O anônimo célebre
Escrito por Claudinei Vieira   
Sáb, 27 de Fevereiro de 2010 07:44
 
 
Quer se tornar famoso, ficar na mente das pessoas, ser admirado, lembrado, desejado, invejado? Quer sair da humilhante condição de anônimo, de não ser ninguém, de ser esquecido antes mesmo de ser conhecido?
 
Então estude, memorize, planeje. Saiba como usar a palavra correta, a gíria do momento, a roupa certa. Tenha os contatos verdadeiros, não perca oportunidades, não marque bobeira. Fique antenado, plugado, sintonizado. Mantenha a postura, respire direito, faça anotações, utilize exemplos, recorte as manchetes, lembre das frases, palavras, gestos dos que já conquistaram a formosa posição de célebres e estão por lá.
 
Recolha as lágrimas, não se permita uma vida pessoal, não seja brega (aliás, esqueça esta palavra). Seja humano com muito cuidado, só quando tiver absoluta certeza de que ninguém está observando. 
 
Qual a melhor forma de manter a imagem? Fazer o tipo decadente ainda está em alta? Ser toxicômano, alcoólatra, bater em jornalista intrometido, xingar as mulheres, desprezar os atos de caridade? Não importa que você não beba, nem fume! Espalhe cinzas de cigarro, molhe a camisa de brandy, vinho, fique por dentro dos piores palavrões. Eles vão adorar.
 
É melhor ser conhecido como o maior garanhão que já existiu ou fazer a estonteante confissão de que, apesar de tudo, ainda é virgem? Ou então, uma morte súbita, um acidente famoso, no auge da carreira?
 
Cuide-se! Contrate (além, é claro, de uma secretária, um agente, um advogado, um assessor de imprensa, um empresário, um cabeleireiro e um maquiador) os seguintes assessores: cultural, de terminologia, de tribos, de imagens, um personal stylist, um personal trainer, um art divisor, um personal shopper, um professor de dicção, um astrólogo, um psicólogo, um autografador de fotos, um assessor de patrocínios, de merchandising, de bonés, um respondedor de cartas. 
 
Não cometa gafes. Preste atenção:
 
"Uma pessoa famosa jamais escolhe pratos em um cardápio. Ela sempre sabe, é informada, lhe oferecem uma coisa especial que o chef acabou de criar, ou criou apenas para privilegiados. Ter o cardápio nas mãos é revelar que você não é alguém que conta. É um ser desprezível, um cliente comum". 
 
Ou, então, tenha um assessor especializado em gafes.
 
A literatura de Loyola Brandão nunca é simples; ele pega fundo. "O Anônimo Célebre" é um genial romance / manual / guia / ensaio que retoma a mesma estrutura desenvolvida em dos seus maiores livros, "Zero". Mas não é uma mera repetição. Ele moderniza, atualiza todos os conceitos que já haviam sido expressos, mas agora colocados neste mundo onde imperam a imagem, o fortuito, o passageiro, os famosos minutos de fama que todo mundo teria, conforme disse Andy Warhol, ele mesmo um arauto bem consciente dessa fugidia modernidade.
 
Aliás, é interessante observar como Brandão mantém uma linha coerente de pensamento ao longo de sua obra. Mesmo que ele reclame, em entrevista para o Cadernos de Literatura Brasileira publicado em junho de 2001, de que os críticos nunca conseguiram atentar para a intercomunibilidade que existe entre seus livros: "Há referências que passam de um texto para o outro. Há personagens de um livro que reaparecem rapidamente em outro. Há situações vistas de ângulos diferentes. Há ruas, casas, que se repetem. Quantos perceberam, quantos percebem?". Talvez poucos, mas esta não é a maior questão.
 
Antonio Hohfeldt, em um ensaio publicado nestes mesmos Cadernos sobre "Zero" e "Não Verás País Nenhum", demonstra a imensa ligação que une estas obras, a primeira publicada em 1974 (na Itália, porque foi proibida no Brasil, pela ditadura) e a segunda, uma ficção cientifica profundamente mórbida e pessimista do Brasil em 1981, configurando assim, um ciclo completo. Mostra, mais do que isso, sua absoluta atualidade. Hohfeldt diz que "surpreendemo-nos hoje quando, lendo esses romances, encontramo-los tão contemporâneos, tão oportunos e exatos como se acabassem de ter sido escritos". Certíssimo!
 
Ora, Brandão, ao captar o mais absurdamente atual, o eternamente fugaz, acaba realizando um balanço pessoal não somente da nossa realidade, mas de toda a sua obra também. Se, nestes livros anteriores, há uma visão antecipatória de um futuro incerto, mais próximo de nós em "Zero" e relativamente mais distante em "Não Verás País Nenhum", "O Anônimo Célebre" pega pelo outro lado e imobiliza o momento presente. Não há como não pensar que, afinal de contas, este é finalmente o mundo visualizado já nas décadas de 70 e 80. Estamos em um verdadeiro ponto de chegada. E o resultado não é nada otimista.
 
"O Anônimo Célebre" constitui-se, assim, em uma das mais importantes obras de sua carreira, e com certeza uma das mais divertidas. Tendo dito isto, necessito consignar a minha frustração com o final. Brandão utiliza uma solução que enfraquece o livro como um todo e interfere com as premissas que haviam sido cuidadosamente colocadas. Acredito que algumas pessoas até podem gostar da revelação-surpresa, mas não deixará de ser uma triste simplificação.
 
É mérito de Brandão, apesar disso, conseguir ainda assim manter uma posição aberta a vários caminhos e interpretações. É o sinal de que sua obra, ao mesmo tempo que cacofônica, multifacetada e complexa, é única e permanente. 
 
*
Há uma razão a mais para voltar a falar desse livro, como fiz quando de sua publicação em 2002. Com o título de “Anonymous celebrity”, Brandão está concorrendo ao  "Best Translated Book Award", dedicado às melhores obras estrangeiras publicadas nos Estados Unidos. O livro foi lançado por lá no ano passado e o prêmio considera os méritos não só da obra em si, mas da publicação como um todo, isto é, a qualidade da tradução, o projeto gráfico, etc.

 

 in Resenhas

 

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