Jeet Kune Do, Bruce Lee
Escrito por Claudinei Vieira   
Seg, 31 de Agosto de 2009 01:36
 
 
O nome de Bruce Lee está voltando à moda, não só por conta de estarem produzindo um documentário sobre sua vida (mais um!) que se pretende ser o melhor documentário sobre ele (como os outros também se arvoravarm), mas principalmente pela filmagem de um longa baseado no seriado que teve sua participação fundamental na década de 60, o 'Besouro Verde'. (Produção do filme complicada e cheia de volteios e recuos. Ao que parece, no início pensava-se em assumir um tom puxado para a comédia e a aventura leves, até mesmo um tanto escrachado. Mas aí aconteceu o 'Batman - O Cavaleiro das Trevas', de Christopher Nolan, que com sua temática solene e sombria, provou que um filme de super-herói pode ser complexo, sério, sem deixar de ser divertido, e mesmo assim render muito dinheiro. Mudou-se o tom e quase consequentemente o diretor que também faria o papel de Kato, o personagem anteriormente representado por Bruce Lee, desistiu de atuar. Logo depois desistiu também de dirigir e saiu por completo do filme. No momento, as coisas parecem estar encaminhadas, com diretor e atores contratados; pelo menos, por enquanto).
 
Enfim, resgato aqui um texto, corrigido e atualizado, que fiz para o lançamento d'O Tao do Jeet Kune Do', pela editora Conrad, o único livro escrito (mais ou menos) pelo Bruce.

O livro é um documento/ícone de um verdadeiro mito da cultura pop internacional. Não se considere a palavra ‘pop’ como qualquer sentido pejorativo. É simplesmente o reconhecimento de que a figura de Bruce Lee tornou-se uma marca que ultrapassou os limites de sua personalidade como um simples ser humano e transformou-se em símbolo, logo, criação de massas, assim como Che Guevara, Marilyn Monroe, Jesus Cristo, James Dean. Figuras familiares mesmo para os que não compartilham de suas idéias ou sequer conhece direito seu trabalho. E como qualquer mito, sua vida é entremeada de fabulas, histórias desencontradas e/ou exageradas, desinformações, casos fantasiosos. E, da mesma forma, em geral as histórias mais simples talvez calham de ser as mais factíveis.  
 
Então vejamos o que pode ser recolhido como mais próximo do real, para podermos apreender o que significa este livro. Bruce Lee nasceu em 1940, em São Francisco, nos Estados Unidos. Seus pais eram atores de uma companhia de ópera chinesa que estava em excursão pelo país. Inclusive, a primeira apresentação pública de Lee Jun Fan (seu verdadeiro nome) foi com três meses de idade, sendo carregado pelo seu pai no palco ‘representando’ uma menina. De volta para Hong Kong, sua família deve ter tido uma influência proeminente para suas tendências artísticas: ainda criança, Jun Fan começa a participar de filmes e logo se torna um ídolo. Aos oito anos de idade, é o ator mirim mais famoso e popular da Ásia. A transição da infância para a adolescência foi, como é natural em qualquer pessoa, especialmente confusa e complicada, ainda mais se considerando sua projeção como ator.
 
Sem querer fazer nenhuma cronologia biográfica, pode-se colocar neste período, seu envolvimento com gangues de garotos, o começo de seu aprendizado com as artes marciais como uma forma de autodefesa (e, principalmente, ataque), e seu gosto pela... dança. Tanto que começa a vencer alguns campeonatos de Artes Marciais ao mesmo tempo em que ganha competições de Cha-Cha-Cha.  
 
Volta aos Estados Unidos para garantir sua cidadania norte-americana e começa a tentar montar sua vida ali. É quando se torna Bruce Lee. Como todo imigrante, mesmo com sua cidadania assegurada, a única função que consegue exercer é trabalhar em restaurantes. Aos poucos, suas habilidades como lutador começam a ser reconhecidas e se junta com alguns amigos de seus pais que moravam por lá para fundar e organizar uma escola de kung-fu. 
 
É preciso prestar atenção neste ponto: sua escola começa a fazer sucesso, começa a atrair cada vez mais pessoas, e isso se alicerça em três pilares fundamentais (e que o indispõe de imediato contra todas as outras escolas de kung-fu da época): em primeiro lugar, pela absoluta seriedade e competência de Bruce, dado indiscutível.  Por outro lado, sua escola se abre para todos indiferentemente de raça, credo ou cor, enquanto que as escolas tradicionais eram também redutos culturais e de classe e mantinham acirrada competição entre si. 
 
E, por fim, ele quebrava com os métodos de luta tradicionais e convencionais, mesclando varias escolas e estilos, “enxugando” os gestos, rituais e “malabarismos” complicados, exagerados... e inúteis. Não creio que se pudesse dizer que ele já tivesse um sistema personalizado acabado, uma “escola”, um “estilo Bruce Lee” fechado, mas o que já tinha era suficiente para impactar e se destacar. 
 
Destacou-se o suficiente para chamar a atenção de gente ligada ao cinema e ao show business. Começou a dar aulas e exercícios para pessoas como Lee Marvin, James Coburn, Roman Polanski, Steve McQueen. Começa a fazer ponta em pequenos papéis, até ser chamado para ser parceiro de um novo herói de televisão, destinado a ser um concorrente de um outro herói que fazia muito sucesso na época, o Batman. 
Assim, Bruce torna-se Kato, o assistente do Besouro Verde. 
 
A série não deu muito certo nos Estados Unidos (na Ásia foi um estouro), durou pouquíssimo tempo, mas ajudou a carreira de Bruce Lee. As razões para a pouca audiência norte-americana são várias: realizado pela mesma produtora que fazia o Batman, 'Green Hornet' tentava ser um contraponto mais ou menos sério à bizarrice pop do homem-morcego, mas era uma cópia muito escancarada e sem imaginação, além de não ter o humor e simpatia daquele. E também havia um certo constrangimento velado pelo fato dos únicos momentos interessantes dos episódios serem devidos ao carisma e presença de um chinês(!), enquanto o personagem principal era completamente inexpressivo e anódino. Aos poucos, à medida que a fama e o prestígio de Lee aumentaram, a série acabou se tornando cult e reverenciada. 
 
Talvez o preconceito não fosse dito com tantas palavras, mas mais tarde isso foi escancarado: uma nova superprodução estava sendo montada, sobre um chinês que percorria os Estados Unidos do Velho Oeste, mostrando as contradições de suas convicções pacifistas com a violência do lugar e tirando daí algumas lições de vida. Era um papel feito para Bruce, sem dúvida. Mas, que foi passado para um norte-americano bem branco, mesmo que às custas de criar uma salada na argumento para justificar a presença de um branco para aquele personagem. A razão: Bruce Lee era chinês demais. A série confirmou as expectativas, realmente foi um tremendo sucesso e marcou para sempre a vida do ator escolhido, David Carradine.
 
Mesmo assim, Bruce estava muito bem. Abria novas sedes de sua escola, tinha ganhado bem como Kato, viajou para Hong Kong com sua família (tinha se casado com uma norte-americana e já tinha dois filhos), quando resolveu montar um longa-metragem, por conta própria. Por causa dos custos, das facilidades técnicas e de locação, seu primeiro filme foi rodado na Tailândia. Ficou conhecido aqui no Brasil como “O Dragão Chinês”. Foi um estouro. Quebrou recordes de bilheteria e arrecadação. Se já era um ídolo por causa de Kato, tornou se agora um astro absoluto, tal como o conhecemos até hoje. E a cada novo filme, sua estrela aumentava e novos recordes eram batidos. Vieram “A Fúria do Dragão” (rodado em Hong Kong) e “O Vôo do Dragão” (rodado em Roma). 
 
Aí, já não tinha para ninguém. Hollywood afinal se dobra e o contrata para realizar “Operação Dragão”, o mais caro filme de artes marciais realizado até então. (veja-se, no entanto, como apesar da repercussão desse filme, ele continua a não ser o personagem principal; embora longe da antiga posição subordinada de Kato, ele ainda tinha que dividir a atenção com outros atores que fossem 'realmente' norte-americanos, um branco e um negro...) 
 
No meio das filmagens do seu próximo filme, que seria chamado “O Jogo da Morte”, Bruce Lee sofre um edema cerebral e morre, em 1973. Tinha 32 anos. Seu enterro em Hong Kong é acompanhado por vinte e cinco mil pessoas. Alguns anos mais tarde, os produtores aproveitam algumas cenas que haviam sido filmadas, inventam um enredo tosco, costuram um roteiro e terminam o filme (usando, inclusive, cenas reais do enterro de Bruce). 
 
O livro “O Tao do Jeet Kune Do” foi escrito em 1970, quando ele foi obrigado a permanecer em repouso no hospital durante seis meses após lesionar alguns nervos durante exercícios especialmente duros que costumava manter. Impossibilitado de treinar (na verdade, o conselho médico foi de que nunca mais voltasse a lutar ou treinar do mesmo jeito), começou a tomar notas. Pôs-se a sistematizar seu pensamento, organizar seu sistema de luta. Coligiu idéias, tomou apontamentos de filosofia, técnicas de treinamento. Depois dos seis meses, saiu do confinamento e voltou pouquíssimas vezes ao livro que ficou, então, inacabado. Arrumar seus apontamentos, retomar seus escritos e organizá-los em formato de livro foi uma tarefa a que se dedicou sua esposa, depois da morte de Bruce. 
 
Portanto, este livro deve ser visto como realmente é: um resgate dos escritos e pensamentos de Bruce, embora ele não tenha tido tempo de finalizá-lo. Exigente e perfeccionista como sempre foi, tanto para si quanto para com os outros e para com sua obra, é impossível dizer o que resultaria se o tivesse terminado a contento.
 
A publicação da editora Conrad é a única edição integral e realmente completa lançada no Brasil. O trabalho luxuoso e belamente acabado do projeto gráfico, o respeito ao texto, além da magnífica capa, torna-o, portanto, uma mais que justa e merecida homenagem ao mito Bruce Lee.
 
 
 
Comentários (7)
  • akio  - Bruce Lee
    Bruce Lee foi um fora de série. E ele amava cinema. Ele era um daqueles atores que tinha o "tchan". Não sei quantas vezes assisti às reprises das reprises.
    Coreógrafo genial.
    Abraço
    Akio
  • claudinei vieira  - bruce
    assino embaixo, Akio. Também não sei quantas centenas de vezes assisti seus filmes.
  • LEONARDO
    ÉNERGICO!
  • claudinei vieira  - sim
    Leonardo, Enérgico!!
  • Adilson Brabo de Sousa  - o deus das artes marciais
    Bruce Lee é o único deus das artes marciais, um sasnto do Taoismo, quase como Lao Tsé.
  • claudinei vieira  - bruce
    Bruce, the king!
  • marcio alberto da silva  - o mito
    com o seu contra ataque fatal e preciso faz de bruce lee o mito
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