| Três escritoras cruéis |
| Escrito por Claudinei Vieira |
| Ter, 05 de Janeiro de 2010 04:29 |
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Três livros singulares e suas autoras respectivas. 'Crueldade' aqui em Desconcertos não me refiro à descrição de atos de violência, significa (nesse âmbito lítero-desconcertábil) lampejos de escrita luminosa, de literatura em alto grau. Três escritoras em plena liberdade de criação e em atividade total, e as quais admiro profundamente. PALOMA VIDAL tem dois livros de contos e tem texto publicado em várias antologias. Paloma é argentina de nascimento, veio para o Brasil com dois anos de idade, morou no Sul, no Rio de Janeiro, em Brasília, atualmente vive em São Paulo. 'Mais ao Sul' é um título primoroso para um livro de contos que se amarram organicamente em volta de um tema geral, o da busca (ou o reconhecimento ou a descoberta ou a perda) de um senso de identidade. 'Mais ao Sul', portanto, é uma indicação geográfica, uma tomada de posição, uma postura no solo, independente de seus personagens estarem na Argentina, no Brasil ou na França, e ao mesmo tempo pesa um senso de indefinição pessoal, um termo deliberadamente vago.Sobre o livro paira um clima de desassossego, de estranhamento, que se concretizam ao final da leitura. Pois, devo dizer, não é algo que se patenteie desde o início. A escrita simples e direta engana. Me enganou. Minha leitura foi rápida e agradável, fiquei interessado em prosseguir, quando percebi (mais ou menos na metade da obra) que estava sendo enganado: aqueles textos, aparentemente tão simples, se mostravam de uma arquitetura muito bem montada, que fluem de um para o outro com singela exatidão. Voltei as páginas para me certificar e conferi. Terminei o livro com a certeza de uma bela obra.
Além do que, o projeto gráfico é de um acerto tremendo, a capa é uma das mais bonitas que conheço, provoca um enorme prazer sensorial, tátil e visual.
Tanto mais injusto, portanto, destacar um pedaço do texto, mas terei que fazê-lo (um parêntese: já falei em várias ocasiões do meu incômodo em destacar trechos de livros, pois sempre me parece frustrante e insuficiente para dar uma verdadeira medida do geral; por outro lado, sempre digo também que serve, pelo menos, para dar um gostinho da coisa).
Fantasmastrecho de 'Mais ao Sul'
"Nos primeiros dias, devora faminta as refeições, levando tudo à boca com ansiedade e empurrando descontroladamente a comida goela abaixo com os dedos. Go-ela, go-ela, go-ela, repete à beira da piscina ovalada do hotel, de barriga para cima, como gata no cio, tostando debaixo do Sol, enquanto as palmeiras ao vento zumbem em seus ouvidos de recém-casada. No quinto dia, vão a um restaurante na cidade. Ela escolhe no menu um peixe frito com salada. Com com ânsia, sob os olhos arregalados de seu marido, que engole garfadas de purê com bife à milanesa. Logo sente o estômago pesar. Depois vêm as tonteiras e o enjôo. Na quinta noite, não dorme. Passa madrugada debruçada sobre o vaso sanitário, retorcendo-se em espasmos de vômito. Põe tudo para fora: champanha, filé-mignon, batatas-noisette, bolo, docinhos caramelados, canapés. Amanhece no sexto dia com dores musculares na barriga. Por temor a dar vexame, não conseguindo se conter dentro da piscina, decide ficar no quarto. Ao ver que seu estado não melhora, seu marido a leva ao hospital mais próximo. Passa o sexto dia numa maca, com o braço estendido e espetado com uma agulha. Acha que vai morrer. Tem sonhos aberrantes com a festa de casamento transformada numa grande orgia: sua irmã tira a roupa e mostra uns seios enormes aos convidados, enquanto sua mãe urra debaixo da mesa do bolo. Acorda de madrugada sem saber onde está. No sétimo dia, fica cara a cara com os seus fantasmas."
*
Em uma dessas currupiadas da vida, acabei conhecendo ELIANA MARA na Bahia, quando fui lançar o meu livro de contos por lá, no final do ano passado. Paulistana, morou em Porto Alegre, montou sua vida em Salvador como professora de literatura brasileira, numa relação de amor e ódio com a cidade. Em tempos idos, fez parte do MPA - Movimento de Arte de São Paulo, de 1978 a 1984, o que nos provocou deliciosas reminiscências mútuas quando lembramos do IVAMBA, antológico e mitológico grupo de teatro amador paulistano (IVAMBA = Influência dos Ventos Alísios na Menstruação das Borboletas Azuis). Escreve na revista eletrônica de literatura Verbo 21 com a coluna 'Crônicas Havaianas', e mantém o blog 'O mundo tem inscrições sempre abertas' Das páginas online do blog surgiu o livro 'Fábulas delicadas'. Escritos ao longo de dois anos, revisados, remontados e realinhados para esse volume publicado pela Iluminuras, uma série de contos-petardos, alguns até delicados, outros nem tanto. Outros, nem um pouco. Petardos.
A dinâmica aqui é de precisarmos às vezes tomar fôlego para passar de um conto para outro. Textos curtos, contos de parágrafos, e mesmo assim não se consegue 'acelerar' a leitura, é necessário parar, assimilar o que foi lido, dar um tempo, passar para o próximo quando se tem certeza do fôlego.
conto de 'Fábulas Delicadas'
Seria do tamanho de um soco no estômago. O tamanho de um soco, vindo de mão muito grande bruta, no estômago de um bebê. Soco do tamanho de uma agulha grossa furando um olho. O tamanho de uma agulha grossa e enferrujada furando o olho surpreso. Seria do tamanho de uma bala quente, estourando os miolos da mulher assustada. Seria do tamanho de um estupro de meninas vítimas da guerra. Uma menina apenas, estuprada por vários soldados quentes, munidos de socos, calor e balas. Seria uma calda quente despejada no ouvido. Uma calda quente, no ouvido, tortura para durar horas. Ouvido estourado, miolos quentes, tortura despejada, meninas, bebês, olho furado. Seria uma dor tão grande quanto um corpo vivo sendo esquartejado, enquanto vivo. Ou então, uma lista infinita de dores que cabem na imaginação e na realidade humanas. Nada poderá medir a dor que você vai sentir quando seu filho for assassinado. *
![]() Gosto de como MILENA DE ALMEIDA se apresenta: "Nasceu em Nepomuceno, Sul de Minas Gerais, na primeira semana de julho de 1980. Chegou a ser jornalista, quase foi veterinária." Tenho que acrescentar que, de Belo Horizonte, organizou uma extraordinária experiência editorial com a publicação de uma revista literária de bolso chamada 'Mininas' que congregava artistas mulheres (prosadoras, poetas, artistas plásticas, designers, etc), a princípio que tivessem base em Minas Gerais. O resultado foi maravilhoso e pode ser apreciado na internet, para quem não teve a oportunidade de conhecer as revistas em mão. Pelo pouco que eu soube das dificuldades e percalços para que a revista pudesse ser publicada, bem posso imaginar o sufoco que Milena e as colaboradoras devem ter passado.
'Da gastrite e da ira' é o primeiro livro de Milena, que reune contos desenvolvidos durante dois anos. É online, pode ser acessado completo aqui. Pelo livro virtual, as páginas são viradas 'puxando-se' pelo mouse ou por um clique. Não sei se ela chegou a considerar a idéia de se colocar o som que imita páginas sendo viradas (como cheguei a ver em outros projetos, um tempo atrás), e ainda bem que não o fez, pois sempre considerei essa idéia muito boba. Como estão, as ilustrações e todo o projeto gráfico são o acabamento perfeito para o texto certeiro, límpido, direto, e ao mesmo tempo, liríco às vezes, satírico também, de formato sério e sóbrio, mas com uma ironia profunda e refinado senso de humor.
Impressiona igualmente é a segurança e a firmeza de sua escrita. Não sei do seu processo de criação, se ela é uma reescrevedora obsessiva, do quanto deixa o texto guardado para ser retomado de novo e reavaliado, embora seja essa a impressão que tenho, de uma escritora perfeccionista. Pois seus textos são laminados e aparados, com o tamanho certo, sem brechas ou folgas, são exatos. E mais importante ainda: sem serem forçados, são naturais, fluidos, não mostram a arquitetura que existe por trás. Isso é, sem dúvida, marca de uma grande escritora.
Martinha do meu coraçãoconto de 'Da gastrite e da ira'
Martinha não podia mais usar calcinhas, porque as modelagens dos tempos de hoje apertam a virilha e o médico avisara que poderiam ser rompidos alguns vasos, precaução necessária nos idos da idade dela. Mas daquelas feitas de algodão era possível vestir. Não levam lycra, portanto não modelam a bunda, mas não era mais o caso de Martinha. Em busca das pecinhas ela saiu pelas ruas muito agitadas, cheias de expressões interessantes, outras nem tanto. Observou um olho esbugalhado de quem tem hipotireoidismo. Ouviu dizer que o único recurso é retirar o olho e raspar a camada de gordura que se amontoa lá atrás, sabe-se lá Deus como. Passou por um senhor sem pés, apoiado nos toquinhos das canelas, e pôde diagnosticar diabetes, sem dúvida. Antes de chegar à loja, escutou a tosse que chegava da esquina. Câncer de pulmão. É doente que médico abre, só para constar, e fecha. Numa vitrine, leu que se divide em quatro vezes uma sandália de 19,90. Definitivamente são outros tempos. Parcelou um salto anabela em dois pagamentos de 9,95. Finalmente no varejão, encontrou a banca de calcinhas. Depois de meia hora revirando tiras de pano, soube que o mundo não é mesmo feito pra mulheres como ela. Buscou consolo num pacotinho com três cuecas que, diante de tal constrangimento, foi obrigada a experimentar. Na cabine de luz branca, no arejado conforto do artefato, lembrou como era gostoso ajeitar os bagos ali, coisa que não fazia desde menino.
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ai, claudinei, me deu vontade de ler novamente... puxa, até me lembro do gosto do que comia no momento em que abri o mrs dallow... - 19-05-2010___ Samant...
Podería nos informar os telefones de contato da Editora que imprime a Revista Artigo 5o ??? Aguardo retorno !!! Abraços e ob... - 18-05-2010___ Claudi...
Magali, bacana! Espero mesmo que tenha curtido o Salão de Humor. Vou dar uma passada pelo seu blog. bjs - 18-05-2010___ magali
Achei muito legal, incusive estive la e fotografei. meu blogue: www.magali.fotosblogue.com - 12-05-2010___ Helena
No meu blogue tem tudo do palco (helenahutz.blogspot.com) beijo e té.
PALOMA VIDAL tem dois livros de contos e tem texto publicado em várias antologias. Paloma é argentina de nascimento, veio para o Brasil com dois anos de idade, morou no Sul, no Rio de Janeiro, em Brasília, atualmente vive em São Paulo. 'Mais ao Sul' é um título primoroso para um livro de contos que se amarram organicamente em volta de um tema geral, o da busca (ou o reconhecimento ou a descoberta ou a perda) de um senso de identidade. 'Mais ao Sul', portanto, é uma indicação geográfica, uma tomada de posição, uma postura no solo, independente de seus personagens estarem na Argentina, no Brasil ou na França, e ao mesmo tempo pesa um senso de indefinição pessoal, um termo deliberadamente vago.
Fantasmas
Em uma dessas currupiadas da vida, acabei conhecendo ELIANA MARA na Bahia, quando fui lançar o meu livro de contos por lá, no final do ano passado. Paulistana, morou em Porto Alegre, montou sua vida em Salvador como professora de literatura brasileira, numa relação de amor e ódio com a cidade. Em tempos idos, fez parte do MPA - Movimento de Arte de São Paulo, de 1978 a 1984, o que nos provocou deliciosas reminiscências mútuas quando lembramos do IVAMBA, antológico e mitológico grupo de teatro amador paulistano (IVAMBA = Influência dos Ventos Alísios na Menstruação das Borboletas Azuis). Escreve na revista eletrônica de literatura Verbo 21 com a coluna 'Crônicas Havaianas', e mantém o blog '


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