'Desconcerto' pelo Verbo 21
Escrito por Claudinei Vieira   
Seg, 10 de Agosto de 2009 02:29
 
O refinado site de literatura, Verbo 21, capitaneado pelo escritor Lima Trindade há mais de oito anos, publicou um texto sobre o meu livro de contos, "Desconcerto". O texto escrito por GUSTAVO RIOS é de uma simpatia e sensibilidade enormes, e achei ótima a relação com as antigas Super-8. Eu só posso agradecer ao Lima e ao Gustavo pela atenção  e carinho, VAleu. 
 
 
Super-8 literária
Por Gustavo Rios

Eu tinha um tio que aos domingos, depois de tomar algumas doses a mais, curtia filmar todos ao redor das mesas caóticas – uma combinação espartana de pratos sujos, talheres e copos engordurados. Depois, com um riso para lá de sereno na cara, projetava na parede da sala as imagens recém captadas. Era visível o seu estado de graça. Havia nele um pouco da humanidade que lhe faltava no resto da semana - esse mesmo senhor calvo e barrigudo se empenhava em ser um filho da puta com a esposa e um bancário exemplar.
 
Acho que hoje se tornou objeto de culto. Coisa de colecionador e aficionado. Ter uma dessas em casa: falo das câmeras Super-8, pesadas, meio esquisitas, se considerarmos os padrões atuais de recursos. Hoje em dia é tudo bastante limpo, as imagens são extremamente reais, estupidamente nítidas. Não nos permitem erros, apesar de sabermos que nossos olhos estão sendo enganados por um complexo jogo de luzes.
 
Lembrei-me disso ao ler o livro de estréia do Claudinei Vieira, Desconcerto. Não do meu tio em si, com seu riso dulcíssimo e cordial, numa trégua domingueira e bêbada. Mas do poder que algumas pessoas têm de captar momentos, passeando livres e um tanto sossegadas pela vida alheia, retendo esse ou aquele detalhe absurdo e impossível ao olho nu. A coisa do close no momento certo, da panorâmica abarcando uma paisagem qualquer. O detalhe de um riso, de um olhar mirando algum ponto invisível.
 
É assim que enxergo a capacidade do Claudinei de contar histórias. De início, ele nos situa e nos conduz para um determinado momento. Num tipo de voyeurismo em que o olho que vê está tão desprotegido quanto a vítima. Pois nunca saberemos o que virá. Porque o autor, ciente desse seu poder momentâneo de mover destinos – coisa que todo bom escritor deve possuir -, nos dá essa impressão. De que nunca saberemos o que vai rolar na próxima página. Ou no próximo take.
 
“Vou escrever uma história sobre ônibus. Um tema fácil e reconhecível. Tomarei um personagem, uma figura, um molde por onde acomodarei algumas considerações e outros que tais detalhes. (...)” , assim ele inicia o conto ÔNIBUS-IA (página 07), para logo depois afirmar que descreverá a situação e o personagem somente por ações e por “(...) Períodos breves, rápidos. Sentenças secas e diretas. Algumas vírgulas fora do lugar pelo simples prazer de desacomodar consciências tranqüilas (...)” .
 
É quanto ele lança o voyeur/leitor no mesmo vazio das incertezas comuns aos personagens. Tornando-nos iguais, nos colocando dentro da paisagem. E isso no primeiro conto. É seu primeiro desconcerto.
 
Durante as 89 páginas somos conduzidos aos mais diversos locais e destinos, às vezes, irreais, não fosse a capacidade desse autor premiado de tornar possível uma série de situações.
 
Aparentemente simples na linguagem, às vezes usando de técnicas tão comuns, e nem sempre inéditas, à chamada geração 90 – mas, como mesmo afirma Márcia Denser, no prefácio do livro, com um olhar mais humano, fato que o destoa dos autores da década de 90 conhecidos, nem sei por quem, como acríticos e desengajados -, Claudinei Vieira, ora assumidamente lírico (A PIPA, página 62), ora visceral e cínico (A LITLE THING CALLED LOVE, página 22), nos engana e nos desconcerta.
 
As surpresas se sucedem. Numa virada de jogo, num final inesperado, ou na simples tarde onde um encontro memorável (MERRY CHRISTMAS, MR. REED, página 35) não é nada mais que três desconhecidos folheando revistas numa sala ampla e silenciosa. “Talvez eu devesse ficar feliz. Talvez devesse considerar a cosa toda como especial. Sei lá. Folheei revistas, nem lembro quais eram, e fechei a porta. The door is closed. The story is finished. E essa crônica.”
 
Claudinei, que além de roteirista é professor e poeta, consegue, com seus textos aparentemente inocentes, nos mostrar um novo olhar sobre o banal. É quando ele, sabendo de sua capacidade, nos coloca no meio de uma cena/texto para, depois de nos acomodar gentilmente, mostrar quem manda. É ele quem nos filma, nos enquadra num take qualquer – afinal de contas, quem, ao ler um conto como ÔNIBUS-IA, não se enxerga dentro dele?
 
A impressão que tive foi justamente de me ver numa projeção. Naquela imagem granulada. A vida em 8 milímetros, bem ao sabor dos tempos onde a memória ainda ditava regras. Onde a nitidez era, em parte, um esforço comum de reinventar o que nossos olhos viam. 
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