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Os prefácios de Henry James

 
 
 
Em 1907, Henry James estava exultante: recebera os dois primeiros volumes da luxuosa coleção de seus escritos, a chamada Edição de Nova York, pela qual esperava obter finalmente reconhecimento popular e retorno financeiro. O reconhecimento crítico há muito havia adquirido, suas obras eram admiradas e respeitadas e sua intensa produção até sua morte em 1916 (vinte romances, doze peças teatrais, cerca de 106 contos e novelas e mais de trezentos ensaios) impunham mesmo respeito. 
 
Mas, não pelo, como diríamos hoje, o "grande público". Nunca conseguiu fazer dinheiro com a literatura e todas suas peças foram fracassos, com apresentações e resultados ínfimos (isto é, quando conseguiam ser encenadas). Sua esperança era que, com a Edição de Nova York, tudo mudasse. 
 
Como nos conta Marcelo Pen, este tipo de publicação dos finais do século XIX, começo do século XX, era um sucesso editorial. A própria editora norte-americana de James, a Scribner's, em conjunto com a britânica Constable, já havia lançado "as obras completas de Stevenson e de Kipling. Havia coleções similares de Meredith, Thoreau, Emerson e Hawthorne. A prática era tão disseminada que algumas casas, como a A Estes and Lauriat, disfarçavam edições comuns como se fossem de bibliógrafos: engodos fastuosamente empacotados contra os quais a revista semanal The Nation chegou a mover uma campanha". 
 
Por razões comerciais, a idéia inicial de resgate das obras completas, como era o comum, foi deixada de lado. Afinal, suas últimas obras haviam sido uma nulidade em termos de vendas. A Edição tornou-se, portanto, uma antologia. Henry James dedicou-se e labutou. Reescreveu todas as obras que seriam incluídas, reformulou cenas, mudou personagens, orientou as ilustrações com fotos exclusivas para cada texto tornando o trabalho o mais "artístico" e chamativo possível, correu de um lado para o outro por conta da complexa questão legal dos direitos autorais, elaborou notas e escreveu prefácios específicos, comentando sobre a gênese dos seus escritos, sua visão sobre a confecção da literatura, os próprios princípios da literatura que norteavam suas idéias e a experiência de sua leitura renovada. 
 
O resultado? Em 1908, seu primeiro pagamento de direitos autorais foi de 211 dólares. No ano seguinte, 596,71 dólares. O choque e o desânimo foram tão grandes que, conforme Marcelo Pen, Henry James ficou arrasado e "por um bom tempo, pensou ser incapaz de continuar a escrever". 
 
Sabemos que continuou, sim, a escrever, embora sua conta bancária nunca tenha aumentado significativamente. Sua consciência artística o impelia, mesmo que incompreendido e impopular. A tal ponto que seus últimos escritos só foram reconhecidos como obras-primas depois de sua morte. 
 
Desde o primeiro momento, os Prefácios fizeram furor. De um lado, um crítico da Literary Digest discordava da natureza das revisões, pois um "autor não deveria modificar o caráter de sua obras publicadas, pois elas já pertenciam, nesse sentido, ao domínio público", constituíam "clássicos" e não deveriam ser modificados nem mesmo pelo próprio autor. Enquanto que Percy Lubbock escreveu que os Prefácios eram "um acontecimento, de fato o primeiro acontecimento" na história do romance. Além da espirituosa afirmação de Ford Madox Ford ao declarar que eles esgotavam todas as questões relativas ao método de ficção: "Nenhuma estória sequer deixou de ser anotada, analisada criticamente e (mais uma vez criticamente) consumida até o fim como qualquer laranja. Nada resta ao pobre crítico senão a mera citação". 
 
 
Em 1934, os prefácios foram reunidos em um único livro por Richard Blackmur em "The Art of the Novel: Critical Prefaces of Henry James". A discussão sobre eles continuou, ora encarados como um verdadeiro método de feitura de literatura clássica e que, portanto, podiam ser considerados como um trabalho autônomo e independente, ora como comentários pessoais e intrínsecos aos textos prefaciados os quais não poderiam, nesse caso, ser separados, ora como peças literárias em si. 
 
O fato é que, para o Brasil, essa discussão chegava sempre manca e insuficiente. Entre nós, poucos prefácios foram traduzidos ao longo desse tempo (aliás, diante do manancial de sua literatura, a quantidade de livros de James traduzidos chega a ser vergonhosa). O trabalho de Marcelo Pen (A arte do romance: Antologia de Prefácios) foi extraordinário e, como diz Ismail Xavier em sua apresentação, "vem cobrir uma lacuna embaraçosa em nossa bibliografia - e o faz com brilho". Lúcido, embasado, respeitoso, com uma primorosa tradução e considerável trabalho de campo (os Prefácios foram o tema de sua dissertação de mestrado), Pen não se limita a traduzir. Sua introdução é ótima! Elucidativa, didática, histórica e analítica. Além do que, sua escrita é simples, muito gostosa de ser lida e sem academicismos bobos. Nada menos do que Henry James, verdadeiro cultor da linguagem, merecia. 
 
Mesmo porque, traduzir James é um jogo duríssimo (não é à toa que o nível de algumas traduções brasileiras seja tão deprimente). Ele foi o mestre da sutileza, da ironia disfarçada, da crítica nas entrelinhas que nunca se revelavam a uma leitura superficial. A língua inglesa em suas mãos demonstrava uma beleza, riqueza e maleabilidade impressionantes. Sua aparente simplicidade (é muito fácil ler seus livros!) esconde uma enorme variedade de matizes e possíveis interpretações que se sobrepõem, se interpenetram, se comentam. É claro que esse rigor lingüístico e artístico está presente na escritura dos Prefácios. Comentários "técnicos", autobiografia literária e pessoal, ensaística, crítica literária formalista, narrativa artística subjetivista... 
 
Os Prefácios não estão, de forma alguma, fechados à interpretação. "Não se procurem nelas", nas reluzentes lições do mestre tão nítidas no meio desse "rico retrospecto", "resultados simples, valores típicos ou significados únicos". Faz parte do rigor de James, em sua fase mais experimental, a necessidade de abertura, a busca da polissemia e dos toque sutis. 
 
Com isso, não chego nem perto de dar uma idéia da força e do vigor demonstrados por Marcelo Pen ou da intrépida beleza da prosa jamesiana. Paciência. Na verdade, para os leitores e já admiradores do autor de "A Volta do Parafuso", "Retrato de uma Senhora", "A Fera na Selva", "A Taça de Ouro" nem é preciso falar nada. 
 
Aos que não o conhecem, seria preciso dizer tudo. É muito para uma pobre resenha. Eu só posso dizer o seguinte: aproveitem o belíssimo e competente (para "maneirar" os superlativos) empenho de Marcelo e conheçam o universo jamesiano. A empreitada vale a pena.
 
 
 
 
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