédio que, igualmente ignorantes, acreditam que ele se tornou, sim, uma espécie de santo; perde o emprego no restaurante porque é óbvio que ele tem alguma doença que não quer revelar qual seja e, pior, fica manchando todos os copos! Os médicos se recusam a tratar dele porque, é óbvio, é um maníaco que fica cortando as mãos para chamar a atenção... Fica sem casa, sem emprego, não tem parentes fora um tio que está preso. Apesar de tudo, reconstrói sua vida, arruma uma espécie de família, casa-se, monta um circo onde se aproveita da credulidade das pessoas, pois seu sangue curaria e faria milagres. Até perder tudo de novo. E sua existência entra em um parafuso sem fim. Mas... será que alguma vez teve mesmo algum destino? Alguma vez pôde ou quis ou teve condições de tomar este destino em suas mãos? Em quê os tais estigmas foram uma benção ou maldição? Ou será que elas não têm nada a ver com sua estupidez e infelicidade? Fábula da solidão contemporânea, "Estigmas" promove uma contundente reavaliação do ser humano atual. ![]() É impossível não se identificar ou se solidarizar com o pobre personagem sem nome da história de Piersanti, pois passamos pelas mesmas angústias, sofremos o mesmo desespero da ignorância, temos as mesmas dúvidas. Pode-se ter a ilusão de que se reagiria diferente ou que se tomaria outras decisões. Pode-se esconder a angústia primal em capas e vernizes de civilidade e urbanidade e adorna-las com palavras bonitas. Mas o verniz é fino, sutil e se quebra com extrema facilidade. Obras de arte como "Estigmas" ajudam a colocar as verdadeiras chagas em relevo e destruir as tentativas hipócritas de fuga que usamos no cotidiano. Para quem conhece alguma coisa da história da arte contemporânea, em especial a das novelas gráficas, o nome de Lorenzo Mattotti quase nem precisa ser apresentado. Nos anos 80 foi um dos principais responsáveis a elevar as histórias em quadrinhos à condição de arte séria, personalizada, densa e profunda. Seus trabalhos foram pioneiros, alternativos, abriram caminhos. Promoveu a junção de diversas espécies de artes plásticas, entre a pintura, o underground europeu, o pós-modernismo (seja lá o que isso for, de verdade), técnicas de marketing e propaganda, figurino, desenho. Atualmente, Mattotti é menos "alternativo", digamos assim, é pintor, realiza desenhos para famosíssimas revistas do mundo inteiro (Paris Match, Globe, Le Monde, Libération, Cosmopolitan, New Yorker, Die Zeit, Dolce Vita, Il Manifesto), monta catálogos, é design publicitário. Em cada uma desta atividades é considerado mestre e referência mundiais e deve ser por aí que ele realmente ganha. Mas é pelas novelas gráficas que sua ousadia, verve e vigor criativos ganham mais vida e força. Um ótimo exemplo é sua versão do Dr. Jeckyl e Mr. Hide, realizada com outro companheiro de histórias, Kramsky. Isto sem contar, é lógico, o trabalho com o grupo de vanguarda dos anos 80, "Valvoline", que deu origem a tudo. "Estigmas" é uma obra que já nasceu clássica. Ao pungente argumento narrado pelo escritor e romancista Piersanti alia-se os desenhos fortes expressionistas de Mattotti, de um preto-e-branco não muito comum em seus trabalhos, a ponto de nunca sequer imaginarmos como seria possível ser diferente. Não é possível. A simbiose é perfeita.
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