As CARTAS de Caio Fernando Abreu
Escrito por Claudinei Vieira   
Qui, 26 de Novembro de 2009 07:01

 

 
 
De quando em quando, uma pessoa luminosa atravessa a sociedade, destaca-se e provoca comoções. Uma pessoa que está tão imbricada e relacionada com sua época que serve, simultaneamente, de pára-raios de agitações culturais, de espelho dessa sociedade e de motor para que todas as coisas realmente se agitem. Alimenta-se dessa época e, antropofagicamente, a regurgita, refazendo os dados. Traz coisas novíssimas, as quais ninguém havia pensado antes e, coisa estranha!, são todas reconhecíveis. É sempre tudo tão diferente e, no entanto, sempre estiveram do nosso lado, fazem parte da mesma atmosfera, respiram do mesmo ar, somos nós, no final das contas. O que essas pessoas conseguem é nos fazer reconhecer tudo o que estava escondido. São as angústias, conflitos, esperanças, experiências que sempre trouxemos dentro do nosso ser, não sabíamos e que passamos finalmente a enxergar. 
 
De Jim Morrison a Franz Kafka, de Elis Regina a Noam Chomsky, podem ser citados vários nomes, mas sempre terão sido tão poucos!
 
Caio Fernando Abreu foi umas dessas pessoas. Através de sua literatura, toda uma gama de sentimentos, anseios e expectativas de uma geração inteira ficou exposta. A carne, os nervos e a mentalidade ficaram à mostra, pulsando de vida. Como um sismógrafo, ele detectou as instabilidades, as inseguranças, as fobias. Escreveu sobre elas, pensou-as, refletiu-as. E o fato dos seus livros continuarem sendo lidos e suas peças assistidas, apesar de já estar passando uma geração que não chegou a conviver com o escritor, como diz Italo Moriconi na organização do volume de suas Cartas, publicado pela Aeroplano, é a prova de que sua sensibilidade era real e profunda. E continua nos tocando independente de nossa idade, de nossa classe social, colocação profissional.
 
Está tudo ali, disponível em sua obra, quase toda ela angustiada, difícil, claustrofóbica, tateante, seja nos contos (existenciais, geracionais, exploratórios, ousados) de “Morangos Mofados”, no delicioso romance cosmológico-policial “Onde Andará Dulce Veiga?”, em suas peças, em suas crônicas jornalísticas. E pode-se colocar aqui um bom etc. Encontramos reflexões sobre sexualidade, astrologia, morte, contradições, desencontros, paixões, contracultura; encontramos sobretudo ousadia: de linguagem, de escrita, de temas (seus contos homo-eróticos são do tempo quando a Aids ainda era considerada como uma peste gay).
 
Morreu absurdamente jovem, com apenas 47 anos, em um momento no qual sua obra estava começando a explodir internacionalmente. E, se qualquer morte sempre nos afigura chocante e injusta, em principal quando conhecemos e gostamos da pessoa, há algumas mortes que, no entanto, trazem um acréscimo maior de estupidez e gratuidade. Pode-se pensar, com toda justiça, nos casos da Cássia Eller e Elis Regina. 
Nos casos de Cazuza e Renato Russo, ainda pior e mais revoltante. É uma morte avisada, prevista, determinada, com hora marcada para acontecer. Praticamente vemos uma execução lenta, ao vivo. Conscientes de que todo aquele vulcão de atividade criativa, logo, logo estará calado para sempre.
Caio Fernando Abreu soube que estava com AIDS em 1994 e morreu em 1996, escrevendo sempre, viajando sempre, promovendo seu trabalho, mandando artigos para jornais ou simplesmente cuidando do jardim da casa dos seus pais até não poder mais continuar. Mas, a consciência da proximidade do contágio esteve presente bem antes disso. 
 
Ele era um escritor de cartas compulsivo. Escreveu para todas as pessoas possíveis e imagináveis durante a vida inteira. Deve ter escrito milhares de cartas, além de sua produção literária habitual. O primeiro grande trabalho da organização de sua correspondência foi o de adotar um critério para fazer uma seleção deste imenso material. (mesmo considerando que já havia uma pré-seleção das várias pessoas que contribuíram mandando as cartas que estavam consigo).
 
A publicação deste livro deveu-se à confluência de duas grandes vertentes que concorriam para o mesmo fim. De um lado, a editora Heloísa Buarque de Hollanda  interessada em uma linha editorial que prestasse atenção na correspondência de escritores e artistas contemporâneos (e, para isso, foram publicadas as cartas trocadas entre Lygia Clark e Hélio Oiticica e a correspondência de Ana Cristina César). Por outro lado, Italo Moriconi, organizador das antologias “Os cem melhores contos brasileiros do século” e “Os cem melhores poemas brasileiros do século” e autor de um livro justamente sobre a poeta Ana Cristina César que, antes de se suicidar, era uma das grandes amigas de Caio Fernando.
Feitos os contatos e firmados os compromissos, o livro demorou dois anos para ser organizado.
 
O resultado é mais do que a radiografia de um escritor sensível e infatigável, do começo de sua carreira, dos seus problemas pessoais, das suas ambições, frustrações, falta de dinheiro, os casos amorosos. Pela quantidade e variedade de correspondentes e pela duração desta correspondência ao longo de tantos anos, o que se tem é um verdadeiro painel da vida cultural brasileira destas últimas décadas. E, por ser escritor, Caio Fernando tem consciência da (possível) perenidade do que está escrevendo. Algumas cartas são trechos de pura literatura de alto grau.
 
Assim, entre as informações e a emoção, “Cartas” resgata um pedaço tão importante da nossa cultura, que está ao nosso lado e na qual tantas vezes não prestamos atenção.
 
 
 
 
in  Resenhas
 
 
 

 

Comentários (2)
  • Tati
    Lindo esse texto Cá. Compartilho da paixão pelo Caio, há contos dele que jamais esqueço, aquele da chuva... O que é aquilo? Beijo
  • Claudinei Vieira  - caio
    Tati, esse conto da chuva, do 'Morangos Mofados', foi um dos primeiros textos que li do Caio (não tenho certeza agora, mas acho que foi exatamente o primeiro que li dele), eu o amo. É uma das coisas que mais gosto, de tudo que já li na vida.
    VAleu
    bjs
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