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Nada é o que parece para Patricia Highsmith




Este é um livro desconcertante. Não por causa da versatilidade, ou da quantidade de trabalho do qual Patricia Highsmith era capaz. Para quem conhece um mínimo de sua vida, sabe bem o quanto ela escrevia, por quantos gêneros transitava, de quantas milhares de páginas deixou ao morrer. A curadora de seus documentos, Ana Von Planta, diz que seus arquivos são tão volumosos que, enfileirados, atingem quarenta e cinco metros.

Para quem não sabe, ou está chegando agora, ou sabe somente que ela foi a criadora do maior anti-herói da literatura universal, Tom Ripley, saiba então da absoluta seriedade (severidade) com que Patricia encarava sua literatura. Há uma famosa história, citada por Paul Ingendaay, de quando ela descartou um romance que escrevia, queimou os papéis, pela insatisfação do resultado. O detalhe é que já tinha escrito por volta de trezentas páginas. 

Portanto, não surpreende que estes contos agora reunidos tenham sido deixados de lado pela autora. Seja por quais critérios ela trabalhasse, dificilmente teria concordado com esta antologia. Mesmo que não tenham sido jogados fora (ou queimados), estavam no meio de sua imensa papelada, sem perspectiva de algum dia serem publicados. Alguns chegaram a ser editados em revistas, a maioria é absolutamente inédita. “Nada é o que parece” está dividido em duas partes, abrange desde seus primeiríssimos escritos, de 1938 a 1949, enquanto tentava se firmar como escritora e ser conhecida (seus primeiros contos foram publicados a partir de 1939), a 1952 a 1982, consagrada e premiada, reconhecida bem mais como romancista já que escreveu quarenta romances e publicou bem poucos contos em comparação. 

E é este o ponto que espanta, até choca. Surpreende, quase ao incompreensível, é a qualidade destes escritos. A profundidade, a variedade de registros, a experimentação de formas narrativas. Encontra-se aqui tanto uma delicada fábula moral, ao estilo de um  O. Henry, como “Um fracassado nato”, quanto um extraordinário conto policial em “Música para morrer”. Uma fantasia maluca em “O segundo cigarro”, que retoma o arquétipo literário do duplo, ou uma ‘quase’ fantasia em “Uma garota como Phyl”. Ela brinca com nossa ansiedade ao criar em poucas páginas um impressionante suspense, pela possibilidade do ataque de um pedófilo em “Um homem muito gentil”, ou nos faz deslizar pela amizade de um cão pelo seu dono, em “O melhor amigo do homem”, através da aparente vida fracassada do personagem principal. 

Estão presentes vários dos temas, personagens e ambientações que seriam desenvolvidos mais tarde nos romances. Pode-se apreciar, portanto, a gênese de muito do que escreveria e faria sua fama. Porém, desde os primórdios, desde o primeiro conto apresentado neste livro, “As manhãs mais poderosas”, já existe a mesma visão desencantada, melancólica, pessimista da vida e da humanidade. Há a mesma ambigüidade moral, a mesma dúvida, talvez fosse melhor dizer. Esta tal ambigüidade, da qual Ripley é seu ícone, e que perpassa por toda sua obra, não foi um desenvolvimento, nem descoberta tardia, mas reflexo de sua própria vida e pensamento, é movimento inerente de toda sua literatura. E todos eles incomodam, cutucam. Mesmo nos (poucos) finais felizes, a tal felicidade tem um sabor amargo, estranho.

Não há como deixar de se sentir privilegiado por poder tomar contato com estes contos. Nem como ficar tranqüilo ou não ser tomado pela ansiedade: o que mais poderá sair dos tais arquivos, quantas outras obras-primas poderão vir à tona? 

E, aliás, quando é que, afinal de contas, vão traduzir a biografia de Patricia Highsmith, morta já mais de há dez anos?! O ótimo Beautiful Shadow: A Life of Patricia Highsmith, de Andrew Wilson, foi lançado em 2003, já tá na hora. 


 
 
 
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