| Mingus saindo da sarjeta |
| Escrito por Claudinei Vieira |
| Ter, 25 de Agosto de 2009 07:21 |
![]() Ralph Ellison, autor de uma obra fundamental chamada ‘O Homem Invisível’, marco da literatura negra norte-americana, disse certa vez que costumava encarar sua escrita como uma espécie de musica: quando empacava, quando a história parecia que não queria andar, ele se soltava e deixava sua mão correr como um solo de jazz ou um improviso de blues. Ler ‘O Homem Invisível’ traz mesmo essa sensação fluida, corrente, e ao mesmo tempo, densa, profunda. Vôo de imaginação com segurança e controle, liberdade e mestria. Jazz. De Chester Himes não cheguei a ler alguma declaração parecida, mas nem é necessário: suas histórias violentas, seus romances policiais passados no Harlem, seus personagens locais, estas figuras, os tiras e gangsters e viciados e prostitutas e empresários negros vítimas ou algozes de uma sociedade profundamente corrompida, alterada, racista, são regados a bebidas, drogas, sexo, discriminação e muita música, soul, blues, calipso. Jazz. Creio que nenhum dos dois fosse músico ou tivesse alguma intimidade maior com instrumentos musicais (até onde sei), sua arte era a escrita. Tão influenciada, regrada e convivida com o jazz até a medula. Eram considerações do tipo que remoíam minha mente ao começar a ler a autobiografia de Charles Mingus, obra quase tão famosa e mítica quanto o seu próprio trabalho musical. Bastam alguns parágrafos para perceber que uma acompanha a outra. Sua escrita é jazz. ![]() Tanto que, na verdade, tentei uma certa experiência pessoal. Coloquei 'Pithecanthropus Erectus' no som e abri o livro. Mesma cadência, mesma batida, o nervosismo sísmico, a experimentação, a busca, a descoberta de sonoridades tão inusitadas, a empolgação em cada nota e em cada letra. A música bate no coração, imprime uma profunda inquietação. 'Pithecanthropus Erectus', o seminal disco gravado originalmente em 1956, tem a capacidade de me deixar inquieto, sedento, desassossegado, jazz sempre fez isso comigo, e com Mingus atinge graus máximos de adrenalina. Nunca precisei realmente de drogas para viajar, me tirar do eixo. Livros faziam por. Música alucina. Mingus poderia contar de sua vida e já seria algo de extraordinário, sua vida e luta e música são o suficiente para impressionar e fazer pensar. Ele vai além do que, simplesmente contar sua vida. Gosta de inventar, de buscar, tanto em um quanto em outro. Não bastou simplesmente narrar. Ele ousa, plaina, voa, inventa, sola, deixa a mão correr. Para começar, o livro é em terceira pessoa. Uma autobiografia em terceira pessoa é, no mínimo, diferente. De imediato cria uma sensação de estranhamento e de reflexão. Mas é só o começo. Longos planos narrativos, monólogos e escrita quase automática (solos?) se alternam com momentos em que muitas vozes se acompanham e se interpenetram, em um jogo narrativo fascinante e palpitante. Veja-se, por exemplo, o capítulo quando ele conhece o pianista Art Tatum: sem fazer nenhuma interrupção, cada parágrafo é um ‘diálogo’ com pessoas diferentes, que se substituem, criando um efeito de fluidez impressionante. A conversa com o pai (onde reafirma sua opinião de que existe sangue branco na família, eles seriam descendentes diretos de Lincoln!) ao desabafo com a mãe: voleios amplos, solos de um instrumento, de uma voz. O nascimento do primeiro filho, a rapidez das situações, pequenos trechos detonando e exibindo um virtuosismo pleno, e com poucas notas, frases, distinguindo nuances e insinuações; com poucas linhas, revela todo o fracasso de um relacionamento. Cada capítulo, portanto, tem um movimento diferenciado, é uma experiência renovada, pois nunca se sabe não só o que será narrado, mas principalmente, o Como. Mingus se revela um escritor extraordinário tanto quanto músico! Minha experiência de tentar ouvir sua música enquanto lia seu livro, no entanto, foi um fiasco. Frustrado, tentei outro disco, com o mesmo resultado. Não entendi. Ok. Deixei rolando uma rádio de jazz e a deixei de fundo. Concentrado, de repente percebi a leitura e a música estavam fluindo juntas e, curioso, parei para prestar atenção no que estava tocando. Chet Baker. Chet Baker?! Entenda-se, nada contra Chet, mas nunca imaginaria que sua voz ‘aveludada’ pudesse ser um contraponto perfeito a Mingus. Porém, pensando um pouco, até que faz um certo sentido. Pithecanthropus Erectus mexe com as ![]() sensações e exige atenção, tornando impossível uma aproximação média. Tal qual sua obra musical em si (nem pensar em simplificações e deixar Pithecanthropus Erectus como exemplo-mor e/ou único de sua mestria, como já vi alguns fazerem...), há um trânsito intenso e constante entre as raízes e as experimentações, resgatando a história e prenunciando um free jazz, por exemplo, compassando momentos até líricos com fervorosa e feroz plataforma política contra a discriminação e o racismo. A primeira edição de 'Beneath the Underdog' (“Saindo da sarjeta” até que é uma boa solução para o título, mesmo que transversal) é de 1971, uma época relativamente calma em sua vida, depois do inferno pelo que passou na década de 60. Altos e baixos, interrupções na carreira, tratamentos médicos (inclusive psicanálise) e saltos de genialidade, foram sempre sua marca, nunca poderia ser ‘normal’ e foi assim até sua morte em 1979. ‘Saindo da Sarjeta’ é uma obra-prima literária escrita por um artista que não se conformaria em fazer por menos.
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No meu blogue tem tudo do palco (helenahutz.blogspot.com) beijo e té.