Escrito por Claudinei Vieira   
Qui, 06 de Agosto de 2009 01:15

Com a confirmação da publicação de 'Jimmy Corrigan' pela Companhia das Letras, alguma coisa no mundo dos quadrinhos está finalmente  entrando nos eixos. 
 
Claro, ainda falta muito (até demais) para que seja feita justiça com o de melhor está sendo publicado em terras alheias e com o qual nem sequer sentimos o cheiro por aqui. Mas é um passo extraordinário. Junto com os tão belos 'Retalhos', de Craig Thompson, e 'Nova York', do Eisner (assim como os anteriores 'Persépolis', de Marjane Sartrapi, 'Maus', de Art Spiegelman, Hergé), a Companhia tá marcando história. Não é babação pela editora. É babação por estes trabalhos, por estas conquistas da arte das graphic novels, que cumprem sua promessa de novos olhares e técnicas, e vão além, proporcionam extraordinárias experiências sensoriais. 
 
'Jimmy Corrigan',  é uma dessas experiências. O enredo, por ser simples, e quase engalfinhado pelo impactante experimentalismo gráfico de Chris Ware, pode até meio que sumir e parecer menos importante, o que seria um enorme erro (que, no entanto, vi ser cometido em algumas resenhas). Jimmy é um senhor de meia-idade, solitário, de vida apagada e sem-graça, que só consegue um pouco de animação e contentamento quando se refugia em fantasias, como criança ('Jimmy, o garoto mais esperto da face da Terra'). É quando finalmente encontra pela primeira vez na vida com seu pai, que o abandonara há muito tempo. Em paralelo, uma outra história corre, ambientada no começo do século 20, de uma criança e sua difícil convivência com um pai autoritário e ausente, que também vai abandoná-lo, e a qual ficamos sabendo que é o próprio avô de Corrigan.
 
Livro com fortes e assumidos traços autobiográficos, o autor em entrevista acrescentou uns detalhes bizarros a esse enredo: ele próprio uma criança abandonada, só foi conhecer seu pai com trinta anos, através de uma conversa telefônica. Poucas horas depois, seu pai morreu de ataque cardíaco. Ware diz que o tempo que uma pessoa normalmente leva para ler seu livro foi de convivência que ele teve com seu pai.
Roteiro enxuto, alternando momentos de quietude e calmaria (com páginas de um único quadro inteiro), a outros com intensa informação narrativa, a história pega pela sensibilidade, pelo estranhamento do cotidiano opressivo.
 
Mas, sem dúvida o impacto primeiro de 'Jimmy Corrigan' é o visual. Chris Ware pratica um experimentalismo empolgante, muito bonito, jogando e brincando com as imagens, com os espaços, com a disposição dos quadros, compondo uns mosaicos complexos, pelos quais precisamos observar com cuidado para nos localizar com segurança. Os desenhos em si são todos simples e despojados, mas os quadros podem ser atirados de lado ou ficarem de ponta cabeça, obrigando o leitor a literalmente remexer e virar o livro. Cada uma das páginas é uma disposição diferente, traz uma surpresa. Cada uma.  
 
No entanto, é preciso frisar uns pontos fundamentais: é tudo construido com absoluta coerência e sentido que se encaixam à perfeição com a história, não são experimentalismos vazios feitos só para serem diferentes ou divertidos (desenhos jogados de lado, por exemplo, 'deitados' pelas margens, indicam flashbacks). Uma das consequencias disso é 'Jimmy Corrigan' é um livro que só funciona plenamente se for lido (e degustado) fisicamente, para se poder aprecia-lo com inteireza, para que se possa chacoalha-lo, na prática. Estou colocando umas imagens de umas páginas, mas somente para que se tenha uma visão pálida do que o livro proporciona, e da disposição dos quadros. Nada substitui o gosto de pega-lo na mão. 
 
A Companhia ainda não confirmou a data exata da publicação. Demorou.*
 
  
 
 
*  'Jimmy'  publicado em novembro de 2009
 
 
in HQ
 
 
 
Comentários (5)
  • robson
    brigado pela sua "resenha"
  • Claudinei Vieira  - Jimmy
    Robson, disponha. Nem foi uma resenha de verdade, só um rápido comentário. Grande abraço.
  • Alexandre Prado  - Maravilhoso!!!!
    Passo por um momento não muito bom em minha vida e estava a procura de algo que realmente pudesse estar ao meu lado e não me deixa só. Porém, muito por acaso, encontrei esse livro na Rodoviária da Barra Funda. Que espanto!!!!! Quanto talento e sensibilidade!!!!!
    Acho que fiz um novo amigo.
  • claudinei vieira  - jimmy
    'Jimmy Corrigan' é uma preciosidade espantosa. Espero mesmo que ele tenha ajudado a passar essa sua fase ruim, Alexandre. Grande abraço.
  • Hijak Skank  - Excelente
    Pude ver uma edição na mão do meu irmão Adriano...é du cacete.....muito bom...HQ de cabeceira!
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