Tchekhov

Os textos de Tchekhov sempre dão a impressão de uma simplicidade absurda.
Os enredos são mínimos, a histórias curtas, não existem enormes reviravoltas, não há grandes painéis da vida russa, nem dos centros urbanos nem das aldeias do interior. Sua linguagem é clara, direta, singela. Seus personagens são pessoas comuns, do povo, funcionários públicos, camponeses, pequenos intelectuais. Seu olhar focaliza o mínimo, o detalhe, o momento.
E com sua tão aparente e falsa simplicidade, acaba captando, na verdade o essencial, a matéria-prima, o real.
Em"A Estepe", o pequeno Iegóruchka, de nove anos e órfão de pai, está sendo levado pelo seu tio, o comerciante Ivan Ivanovitch Kuzmitchov e o padre Cristofor Siriiski, para morar em outra cidade e matricular-se na escola. Ele não entende o que está acontecendo, sente medo, desconforto. Com breves e rápidas pinceladas, ficamos sabendo que o tio e o padre vão negociar lã com o poderoso Varlámov e aproveitam a viagem para fazer o favor para a mãe do menino. Em poucos parágrafos, linhas, Tchekhov vai delineando as suas personalidades, seus
pensamentos e anseios. Simplicidade não quer dizer simplismo. A apresentação é sempre rápida, mas percebemos o quanto são complexos, amplos, inteiros. Vivos.
pensamentos e anseios. Simplicidade não quer dizer simplismo. A apresentação é sempre rápida, mas percebemos o quanto são complexos, amplos, inteiros. Vivos. Este fio de história é um pretexto em realidade para o desfile e a descrição dos tipos e pessoas pelos quais cruzam. Os donos judeus da pousada onde param para perguntar do paradeiro de Varlámov, os camponeses, a camponesa com seu filho. A natureza em Tchekhov também adquire presença, personalidade, força, vontade. Pode começar com uma brisa suave que embala a sonolência e alivia um pouco o calor. Ou então cai e bate com poderoso temporal, criando momentos de pura poesia em prosa.
"Do outro lado das colinas um trovão ribombou surdamente e soprou uma aragem fresca. Denishka assobiou alegremente e fustigou os cavalos. O padre Cristofor e Kuzmitchov seguravam os seus chapéus e dirigiram o olhar para as colinas... Tomara que caia a chuva!
Mais um pequenino esforço, um só, e a estepe se teria libertado. Mas uma força invisível, opressora, pouco a pouco prendeu o vento e o ar, assentou a poeira, e o silêncio instalou-se novamente como se nada tivesse acontecido. A nuvem escondeu-se, as colinas queimadas ficaram sombrias, o ar paralisou-se submissamente, e só as aves-frias choravam em algum lugar, lamentando sua sorte.
Logo depois, chegou a noite."
Extraordinário é o momento quando aparece a Condessa Dranitiski. São só alguns parágrafos, nem dá para acreditar nisso! No entanto, ela agita a todos com sua beleza, com a frescura de sua mocidade e juventude, acende a imaginação do pequeno Iegóruchka. E a nossa, leitores, que também temos que nos contentar com sua breve, tão breve, aparição. Dýmov, por outro lado, é o camponês bruto, forte e maldoso, com o qual nos antipatizamos logo de cara. Mas, de repente, Tchekhov mostra toda sua maestria: com apenas algumas frases, vislumbramos todo um abismo de dor e revolta no meio daquela violência irracional, toda uma vida sufocada e exasperada. Junto com Iegóruchka também ficamos confusos, quase paralisados com a complexidade do problema: nada é tão simples, não se pode fiar na aparência do imediato. Aprendemos a visualizar tons e matizes mais aprofundados nos seres humanos.
Assim, não nos deixemos enganar por esta sua delicadeza, este gentileza, esta tal de Simplicidade. Tchekhov toca fundo e fácil pois era um mestre tal como fazia igualmente com bisturi que também manejava, pois era médico além de ser escritor e dramaturgo.
"A Estepe" é uma de suas obras mais louvadas. Diz-se que tem traços autobiográficos, que estaria retratando um pedaço de sua própria infância. É provável que seja, mas não sei se isso influencia o prazer que tiramos de sua leitura. O subtítulo, "História de uma viagem" é fácil de ser interpretado como mais do que a simples transição de um lugar para o outro; é uma transição pessoal, um rito de passagem para Iegóruchka / Tchekhov. E a nossa.
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Nas obras de Tchekhov não há grandes dramas ou enormes painéis da vida russa. Ele não se preocupa em contar epopéias, nem se joga em angustiadas tramas psicologizantes como o fizeram, por exemplo, Tolstoi em “Guerra e Paz” ou Dostoievski, em “Crime e Castigo”.

Tchekhov é o autor que presta atenção nos detalhes, no mínimo, na concisão. Ao invés de monumentalidade, o simples, o direto, o objetivo. Em lugar de textos longos e verborrágicos, histórias curtas e contundentes. Tchekhov conseguia, assim, com o mínimo de palavras, alcançar uma pureza de expressão, uma verdadeira poesia. Historias do cotidiano, sempre, de pessoas vulgares e comuns, do soldado à adolescente pequeno-burguesa, da viúva ao estudante apaixonado, da farmacêutica ao magistrado. Uma cena, alguns gestos, algumas frases. E, dessa forma, o desnudamento do mais intimo do ser humano.
Em uma carta para o seu irmão Aleksandr, Tchekhov resumia, o seu credo literário: “1. Ausência de uma verbosidade extensiva de natureza político-social-econômico; 2. total objetividade; 3. descrições honestas de pessoas e objetos; 4. extrema brevidade; 5. audácia e originalidade; fuga dos estereótipo; 6. compaixão."
Tchekhov é o criador do conto moderno do qual toda a literatura contemporânea é depositária.
O teatro também foi revolucionado pela sua influência. Já era um autor consagrado, e já havia inclusive escrito algumas peças (como “Ivanov”), quando estreou em 1896 “A Gaivota”. Ninguém entendeu nada: não havia uma história!, as personagens falavam e falavam, não havia uma trama central, não ocorriam conflitos, nem cenas dramáticas; a ação, inclusive, ia se diluindo!, ao invés de acelerar, atingir um pico e
se resolver no ultimo ato. Como em qualquer peça que se 'preze'. A temporada foi interrompida após cinco apresentações. A sensibilidade de Tchekhov ficou tão abalada que ele jurou que nunca mais voltaria a escrever para o teatro.
se resolver no ultimo ato. Como em qualquer peça que se 'preze'. A temporada foi interrompida após cinco apresentações. A sensibilidade de Tchekhov ficou tão abalada que ele jurou que nunca mais voltaria a escrever para o teatro. Dois anos depois, no entanto, ele consentiu que a peça fosse remontada. Desta vez, a montagem ficou a cargo do recém-criado Teatro de Arte de Moscou, dirigido por Stanislavski, que quebra o estilo pesado das anteriores apresentações (o teatro russo era muito mais declamado do que propriamente representado) e imprime um ritmo e uma apresentação naturalistas. A temporada é um sucesso e consagra Tchekhov como escritor e dramaturgo.
A formação acadêmica de Tchekhov foi de medicina. Nascido em 1860, batalhou arduamente para poder passar por cima dos problemas financeiros da família e custear seus estudos. Começou a escrever pequenas crônicas e contos divertidos do cotidiano russo para revistas e jornais enquanto trabalhava como médico. Sua produção era impressionante e escrevia muito rápido: dizia-se que conseguia escrever um pequeno conto enquanto esperava para ser atendido em alguma repartição pública. À medida, no entanto, que sua escrita foi ficando mais séria, deixando de lado seu trabalho mais cômico (feito muito mais para poder ganhar dinheiro), sua velocidade de produção foi diminuindo. E, mesmo assim, quando morreu em 1904 de tuberculose, deixou escritas várias centenas de contos.

Tchekhov ganhou o prêmio Puchkin em 1888 por conta da coletânea dos seus contos publicada no ano anterior; em 1889 foi eleito como membro da Sociedade dos Amantes da Literatura Russa e em 1900 se tornou membro da Academia de Ciências de Petersburgo (mas, renuncia dois anos depois quando Gorki foi impedido de se tornar membro). Em 1892 abandona a medicina e passa a viver somente da literatura.
“As Três Irmãs” é considerada sua obra-prima na dramaturgia. Olga, Macha e Irina tentam, cada uma a sua maneira, sobreviver à imbecilizante monotonia do dia-a-dia. Não possuem mais perspectivas, não tem mais sonhos. Sua única esperança é de, algum dia, poder modificar suas vidas e ir para Moscou. No entanto, de que vale a pena se esforçar, se tudo é em vão? Em determinado momento de desespero, Irina diz: “Um dia virá em que todos saberão o porquê de tudo isso... por que esses sofrimentos... Não haverá mais mistérios... Enquanto esperamos, é preciso viver... É preciso trabalhar. Somente trabalhar. Amanhã partirei sozinha. Ensinarei na escola e darei toda a minha vida aqueles que talvez precisem de mim. É outono... o inverno virá logo, a neve cobrirá tudo, e eu trabalharei, trabalharei...”
Enquanto o inconsciente e despreocupado Tchebutykin cantarola sua frase preferida: “Que importa tudo isso?”.

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Creio que chamar os trabalhos de Anton Tchekhov de miniaturas é de uma expressão particularmente feliz, embora meio óbvia.
Ao invés dos enormes painéis e da arquitetura intrincada dos romances sócio-políticos-históricos de Tolstoi ou as ferventes aventuras psicológicas de Dostoievski, Tchekov se volta para o mínimo, para o detalhe, para o prosaico cotidiano, para o momento.
Não á toa o gênero onde pôde se dedicar e aprofundar esta sua propensão foi o conto, os relatos breves, onde se consegue apreender todo o conteúdo de uma narrativa ou dos pensamentos ou do caráter dos personagens através de pouquíssimas páginas, sabemos aonde vai se conduzir suas vidas depois de terminada a palavra no final.
São como flashes que captam o determinado momento permitindo-nos observar seu desenvolvimento por este átimo. Miniaturas, portanto.
Sutis, sem enormes extravasamentos, os personagens e as histórias se realizando por descrições enviesadas. Em “O Beijo”, o conto que dá nome ao volume publicado pela editora 34, por exemplo, ficamos sabendo desde o inicio que o jovem capitão Riabóvitch é tímido, fechado e, diferente dos seus colegas, nunca tivera um caso amoroso. No entanto, em uma festa por um acaso acaba recebendo um beijo de uma mulher desconhecida (ele entrara em um recinto escuro e ela pensou que fosse outra pessoa); logo que percebe o erro, ela corre. Agitado, volta ao salão e procura perceber que seria a tal dama. É aí que ficamos cientes de toda a sua plena solidão, de sua incapacidade de se socializar, de sua impenitente imaturidade.
Como Schnaiderman observa, o mestre Tchekhov gostaria de sair de suas miniaturas e se aventurar por narrativas mais longas. Seu esforço era tremendo, sentia muito mais dificuldade, dizia-se ‘mimado’ por conta de sua experiência com os contos curtos. O que o levou a escrever novelas e alguns (poucos) romances pequenos. Os resultados foram tão preciosos como os demais, forjou obras-primas tanto quanto. Nesta seleção de Boris Schnaiderman nos encontramos com algumas das jóias mais raras da literatura russa e mundial.
Kaschtanka é uma deliciosa incursão pela vida e pelos ‘pensamentos’ e sentimentos de uma cadela que, ao se perder do seu dono, o bruto e ignorante marceneiro Luká Aleksândritch, é resgatada e passa um tempo com um tipo de amestrador de animais e lá conhece alguns ‘amigos’: um ganso cinzento, um gato e acaba até aprendendo alguns truques. Certamente, uma visão diferenciada da vida russa. Em “Viérotchka” e em “Uma Crise” observamos de novo como ele consegue transpor a aparente simplicidade de seus temas e, a partir de um pequeno evento, revelar-nos uma imensidão psicológica que antes estaria escondida. Ao sair de uma aldeia onde vivera por alguns meses, um jovem recebe uma inesperada declaração de amor, o que o obriga a repensar sua vida até então e tomar decisões desagradáveis. No outro, um estudante ingênuo faz um périplo junto com seus colegas por entre alguns bordeis da cidade e as condições de vida e de tédio o chocam de tal maneira que acredita dever tomar alguma atitude (esta história, aliás, provocou algumas reações de escândalo na época pela sua descrição naturalista das prostitutas e do seu modo de vida, e até mesmo pela própria ousadia do tema). Da juventude para o extremo oposto, “Uma história enfadonha” narra o cotidiano de um velho professor universitário ainda na ativa, mas que sente sua cada vez maior dificuldade de sobreviver aos dias cansativos, à falta de seus antigos amigos, da família que não o compreende, nem sentirá plenamente sua morte. Longas digressões tornam este o maior texto deste volume e, por mais que admire o trabalho tchekhoviano, devo admitir ser o que mais testa a paciência do leitor.
“Enfermaria n° 6” é um dos seus textos mais famosos e o que mais chamou a atenção de sua obra, desde sua publicação. As digressões, as longas conversas entre ‘loucos’ e médico, neste caso
funcionam com uma maravilhosa e autêntica perfeição. Entre o que é razão e des-razão ou simplesmente loucura e onde elas se localizam a ponto de levar o especialista a ‘virar de campo’, o que sobra é uma obra magnífica, de extrema simplicidade e efeito duradouro. Impossível para nós, brasileiros, não percebermos as absolutas semelhanças entre este e o nosso também famossíssimo "O Alienista’, não só pelo tema, pela narrativa, e pelo final, mas inclusive pelas idéias. Dá para sentir a ‘voz’ de Machado, por exemplo:
funcionam com uma maravilhosa e autêntica perfeição. Entre o que é razão e des-razão ou simplesmente loucura e onde elas se localizam a ponto de levar o especialista a ‘virar de campo’, o que sobra é uma obra magnífica, de extrema simplicidade e efeito duradouro. Impossível para nós, brasileiros, não percebermos as absolutas semelhanças entre este e o nosso também famossíssimo "O Alienista’, não só pelo tema, pela narrativa, e pelo final, mas inclusive pelas idéias. Dá para sentir a ‘voz’ de Machado, por exemplo: “Tendo examinado o hospital, Andrei Iefímich chegou à conclusão de que era uma instituição imoral e altamente nociva à saúde dos habitantes. A seu ver, o que havia de mais inteligente era soltar os doentes e fechar o hospital. Compreendeu, porem, que, para isso, não bastava a sua vontade e que seria inútil; expulsando-se a impureza física e moral de uma parte, ela passa a outra; era preciso esperar que se desfizesse por si. Ademais, se as pessoas fundaram um hospital e toleravam-no em seu meio, queria dizer que estes lhes era necessário; os preconceitos e todas essas ignomínias e baixezas do cotidiano são necessários, pois, com o passar do tempo, transformam-se em algo consistente, como o esterco em húmus”.
De novo, apesar do eixo deste trecho e da própria novela ser o hospital em si, pode-se perceber o quanto apreendemos da cidade que o rodeia e dos seus problemas e vícios, em algumas rápidas pinceladas.
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Apesar do seu enorme prestigio nas terras russas, Tchekov era praticamente desconhecido fora do seu país. Somente após sua morte, e principalmente após a Primeira Guerra Mundial, seu nome e o seu trabalho começaram a circular de verdade. E se tornou consagrado mundialmente.
in Resenhas
Comentários (0)
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muito bom isso.
lembro do unico filme que tinha ele que nao eraaa nojento porco uma porcaria como ghost o lixoooooooo,dirty dancyng somente e n...
que delicia ver meu poema aqui beijos
Hijak, espero não ter dado a impressão de achar que todos os editores sejam pilantras. Não são. Como você bem lembrou, até conh...
Henrique, não vejo problema nos enredos dos livros do Mankell, tanto que até cito a utilização de clichês ser bem comum em obra...
Clauds, É óbvio que o dito cujo é discípulo da lei de Gerson ou mais óbvio ainda....é algum editor! Conheço vários editores pi...
Respeito sua opinião, e concordo até certo ponto, Kurt e suas "aventuras" são previsíveis mesmo, mas o modo "comum&...
Achei muito engraçado o comentário desse aí que se assinou como 'abc da literatura'. Em primeiro lugar, como respeitar a opiniã...
se o tradutor verdadeiro tá pouco se lixando ou revirando na tumba... fazer o quê? achado não é roubado
Se a lingua portuguesa fosse ensinada assim na escola seria muito mais fácil aprender, não é?
oaiudshaosduiahsdouiash to em cagando de rir....aosiudhasodiauhsdasdasd
Normalmente quando algum jornalista escancara é por que quer ganhar algo em troca.... Mas tudo bem , pelo menos a mulher tem pe...
Concordo plenamente, claro! Aliás, plagiando o velho deitado chinês (ou é mineiro?): uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra...
conhece editores pilantras assim e que seriam capaz de coisas piores...mas plagiando o JL Borges, fiquemos com a literatura.......
Hijak, entendo o que você quer dizer, mas a questão aqui não é de âmbito literário, nem sequer artistíco. É roubo. A editora co...
Poh Clauds, Plágio só deveria ser crime quando o for um auto plágio.rs......demais é literatura...é muita pretensão querer f...
li o depoimento dela na época do estupro, traduzidos pelo escritor marcelo rubens paiva e postados em seu site. Polanski fez...
Á conheço desde 99,,,e sempre fui muito bem recebido por ela dentro do salão ,,,acho o cúmulo o que fizeram com ela ,,,ninguém...
É um aburdo uma pessoa matar seu patriota sob a falsa legalidade de que se trata de comunista. Esses imbecis da ditatura, pelo ...
Pois é, Ana, quem mexe com blogs e sites, qualquer espaço virtual, acaba topando com esses chatos. Grande beijo. Hijak, realmen...